50 debates para o Brasil: ampliação do poder das guardas municipais divide especialistas

As guardas municipais estão ampliando sua presença na segurança pública, mas ainda há dúvidas sobre os limites dessa atuação, o treinamento dos agentes e o controle das corporações. O assunto foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, por Luís Vecchi da Silva, presidente da Federação Nacional de Sindicatos de Guardas Municipais do Brasil, e Silvia Ramos, cientista social e diretora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania.

A discussão envolve uma mudança no papel das guardas. Criadas principalmente para proteger bens, serviços e instalações municipais, essas corporações passaram a atuar com maior frequência no patrulhamento das ruas, na prevenção de crimes e no atendimento de ocorrências. Em algumas cidades, seus integrantes trabalham armados e usam equipamentos semelhantes aos das polícias estaduais.

Luís Vecchi defendeu a participação dos municípios na segurança pública. Segundo ele, as prefeituras reúnem instrumentos que permitem combinar patrulhamento, assistência social, educação, iluminação, fiscalização urbana e monitoramento por câmeras.

Para o dirigente sindical, o objetivo não é substituir as polícias militares, mas integrar as instituições e oferecer respostas mais completas à população. “A população não quer mais saber da cor do uniforme, ela quer resultado prático”, afirmou.

Vecchi também contestou a avaliação de que as guardas municipais não possuem regras de formação e fiscalização. Citou a matriz curricular da Secretaria Nacional de Segurança Pública, as corregedorias, as ouvidorias e o controle externo exercido pelo Ministério Público. Segundo ele, os agentes também passam por qualificação profissional anual, com atualização sobre legislação, direitos humanos e procedimentos de abordagem.

Silvia Ramos concordou que as guardas devem participar do Sistema Único de Segurança Pública, o SUSP, que procura integrar as instituições federais, estaduais e municipais. A cientista social ressaltou, porém, que cada força precisa ter uma função definida.

Para ela, as guardas têm uma tradição comunitária que deve ser preservada. Essa atuação inclui a proteção de escolas, unidades de saúde, praças e áreas ambientais, além da mediação de conflitos. O risco da ampliação do poder de polícia seria transformar as corporações municipais em réplicas das polícias militares.

Silvia mencionou guardas armadas e militarizadas que passaram a usar fuzis e a exercer policiamento ostensivo. Também apontou a falta de informações nacionais sobre o efetivo, o armamento e a organização dessas instituições.

Cada município está fazendo mais ou menos o que quer. Cada prefeito faz mais ou menos o que quer”, afirmou. Segundo ela, sem uma regulamentação mais clara, prefeitos podem criar forças policiais próprias, definir treinamentos e armamentos de acordo com decisões locais e manter essas corporações desarticuladas das demais instituições de segurança.

Integração com identidade própria

Apesar das diferenças, os debatedores se aproximaram em um ponto: as guardas municipais devem integrar o sistema de segurança sem copiar o modelo das polícias militares. Vecchi defendeu uma identidade baseada na proximidade com a população. Silvia ressaltou que as corporações podem cumprir funções que as polícias estaduais nem sempre conseguem desempenhar.

O debate, portanto, não se limita a decidir se as guardas devem ou não atuar na segurança pública. A questão central é definir suas atribuições, estabelecer padrões nacionais de formação e controle e evitar que a ampliação de poderes resulte em corporações armadas submetidas apenas às decisões de cada prefeitura.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

50 Debates para o Brasil: especialistas discutem se mandato de ministros do STF deve ser reduzido

O mandato dos ministros do Supremo Tribunal Federal voltou ao centro do debate sobre o funcionamento das instituições brasileiras. O tema foi discutido na série “50 Debates para o Brasil” do Jornal da CBN, com o advogado e ex-presidente da OAB Nacional, Ophir Cavalcante, que também enfatiza o modelo atual, e o advogado, professor e ex-Ministro da Justiça Miguel Reale Júnior, que defende um mandato com duração definida.

Os ministros do Supremo Tribunal Federal são indicados pelo Presidente da República e aprovados pelo Senado, e servem até a aposentadoria compulsória aos 75 anos de idade. No Congresso Nacional, há propostas que estabelecem mandatos de oito, 12 ou 15 anos. Para os defensores da mudança isso favoreceria a renovação do Tribunal. Os críticos dizem que aumentaria a influência política sobre o tribunal.

Ophir Cavalcante contrapôs, dizendo que a questão não é a duração dos mandatos dos ministros, mas a forma como são selecionados. Aumentar a participação da sociedade e estabelecer uma base mais objetiva para a seleção ajudaria a reduzir a percepção de politização, disse ele. “Precisamos mudar o processo de seleção e não efetivamente o critério de estabilidade, o critério de vitaliciedade com esse limite de idade de 75 anos”, afirmou.

O ex-presidente da OAB considerou que um mandato fixo aumentaria a frequência das nomeações presidenciais e, por sua vez, as disputas políticas sobre a composição do Supremo Tribunal Federal. Ele também argumentou que a estabilidade é necessária para manter a independência dos juízes e preservar a jurisprudência estabelecida ao longo dos anos.

Miguel Reale Júnior, por outro lado, adotou uma posição diferente. Em sua visão, um mandato de 12 anos seria suficiente para permitir que os ministros tenham autonomia e, por sua vez, garantir a renovação regular do tribunal. “É necessário renovar o Supremo Tribunal Federal”, disse ele. Todos os novos membros acrescentarão à diversidade e reduzirão a influência de ministros que estão no tribunal há décadas.

O ex-Ministro da Justiça também disse que a seleção dos ministros continuará a ser de natureza política, independentemente da duração. Mas ele defendeu um melhor processo de nomeação com mais participação pública e audiências públicas mais amplas durante a avaliação.

Embora discordassem sobre a duração do mandato, os dois debatedores concordaram em uma coisa: o processo de seleção dos ministros precisa ser melhorado. Tanto os critérios mais transparentes quanto o maior envolvimento das instituições e da sociedade garantem a legitimidade das nomeações.

O ponto principal do debate foi mostrar que a discussão não se limita ao mandato dos ministros no Supremo Tribunal Federal. Isso envolve independência judicial, renovação institucional e mecanismos para tornar a seleção dos membros do tribunal mais transparente e confiável para a sociedade.

“50 Debates para o Brasil” é produzido por Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas são transmitidas de segunda a sexta-feira, antes das 8h30, no Jornal da CBN.

Reale Júnior diz que é preciso seguir o “rastro do dinheiro” no caso das joias de Bolsonaro

O Ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, está prestes a tomar uma decisão crucial sobre a autorização da quebra de sigilo bancário e fiscal do ex-presidente Jair Bolsonaro e da ex-primeira dama Michelle Bolsonaro. O pedido foi feito pela Polícia Federal após uma operação que investiga a venda de joias com dinheiro vivo no exterior.

O jurista e ex-ministro da Justiça Miguel Reale Júnior, em entrevista ao Jornal da CBN, ressaltou que o comportamento de um grupo em torno do ex-presidente, que estaria envolvido em práticas de fake news e comprometimento das urnas eletrônicas, poderia justificar a prisão preventiva — tema que ganhou maior projeção, na sexta-feira, a partir do cerco da Polícia Federal a ex-assessores e pessoas do circulo pessoal de Bolsonaro. Além disso, mencionou a importância de se seguir o rastro do dinheiro para entender onde ele foi depositado e se há tentativas de impedir a produção de provas.

Reale Junior destacou a necessidade de quebrar o sigilo bancário e fiscal para seguir o dinheiro e explicou que a utilização de dinheiro em espécie nas negociações pode dificultar o processo de investigação. Ele apontou que a busca por ocultar valores e bens, além das trocas de e-mails mencionadas na entrevista, justifica a quebra de sigilo para obter informações relevantes.

O ex-ministro da Justiça também abordou a pressão sobre a empresa americana envolvida na exportação das joias, levantando questões sobre sua ciência da ilegalidade e o rigor das fiscalizações nos Estados Unidos.

Quanto ao ato em defesa da democracia ocorrido há um ano no Brasil, em 11 de Agosto, o jurista afirmou que essa movimentação foi crucial para alertar a sociedade sobre os riscos que o país enfrentava nas mãos do então presidente Jair Bolsonaro. Reale Jr foi um dos líderes daquele movimento e salientou a ampla manifestação da sociedade civil e a participação de diversos setores, incluindo sindicatos, estudantes, bancários e empresários, que se uniram para reagir contra o que consideravam um golpe.

A entrevista com Miguel Reale Júnior evidencia a importância do desenrolar da investigação das joias e do papel do Supremo Tribunal Federal em tomar decisões fundamentais para o desdobramento do caso. A quebra de sigilo bancário e fiscal emerge como um passo crucial para a compreensão dos fluxos financeiros envolvidos nas transações das joias e possíveis tentativas de obstrução das investigações.

Ouça a entrevista completa no Jornal da CBN

“Adeptos do presidente estão usando esta questão (do voto impresso) para incitar tumultos”, diz Gilmar Mendes, do STF

Reprodução do vídeo da entrevista com Gilmar Mendes no Jornal da CBN

Que Gilmar Mendes não gosta de Marco Aurélio de Mello —- e vice-versa —- qualquer rábula sabe bem. O próprio Mello, que aposentou a toga, na hora de se despedir definiu a relação com Mendes como sendo uma convivência judicante ..  e apenas judicante. Aos demais falou em convivência fraterna. A despeito disso, na entrevista desta segunda-feira, ao Jornal da CBN, o agora decano do STF Gilmar Mendes foi bastante comedido nas palavras de despedida ao dizer apenas que desejava felicidades a Marco Aurelio.

Nos 22 minutos de entrevista, Gilmar Mendes, falando de Portugal, mediu palavras, mas não deixou de dar seus recados. Ficou claro que não esqueceu ainda seus confrontos com o ex-PGR Rodrigo Janot —- com quem travou embates verbalmente violentos na época da Lava Jato. Por outro lado, foi ameno ao comentar sobre o fato de o atual procurador, Augusto Aras, ser bastante sintonizado com o presidente Jair Bolsonaro.

Sobre Bolsonaro, com quem diz dialogar, Gilmar Mendes entende que o presidente não é um risco à democracia, apesar das constantes críticas ao STF, ao Senado e outras instituições. Para ele o presidente fala para os convertidos. 

O problema —- e aí não é mais Gilmar falando, sou eu comentando —- é que ao manter esse discurso bélico a ponto de dizer que ou tem voto impresso ou não tem eleição, o presidente incita os convertidos. Nesse ponto parece que Gilmar concorda:

“É notório que muitos dos adeptos do presidente estão usando esta questão (do voto impresso) para incitar tumultos”.

Justiça seja feita, se há um ponto em que Gilmar Mendes discorda abertamente do presidente Bolsonaro é quanto a tentativa de reviver o voto impresso. Lembrou até de cenas absurdas, nos colégios eleitorais onde ocorriam a apuração, de fiscais de partido engolindo cédulas para que o voto não fosse registrado na ata. Diante da insistência do presidente—- sem provas —- de que as eleições têm fraude, Gilmar disse na entrevista:

“(a notícia de fraude no voto digital) é tão consistente quanto a mensagem que diz que o homem não foi à lua”

Cássia Godoy e eu tratamos de outros temas com Gilmar Mendes que você comapnha na gravação disponível aqui no blog. Destaco só mais uma antes de encerrar: quando falamos da pressão das Forças Armadas contra a CPI da Covid, que investiga militares com patente suspeitos de envolvimento de irregularidades, Gilmar também deixou seu recado:

“Não é função das Forças Armadas fazer ameaças à CPI ou ao Parlamento”

No mais, ouça a seguir e comente se desejar:

Adote um Vereador: STF decide que Câmara tem o direito de criar os Conselhos de Representantes

Imagem: arquivo STF

 

Texto originalmente escrito pelo site Adote Um Vereador

Os Conselhos de Representantes nas Subprefeituras têm o direito de participar dos processos de planejamento da cidade e são instrumentos legítimos de fiscalização dos atos da prefeitura, segundo decisão do Supremo Tribunal Federal.  Uma decisão que se estende para todos os municípios brasileiro.

A Câmara Municipal de São Paulo havia aprovado lei para implantação dos conselhos, que foram criados e iniciaram atividades, tendo ficado em segundo plano, seja por falta de estrutura e de interesse da prefeitura seja pelos questionamentos jurídicos à decisão do legislativo. 

O Tribunal de Justiça de São Paulo havia declarado a inconstitucionalidade dos artigos 54 e 55 da Lei Orgânica do Município de São Paulo, que cria os Conselhos de Representantes, e a Lei Municipal 13.881/2004, que trata da criação, composição, atribuição e funcionamento dos conselhos. Entendia que houve interferência indevida pela Câmara em atividade da Prefeitura. Ou seja, quem tinha de propor a criação dos Conselhos era o Executivo e não o Legislativo.

A Procuradoria da Câmara Municipal de São Paulo recorreu ao STF. Em julgamento virtual, encerrado no dia 9 de outubro, os ministros decidiram por 6 votos a 5 que é legal, constitucional, a possibilidade de o Poder Legislativo editar lei para criar conselhos compostos pela sociedade civil para fiscalizar as atividades do Executivo. O voto de desempate foi um dos últimos do decano Celso de Mello, ministro que se aposentou semana passada do cargo ocupado há 31 anos.

“A cidade só tem a ganhar se o cidadão tem mais mecanismos para acompanhar a política local, seja na Câmara ou na Prefeitura”,  disse a chefe da Procuradoria da Câmara Municipal de São Paulo, Maria Nazaré Lins Barbosa.

Eis aí mais um elemento a ser cobrado dos candidatos à prefeitura de São Paulo:

Como seu candidato pretende criar estrutura e apoiar o funcionamento dos Conselhos de Representantes, agora que a atuação é considerada legal?

Leia mais: https://www.adoteumvereadorsp.com.br/news/stf-decide-que-camara-tem-o-direito-de-criar-os-conselhos-de-representantes/

STF deve desmembrar apuração contra Bolsonaro e Moro pedida pela PGR

 

O ministro Celso de Mello anuncia hoje a sua decisão sobre o pedido de autorização feito pelo procurador geral da República para que se investigue a possibilidade de o presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, terem cometido diversos crimes.

 

O procurador Augusto Aras, pediu autorização ao Supremo Tribunal Federal, na sexta-feira, para abrir um inquérito sobre os fatos narrados por Sérgio Moro, quando anunciou a saída dele do Ministério da Justiça.

 

Surpreendeu o tom do pedido; pois Augusto Aras não pediu apenas que se investigue o que o ex-ministro disse sobre Bolsonaro. Pediu que Moro seja ouvido em depoimento para detalhar as acusações e apresentar documentos que sustentem essas acusações, se estas existirem, e imputa a ele também a possibilidade de crimes.

 

Quais crimes que foram elencados pelo procurador, que podem recair ou sobre Bolsonaro ou sobre Moro, dependendo o caso: “falsidade ideológica, coação no curso do processo, advocacia administrativa, prevaricação, obstrução de justiça, corrupção passiva privilegiada, denunciação caluniosa e crime contra a honra”.

 

A análise do pedido está sendo feita pelo ministro decano Celso de Mello que hoje deve anunciar sua decisão autorizando a investigação e desmembrando a investigação. A persistirem os sintomas, fica no STF a investigação sobre as acusações contra o presidente Jair Bolsonaro. E as acusações contra Sérgio Moro, vão para a primeira instância —- isso ocorrerá porque Moro não tem foro privilegiado.

 

Nestas circunstância e tomada a decisão, é muito provável que o pedido do Procurador Augusto Aras torne ainda mais complicada a situação do presidente Jair Bolsonaro, do que imaginava quando entrou com o pedido de autorização de investigação. Bolsonaro estará muito mais exposto em um palco relevante como o STF, onde não goza de muita simpatia. E Moro ficará a cargo da primeira instância, em processo mais longo, que tende a ser extinto por arquivamento.

 

A decisão pelo desmembramento deve ser anunciada ainda nesta segunda-feira.

Vaga de garagem é coisa séria: Raquel Dodge vai ter de se explicar no STF

 

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No condomínio, poucas coisas causam tanta discussão quanto uma vaga na garagem. Por mais modernos que tentam ser os administradores, usando da tecnologia para determinar qual quinhão caberá a cada um dos condôminos, sempre alguém sai insatisfeito do sorteio realizado. Ou porque o carro ficou muito ao fundo, ou porque está próximo de mais da pilastra, ou porque o espaço é estreito para manobrar o USV do malandro.

 

Em alguns condomínios a vaga é fixa. Em outros, é rotatória para ver se acalmam-se os ânimos. Em todos tem sempre alguém insatisfeito e ameaçando levar às últimas instâncias sua reivindicação por uma vaga mais confortável onde possa deixar seu carango sem risco de arranhões na porta ou contorcionismos ao volante.

 

Por uma conspiração do destino — e agradeço a Deus por essa graça alcançada —-, apenas uma vez na vida tive de encarar o desafio de dividir espaço e controvérsias com moradores de apartamentos vizinhos. Mesmo assim foi apenas de passagem e decidi que estacionaria meu Gol no lugar que os demais condôminos decidissem. O único transtorno era ter de manobrar diariamente o carro que ficava na vaga em frente a minha. Mas confesso que até me diverti com a oportunidade.

 

Verdade que quando era mais jovem, meu Chevette não tinha lugar na garagem de casa e tinha de estacionar na oficina de um vizinho que alugava o espaço. Ali o problema não era a vaga, mas o barulho. Como era adepto das noitadas e o dono da oficina já era um senhor de idade e com família comportada, toda vez que entrava com o carro, ele se revirava na cama.

 

Nas empresas brasileiras, ter vaga na garagem ou mais próxima da entrada principal é coisa para crachá de peso. Funcionário comum pára onde pode e dependendo da organização vai ter de pagar aluguel no estacionamento da região. Um comportamento que diz muito da maneira como vivemos em uma sociedade formada por castas ao contrário de países mais civilizados.

 

Você já deve ter assistido a vídeos e informações de que em alguns países desenvolvidos, quem chega antes pára mais distante da entrada, pois têm tempo de sobrar para chegar ao escritório. Assim deixam as vagas mais próximas para turma que se atrasa e precisa correr para bater o ponto. É civilização que chama, né?

 

Aqui no Brasil essa discussão é tão complexa que até a futura-ex-Procuradora Geral da República Raquel Dodge é alvo de ação no STF por negar vaga de garagem a um subprocurador. Isso mesmo: ela pode ser condenada por não ceder uma vaga na garagem no estacionamento da PGR.

 

Segundo o portal G1, o subprocurador Moacir Guimarães foi quem entrou com ação no Supremo Tribunal Federal. Ele ficou incomodado porque havia pedido para que um auxiliar pudesse estacionar na garagem para “agilidade dos trabalhos”. Raquel Doge, que responde também pela área administrativa da Procuradoria, baseou-se em portaria que prevê vagas apenas para os subprocuradores, não para seus auxiliares. É privilégio que chama, né?

 

Guimarães reclama porque, segundo ele, existem várias vagas desocupadas na garagem, “o que demonstra claramente a má vontade da Autoridade coatora em atender, no final do seu mandato, o pedido do impetrante eis que em todo o período de sua gestão os questionamentos foram feitos”.

 

Para quem achava que os maiores problemas que Raquel Doge teria de enfrentar nessa reta final de trabalho —- ela deixa o cargo no dia 17 de setembro —- fossem as indicações fora de época que fez para algumas procuradorias regionais ou o pedido de demissão dos procuradores da força-tarefa da Lava-Jato, jamais imaginaria que ela estaria com a cabeça a prêmio e julgada pelo STF por uma acusação desse porte: não autorizar o uso da vaga da garagem para subalternos.

Advogado questiona número de cargos comissionados e indicações políticas na Assembleia Legislativa de São Paulo

 

 

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E como está a relação entre comissionados e efetivos na Câmara de São Paulo?

  

 

As indicações políticas para cargos comissionados no Legislativo —- e no Executivo não é diferente —- têm de ser motivo de preocupação do cidadão. É dinheiro público que pode estar sendo usado para interesses particulares. Vereadores, deputados e senadores usam do seu poder para distribuir as funções disponíveis entre apadrinhados políticos e para pagar favores a quem ajudou a ele ou ao partido na campanha eleitoral. Dá emprego ao filho de empresário, ao cunhado de filiado, à sobrinha de amigo e à mulher do colega de partido.
 

 

Quanto maior o número de cargos comissionados maior é a falta de transparência nos critérios usados para ocupar essas funções. Para ter ideia, são mais de 20 mil cargos comissionados —- ou seja de livre nomeação e livre exoneração, sem precisar passar por concurso —- no Brasil, de acordo com estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. 20 mil em um universo de 570 mil servidores. 20 mil aqui no Brasil contra 7 mil nos Estados Unidos, apenas para comparar com outro país com grande estrutura pública. Se olharmos para os números na Europa, a diferença é absurda: são 350 cargos comissionados na Inglaterra, 300 na Alemanha e 300 na França.
 

 

Em decisão do ano passado, o Supremo Tribunal Federal, ao negar a criação de mais 1.941 cargos comissionados na cidade de Guarulhos, região metropolitana de São Paulo, definiu, entre outros pontos, que:

— A criação de cargos em comissão somente se justifica para o exercício de funções de direção, chefia e assessoramento, não se prestando ao desempenho de atividades burocráticas, técnicas ou operacionais;
 

 

— O número de cargos comissionados criados deve guardar proporcionalidade com a necessidade que eles visam suprir e com o número de servidores ocupantes de cargos efetivos, no ente federativo que os cria.

 

 

Foi essa manifestação do STF que inspirou ação impetrada pelo advogado Antonio Donadelli contra a Assembleia Legislativa de São Paulo —- informou a jornalista Sonia Racy, no Estadão. O advogado questiona a proporção entre cargos comissionados e servidores efetivos na Alesp. Segundo Donadelli, a assembleia paulista, em dezembro, tinha 3.127 comissionados e 636 efetivos. O advogado quer que a Casa seja forçada a mudar a proporção no prazo de um ano.
 

 

A notícia me foi apresentada por integrantes do Adote um Vereador, de São Paulo. Não por acaso. A provocação jurídica atende não apenas a decisão de outubro de 2018, do STF, mas ao desejo de todo o cidadão interessado em controlar os gastos públicos e moralizar o uso da máquina pública. Por isso, a iniciativa de Donadelli, em relação a Alesp, deveria ser replicada em todos os Estados e cidades brasileiras.
 

 

No âmbito dos municípios, que interessa ao Adote, cabe analisarmos o número de funcionários contratado sem concurso público na Câmara Municipal de São Paulo, as funções que ocupam, e comparar com a quantidade de servidores concursados.
 

 

Quem se compromete com essa tarefa para começar o ano legislativo?

Governos, ministros e drogas nas notícias do meu dia

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Estou escrevendo,nesta terça-feira, o que vai ser publicado na quinta. Destaquei, em minha ótica,é claro, as notícias que considerei as mais auspiciosas divulgadas pela mídia hoje. A primeira diz respeito à decisão da Presidente de diminuir 10 ministérios dos 39 que compõem o seu rol de ministros,dos quais muitos o caro leitor nem sabia nome e função. Era um exagero,sem dúvida. Às vezes,porém,são tantos os interesses que a primeira mandatária,provavelmente,imaginasse que,de alguma maneira,fossem pessoas úteis ao seu governo. Como se percebe pela reviravolta que retirou essa turma da lista de Dona Dilma,a presença deles – ou delas – apenas depunha contra a atual situação econômica governamental.

 

Como se ficou sabendo – ou até já se sabia – a crise era maior do que a teimosia da Presidente em manter o seu timão ministerial. Ela reconheceu que errou. Pena que tenha demorado a descobrir que 39 ministros custam muitíssimo caro. Aliás,os rumores de que o homem das finanças do governo,Joaquim Levy,estaria ou,mais do que isso,estava disposto a pedir demissão do cargo pioraram a história. Sua provável decisão seria terrível. Será que exagero?

 

Inicialmente,foi espalhada a informação de que o ministro Levy viajara para os Estados Unidos,sem compromissos oficiais. Ele depois negou que fosse a Washington. Isso também foi desmentido. Disseram,então que Joaquim Levy fora ver a menina (sua filha) que iria morar na China. Com ou sem Levy,o reconhecimento de Dilma de que tinha de desfazer-se de 10 ministros era uma admissão da grandeza da crise econômica. Não esqueçam,por favor,que entrego esta coluna entre terça e quarta-feira. Digamos que,por enquanto,Levy é o ministro das finanças do governo de Dilma Rousseff.

 

Escrevi no início do meu texto que,dentre tantas notícias,havia outra que me chamara a atenção.Por falar em ministros,há dois,no momento,ambos atuando no campo da justiça,que tem pensamentos diferentes sobre a mesma questão. O ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Edson Fachin divulgou de que usará o prazo regimental para julgar o processo que discute se é crime ou não o porte de drogas para consumo próprio. Sua intenção,conforme a sua assessoria,é liberar a sua decisão até 31 de agosto. Já o ministro Gilmar Mendes vai votar a favor da descriminalização. Para ele,a pessoa tem direito de colocar em risco a sua própria saúde.

 

Está em discussão a constitucionalidade do artigo 28 da lei que define,como crime,adquirir,guardar ou portar drogas para si. Mesmo os leigos não deixam de ter suas ideias a respeito deste assunto de suma importância. Por isso,dou a minha opinião a favor do ministro Luiz Edson Fachin. Permitir o porte de drogas não garante que seja unicamente para uso próprio. Não se pode confiar em pessoas viciadas em drogas. E a luta contra os traficantes ficará muito mais difícil do que se sabe ser. Eu sei de um excelente jovem que se viciou em crack e,desesperado para arrumar dinheiro destinado a pagar traficantes que cobravam a dívida dele,acabou matando o seu pai que se negou a lhe dar para saldar seu compromisso.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

“É proibido proibir” ganha de goleada

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

Caaras

 

O Brasil, sétima economia do mundo, é de extremos. Impedíamos a moderna história nacional proibindo a publicação de biografias não autorizadas, enquanto países desenvolvidos mantinham uma abertura absoluta, permitindo edições de toda espécie.

 

Há uma semana, o STF mudou tudo. “Cala a boca já morreu” disse a ministra Carmen Lúcia, relatora do processo que derrubou a exigência de autorização prévia para biografias. Nessa longa batalha, a vitória unânime não foi a única vantagem, pois vilões e heróis foram identificados.

 

“Roberto Carlos em detalhes” foi recolhido por ação do “Rei”, que alegava intromissão na sua vida e no seu bolso. Certamente mais no bolso porque o livro de Paulo Cesar de Araujo não apresenta nenhuma faceta negativa. É como se fora escrito por um fã.

 

Caetano Veloso, o autor de “É proibido proibir”, impediu a publicação de sua biografia após sete anos de elaboração. Além disso, deve ter sido consultor da ex-mulher para através do “Procure Saber”, após reunir Chico Buarque, autor de Cálice, Gil e o próprio Caetano, todos vítimas da censura e exilados durante o período ditatorial, saírem a público com Roberto Carlos em defesa da proibição às biografias não autorizadas.

 

A biografia de Mick Jagger na edição brasileira não contém a parte do canil, por exigência da apresentadora Luciana Gimenez.

 

Lily Safra conseguiu no Brasil o que não obteve na Europa. Proibiu a publicação de sua biografia.

 

Livros

 

Paulo Coelho, o mais bem sucedido escritor brasileiro de todos os tempos, talvez o mais criticado, e dono do melhor exemplo, pois abriu a Fernando Morais a sua vida, não gostou da biografia feita, mas liberou-a, se posicionou em relação aos 9×0 na Revista Época:

“Depois que Roberto Carlos conseguiu o que quis, largou o grupo. A culpa ficou com os chamados progressistas. Porque, do Roberto Carlos, todo mundo esperava uma atitude assim, mas ninguém esperava do Caetano, do Gil, do Chico. Os artistas que apoiaram o cantor na luta pela proibição de biografias não autorizadas caíram numa “armadilha de quinta categoria, como patinhos”

 

Será que é a credulidade apontada por Paulo Coelho que explica os “progressistas” ou seria a ganância?

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.