27 anos separam Prego de Barbosa e quase nada mudou no Presídio Central

 

Há uma semana, o presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa foi a Porto Alegre para vistoria do Presídio Central, o maior do Rio Grande do Sul e um dos piores do Brasil. Não precisou de mais de 30 minutos para repetir aquilo que qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento do local já sabe: os presos vivem em condições subumanas. Barbosa disse aos jornalistas que “com certeza o preso não sai recuperado daqui. Ele muito provavelmente, em alguns casos, sai daqui muito pior do que entrou, enraivecido e brutalizado”. A visita faz parte do Mutirão Carcerário realizado pelo Conselho Nacional de Justiça, presidido por Barbosa. Verdade que o cenário encontrado na capital gaúcha não se difere muito daquele que temos em presídios Brasil afora, mas me chamou atenção por ter conhecido o local quando trabalhei no jornalismo gaúcho e perceber que pouca coisa foi feita desde então.

 

Em 1987, três anos após iniciar carreira na Rádio Guaíba de Porto Alegre, fui escalado para cobrir rebelião que ocorria no Presídio Central. Trinta e três presos deixaram as celas e renderam funcionários do Instituto de Biotipologia que fica dentro da penitenciária. Durante dez horas, fizeram ameaças, atacaram funcionários e desafiaram a polícia. Duas pessoas morreram no início da ação: um preso e um agente penitenciário. Próximo do local onde estavam, ouvi alguns deles gritando que nada tinham a perder, ao mesmo tempo que se percebia o desejo de policiais de entrarem para vingar a morte do colega. Após longa negociação e temendo a morte de inocentes, o Governo do Estado, Pedro Simon, deu ordem para que os presos fugissem em três carros acompanhados de reféns e sob a promessa de que estes seriam liberados com vida.

 

Em um lance de grande sorte e um pouco de irresponsabilidade, acompanhado pelo motorista Gilmar Lacerda, decidimos seguir o comboio de presos com o carro da rádio, o que permitiu que levássemos aos ouvintes, ao vivo, as emoções daquela fuga pelas ruas de Porto Alegre que estavam cheias devido ao horário do rush. A polícia também os perseguia até sumirem do nosso campo de visão. A ousadia dos rebelados rendeu reportagens durante semanas na imprensa gaúcha, enquanto a minha, alguns elogios e questionamentos, afinal, nos colocamos em risco durante aquela ação.

 

Não sei o que aconteceu com os presos que participaram da fuga, é provável que tenham morrido em outros confrontos ou voltado para a cadeia por novos crimes que cometeram. O mais perigoso deles, Vico, assaltante de banco, deveria ficar preso até 2029. Um dos comparsas dele, Prego, me disse, ainda durante a rebelião, que “nós estamos no colégio, na escola do crime”. Da declaração do condenado à de Joaquim Barbosa, 27 anos depois, poucas coisas mudaram no Presídio Central de Porto Alegre.

 

Talvez apenas eu tenha ficado mais velho e responsável (correr atrás de bandido, nunca mais!).

6 comentários sobre “27 anos separam Prego de Barbosa e quase nada mudou no Presídio Central

  1. Quando se é jovem,como eras ao cobrir – e muito bem – a revolta dos prisioneiros do horroroso Presídio Central de Porto Alegre, já então pequeno para manter um número altíssimo de criminosos,fizeste o que achavas ser a obrigação de um bom repórter. Lembro que eu estava no estúdio da Guaíba esperando para apresentar o Correspondente Renner e,se não me falha a memória,algo um tanto corriqueiro na minha idade,autorizei,sem pedir licença a ninguém,que continuasses a acompanhar os fugitivos na viatura dirigida pelo Gilmar.Mesmo louco de medo,não fui dos que questionaram a tua decisão. Azar da Voz do Brasil,invadida em nome de uma reportagem,na ocasião, bem mais importante que o noticiário oficial e cansativo.

    • Omiti parte da história para não me estender demais e cansar o leitor e porque tinha certeza de que nossa transmissão durante a Hora do Brasil seria lembrada. Na realidade foram duas situações inéditas: a interrupção do Correspondente Renner, síntese noticiosa, para a entrada ao vivo da minha transmissão, e a invasão da Voz do Brasil. Outra curiosidade que ainda lembro é de uma ouvinte que lhe procurou para dizer que você não poderia ter me incentivado a continuar atrás dos bandidos.

    • Ezequiel,

      Este estado que temos no presídio central de Porto Alegre é resultado do conjunto da obra partidária, pois se na minha época era o PMDB que estava no comando, desde lá vários partidos passaram no Governo sem mudar uma vírgula na situação daquele local: PSDB, PDT, PDS, PT, entre outros que apoiaram estes partidos.

  2. Prezado Milton,
    Não quero falar exatamente do Joaquim Barbosa, mas quero dar minha opinião sobre o assunto “racismo” e “preconceito” que vocês estão abordando nesta semana no “Liberdade de Expressão”. Como já estou um tanto cansado desta história em relação aos negros no Brasil, gostaria que vocês também opinassem sobre os seguintes assuntos que podem também ser tratados como racismo/preconceito.
    1- Quando um negro chama um Branco de “branquelo nojento”, lumbriga, loira burra, alemão filho da pu……., russo de merrr……., também não é preconceito?
    2- Você já reparou que quando você, sendo branco, visita um bairro ou uma comunidade com 90 % de moradores negros, você é xingado de todos os nomes preconceituosos possíveis?
    3 – Uma pessoa gorda quando é chamada de baleia, rolha de poço, porcão, leão marinho, urso branco e etc…. também não é preconceito.
    4- Tratar mal um judeu não é racismo?
    5- Chamar um japones ou descendente de pasteleiro ou tintureiro ou fazer alguma referencia ao seu penis, também não é racismo ?
    6- Chamar um portugues de burro, não é racismo? Aliás já ví vários negros tratarem os potugueses assim, inclusive em estádios de futebol.
    7- Chamar um turco ou árabe de mão-de-vaca, shiita, bin laden e etc…não é racismo?
    Enfim, gostaria que todas as formas de racismo e preconceito fossem abordadas por vocês e não ficassem só “defendendo” os negros.
    Me lembro de uma história : Há algum tempo atrás, eu fui jogar futebol contra um time formado por jogadores eminentemente negros. Como sou branco e de olhos claros, lembro-me muito bem que a torcida adversária também composta por vários negros, xingou a mim e a outro amigo meu com as caracteristicas fisicas iguais as minhas, durante todo o jogo. Me chamavam de “branco de merr…., loiro safado, alemão nazista, lumbriga e etc….
    Portanto deixo aqui uma pergunta: Eu poderia ter processado estes negros também ?
    Será que outras pessoas com as caracteristicas que citei acima não deviam ser protegidas pela lei do racismo também ? A lei não é para todos?

    Obrigado, abraços e parabéns pelo programa.

    • Edson,

      A lei antirracismo é para todos. Bem informado como imagino que seja (ou gostaria que fosse), deve saber que são os negros as maiores vítimas de preconceito neste país. Não enxergar essa realidade é ignorar a história deste país.

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