Avalanche Tricolor: que a alegria dessa gurizada seja eterna enquanto dure

Grêmio 1×0 Inter

Gaúcho – Porto Alegre, Arena Grêmio

Léo Chu comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Havia Brenno no início da jogada, Ricardinho  e Léo Pereira  no meio do caminho e Léo Chu para limpar e concluir o lance que culminaria em um dos mais belos gols que assistimos nos últimos tempos em um Gre-Nal. Um gol com DNA tricolor. De uma gurizada, que tem em média pouco mais de 20 anos, que nasceu ou floresceu dentro do clube, disposta a manter a hegemonia regional e a beleza de um jogo que, há muito, já conquistou outros rincões.

Com o devido respeito e reconhecimento de todos que chegaram depois, que forjaram suas histórias antes de vestir nosso azul, preto e branco —- uma gente da qual também temos orgulho pelas conquistas alcançadas —-, o que mais me alegra nessa gurizada é a reverência aos craques do passado. 

Léo Chu é o mais expressivo —- mesmo que não seja o único. Ele se inspira em Tarciso, a quem foi apresentado pelas histórias que o avô contava e conheceu pessoalmente na Arena, alguns meses antes da morte do Flecha Negra. Admira Renato e não escondeu a alegria de poder abraçar o ídolo ao lado do campo ao comemorar seu gol, como se estivesse redivivo no time que nos levou à glória mundial, em 1983. Pensa em repetir a façanha de Luan que se transformou em Rei da América ao levantar a Copa Libertadores, de 2017.

Tricolor de nascença, aprendeu a sofrer logo cedo, quando assistia ao rival vencer campeonato após campeonato. Calejado pela provocação dos amigos de rua, que torciam para o adversário, e disposto a dar aos pais, avós e afins a alegria que eles contavam ter sentido naquela transição dos anos 70 para os 80, insistiu em permanecer no Grêmio, após o ano de empréstimo no Ceará. Teria chance de ir para o exterior, mas pediu para ficar. Quer realizar o sonho de ser campeão pelo time que ama.

No início da madrugada de Domingo de Páscoa, Léo Chu sonhou acordado quando recebeu a bola dos pés de Léo Pereira —- outro recém-entrado na partida. Havia a possibilidade de retribuir o passe ao colega de ataque, que já se deslocava em direção à área, ou superar os dois marcadores que estavam à sua frente. Preferiu a segunda opção. E no corte para dentro enxergou espaço para colocar a bola longe do alcance do goleiro adversário.

Como um súdito que sabe onde quer chegar, na comemoração do gol, já sem camisa, correu em direção a faixa pendurada por torcedores em homenagem a Tarciso e repetiu o gesto da semana passada, em que esboça o movimento de um arqueiro lançando sua flecha. Não passou despercebida a tatuagem desenhada no ante-braço direito, na qual ele aparece como um menino, pendurado no alambrado do campo de futebol e vestindo a camisa de número sete.

Assim com Léo Chu, muitos dos guris que hoje servem ao Grêmio querem deixar sua marca tatuada no coração dos torcedores. No momento do gol, nove deles estavam no time. E começam agora uma trajetória que costuma ser breve, pela incapacidade de mantermos os talentos entre nós por muito tempo. Assim como o amor de Vinicius de Moraes, em Soneto do Infinito, que a alegria dessa gurizada ao nosso lado seja eterna enquanto dure.

O dia em que Tarciso encontrou o ídolo que o batizou de Flecha Negra

 

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Foi pela coluna de Hiltor Monbach — do Correio do Povo, de Porto Alegre —, meu primeiro e único editor de esportes em mídia impressa, da época em que trabalhei no jornal gaúcho, que fui lembrado de texto escrito por este blog sobre um dos maiores ídolos que tivemos na história do Grêmio: Tarciso.

 

Nosso craque morreu, aos 67 anos, na madrugada desta quarta-feira, vítima de um tumor ósseo. A última vez que o encontrei foi na final da Libertadores da América, em 2007, quando perdemos para o Boca, no estádio Olímpico. Eu estava ao lado do pai. Ele estava correndo — não na mesma velocidade que imprimia nas suas arrancadas para o gol nos tempos de jogador de futebol, é lógico. Corria para chegar ao seu lugar nas cadeiras cativas, pois o jogo estava para começar. Teve tempo de parar, voltar e dar um abraço no pai — assisti emocionado à reverência de um ídolo para o outro. O pai foi quem lhe concedeu o apelido de Flecha Negra que marcou sua carreira.

 

Monbach visitou esse blog para descrever a importância de Tarciso para o Grêmio e reproduziu o texto a seguir, que publico com orgulho:

 

Gol, gol gol…Gol de Flecha Negra

Milton Ferretti Jung, a eterna Voz do Rádio, batizou Tarciso de Flecha Negra. Pegou. Milton, seu filho, que eu chamava de Miltinho, conta essa história no seu blogue. Trabalhei com os dois, pai e filho. Mais com o pai.

 

“Jogadores com a cor do Grêmio estarão sempre na nossa memória.
E Tarciso é um desses.

 

Sua imagem nos leva a um passado de incríveis resultados, tempos em que superar adversários de Rio e São Paulo ainda eram vistos como feitos quase impossíveis.
E, também, está ligada a uma fase de transição do Imortal Tricolor, momento em que deixávamos de ser um time apenas para consumo interno para sermos temidos pelos grandes clubes do País.

 

Era ele o ponteiro direito do time campeão brasileiro em 1981, treinando pelo meu querido padrinho Ênio Andrade, que conquistou o título após duas difíceis disputas contra o São Paulo.

 

Hoje cedo, antes da partida com o mesmo São Paulo, Christian, meu irmão, e Fernando, meu sobrinho, que moram em Porto Alegre, tiveram a feliz oportunidade de encontrá-lo próximo do Estádio Olímpico.

 

Se apresentaram e pediram para tirar uma foto.

 

Nada mais natural para fãs que encontram seu ídolo.

 

Na conversa, Tarciso soube que eram filho e neto de Milton Ferretti Jung, o homem do Gol-gol-gol, que você, caro e raro leitor deste blog, conhece seja pela própria história dele, seja pelos posts de toda quinta-feira.

 

Na mesma hora deu aquele sorriso que meu irmão definiu como o de Campeão do Mundo.

 

Sim, Tarciso também fez parte daquele time que conquistou o Planeta, em 1983. E mandou “um abração para o velho Milton”.

 

Abraço enviado.

 

Foi Milton, o pai, quem o batizou de Flecha Negra, apelido que refletia bem a velocidade com que Tarciso escapava dos adversários e chegava na cara do gol.
Uma característica que, aliás, o levou para o Grêmio após marcar um gol contra o próprio, na época em que ainda vestia a camisa do América do Rio, em 1973.
Durante os 13 anos em que jogou pelo Grêmio sua postura em campo, a forma como se entregava em cada jogada e as disparadas com a bola no pé o transformaram em eterno ídolo.

 

Tarciso é um exemplo para todos estes que hoje jogam no nosso time. Sei lá quantos deles serão capazes de repetir a mesma história e serem lembrados para sempre pelos torcedores. O que sei é que a disposição de cada um, desde que Celso Roth assumiu o comando, tem um pouco da raça, da determinação, da coragem e da personalidade com as quais apenas alguns foram capazes de se consagrar.
E, tenha certeza, Tarciso foi um desses.

 

Nenhum comentarista viu, os narradores não falaram, o adversário jamais poderia imaginar e duvido que o atual elenco tenha percebido. Mas o espírito de Tarciso estava em campo nesta vitória que reforça a Avalanche Tricolor recém iniciada, que só vai sossegar quanto estiver de volta a Libertadores.”

 

 

A coluna “Avalanche Tricolor”, escrita no dia 11 de setembro de 2011, que serviu de base para o artigo de Monbach você lê aqui.

Avalanche Tricolor: O sorriso do Campeão

 

Grêmio 1 x 0 São Paulo
Brasileiro – Olímpico Monumental

Jogadores com a cor do Grêmio estarão sempre na nossa memória. E Tarciso é um desses. Sua imagem nos leva a um passado de incríveis resultados, tempos em que superar adversários de Rio e São Paulo ainda eram vistos como feitos quase impossíveis. E, também, está ligada a uma fase de transição do Imortal Tricolor, momento em que deixávamos de ser um time apenas para consumo interno para sermos temidos pelos grandes clubes do País. Era ele o ponteiro direito do time campeão brasileiro em 1981, treinando pelo meu querido padrinho Ênio Andrade, que conquistou o título após duas difíceis disputas contra o São Paulo.

Hoje cedo, antes da partida com o mesmo São Paulo, Christian, meu irmão, e Fernando, meu sobrinho, que moram em Porto Alegre, tiveram a feliz oportunidade de encontrá-lo próximo do Estádio Olímpico. Se apresentaram e pediram para tirar uma foto. Nada mais natural para fãs que encontram seu ídolo. Na conversa, Tarciso soube que eram filho e neto de Milton Ferretti Jung, o homem do Gol-gol-gol, que você, caro e raro leitor deste blog, conhece seja pela própria história dele, seja pelos posts de toda quinta-feira. Na mesma hora deu aquele sorriso que meu irmão definiu como o de Campeão do Mundo. Sim, Tarciso também fez parte daquele time que conquistou o Planeta, em 1983. E mandou “um abração para o velho Milton”. Abraço enviado.

Foi Milton, o pai, quem o batizou de Flecha Negra, apelido que refletia bem a velocidade com que Tarciso escapava dos adversários e chegava na cara do gol. Uma característica que, aliás, o levou para o Grêmio após marcar um gol contra o próprio, na época em que ainda vestia a camisa do América do Rio, em 1973. Durante os 13 anos em que jogou pelo Grêmio sua postura em campo, a forma como se entregava em cada jogada e as disparadas com a bola no pé o transformaram em eterno ídolo.

Tarciso é um exemplo para todos estes que hoje jogam no nosso time. Sei lá quantos deles serão capazes de repetir a mesma história e serem lembrados para sempre pelos torcedores. O que sei é que a disposição de cada um, desde que Celso Roth assumiu o comando, tem um pouco da raça, da determinação, da coragem e da personalidade com as quais apenas alguns foram capazes de se consagrar. E, tenha certeza, Tarciso foi um desses.

Nenhum comentarista viu, os narradores não falaram, o adversário jamais poderia imaginar e duvido que o atual elenco tenha percebido. Mas o espírito de Tarciso estava em campo nesta vitória que reforça a Avalanche Tricolor recém iniciada, que só vai sossegar quanto estiver de volta a Libertadores.

N.B: Os números estranhos (tema da última Avalanche) estiveram de volta no jogo de hoje. Nada porém supera a criatividade dos pais de alguns jogadores de futebol no momento de batizá-los. Um dos zagueiros do São Paulo, estava grafado na camisa, se chama Rhodolfo. Assim mesmo, com um intrometido “h” na primeira sílaba. Haja imaginação!