Conte Sua História de São Paulo: a minha casa da vovó, no Tatuapé

 

Por Vitor Monteiro

 

 

Vivi praticamente todos meus 31 anos no calmo bairro do Tatuapé. Boa parte da minha memória afetiva da infância está na casa da minha avó Ruth em uma rua estreita, a rua E do conjunto de cinco pequenas ruelas conhecidas como Conjunto Acrópole, que unem as ruas Emílio Marengo e Itapeti. Ruas estritamente residenciais, de pouquíssimo movimento, moradores de longa data, em suas casas com portões baixos, vizinhos conversando no meio fio, crianças correndo nas ruas, chutando bola ou brincando de esconde-esconde.

 

O futebol na rua era minha brincadeira predileta. Eu sempre fui goleiro e constantemente voltava ralado para os braços da minha avó, que corria para me ajudar a limpar os machucados dos joelhos e cotovelos no tanque nos fundos da casa. Aquele asfalto quente nos pés descalços, a bola batendo nos portões gerava certa animosidade na vizinhança calma, mas éramos crianças e a maioria relevava. Menos a Dona Ana do 86. Essa botava medo na gente depois de ter furado duas bolas nossas que acidentalmente caíram em seu quintal. Acho que ela não gostava de crianças e tinha a impressão que sua casa era parecida com a da Bruxa do 71, personagem do Chaves.

 

O café era o meu momento predileto com minha avó. Todas as tardes a casa era perfumada com o aroma da bebida que ela fazia. A partir dos meus 10 anos, eu o preparava e sempre recebia o elogio de fazer o melhor café. Era o momento de ver televisão e filmes juntos, conversar, comer um bolo, um queijo ou o doce de batata doce que ela tanto amava. Ali fui feliz, era compreendido, mesmo quando o silêncio imperava. O ambiente era de lar, repleto de carinho e amor. E continua sendo. A casa, no bairro que cresci, na rua que vivi, que aprendi a respeitar e entender. A cidade que amo, que vivo mesmo que seja dentro da cozinha da casa da vovó.

 

Infelizmente Dona Ruth faleceu e a casa passou por alterações, mas sua alma está lá. A rua também mudou, os portões estão todos altos, não há mais festa. Verdade que sinto que os vizinhos querem reviver aqueles momentos. E sinto que um dia vamos conseguir que a rua deixe de ser uma via de cortar o farol vermelho e volte a ser habitada pelas crianças, pelas festas, pela confraternização. A minha avó não está mais fisicamente lá, mas nossa raiz ainda está naquela casa aprazível na qual vivo hoje com minha amada esposa e querido filho. Que ele possa um dia invadir a rua, retomá-la, vivê-la como eu vivi.

 

Vitor Monteiro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: nos ombros de meu pai assisti à festa da cidade

 

Por Deise Caramello
Ouvinte da rádio CBN

 

 

Naquele dia, percebi que algo muito importante estava acontecendo . Minha mãe nos vestiu, eu e meu irmão, com nossa melhor roupa, nosso melhor sapato.  Fomos até o ponto de ônibus -eu, meu pai, minha mãe e meu irmão – todos rumo ao centro de São Paulo. No letreiro do ônibus  estava escrito em letras grandes “CIDADE”.

 

Apesar de nascida no Tatuapé, morávamos em um bairro de Guarulhos. E “cidade” queria dizer “Centro de São Paulo”. Passamos pela Penha, Avenida Celso Garcia, Rangel Pestana e chegamos ao ponto final: a  praça Clóvis Bevilaqua.

 

Era um movimento só; que eu não entendia, mas achava lindo… todas aquelas pessoas. Eu estava muito alegre por estar ali, naquele agito. Meu pai segurava firme a minha mão e, assim, seguimos pela praça da Sé, rua Direita, praça do Patriarca até chegarmos ao glorioso viaduto do Chá.

 

No Vale do Anhangabaú, bandas e fanfarras desfilavam com sons, cores e bandeiras … radiantes por estarem ali comemorando o aniversário da cidade. Foi então que todos olharam para o céu. Um som ensurdecedor nos envolvia cada vez mais. Meu pai me colocou sobre seus ombros e uma chuva prateada desceu sobre nós. Nos meus quatro anos., estava vivendo um sonho, um conto de fadas. Encantada.

 

Era São Paulo em festa pelos seus quatrocentos anos de fundação.

Conte Sua História de SP: aquela família que a gente forma por opção

 

Por Laura Hokama
Ouvinte da rádio CBN

 

 

São Paulo em que nasci, vivo profundamente todo o caos urbano e agradeço aos meus avós que vindo se aventurar de Okinawa- Japão, passaram por outras cidades e… pararam em São Paulo!!! Ê…Ê…Ê…Ê… São Paulo … Ê ….. São Paulo, São Paulo da garoa, São Paulo da terra boa!

 

Nos meus 50 e tralala…. morei no Tatuapé cuja referência é a rua Jacirendi, travessa da avenida Celso Garcia…. rua em frente ao prédio do Banco do Brasil, este construído com pastilhas brancas e azuis que na época era super Chic!

 

Na lembrança os vizinhos: dona Mercedes que morava num casarão chic e tinha telefone na casa dela! Ah! A dona Higínia também tinha sua casa muito chic e telefone! Esta por gostar muito da minha mãe, oferecia, quando se fosse por necessidade, o uso de seu telefone, mas a dona Guida, minha mãe, educadamente, sempre agradecia e quando precisávamos corríamos na farmácia do Megale para telefonar e não incomodar a dona Higínia!

 

A dona Léa, também com seu acolhimento humanamente amoroso, abria a sessão de sua super TV para os amigos de seu filho, o qual era o meu amigo rico!! As lembranças das tardes que chegávamos em sua casa, tirávamos os chinelos no quintal e entrávamos na sua cheirosa casa, íamos para a sala e assistíamos a TV, não lembro a marca, mas era linda, ficava embutida num armário com duas portas que se abriam para ser ligada e nos entretíamos por horas!

 

Tinha o barzinho do “ seu Zé” que, vez ou outra com os trocadinhos que guardávamos, íamos lá para escolher os doces de sua vitrine. Eu adorava o suspiro cor de rosa! São muitas as lembranças desta rua que ainda residem em minha memória!

 

Crescida, morei em outros bairros, fui morar em outras cidades do interior, e, agraciada, voltei para São Paulo!

 

Hoje, resido na Água Branca! Aqui era uma região com muitas fábricas e casas. Infelizmente ou felizmente, estão chegando os prédios, um deles onde moro. No prédio, vão chegando os novos vizinhos, todos se conhecendo e, passado um ano de convivência, formamos uma família! É, aquela família que a gente forma por opção! Afinidades por pensamentos, crenças e atitudes! Alguns, às vezes, se estranham, mas arrumam um jeitinho para conviver.

 

Percebo que estamos fazendo parte da mudança da região, fábricas saindo e chegando as moradias residenciais. Sabe, já está previsto uma linha do metrô, que ficará a poucos metros do prédio.

 

É a nossa São Paulo se modificando, crescendo e se expandindo para acolher os filhos da Terra!

 

Laura Hokama é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie a sua história para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: pensei ouvir a voz de amigos do Tatuapé

 

Por Maria Dulce Brito Gomes
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Em 1967, chegamos a São Paulo vindos de Araraquara. Meu pai, gerente do Banco de São Paulo, fora transferido para exercer um cargo de direção. E nós, quatro irmãos e mamãe, nunca imaginávamos morar na capital. Lá no interior, vivíamos em prédio do próprio banco – grande edifício dos anos 1950 com sacadas nas janelas do segundo andar e um quarto para cada filho. Tinha sala de jantar, de visitas e cozinha. Um luxo. Aqui a vida não seria mais a mesma; e se transformou radicalmente.

 

Meu pai alugara um sobradinho na Rua Bento Gonçalves, no Tatuapé, zona Leste, e para cá viemos assustados com a cidade grande. Dois quartos apenas, uma salinha e uma cozinha. Mas um quintal que nos afagava as lembranças de grandes espaços. A rua era uma descida de terra que chegava à Marechal Barbacena tão esburacada que o lixeiro recolhia o conteúdo dos nossos latões fazendo malabarismos com a carroça puxada a cavalo.

 

De manhã vinha o verdureiro. Era um alemão muito vermelho que manobrava o carroção atrelado a um enorme burro. Sr João, o verdureiro, trazia imensos caixotes de madeira repletos de couves, nabos, rabanetes, alface, limões e tudo o que ele mesmo plantava em uma das muitas chácaras da Rua Itapeti. Não havia ainda arruamento e, quando íamos ver as chácaras, era uma delícia percorrer as alamedas de brócolis, repolhos e almeirão – sem cercas, sem portões. Sr. João tinha mãos enormes, e nós, crianças, corríamos atrás da carroça pedindo ora uma banana, ora uma laranja. Ele, conduzindo o carroção, estancava o burro em frente a uma casa e distribuía as bananas despencadas ou as laranjas. Era nossa felicidade. Enchíamos os bolsos e lá íamos saborear as frutas na pracinha da Barão do Cerro Largo.

 

Certa vez, asfaltaram a Rua Bento Gonçalves. O Serviço de Águas e Esgotos implantou a rede coletora e abriu crateras imensas que demoraram a ser fechadas. Com o asfalto vieram as disputas de rua. Aos domingos, meus irmãos competiam com os amigos e os carrinhos de rolimã, fabricados, em casa mesmo, com uma tábua de caixote e uma trava horizontal. As rodas de rolimã sulcavam a frenética descida do negrume até o fim da rua e o breque era o próprio calçado que voltava irreconhecível. Eles subiam lentamente a Bento Gonçalves arrastando a geringonça para depois começarem a louca descida. Quantos arranhões, tombos, unhas despedaçadas! Nada que os impedisse de no próximo domingo estar de novo com a molecada.

 

Nos feriados, o barato era caçar passarinhos no “Matão”, como era chamado o bairro Anália Franco. Nenhuma casa ou edifício, apenas uma matinha densa repleta de pássaros: coleirinha, tico-tico, canários da terra. Era armar a arapuca e engaiolar os pobres para que cantassem no nosso quintal.

 

À tarde de domingo, nos reuníamos na sala para assistirmos à luta–livre no Canal 9. Ted Boy Marino, Fantomas, Índio, e tantos outros nos faziam gritar até à rouquidão numa torcida pelo “bonzinho” para que massacrasse o “mau”. Custamos a crer que o “sangue” era apenas groselha, como desmarcarava a farsa, meu Tio Benedito.

 

Hoje passei pela Praça Sílvio Romero, subi a Tuiuti e cheguei ao bairro Anália Franco. Só o Colégio Ascendino Reis, onde estudamos todo o ginásio e o colegial continua por lá, além da Padaria Lisboa. Antes, grandes glebas distantes, hoje, edifícios, muito progresso e luxo. Antes, o ruído das brincadeiras infantis e a presença daqueles amigos queridos: Nilson, Terezinha, Jer, Pepino, Cabeção, Batata, Camula e tantos outros. Voltei com a sensação de que ainda poderia ouvir aquelas vozes, encontrei apenas lembranças, pois algumas se calaram para sempre.

 

Maria Dulce Brito Gomes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Já você é nosso convidado para comemorar os 461 anos de São Paulo. Envie agora seu texto para milton@cbn.com.br e participe da programação especial que está sendo organizada pela rádio CBN.

Conte Sua História de SP: a bicicleta do meu pai

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto de ouvinte-internauta Ademir Silva:

 

 

Nestes tempos em que se fala em mobilidade quero contribuir com a história (verídica) que vivi. No ano de 1958, nos mudamos do Tatuapé para a Vila Carrão, porém eu continuava estuando no Educandário Espírito Santo – colégio de freiras no Tatuapé, zona leste. Meu pai, Antonio Pinheiro da Silva, me levava ao colégio de bicicleta e depois seguia para o trabalho, pois ele era mestre de obra.

 

Lembro-me que durante mais ou menos oito meses, ele seguia do Tatuapé até o largo de Pinheiros de bicicleta, pois para custear meus estudos e sustento isso se fazia necessário. Ele sempre comentava que a maior dificuldade era a subida da rua da Consolação.

 

Nunca escutei qualquer reclamação por parte dele, e olhe que não existiam as grandes avenidas tais como Radial Leste e 23 de Maio. Nem mesmo as tais ciclovias.

 


Ademir Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe com as suas histórias da cidade de São Paulo enviando seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Conte Sua História de SP: minha namorada de revista

 


Por Raul Ferreira Gomes
Ouvinte-internauta da CBN

 

Ouvi a narrativa da ouvinte-internauta Júnia Lopes contando a história dela ligada a uma revista, isto me animou a também contar minha história intrinsecamente ligada a uma revista dos anos 60: “Sétimo Céu”:

 

 

No fim de dezembro de 1960, eu, com 19 anos, trabalhava com meu pai no armazém de secos e molhados da família, quando meu amigo Antonio Carlos me mostrou essa revista que era muito apreciada pela mãe dele que adorava as fotonovelas e na qual havia a seção “Clube dos Correspondentes”, em que rapazes e moças procuravam amizades e namoros. Informava-se o tipo físico, gostos, e o desejo de se corresponder. A principio relutei em mandar uma correspondência, mas devido a insistência de meu amigo, acabamos os dois redigindo cartas para a revista com os nossos dados, embora acreditasse que nada seria publicado. Para minha surpresa, no início de janeiro de 1961 começaram a chegar cartas de garotas do Brasil inteiro em resposta ao meu anúncio. Corri à banca comprei a edição nº 57 da primeira quinzena de janeiro e efetivamente lá estava. Foram centenas de cartas suficientes para encher 5 caixas de sapato. Li quase todas, mas poucas delas foram respondidas por mim, pois achava aquilo tudo uma grande brincadeira. Por volta do dia 25, entre várias cartas recebidas, uma me chamou a atenção: era de uma menina de 16 anos que morava no bairro, descrevia seu tipo físico, seu endereço e finalizava com um p.s “Se quiser me conhecer, estou às ordens” 

 

Em 30 de janeiro, enviei-lhe uma carta da qual não obtive resposta. Quis o destino que passados 15 dias, numa manhã de domingo de sol, estava eu e meu amigo Antonio Carlos, dando uma volta pelo bairro com o carro do meu pai, um Pontiac 1963, quando passamos por uma rua que reconheci pelo nome como sendo a que a tal menina morava. Por não lembrar o número da casa, batemos palmas na primeira que encontramos, perguntando se conheciam a Jane. O morador nos disse que ela morava um pouco mais abaixo no nº 36 e como era próprio da juventude tomei a decisão de ir lá conhecer a “figura”. Fui atendido por uma loirinha linda, cabelos compridos, olhos azuis. Me identifiquei e num misto de surpresa e curiosidade, conversamos e resolvemos nos conhecer melhor, como um “pré-namoro”. Saímos juntos naquela mesma tarde e os encontros foram se sucedendo. Era a época de namoros inocentes, passeios pela Praça Sílvio Romero, matinês no Cine Leste, bailinhos em casa de família, tudo isto com a concordância de seus pais. Passeávamos juntos sem qualquer contato físico. Para segurar sua mão e andar de braços dados foram quatro meses. O primeiro beijo demorou mais seis longos meses. Encontros só aos sábados e domingos e até nove da noite no portão da casa dela e com uma tremenda luz acesa para facilitar a vigilância pelos pais. São Paulo, na época, contava, creio eu, com menos de quatro milhões de habitantes. Curtíamos os discos de Elvis Presley, as baladas românticas italianas e não perdíamos o programa “Jovem Guarda”  nas tardes de domingo.

 

O mais curioso dos detalhes desta aventura que se iniciou nas páginas da revista Sétimo Céu: descobrimos que já havíamos brincado juntos nos anos de 1948/1949, quando eu estava com 7 ou 8 anos. Nos fundos do nosso armazém, havia uma pequena vila de casas que pertencia ao meu avô. Em uma dessas casas morava o Senhor José com Dona Antônia, a esposa dele. Seu José era um gentil sapateiro muito querido por mim, adorava ficar ao lado dele enquanto consertava sapatos, ouvindo e me deliciando com suas histórias. Eles eram os tios da Jane, visitados por ela a cada 15 dias. Nós brincávamos naquele grande quintal sem que ninguém pudesse imaginar que dali sairia um casamento que se transformou em 46 anos de felicidade e do qual nasceram três belas meninas.

 

Raul Ferreira Gomes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antônio. Você pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Pode também mandar um texto para mim: milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: as histórias que meu pai contava

 

Por Denise Domingues
Ouvinte-internauta do Jornal da CBN

 


Ouça aqui o texto que foi ao ar na CBN, sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

As histórias que meu pai contava…

 

 
Sou do ano de 1968, nascida no bairro do Brás e criada até a pré-adolescência no bairro do Tatuapé. Sou filha de mãe de origem caipira e de pai paulistano da gema, de origem típica da década de 1930, uma mistura de espanhol com italiano, do tipo que lembrava o Adoniran Barbosa quando falava.

 

Das muitas lembranças que trago da infância, uma me deixou marcas profundas: os passeios de carro com meu pai pelas ruas da cidade. Ele adorava dirigir, sempre teve carro – nunca novos – mas sempre os teve. Aos domingos, após o almoço tradicional italiano, servido à macarronada e frango, costumávamos fazer um programa que a mim sempre soou incrível: sair de carro sem rumo pela cidade de São Paulo.

 

Todos no carro, eu, papai, mamãe, saíamos com roteiros sempre diferentes a cada domingo. Obelisco do Ibirapuera, Avenida 23 de Maio, Estádio do Pacaembu, Praça Silvio Romero no Tatuapé, Avenida Paulista, Igreja do Rosário da Penha, Igreja da Sé. Era uma infinidade de lugares pelos quais passávamos, monumentos, avenidas. Bem que meu saudoso pai poderia ser guia turístico na cidade! A cada lugar visitado, em cada rua que passávamos, lá vinha ele com uma descrição ou história para contar. Aprendi muito. Falava dos lugares, contava suas aventuras de infância passada a braçadas no Rio Tietê e a corridas nas chácaras da zona leste. Contava como eram aqueles lugares no passado, enfim, uma história atrás da outra.

 

Dentre os passeios que fazíamos, o que eu mais adorava era ir até o Aeroporto de Congonhas. Sempre fui apaixonada pelos aviões e sabendo disso meu pai parava o carro em uma rua próxima ao aeroporto. Lá ficávamos sob os pássaros gigantes que passavam admirando sua grandeza. Eu sempre dizia ao meu pai que um dia eu viajaria de avião. E ele, com sua simplicidade: “avião é coisa pra rico, filha…”. Coisa que nós, definitivamente, não éramos.

 

Aos 44 anos, tenho a felicidade de dizer que meu sonho foi realizado, já cruzei o oceano de avião, e tenho mais horas de vôo dentro do Brasil do que muito co-piloto. Mas como aprendi com meu saudoso pai a admirar esta cidade, sempre volto. E pretendo ficar por aqui até o fim da minha vida.

Conte Sua História de SP: Amigos do Tatuapé

 

Os amigos do Tatuapé são o tema da história enviada, por e-mail pelo ouvinte-internauta Eduardo Pennacchioni, que foi ao ar nesse sábado, no CBN SP. Leia, ouça, se inspire e Conte Sua História de São Paulo:

Meu nome é Eduardo Pennacchioni – nascido em 1955 no bairro do Tatuapé Este bairro sempre foi diferenciado e sempre assemelhou-se a uma cidade do interior no convívio de seu moradores. Tenho alguns amigos, cuja amizade começou no colégio e também éramos vizinhos. Eu tinha aproximadamente 16 anos.

Como o Bairro tinha uma carcteristica de manter um bom relacionamento entre os vizinhos, a amizade entre nós se mantém até os dias de hoje, ou seja, há mais de 35 anos. Criamos uma espécie de confraria para encontros semanais em uma pizzaria do bairro, para falarmos um pouco de negócios, tomar um chopp ou vinho, comermos uma pizza e, finalmente, jogarmos palitinho, sim palitinho… e vermos que ficará de Pato.

Nestes encontros que já passaram dos 20 anos, vimos os filhos crescerem e agora vieram os netos e o encontro do palitinho continua. Mesmo quando alguém viaja para o exterior faz questão de ligar na hora do jogo para saber quem ficou de Pato. E de longe participar da brincadeira. Gostaria que esta historia de amizade ficasse registrada, para demonstrar que isso acontece em São Paulo e mais precisamente em meu bairro Tatuapé.

Ouça a história de Eduardo Pennacchioni sonorizada por Cláudio Antônio

Conte Sua História de São Paulo enviando o texto ou agendando uma entrevista em áudio e vídeo no site do Museu da Pessoa.

Canto da Cátia: Clube não é boa escola, no Tatuapé

 

clube escola tatuape

Gente de bronca, senhores incomodados, senhoras irritadas e crianças fazendo beiço. Foi o que a repórter Cátia Toffoletto encontrou ao chegar no Clube Escola Tatuapé, na zona leste de São Paulo, nesta terça-feira. Pelo bem da verdade, ela encontrou bem mais do que isso: o motivo pra tanta reclamação.

A ideia do clube escola foi lançada pela administração Kassab, em 2007, com objetivos interessantes: “[…] à implementação de uma política pública diferenciada, visando à extensão das atividades diárias dos jovens da rede pública de ensino, a partir de uma variada programação esportiva, recreativa, cultural e gratuita, oferecida pelos equipamentos esportivos municipais […]“.

O passeio da Cátia com frequentadores do clube no Tatuapé mostrou situação diferente da proposta. Ouça a reportagem dela que foi ao ar no CBN SP.

Conte Sua História de São Paulo: A égua chamada Nega

 

Francisco Ita Santiago
Ouvinte-internauta

Ouça o texto ‘Uma égua chamada Nega’ sonorizado por Cláudio Antônio

Nascido em 1933, no Parque São Jorge, Tatuapé, ali na Rua Santo Elias, comecei a trabalhar muito jovem, aos 11 anos, numa loja de móveis. Mas não era exploração de trabalho infantil e, sim, por necessidade. E, também, por vontade pois eu gostava muito do trabalho. Minha função era tomar conta da charrete puxada pela “Nega”, uma égua muito mansa e bonita, enquanto o meu patrão, Seo Henrique, comerciante de origem turca, ia fazer cobranças nas casas dos fregueses.

Certa manhã de verão de 1944, Seo Henrique entrou na casa de uma freguesa, na rua Santa Terezinha, travessa da avenida Celso Garcia e próxima à ferrovia. Fiquei lá um tempão esperando sem ter o que fazer. Na minha inocência de criança, eu só não entendia o motivo da demora do patrão. Mais tarde fui entender…

Já era quase uma hora de espera e nada. Como fazia muito calor e o sol estava forte, resolvi descer da charrete e encostar na parede, onde havia uma sombrinha. Nesse momento, o trem passou e apitou, assustando a égua que saiu em disparada pela avenida Celso Garcia, o que me deixou sem saber o que fazer.

Quando o patrão saiu e não viu a charrete ficou muito zangado me dando uma tremenda bronca. Contudo, não havia muito com que se preocupar, pois Nega sabia bem o caminho da cocheira que ficava a um quilômetro dali, na rua São Felipe. Tive de ir correndo buscá-la e, de fato, lá estava ela, tranquila bebendo água na sombrinha.

Numa outra ocasião, precisávamos atravessar um córrego para chegar a uma casa, porém a égua não queria passar de jeito nenhum. Falei para o Seo Henrique que era melhor ele ir andando, mas como insistia em fazê-la atravessar, ela deu um pinote, derrubando-nos na margem do córrego e sujando todas as nossas roupas, inclusive o terno do patrão que ficou uma “arara” com o pobre animal.

Era uma época difícil, pois o mundo estava em guerra, que só acabaria no ano seguinte, mas para mim que era criança, estava tudo bem. Todo fim de tarde eu levava Nega para a cocheira, ou melhor, ela me levava. Passava buzinando pelo caminho e o pessoal acenava para mim, já que todos me conheciam.

Hoje em dia, continuo caminhando, agora acompanhado pela minha esposa Josefina, pelos mesmos caminhos daquela época, pois ainda moro no mesmo bairro, conheço muita gente e todos continuam acenando quando passo, alguns ainda daquela época.

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. Você participa enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br