Conte Sua História de São Paulo: o Tatuapé dos doces da Vera Cruz e dos cavalos dos Matarazzo

Zilda dos Reis Larangeira Santolin

Ouvinte da CBN

Pintura interna da Padaria e Confeitaria Vera Cruz, no Tatuapé (foto de arquivo)

Vou contar um pouco da minha São Paulo. 

Existem lugares bonitos, mas eu escolhi falar do Tatuapé, bairro onde eu moro há quase 84 anos, que deixou muitas histórias na minha memória. 

Em 1944, eu tinha oito anos. Me lembro de ir até uma confeitaria, na avenida Celso Garcia, que existe até hoje: a Vera Cruz. Lá, ainda há a pintura dos bondes e seus passageiros. Pintura que ilustra mulheres e homens muito elegantes, com terno e chapéu. Alguns até usavam bengalas. 

Naquela época, eu tinha uma vizinha que trabalhava muito. Ela vendia produtos que comprava, todos os dias, no mercado grande. Por volta das quatro da tarde, a filha dela, que tinha 11 anos, me chamava para levar o carrinho de mão até a esquina da Celso Garcia com a Rua Tuiuti. Lá, a mãe dela descia de um bonde todo verde, que se chamava “Cara Dura” e transportava os verdureiros e suas compras. 

A mãe da minha amiga arrumava a mercadoria no carrinho de mão e já descia a Tuiuti chamando a freguesia. 

Lá no fim da  Tuiuti, havia o Tietê. O rio. Eu falo mais dele daqui a pouco. 

Poucos metros antes da rua chegar ao fim, havia uma chácara grande, enorme, que pertencia ao conde Francisco Matarazzo. Toda tarde, duas moças lindas passeavam pelos jardins, que tinham muitas flores e belos caramanchões de maracujá. Também havia um cercado grande, com animais como hienas e zebras. 

Eles tinham uma cocheira, onde ficavam cavalos, com largas e grossas patas. Alguns deles, ajudavam nas tarefas da chácara: três vezes por semana, os cavalos trotavam pela Tuiuti carregando feno e milho para os outros animais. Eram grandes e lindos e pareciam desfilar. 

Meu pai e meu avô materno trabalhavam no palácio da chácara. E, uma vez por mês, o conde Matarazzo deixava os moradores da região visitarem o local. 

Atualmente, onde era a fazenda temos o Parque do Piqueri; e, no lugar do castelo, há uma biblioteca. Até hoje, nós não entendemos por que eles destruíram o palácio quando a chácara foi vendida.

De volta aos anos 1940. O rio Tietê batia nos fundos da chácara. Todo domingo, meu pai nos levava, eu e meus irmão, lá no rio para assistir às competições das regatas do Corinthians. Foi um tempo em que a água era cristalina e as pessoas pescavam com varas — geralmente os homens e crianças. Minha avó e outras mulheres lavavam a roupa no rio. 

Tenho saudades daquele Tietê,  daquela Tuiuti, e do Tatuapé da minha infância.

Zilda dos Reis Larangeira Santolin é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s