Desligar é preciso!

 

Desligar1

 

Foi-se o tempo em que nas férias tínhamos permissão para o isolamento,  era o momento de descansar o corpo e a mente. Do trabalho ficava-se afastado. Dos problemas do cotidiano, também. Todos a quilômetros de distância, que podia ser medida por linhas telefônicas precárias e caras. Para ligar em casa, ficávamos horas na fila e a conversa tinha de ser rápida para não inviabilizar o orçamento das férias. Estivéssemos no exterior, era mais fácil enviar um cartão postal, que tendia chegar ao destino depois de nós.

 

As notícias não circulavam. Quando muito apareciam estampadas na banca de jornal. Dependendo o lugar, chegavam à tarde. Em outros, só se alguém estivesse chegando à cidade. Lembro que em Nova York costumávamos ir até a rua dos brasileiros onde algumas tabacarias vendiam o Estadão, único jornal que desembarcava por lá nas asas das extintas Varig e Vasp. O que líamos tinha o sabor da novidade.

 

Hoje, assim que acordo, a tela do celular estampa as últimas do dia. O Twitter já me contou pedaços da história. E a caixa de correio eletrônico está cheia de pedidos e ofertas enviados por quem não sabe que você tem direito a férias.

 

Nestes últimos dias, os primeiros das férias, tenho sido bombardeado por tragédias.

 

Aqui na Itália, dois trens se chocam e 27 pessoas morrem. Teria havido falha humana, dizem os investigadores. Um agente de tráfego ferroviário não avisou ao outro que deixou passar despercebido e todos permitiram que dois trens pegassem a mesma via em sentidos contrários. Falha desse diacho da comunicação, o que nos remete a uma contradição moderna: ao mesmo tempo que estamos sufocados de informação, deixamos as essenciais de lado.

 

Além da comunicação, o acidente pode ter sido provocado pela corrupção, também. É o que diz a Autoridade Nacional Anti-Corrupção, Raffaele Cantone: o dinheiro roubado deixa de financiar obras de infraestrutura como as que duplicariam a linha onde ocorreu o acidente, que deveriam ter sido concluídas até o ano passado. Ainda não se iniciaram. Para ele, este é “um problema atávico do nosso país”. Do nosso também.

 

A imagem dos dois trens fundidos em ferro e morte destacada nos jornais e internet em seguida foi substituída pela de um caminhão conduzido por um terrorista, em Nice, na França. Ele atropelou e atirou contra a multidão que comemorava o 14 de julho, feriado nacional para celebrar os valores da Revolução Francesa. São 84 mortos até a última atualização. O motorista é um franco-tunisiano e foi morto por policiais.

 

Claro que eu poderia simplesmente desligar-me de tudo. Ao menos tentar. Deixar o computador fora do alcance ou o celular sem bateria. Talvez tivesse de restringir meu contato com as pessoas a um buongiorno ou uma buona sera, sem abertura para conversas do tipo: “che cosa succede?”.

 

Quem disse que consigo?

 

Aqui estou no computador, atualizando o blog para compartilhar com você, caro e raro leitor, as coisas que se sucedem – como se você não soubesse de tudo isso e mais um pouco. A impressão é que se não fizer isto, o cérebro vai transbordar de informação, o que me remete a percepção de Alain de Botton, filósofo do cotidiano, que  diz sermos todos viciados em notícia.

 

Para relaxar talvez a opção seja se ligar na sensação do momento e se transformar em um caçador de Pokemon. Aqui na Itália, aí no Brasil, ou em qualquer lugar que você navegar no noticiário, vai se deparar com informações sobre o novo jogo da Nintendo. Até autoridades públicas entraram na brincadeira como o prefeito Eduardo Paes pedindo que os monstrinhos cheguem para a Rio2016.

 

O problema é que pra se divertir tem de se conectar. E desligar é preciso!

O rádio na cobertura do 11 de Setembro

 

Para lembrar os 10 anos dos atentados de 11 de Setembro, reproduzo neste post trechos do livro “Jornalismo de Rádio” (Editora Contexto), que publiquei em 2004, no qual, entre tantas histórias, conto como foi a cobertura na rádio CBN dos ataques nos Estados Unidos.

Para ler o texto completo sobre os bastidores desta cobertura da CBN, compre o livro aqui

E ouça aqui o plantão CBN com a primeira notícia sobre o atentado em Nova Iorque

Onze de setembro de 2001 se inicia, antecedido por uma cortina musical tocada na velocidade da emergência que marca as edições extraordinárias no rádio. O primeiro par[agrafo do mais dramático capítulo escrito pelo terrorismo internacional na era moderna é anunciado, ironicamente, em trinta segundos, tempo reservado na comunicação do mundo capitalista para a venda de produtos e a oferta de serviços. No texto improvisado que descreve a cena inicial do prédio em chamas, de 110 andares e 412 metros de altura, se oferece ao público o que seria a propaganda de maior impacto dos grupos anti-americanos.

Os meios de comunicação multiplicam a mensagem enviada por Osama Bin laden e pela Al Qaeda, através de pilotos suicidas e aviões-bomba. Cada veículo, usando de seus recursos característicos para conquistar o público ansioso pela informação. A televisão estava lá quando o segundo Boeing acertou a torre sul do World Trade Center, quinze minutos após o primeiro ataque, transmitindo ao vivo o “espetáculo”. O rádio propagou o feito terrorista narrando o acontecimento em off tube, como nos grandes jogos internacionais de futebol— sem precisar pagar pelos direitos de transmissão. A internet também calçou a cobertura nas imagens da TV, na noticia do rádio e nas informações das agências internacionais, a maioria levando em tempo real material colhido pela CNN.

Nas ruas, o pedestre tem atenção despertada pelo anúncio do painel eletrônico: “Terroristas arremessam aviões sobre WTC”. Na tela do telefone celular, o texto do serviço de mensagem informa; “Torres gêmeas em fogo, após ataque terrorista”. O pager na cintura da calça chama: “Terror no ar: avião com passageiros atinge Pentágono”. Jornais e revistas mobilizam redações para rodar o mais cedo possível uma edição extraordinária — prática abandonada desde o advento da internet.

A sociedade informativa, fenômeno na virada do Terceiro Milênio, acorda para viver o dia que ainda não acabou.

MAIS UM DIA DE TRABALHO

O CBN São Paulo, programa que apresento desde 1999, estava apenas começando. Era hora de falar do esporte com os destaques dos clubes. Antes, já havíamos passado em revista a tropa de repórteres. Cada um apresentando a informação que cobriria naquela manhã. Meteorologia, trânsito, estradas e aeroportos, informações da cidade — este é o nosso foco das 9h30 ao meio-dia, horário destinado ao noticiário local na rádio CBN, que tem boa parte da programação dedicada aos temas nacionais e internacionais.

Logo cedo, após ler um jornal diário, assistir aos telejornais da manhã e ouvir um trecho da programação da rádio, havia negociado com a produção, pelo viva voz do celular no carro, a pauta do dia. A produtora Fabiana Boa Sorte, na redação, havia feito o balanço das reportagens que poderiam entrar gravadas; conversado com o chefe de reportagem para saber quais assuntos seriam cobertos pelos repórteres; e feito varredura nos demais jornais impressos. Também já recebera, pelo correio eletrônico, sugestões de ouvintes e assessores de comunicação.

Ao entrar no ar, duas entrevistas estavam fechadas — ou seja, os convidados estavam disponíveis para falar sobre o tema nos horários propostos. Ainda se aguardava o retorno de um terceiro entrevistado. Não tinha sido encontrado pela produção até aquele momento. Alguém da assessoria dele ficara de telefonar de volta. Os comentaristas␣ tinham assuntos decididos. Os cartuchos com reportagens, sonoras e teasers gravados, estavam separados, cada um com sua devida cabeça redigida em laudas de computador. Ao operador de áudio Paschoal␣Júnior, que comanda a mesa de som responsável por levar a rádio ao ar, havia sido passada as orientações do que seria apresentado. Ele, por sua vez, havia feito algumas sugestões a partir de notícias que lera no jornal ou ouvira na programação da rádio, desde às seis horas da manhã. O pessoal da área técnica é parte integrante da equipe de jornalismo, e tem de ser consultado. Essa interação facilita o andamento do trabalho.

Em geral, buscamos tratar de questões relacionadas à vida do cidadão. Fatos que mexem com o dia a dia do paulistano. Ações de participação da comunidade, à medida em que a parceria com o poder público deve ser incentivada. Também orientam nossa pauta denúncias contra desrespeito aos direitos humanos e a fiscalização do que as autoridades públicas fazem com nosso dinheiro.

A minha frente, o computador recebia mensagens de todo o tipo. A quantidade de spams (material enviado para os correios eletrônicos sem autorização nem utilidade) é enorme e atrapalha a avaliação criteriosa daqueles que merecem alguma atenção.␣Já desperdicei meu tempo levantando a seguinte estatística: de cada vinte e-mails que aterrissam na caixa de correio eletrônico, cinco merecem ser abertos, dos quais três têm de ser respondidos e apenas um tem direito e respeito para ser registrado no ar. Além do correio eletrônico, navegava na internet em busca de informação e acessava as agências de notícias. Um televisor sobre a mesa, ao lado do computador, estava ligado na Globonews, canal de notícias 24 horas, da Rede Globo de Televisão. Entrávamos no ar para mais um programa. Mas era 11 de setembro de 2001.

FOGO NO AR

A agência internacional acabara de anunciar, em apenas uma linha, o incêndio na torre, em Nova York, provocado pelo choque de um avião, e a Globonews interrompia a programação para reproduzir imagens, ao vivo, da CNN. Pelo canal interno, todas as emissoras da CBN eram comunicadas de que em trinta segundos seria formada rede para notícia extraordinária. Imediatamente, quem estava no ar em Cuiabá, Curitiba, Maringá, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília ou qualquer ponto do país em que houvesse retransmissora da Central Brasileira de Notícias parou a entrevista, a reportagem, seja lá o que estivesse sendo apresentado, para ouvir o Plantão CBN, transmitido do estúdio em São Paulo.

Com base nas primeiras informações, anunciei o incêndio no World Trade Center, imaginando um acidente de avião ocorrido há apenas dez minutos. Disse que seria um Boeing 737, mas se descobriu em seguida que o avião era modelo 767, duas␣ vezes mais pesado e com quase o dobro de capacidade para transportar passageiros. Encerrado o plantão, continuamos em rede descrevendo as imagens. O apresentador da CBN no Rio de Janeiro, Sidney Rezende, passou a dividir o comando da programação.

Às 10h03, logo após a leitura do Repórter CBN — síntese noticiosa com duração de dois minutos, que vai ao ar de meia em meia hora —,transmiti ao vivo, o choque do segundo avião, com a voz revelando o impressionante da cena.

Até aquele instante ainda era difícil entender o que acontecia à nossa frente. Impossível não se emocionar, porém, com as imagens. Produtores no Rio e em São Paulo já haviam ligado para correspondentes em Nova York, em Washington e na Europa. Apuradores haviam levantado detalhes nas agências. Quem conhecia alguém nos Estados Unidos, correu para o telefone em busca de informação. Na redação, todos os monitores estavam sintonizados nas emissoras a cabo americanas. O escritório da BBC Brasil também foi acionado. E a cobertura se iniciara há apenas seis minutos.

DEU NO RÁDIO

O “espetáculo” do 11 de setembro foi planejado para ser transmitido pela televisão. A diferença de tempo entre o choque de um e outro avião nas torres gêmeas vai ao encontro dessa idéia. O primeiro, da␣ American Airlines, chamou atenção das emissoras americanas que circulam por Nova York com suas equipes móveis de alta tecnologia.

Quem anda pelas grandes avenidas de Manhattan se depara a todo o momento com os técnicos, sem a companhia de repórteres, em pequenos e ágeis furgões. Haveria tempo suficiente para se direcionar uma câmera para o prédio que se enxergava de vários pontos da ilha. Daí a facilidade para reproduzir, ao vivo e a cores, o segundo ataque.

O recado enviado pelo segundo avião, o Boeing da United Airlines, era claro. Se alguém não havia entendido até então o que estava acontecendo — e eu, que transmitia tudo aquilo, não entendia␣ mesmo — ali estava a verdade. Um ataque programado para se transformar em fenômeno midiático. A câmera era a única forma de contato do mundo com aquele cenário. A aproximação do local atingido era impossível. Toda e qualquer leitura que se fez naquelas primeiras horas foi construída a partir da imagem.

Apesar de o episódio ter privilegiado a televisão, como ocorre nos shows de entretenimento, no Brasil, o rádio teve papel importante na cobertura jornalística do 11 de setembro. No momento em que o ataque se iniciou, boa parte das pessoas não estava mais em casa. Encontravam-se no carro, a caminho do trabalho, ou haviam chegado ao escritório. Nas escolas e universidades, as aulas tinham começado. Muita gente se deslocava a pé nas ruas de comércio. Com esse quadro e com base em análise comparativa da audiência, arrisco dizer que a maioria da população ficou sabendo do atentado pelo rádio.

Números do Ibope deixam evidente a supremacia da programação radiofônica em relação à televisiva na faixa das nove às dez da manhã. Chega a ser, em média, três vezes maior o número de pessoas que ouvem rádio nesse horário do que os que assistem à televisão. Mesmo no decorrer do dia, o número de ouvintes supera o de telespectadores. Pesquisa do␣ Ibope, citada pelo Jornal do Brasil, mostra que no terceiro trimestre de 2003 os ouvintes foram 2.967.603, enquanto os telespectadores não passaram de 2.408.560, entre seis da manhã e sete da noite, no estado de São Paulo.

Não tenho dúvida de que, alertado pelo plantão da rádio jornalística da cidade, o ouvinte saiu à procura do primeiro aparelho de televisão que houvesse nas proximidades. Reação provocada em todo o cidadão que, por outros meios de comunicação, até mesmo o telefonema de um vizinho, teve acesso à notícia. Mas, ao encontrar os canais que reproduziam as imagens da CNN para o mundo, esse cidadão se deparou com âncoras, repórteres e comentaristas atuando como se estivessem no rádio.

Sem acesso à “cena do crime”, a solução foi voltar as câmeras para o local do atentado e, por telefone, conversar com pessoas que escaparam do prédio em chamas, acionar correspondentes internacionais, entrevistar especialistas, falar com autoridades políticas e policiais em uma linguagem muito próxima à do rádio. Os programas jornalísticos na televisão não têm humildade suficiente para aceitar o uso do telefone como meio de informação. Um repórter que esteja diante da notícia, mas sem uma câmera, terá dificuldade de convencer o editor de que o fato deve ser transmitido, apesar da falta de imagem. Foi com o surgimento das emissoras de notícias 24 horas, como Globonews e Bandnews, que esse formato passou a ser aceito na TV brasileira, apesar de ainda encontrar muitas restrições. Antes disso, repórter ou entrevistado falando por telefone era␣cena rara na televisão. Por mais fascinante que seja a TV, fenômeno de massa de enorme impacto na sociedade, a imagem por si só não informa. É perigosa a idéia de que a câmera aberta diz tudo. De que o cidadão não carece de um intermediário para explicar o que vê. Precisa, sim. A reflexão, o questionamento e a apuração dos fatos são imprescindíveis para que o processo de comunicação se complete. Jornalistas e público não podem se tornar reféns da imagem.

O rádio contou para as pessoas o que acontecia no 11 de setembro e elas foram ver na televisão. Encontraram seus apresentadores favoritos fazendo rádio, apesar da imagem. E que imagem.


Leia o restante do texto, no livro Jornalismo de Rádio

EUA usam violência como política contra o terrorismo

 

A morte de Osama Bin Laden levou americanos às ruas, com bandeiras, buzinas, gritos de vitória, banho em fontes públicas e cartazes que destacavam o resultado da ação com o placar de um jogo de futebol: “Obama 1 x 0 Osama”. Uma festa marcada pela vingança ao assassinato de cerca de 3 mil pessoas no 11 de Setembro de 2001 e milhares de outros em uma série de batalhas e confrontos promovidos sob o título de Guerra ao Terror.

Os Estados Unidos não costumam ser felizes nestas tentativas. Tendem a aumentar o ódio e o pensamento anti-imperialista que movem estes alucinados em todo o mundo. Foi esta política, incentivada pela família Bush, a mãe de todos os homens-bomba que explodiram – e os muitos outros que ainda serão detonados, lamentavelmente.

Obama, prêmio de Nobel da Paz, comemorou a morte do inimigo com um grito de justiça. “Uma justiça medieval, a do dente por dente e olho por olho”, disse logo cedo o professor Arthur Bernardes, de Relações Internacionais da PUC do Rio de janeiro.

O presidente americano após as declarações iniciais na qual assumiu o papel de vingador tentou ficar mais próximo da imagem que construiu para a opinião pública, a de um humanista. E, através do esforço de sua assessoria na Casa Branca, tentou mostrar que não tinha dado licença para matar. Teria sido a reação violenta e o uso de escudos humanos (com mulheres) de Osama que levaram a necessidade de abater a presa.

Os depoimentos de americanos que desfilaram nas televisões nessa segunda-feira, muitos falando com o Grau Zero ao fundo, ponto antes ocupado pelas Torres Gêmeas, são emocionantes. Tristes muitas vezes, pois conviver há dez anos com a injustiça dos ataques covardes dos terroristas deixou marcas profundas na alma e coração daquele povo. Fica-se sensibilizado diante da dor e a tendência é apoiar medidas drásticas e assassinas contra Osama e qualquer outra pessoa suspeita de fazer parte do mesmo ideal.

Mesmo diante de tudo isso, ainda sou favorável a comportamentos civilizados como melhor arma contra os que promovem o terror. Atacar com violência os violentos me parece, às vezes, apenas fazer o jogo destes e reforçar o discurso doente que os incentiva.

Por isso, não me surpreendo ao encontrar em texto de Walter Maeirovitch, no Blog Sem Fronteira, a análise que mais se aproxima a minha ideia sobre o tema:

“… a incivilidade não é a regra no Ocidente que tanto incomodava o terrorista. O respeito à pessoa humana é a regra e entre nós existem, com jurisdição internacional, as cortes de direitos humanos”

Para dizer e escrever isso, porém, é preciso coragem diante da pressão popular e, algumas vezes, da própria opinião dos mais próximos.