Onze de setembro: no bastidor do rádio

2a parte do capítulo do livro “Jornalismo de Rádio” com lições jornalísticas no 11 de setembro

FOGO NO AR 

A agência internacional acabara de anunciar, em apenas uma linha, o incêndio na torre, em Nova York, provocado pelo choque de um avião, e a Globonews interrompia a programação para reproduzir imagens, ao vivo, da CNN. Pelo canal interno, todas as emissoras da CBN eram comunicadas de que em trinta segundos seria formada rede para notícia extraordinária. Imediatamente, quem estava no ar em Cuiabá, Curitiba, Maringá, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília ou qualquer ponto do país em que houvesse retransmissora da Central Brasileira de Notícias parou a entrevista, a reportagem, seja lá o que estivesse sendo apresentado, para ouvir o Plantão CBN, transmitido do estúdio em São Paulo.

Com base nas primeiras informações, anunciei o incêndio no World Trade Center, imaginando ter sido um acidente de avião ocorrido há apenas dez minutos. Disse que seria um Boeing 737, mas se descobriu em seguida que era modelo 767, duas vezes mais pesado e com quase o dobro de capacidade para transportar passageiros. 

Encerrado o plantão, continuamos em rede descrevendo as imagens. O apresentador da CBN no Rio de Janeiro, Sidney Rezende, passou a dividir o comando da programação. Às 10h03, logo após a leitura do Repórter CBN – síntese noticiosa com duração de dois minutos, que vai ao ar de meia em meia hora –, transmiti, ao vivo, o choque do segundo avião, com a voz revelando o impressionante da cena. 

Até aquele instante ainda era difícil entender o que acontecia à nossa frente. Impossível não se emocionar, porém, com as imagens. Produtores no Rio e em São Paulo já haviam ligado para correspondentes em Nova York, em Washington e na Europa. Apuradores haviam levantado detalhes nas agências. Quem conhecia alguém nos Estados Unidos, correu para o telefone em busca de informação. Na redação, todos os monitores de televisão estavam sintonizados nas emissoras a cabo americanas. O escritório da BBC Brasil também foi acionado. E a cobertura se iniciara há apenas seis minutos. 

DEU NO RÁDIO 

O “espetáculo” do 11 de setembro foi planejado para ser transmitido pela televisão. A diferença de tempo entre o choque de um e outro avião nas torres gêmeas vai ao encontro dessa ideia. O primeiro, da American Airlines, chamou atenção das emissoras americanas que circulam por Nova York com suas equipes móveis de alta tecnologia. Quem anda pelas grandes avenidas de Manhattan se depara a todo o momento com os técnicos, sem a companhia de repórteres, em pequenos e ágeis furgões. Haveria tempo suficiente para se direcionar uma câmera para o prédio que se enxergava de vários pontos da ilha. Daí a facilidade para reproduzir, ao vivo e em cores, o segundo ataques.

O recado enviado pelo segundo avião, o Boeing da United Airlines, era claro. Se alguém não havia entendido até então o que estava acontecendo – e eu, que transmitia tudo aquilo, não entendia mesmo – ali estava a verdade. Um ataque programado para se transformar em fenômeno midiático. A câmera era a única forma de contato do mundo com aquele cenário. A aproximação do local atingido era impossível. Toda e qualquer leitura que se fez naquelas primeiras horas foi construída a partir da imagem. 

Apesar de o episódio ter privilegiado a televisão, como ocorre nos shows de entretenimento, no Brasil, o rádio teve papel importante na cobertura jornalística do 11 de setembro. 

No momento em que o ataque se iniciou, boa parte das pessoas não estava mais em casa. Encontrava-se no carro, a caminho do trabalho, ou havia chegado ao escritório. Nas escolas e universidades, as aulas tinham começado. Muita gente se deslocava a pé nas ruas de comércio. Com esse quadro e com base em análise comparativa da audiência, arrisco dizer que a maioria da população ficou sabendo do atentado pelo rádio. 

Números do Ibope deixam evidente a supremacia da programação radiofônica em relação à televisiva na faixa das nove às dez da manhã. Chega a ser, em média, três vezes maior o número de pessoas que ouvem rádio nesse horário do que os que assistem à televisão. Mesmo no decorrer do dia, o número de ouvintes supera o de telespectadores. Pesquisa do Ibope, citada pelo Jornal do Brasil, mostra que no terceiro trimestre de 2003 os ouvintes foram 2.967.603, enquanto os telespectadores não passaram de 2.408.560, entre seis da manhã e sete da noite, no estado de São Paulo. 

Não tenho dúvida de que, alertado pelo plantão da rádio jornalística da cidade, o ouvinte saiu à procura do primeiro aparelho de televisão que houvesse nas proximidades. Reação provocada em todo o cidadão que, por outros meios de comunicação, até mesmo o telefonema de um vizinho, teve acesso à notícia. Mas, ao encontrar os canais que reproduziam as imagens da CNN para o mundo, esse cidadão se deparou com âncoras, repórteres e comentaristas atuando como se estivessem no rádio. 

Sem acesso à “cena do crime”, a solução foi voltar as câmeras para o local do atentado e, por telefone, conversar com pessoas que escaparam do prédio em chamas, acionar correspondentes internacionais, entrevistar especialistas, falar com autoridades políticas e policiais em uma linguagem muito próxima à do rádio. 

Os programas jornalísticos na televisão não têm humildade suficiente para aceitar o uso do telefone como meio de informação. Um repórter que esteja diante da notícia, mas sem uma câmera, terá dificuldade de convencer o editor de que o fato deve ser transmitido, apesar da falta de imagem. Foi com o surgimento das emissoras de notícias 24 horas, como Globonews e Bandnews, que esse formato passou a ser aceito na TV brasileira, apesar de ainda encontrar muitas restrições. Antes disso, repórter ou entrevistado falando por telefone era cena rara na televisão. 

Por mais fascinante que seja a TV, fenômeno de massa de enorme impacto na sociedade, a imagem por si só não informa. É perigosa a ideia de que a câmera aberta diz tudo. De que o cidadão não carece de um intermediário para explicar o que vê. Precisa, sim. A reflexão, o questionamento e a apuração dos fatos são imprescindíveis para que o processo de comunicação se complete. Jornalistas e público não podem se tornar reféns da imagem. 

O rádio contou para as pessoas o que acontecia no 11 de setembro e elas foram ver na televisão. Encontraram seus apresentadores favoritos fazendo rádio, apesar da imagem. E que imagem. 

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4 comentários sobre “Onze de setembro: no bastidor do rádio

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