Semana de quatro dias de trabalho: um ano depois, estudo mostra o que deu certo e o que tem de melhorar

Foto de fauxels

Um ano após o início do projeto-piloto de semana de trabalho de quatro dias no Reino Unido, a maioria das empresas participantes decidiu manter essa política, com resultados positivos notáveis. De 61 organizações que participaram do programa, que se iniciou em fevereiro de 2023, 89% continuam aplicando a medida, e 51% a tornaram permanente. É o que mostra relatório “Making it stick: the UK four-day week pilot one year on” divulgado pela Autonomy, que coordenou o projeto em parceria com pesquisadores das universidades de Cambridge e Oxford, bem como do Boston College.

A pesquisa aponta um impacto “positivo” ou “muito positivo” na maioria das empresas, com melhorias no bem-estar dos funcionários, redução da rotatividade e aprimoramento no recrutamento. A partir da avaliação feita pelos principais executivos das organizações que aceitaram testar o modelo constatou-se que 82% observaram que melhoraram os níveis de bem-estar dos funcionários, 50% notaram efeitos positivos da diminuição de rotatividade de trabalhadores e 32% apontaram que o recrutamento foi aprimorado. 

Benefícios sustentáveis e estratégias de implementação

Os benefícios para a saúde física e mental dos funcionários, assim como o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, mantiveram-se ou melhoraram desde o início do piloto.  Para Juliet Schor, professora de Sociologia no Boston College, os resultados são “excelentes”:

“Os resultados globais mantiveram-se e, em alguns casos, continuaram a melhorar. A saúde física e mental e o equilíbrio entre vida pessoal e profissional estão significativamente melhores do que aos seis meses. As melhorias no esgotamento e na satisfação com a vida mantiveram-se estáveis. A satisfação no trabalho e os problemas de sono diminuíram um pouco, mas a maior parte da melhoria original permanece”.  

Um aspecto importante para avaliarmos as possibilidades de desenvolvermos essa ideia na empresa em que trabalhamos é entender em quais setores o modelo funciona melhor. A maior parte das empresas que participaram neste projeto-piloto é da área de marketing e publicidade, serviços profissionais e setor sem fins lucrativos. As demais são ligadas a indústria da construção, manufatura, varejo, saúde, arte e entretenimento.

O estudo também identifica que as organizações adotaram estratégias diversas para sustentar a política de quatro dias semanais de trabalho, incluindo revisão de reuniões e aprimoramento da comunicação. Ficou evidente a necessidade de se ter regras claras de como essa política vai ser implementada e, principalmente, de quais serão os compromissos que as partes envolvidas terão de assumir.

Desafios e reflexões para o futuro

A implementação parcial da semana de quatro dias em algumas empresas revela um panorama misto, onde esse modelo é encarado mais como um “privilégio” do que um “direito” inalienável. Para ter direito ao dia de folga adicional, é imprescindível que todas as tarefas sejam previamente concluídas. No entanto, a aplicação dessa regra varia significativamente entre as equipes. Enquanto algumas adotam plenamente a nova cultura, organizando suas agendas para garantir um dia livre toda semana, outras ainda mantêm o foco nos compromissos profissionais, relegando a folga a um plano secundário.

Diante dessa realidade, surge a reflexão sobre como diferentes organizações administram suas comunicações externas e internas. A chave para o sucesso parece residir na definição clara de expectativas, na delimitação de horários de trabalho até em comunicações por e-mail e na introdução de certa flexibilidade. Essas estratégias, embora originárias de setores diversos, sugerem que a preparação antecipada e a os processos de adaptação são fundamentais para superar obstáculos ao longo do período experimental.

Esse cenário sublinha a crucial importância do engajamento conjunto de funcionários e gestores na mudança proposta, desde o início até a conclusão do período de testes. A falta de um comprometimento contínuo pode levar a resultados insatisfatórios, com a adoção de soluções que não atendam plenamente às necessidades da equipe ou da organização. Portanto, a colaboração e a comunicação efetiva entre todas as partes interessadas emergem como elementos vitais para o êxito da semana de trabalho de quatro dias.

O ritual do desfazer das malas é o fim de uma etapa e o reinício de outra

Foto de Vlada Karpovich

O primeiro dos três lançamentos do livro “Escute, expresse e fale!”, em Portugal, foi na livraria “Ler Devagar”, em Lisboa. Na sala do segundo andar, ao lado da mesa em que os autores fariam a apresentação havia uma tribuna. A peça foi providenciada pela Escolar Editora, uma exigência de António Sacavém, um dos colegas de escrita. Quis saber da necessidade daquele espaço e meu companheiro lusitano respondeu: “o ritual é importante”. Seria na tribuna, lugar que costumo chamar de púlpito — para desespero dos especialistas em cerimonial —, que o convidado principal falaria com o público: o empresário João Manuel Nabeiro, herdeiro de uma dos maiores grupos empresariais de Portugal, o Delta. Ele estaria sentado ao nosso lado durante todo o evento, mas sua abertura foi solene. No púlpito. Ou na tribuna!

Rituais têm importância nas sociedades porque dão significado e sentido às experiências humanas; proporcionam um senso de conexão e pertencimento, permitindo que as pessoas se unam em torno de valores, crenças e práticas comuns; e são uma forma importante de transmitir e preservar a cultura de geração em geração. Naquele caso, em Portugal, justificava-se a partir de outro conceito bastante comum diante do tema: os rituais são frequentemente usados para celebrar conquistas, marcos importantes e eventos significativos na vida das pessoas. Eles fornecem uma oportunidade para reconhecer e honrar indivíduos ou grupos, promovendo um senso de valorização e inclusão. Os rituais de celebração também desempenham um papel na construção de memórias coletivas e na criação de momentos felizes e memoráveis. 

Foram felizes e memoráveis os momentos que marcaram o início desse meu período de férias ao ter a oportunidade de participar deste que é um ritual na publicação de livros: a sua apresentação ao público seguida de sessão de autógrafos, em especial por ser a primeira vez que experimento essas sensações no exterior. Estive em três cidades portuguesas ao lado de meus colegas autores — o Sacavém que já citei, a Leny Kyrillos e o Thomas Brieu — e para cada um dos públicos falamos dos propósitos que nos uniram e dos ensinamentos que reunimos.

Depois da passagem por Portugal foi a vez de voltar à Itália, terra de onde saiu o bisavô Vitaliano Ferretti que se estabeleceu em Minas Gerais antes de chegar ao Rio Grande do Sul. Havia alguns anos que não visitava o país ao qual frequentei com insistência, desde 1993, graças a uma série de privilégios que tive na vida — desde pessoas para me acolher até facilidades logísticas para se deslocar até lá. Com a pandemia e alguns compromissos anteriores, tive de segurar a saudade até matá-la de vez neste calorento mês de Julho. Oportunidade em que revi locais e amigos para minha felicidade. Aliás, eis um ritual que mantenho em viagens: revisitar lugares em que estive para poder recontar as histórias que vivenciei. É como se ao rever endereços em que já me hospedei ou estive me fizesse reencontrar com o que já fui.

Nesse sábado, às vésperas da retomada ao trabalho, deparei com outro ritual: o desfazer das malas. Pode ser comezinho para muitos. Para mim é ritual que se caracteriza pelo respeito a estrutura e a ordem à vida cotidiana. Faz parte dos rituais que nos ajudam a lidar com a incerteza e a complexidade do mundo moderno, oferecendo previsibilidade e estabilidade. É a forma de marcar o fim de um ciclo, o recomeço de outro. 

Sou incapaz de deixar a mala em um canto da casa a espera de ser desfeita. Tem de ser de imediato. Abro e início de forma disciplinada a separação dos pertences. A roupa para lavar e a que dá para dobrar e guardar; a lembrança de amigos e parentes e as lembranças de viagem; o presente que me dei e os que recebi;  os acessórios que tornaram a viagem acessível e os trocados em moeda estrangeira que restaram — sempre sobram e a gente esquece de levar na próxima. 

A mala desfeita é o ritual que me permite pensar no que virá no dia seguinte. Nos planos que deixei para agora. Nos compromissos que assumi com os amigos durante as férias que se equivalem as resoluções de fim de ano. Os rituais oferecem uma forma de interpretar eventos importantes e ajudam as pessoas a encontrar propósito e significado em suas vidas. Podem abordar questões existenciais, fornecer conforto em tempos de dificuldade e celebrar conquistas e marcos pessoais. 

No ritual do desfazer das malas, comemorei mais uma etapa vencida. Que venham novas! Agora, no trabalho para onde volte nesta segunda-feira!

Procrastinação: na volta a gente fala sobre isso

Com o fim das férias se aproximando em alta velocidade, paro alguns minutos (apenas alguns porque não quero perder tempo de descanso) para pensar sobre o que havia planejado para esses dias, tarefas que fiquei de fazer enquanto estivesse longe do trabalho e projetos que havia programado para a volta. Talvez tenha feito mais do que devesse — considerando as recomendações dos especialistas em saude mental e relaxamento — e bem menos do que imaginei há três semanas. Com certeza li muito e de tudo um pouco. Hoje mesmo, assim que acordei, deparei com a newsletter de Leo Calcio, um italiano especialista em gestão de marcas, que trazia artigo com o título: “Vamos conversar sobre isso em setembro?”.

A frase-título do artigo, escrita na forma de pergunta, costuma ser dita em tom de afirmação, especialmente em ambientes profissionais, na Itália, de acordo com Calcio. É o jeito italiano de procrastinar decisões neste período do ano, quando se iniciam as férias de verão.  É algo como nós, no Brasil, deixando os temas mais relevantes para depois do Carnaval. A intenção por trás do “deixa para setembro” ou do “depois do Carnaval” é não lidar com o problema imediatamente e postergá-lo para um momento futuro e indeterminado. A atitude cria uma falsa sensação de alívio, mas acaba afastando todos de uma solução imediata e até mesmo de uma transação financeira vantajosa — já que estamos falando aqui de projetos profissionais.

Os motivos por trás da escolha de setembro

Embora a escolha de setembro como o mês para retomar as discussões possa parecer arbitrária, existe um contexto cultural e psicológico por trás disso, explica Calcio. Muitos veem setembro como o mês do “recomeço”, um período em que se sentem mais motivados e dispostos a enfrentar novos desafios — no caso europeu, devido as férias de verão no meio do ano, uma segunda chance de recomeçar, já que a sensação de janeiro é a mesma. Além disso, a volta ao trabalho tende a despertar um senso de urgência em retomar os compromissos. Então, deixemos para quando as férias terminarem.

Comportamento humano diante de compromissos

Seja com a justificava de quando setembro chegar ou quando o Carnaval passar, a procrastinação é um traço comum do comportamento humano quando se trata de compromissos e responsabilidades. Ela pode ser causada por diversos fatores, como medo do fracasso, falta de motivação ou desejo de preservar a zona de conforto. Compreender esses motivos nos ajuda a lidar de forma mais eficaz com a procrastinação e melhorar nossa produtividade.

“Certo? Errado? Provavelmente a última opção. Exceto pelo fato de estarmos no verão, a vida é mais do que trabalho e, por uma vez, talvez pudéssemos parar de nos perguntar “por que” das coisas e “deixar ir”, sem forçar algo que claramente não é forçado porque faz parte da cultura de nosso país desorganizado, mas também virtuoso”.

Leo Calcio

Dados sobre a procrastinação e suas consequências

Somos muito parecidos, brasileiros e italianos, em relação a procrastinação. Mas não somos apenas nós. É do ser humano  a despeito dos males que essa prática exagerada possa causar. Estudos têm mostrado que a procrastinação pode ter efeitos negativos tanto no ambiente de trabalho quanto na vida pessoal. Ela leva a atrasos, aumento do estresse e redução da qualidade do trabalho. É importante reconhecer essas consequências para buscar soluções e estratégias que nos ajudem a superar a procrastinação.

Estratégias para lidar com a procrastinação

Calcio brinca ao fim de seu artigo, perguntando aos leitores se devemos falar desse assunto, a procrastinação, agora ou devemos deixar para setembro. Por brasileiros que somos e diante do fato de que estarei retornando ao trabalho em três dias e, portanto, não terei mais como fugir de alguns compromissos que posterguei, vamos a algumas estratégias para lidar com a procrastinação — esse hábito que nunca tira férias:

  • a) Conscientização: Reconheça os padrões de procrastinação em sua vida e esteja ciente dos momentos em que está adiando compromissos importantes.
  • b) Defina metas claras: Estabeleça metas específicas e mensuráveis, e divida-as em etapas menores para torná-las mais alcançáveis.
  • c) Gerencie seu tempo: Utilize técnicas de gestão do tempo, como a técnica Pomodoro*, para ajudar a manter o foco e a produtividade.
  • d) Encontre motivação: Descubra o que o inspira e motive-se com recompensas ou prazos estabelecidos.
  • e) Busque apoio: Compartilhe seus objetivos com outras pessoas, que possam lhe fornecer suporte e prestação de contas.

*Técnica Pomodoro é um método de gerenciamento de tempo desenvolvido por Francesco Cirillo no final dos anos 1980. A técnica consiste na utilização de um cronômetro para dividir o trabalho em períodos de 25 minutos, separados por breves intervalos.[1] A técnica deriva seu nome da palavra italiana pomodoro (tomate), como referência ao popular cronômetro gastronômico na forma dessa fruta. O método é baseado na ideia de que pausas frequentes podem aumentar a agilidade mental (Wikipedia)

Trabalho nas férias desde que a internet se comprava na venda

De Orbetello/Itália

A praça Eroe dei due mondi e o bar que vendia internet Foto: eu mesmo

Da primeira vez que estive aqui, sinal de internet se comprava na venda. Foi em 2008, época em que as atividades nesse blog eram intensas e a busca por um acesso à “rede mundial de computadores” — sim, naqueles tempos ainda era comum essa expressão —, uma aventura. Fui encontrá-lo no bar e tabacaria da praça principal de Orbetello, cidade italiana que estou hospedado desde o fim da semana passada e de onde me vou em seguida para outra cidade na vizinhança. Não tenho ideia de quantos euros me custavam uma hora de navegação em um dos computadores Windows à disposição. Lembro que a conexão era lenta e baixar fotos ou publicá-las exigiam um pouco de paciência.

Nesses 15 anos, muita coisa mudou — perdão, pela frase óbvia —, haja vista a facilidade com que publico esse texto, a partir do 5G de meu celular e diretamente da areia da praia. O bar e tabacaria, não mudaram. Tão pouco, a praça principal,  Eroe dei due mondi — referência a Giuseppe Garibaldi, que fez das suas lá pelas bandas do Rio Grande do Sul e talvez seja lembrado por alguns como o marido da Anita (a Garibaldi). 

Minha presença aqui no Argentário e arredores se tornou frequente desde que conheci a região. Uma casa de familiares próximos, nos altos da praia de Ansedonia, com vista para o Tirreno, tornaram acessível as férias na Itália, a despeito da valorização do Euro, do aumento do preço da passagem de avião e da perda de poder aquisitivo no Brasil – longe de mim reclamar diante dos privilégios que a vida me ofereceu.

A pandemia deixou-me a Itália distante e somente agora conseguimos retornar com tranquilidade, não sem antes sentir as emoções que Portugal me reservava.

Na primeira semana de “férias” — as aspas explico mais adiante —, vivenciei um dos momentos mais realizadores da quase sexagenária experiência que tenho. Ao lado de três colegas autores, lancei o livro “Escute, expresse e fale! Domine a comunicação e seja um líder poderoso”, em Lisboa, Porto e Cascais. Em acordo com a editora Rocco, que já nos deu o prazer de publicar a terceira edição, no Brasil, a portuguesa Escolar Editora levará o livro aos demais países de língua portuguesa. 

Com Antònio Sacavèm, Thomas Brieu e Leny Kyrillos, tivemos a a oportunidade de encontrar leitores em dias de extremo calor, muita alegria e tertúlia. Fizemos apresentações nas três cidades, diante de uma plateia entusiasmada e interessada em saber mais sobre o poder da comunicação nas relações humanas. Encontrei ouvintes além-mar, amigos que estavam distantes, brasileiros expatriados e lusitanos que me foram apresentados – uma gente que talvez nunca saberá exatamente o que a presença dela nas livrarias significou no meu coração. E se pensa que sabe, vou contar-lhe: dobre esse significado, multiplique quantas vezes for capaz de imaginar e talvez você se aproxime da satisfação que esses momentos me proporcionaram.

Fomos os primeiros autores brasileiros publicados pela Escolar Editora que pretende repetir essa experiência com outros escritores da minha terra — e saber disso me fez ainda mais realizado.

Quando a Rocco acreditou em nosso potencial, ainda em 2022, também estava atrás de autores brasileiros, o que nos permitiu concretizar o sonho de publicarmos um livro que alguns entendiam ser de pouco alcance: “o leitor não gosta de livro com muitos autores”, me disse um editor. Realmente, livro de muitos autores são complexos, o que apenas valoriza o esforço que Antònio, Thomas, Leny e eu tivemos de fazer para a escrita traduzir os múltiplos conhecimentos, culturas e sotaques em um diálogo próximo do leitor como se fossemos um só a falar.

Sei que colegas que permanecem no Brasil, a comandar o Jornal da CBN (leia-se Cássia Godoy e Marcella Lourenzetto), e seus cúmplices têm cometido o crime de difamação contra este que lhe escreve. Usam a força do rádio para construir a imagem de que sou o “Rei das Férias” quando, de verdade, mal consigo usar o tempo previsto em lei para relaxar. 

Perceba, caro e cada vez mais raro leitor deste blog, que a primeira semana fora do Brasil foi a trabalho: lançar livro, fazer palestra e costurar novos negócios exigem habilidade profissional, apuro técnico, competência relacional e conhecimento psicossocial. Agora, já na Itália, cá estou escrevendo, o que também tem relação com meu trabalho. E seguirei a fazê-lo inclusive lançando novos colaboradores — não deixe de voltar ao blog nesta segunda-feira — e retomando uma prática esquecida no tempo: a de falar da vida, do cotidiano, de fatos comezinhos e compartilhar tudo isso com você que ainda está por aqui — um desejo que me tomou quando em pesquisa no blog descobri o primeiro texto escrito, aqui de Orbetello, lá em 2008, na época em que internet se comprava na venda. Desde lá, trabalho nas férias. Com muito prazer!

Semana de Quatro Dias: empresas brasileiras iniciam estudo que pode gerar uma revolução da produtividade e bem-estar no trabalho

Entenda como a semana de quatro dias está transformando a maneira como trabalhamos

Você já ouviu falar da semana de quatro dias? Essa nova abordagem do mundo corporativo está ganhando espaço no Brasil e promete trazer benefícios significativos tanto para a produtividade quanto para o bem-estar dos colaboradores. Renata Rivetti, especialista em psicologia positiva e felicidade no trabalho, diretora da  Reconnect Happiness at Work, é responsável por estudos que começam a ser realizados com empresas brasileiras para descobrir como a semana de quatro dias pode revolucionar a forma como trabalhamos. Ela foi entrevista pelo programa Dez Por Cento Mais, no YouTube, apresentado pela jornalista Abigail Costa e a psicóloga Simone Domingues, que colaboram com este blog.

A busca por eficiência e produtividade tem sido uma constante nas empresas, mas muitas vezes estamos presos em um ciclo de interrupções, reuniões improdutivas e falhas na comunicação. Essa sobrecarga geralmente está relacionada à ineficiência e falta de planejamento, ao invés de uma verdadeira busca por maior produtividade. Renata Rivetti destaca que é essencial repensar nossos métodos de trabalho e adotar uma abordagem mais inteligente e focada.

O fenômeno do burnout tem se tornado mais comum em diversas partes do mundo. No Brasil, as denúncias contra empregadores têm aumentado consideravelmente. No Japão, o índice é alarmante — 70% da população economicamente ativa diz ter tido burnout (conforme informação publicada em edição da revista Exame, em 2020).  Renata, que esteve recentemente na capital japonesa, compartilha sua experiência ao observar as pessoas exaustas e até dormindo no transporte público ao longo de todo o percurso. Para ela, essa obsessão pela produtividade e apegada ao trabalho está fazendo com que seja necessário repensar nossas prioridades. A mudança se faz urgente!

A Microsoft do Japão foi uma das pioneiras a adotar a semana de quatro dias e obteve resultados surpreendentes. Através da implementação de regras que restringiam a quantidade e duração de reuniões, a empresa conseguiu aumentar a eficiência e produtividade dos colaboradores. Mudanças simples no dia a dia podem fazer toda a diferença, e a ideia de trabalhar menos e melhor está se tornando uma realidade.

Empresas brasileiras aderem a estudo da semana de quatro dias

No Brasil, a aceitação do projeto da semana de quatro dias tem sido positiva. Com o objetivo de aumentar a produtividade e promover um melhor equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, a proposta é que profissionais se comprometam a trabalhar durante quatro dias, mantendo a mesma produtividade de cinco dias, e sejam recompensados com um dia extra de folga. A repercussão do projeto tem sido significativa com mais de 350 empresas tendo revelado interesse em participar dos estudos no país. Desde microempresas até multinacionais de grande porte, diversos setores da economia estão se engajando nessa iniciativa. A Four Day Week Global, em parceria com a Reconnect, está liderando esse movimento, promovendo sessões informativas para as empresas. Segundo Renata, o engajamento tem sido surpreendente, refletindo a demanda crescente por uma abordagem mais equilibrada e saudável em relação ao trabalho.

É importante ressaltar que a semana de quatro dias não implica em redução salarial. O objetivo é que as empresas possam alcançar o mesmo resultado em um tempo menor, proporcionando aos colaboradores um dia extra de descanso e lazer. Renata Rivetti destaca que muitos participantes dos pilotos relataram uma mudança significativa em suas rotinas, comprometendo-se a abandonar hábitos improdutivos e reorganizar sua jornada de trabalho. O resultado foi um aumento da eficiência e um maior sentimento de realização.

Semana de quatro dias é uma tendência global

A tendência da semana de quatro dias está alinhada com um movimento global em busca de uma nova concepção de trabalho, onde o bem-estar e a qualidade de vida dos colaboradores são valorizados. Afinal, trabalhar menos horas não significa necessariamente uma diminuição da produtividade. Pelo contrário, ao reduzir o tempo gasto em atividades ineficientes e promover uma maior concentração nas tarefas essenciais, é possível obter resultados ainda melhores.

As empresas interessadas em participar desse movimento devem se cadastrar no site da  Reconnect Happiness at Work e participar das sessões informativas para entender os detalhes e requisitos do piloto, . O projeto terá a duração de seis meses, a partir de novembro, e proporcionará uma experiência única de experimentar uma nova forma de trabalho.

Com a semana de quatro dias, o Brasil se une a outros países que estão adotando essa abordagem e colhendo os benefícios tanto para os negócios quanto para os colaboradores. É uma oportunidade de repensar a forma como encaramos o trabalho, valorizando não apenas a quantidade de horas dedicadas, mas também a eficiência, a qualidade de vida e a busca por um equilíbrio saudável.

Em um mundo em constante transformação, é essencial abraçar iniciativas que promovam a felicidade e o bem-estar no ambiente de trabalho. A semana de quatro dias surge como uma alternativa promissora, trazendo consigo a possibilidade de trabalhar menos e trabalhar melhor. É hora de repensar nossos métodos e adotar uma abordagem mais inteligente, que valorize tanto a produtividade quanto o bem-estar dos colaboradores. 

Assista à entrevista completa de Renata Rivetti ao Dez Por Cento Mais na qual fala também sobre estratégias para se alcançar a felicidade no trabalho e cuidados que as pessoas devem ter para não transformarem a busca pela felicidade em uma obsessão que poderá trazer resultados frustrantes:

Leia também o texto a seguir sobre a semana de quatro dias publicado neste blog

Trabalho de quatro dias na semana: uma nova abordagem pós-pandemia

Por Mia Codegeist

A pandemia da Covid-19 transformou a maneira como vivemos e trabalhamos, acelerando a adoção de novos modelos de trabalho remoto e flexível. Uma tendência que tem ganhado destaque é o trabalho de quatro dias na semana, uma abordagem inovadora que busca equilibrar a produtividade e o bem-estar dos funcionários.

O trabalho remoto e a necessidade de flexibilidade pós-pandemia

Após o impacto da pandemia, muitas empresas adotaram o trabalho remoto como medida de segurança. Essa transição evidenciou os benefícios de flexibilidade e autonomia oferecidos aos colaboradores. Com menos tempo gasto em deslocamentos e uma melhor integração entre vida pessoal e profissional, as pessoas buscaram uma nova maneira de trabalhar, que possibilitasse um melhor equilíbrio entre trabalho e qualidade de vida.

O modelo de trabalho de quatro dias na semana

O trabalho de quatro dias na semana é uma resposta a essa busca por equilíbrio. Ao reduzir a carga horária para quatro dias, os funcionários têm mais tempo para descansar, cuidar de si mesmos, passar tempo com a família e se engajar em atividades pessoais. Esse modelo promove a recuperação de energia e aumenta a motivação e a produtividade durante os dias de trabalho.

Benefícios para os funcionários e para as empresas

Ao implementar o trabalho de quatro dias na semana, as empresas podem observar uma série de benefícios. Funcionários mais satisfeitos tendem a ter uma melhor saúde mental, menor índice de burnout e maior retenção de talentos. Além disso, a redução do tempo de trabalho pode levar a um aumento na eficiência e na criatividade, resultando em maior produtividade durante os dias de trabalho.

Avaliação e resultados iniciais

Após a pandemia, várias empresas ao redor do mundo começaram a avaliar o modelo de trabalho de quatro dias na semana como uma alternativa viável. Pesquisas preliminares indicam resultados positivos, com funcionários relatando maior satisfação, bem-estar e equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Além disso, empresas que implementaram essa abordagem observaram redução no absenteísmo e aumento da motivação dos funcionários.

Uma solução inovadora

O trabalho de quatro dias na semana surgiu como uma resposta ao desafio de equilibrar a produtividade e o bem-estar dos funcionários no ambiente de trabalho pós-pandemia. Essa abordagem oferece benefícios tanto para os colaboradores quanto para as empresas, promovendo uma melhor qualidade de vida, maior motivação e aumento da eficiência. À medida que mais empresas avaliam e adotam esse modelo, é importante reconhecer seu potencial de transformar a forma como trabalhamos, construindo um futuro mais flexível e saudável.

No entanto, é importante destacar que a implementação do trabalho de quatro dias na semana requer planejamento e adaptação. Cada empresa deve analisar cuidadosamente sua estrutura e necessidades operacionais, buscando encontrar o equilíbrio certo para sua equipe. Além disso, é fundamental estabelecer uma comunicação clara e eficaz entre os membros da equipe, definindo expectativas e metas realistas.

À medida que avançamos em direção a um novo normal no mundo do trabalho, é encorajador ver a evolução e a experimentação de novos modelos. O trabalho de quatro dias na semana é um exemplo disso, proporcionando uma oportunidade para repensarmos a maneira como abordamos o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

Portanto, diante dos desafios impostos pela pandemia da Covid-19, o trabalho de quatro dias na semana emerge como uma solução inovadora, permitindo que os funcionários se sintam mais engajados, produtivos e realizados. À medida que avançamos para o futuro do trabalho, é essencial considerar abordagens flexíveis e adaptáveis, que priorizem o bem-estar e a saúde mental dos colaboradores. O trabalho de quatro dias na semana é uma opção promissora que merece ser explorada e considerada pelas empresas que buscam uma transformação positiva em sua cultura corporativa.

Juntos, podemos moldar um ambiente de trabalho mais equilibrado, onde o tempo e a qualidade de vida sejam valorizados tanto quanto a produtividade. O trabalho de quatro dias na semana é apenas o começo dessa jornada rumo a uma nova maneira de trabalhar e viver.

Mia Codegeist é autor que abusa da inteligência artificial para compartilhar conhecimento sobre temas relevantes à sociedade.

Mundo Corporativo: Julio Campos, do Movimento Jovens do Brasil, convida você a transformar a potência da juventude em realidade

Nos bastidores do Mundo Corporativo. Foto de Priscila Gubiotti

“Cada vez mais é importante que a sociedade se mobilize porque é dessa forma que a gente vai transformar a potência do jovem numa realidade para o país”. 

Julio Campos, Movimento Jovens do Brasil

A população brasileira está prestes a assistir uma transformação no seu perfil demográfico. Atualmente, ainda temos uma quantidade enorme de jovens e adultos com potencial de levarem o país ao crescimento econômico e a dar um salto de qualidade. É o que os técnicos chamam de “bônus demográfico” — mais jovens e adultos do que idosos e dependentes da Previdência Social. Haverá, porém, uma queda expressiva da população e o aumento no número de idosos se acentuará — e diante dessa transição virá o “bônus demográfico”. Mais gente sendo sustentada pela Previdência, menos produzindo. 

Temos uma janela de oportunidade se fechando e será preciso investir fortemente na juventude para inserir essa população no mercado de trabalho. Esse é um dos desafios do Movimento Jovens do Brasil uma iniciativa de Luiza Helena, do Magazine Luiza, e de Julio Campus, CEO da Compra Agora, que surgiu em 2018. Entrevistado pelo Mundo Corporativo, Julio disse que a educação é o fator primordial para inclusão dos jovens, oferecendo-lhes escolhas e preparo adequado. 

“O acesso à educação e às oportunidades são fundamentais para que os jovens possam avançar em suas carreiras”.

O movimento tem como objetivo oferecer treinamento de habilidades técnicas, cognitivas, emocionais e sociais aos jovens, capacitá-los para que se tornem agentes de transformação na sociedade, conectá-los a oportunidades de trabalho e promover o diálogo entre gerações, unindo jovens e jovens por mais tempo — expressão que a instituição usa para identificar os mais velhos que se dispõem a colaborar nessa transformação.

Dentro do Movimento Jovens do Brasil, são trabalhados quatro pilares essenciais: desbravar, transformar, conectar e dialogar. Através dessas trilhas, o movimento busca fortalecer os jovens e prepará-los para o mercado de trabalho. A trilha do desbravar engloba a capacitação técnica, cognitiva e emocional. Já a trilha de ser um agente de transformação convida os jovens a exercitar um pensamento crítico sobre políticas públicas e seu papel na sociedade. O movimento também conecta os jovens às oportunidades de trabalho e cursos disponíveis. Por fim, a promoção do diálogo intergeracional fortalece tanto os jovens quanto aqueles que já têm mais experiência, incentivando a compreensão mútua.  

Júlio também destaca a importância da mobilização da sociedade em auxiliar os jovens, especialmente aqueles que vivem em áreas periféricas, a superar as barreiras e alcançar seu potencial máximo. É importante destacar que o Movimento Jovens do Brasil busca formar jovens multiplicadores, capazes de impactar positivamente suas comunidades. Através do voluntariado e do entendimento de seu papel como cidadãos, esses jovens podem devolver ao seu território as oportunidades que receberam. 

“Acho isso extremamente potente. Porque você traz gente que fala a linguagem dos seus semelhante, do seu igual, ele entende aquela realidade. Então, ninguém melhor do que ele para poder passar esse conhecimento. Então, a gente forma o jovem voluntário para que ele possa ser se agente multiplicador na sociedade.”

Para saber como participar desse projeto, seja em busca das oportunidades de conhecimento existente seja diante da possibilidade de oferecer o seu conhecimento ao movimento, visite o site jovensdobrasil.org.

Assista à entrevista completa com Julio Campos, do Movimento Jovens do Brasil, ao Mundo Corporativo que teve às participações de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.

Mundo Corporativo: descubra a sua essência e defina sua carreira, sugere o consultor Emerson Dias

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“Será que aquela escolha é norteadora para o resto da minha vida, será que eu preciso ficar nela?”

Emerson Dias, Consultor

As transformações no mundo do trabalho são inexoráveis e se aceleram a cada instante. Diante desse cenário, os profissionais precisam se adaptar e encontrar novas formas de atuação. Acima da forma, porém, está nossa essência que precisa ser respeitada para que se alcance aquilo que é nosso maior objetivo: a busca da felicidade. É o que defende Emerson Dias, consultor, doutor e mestre em administração, em entrevista ao programa Mundo Corporativo da CBN.

Autor do livro “Carreira, a essência sobre a forma”, Emerson ilustra sua ideia a partir de situações enfrentadas por atletas de alta performance, como é o caso de Usain Bolt —- um esportista de talento extraordinário que na pista conquistou os maiores prêmios e recordes até o momento que seu corpo permitiu. Sem as condições físicas necessárias para seguir carreira de atleta, Usain Bolt precisou se adaptar às novas exigências. Deixou as pistas, mas, provavelmente, jamais deixará o esporte, que é a sua essência. É a partir dela que o ex-velocista seguirá sua jornada profissional em busca da felicidade.

Como poucos são Bolt, ter consciência do que é a sua essência torna-se ainda mais importante a medida que é, a partir dela, que você avaliará se as escolhas feitas no início da sua carreira profissional ainda fazem sentido:

“Quanto mais eu me conheço, quanto mais eu sei a minha essência, as minhas inclinações, eu consigo abrir mão de coisas que não façam sentido para mim. Então. eu acho que o caminho, dada a nossa limitação de recursos, é buscar a se conhecer”.

Ao realizar um trabalho que tenha maior significado, as dificuldades são enfrentadas com mais suavidade, aumenta-se a tolerância ao estresse e a tensão, e se alcança segurança psicológica. Verdade que a situação sócio-econômica nem sempre permite que as pessoas façam escolhas apropriadas, mas desenvolver o autoconhecimento permitirá que, no instante em que houver uma estabilidade financeira, o profissional esteja preparado para redesenhar sua trajetória.

“Muitas vezes, eu escolho aquilo que está diante de mim, da minha possibilidade, do meu acesso, mas não, necessariamente, eu deveria escolher aquilo se eu tivesse possibilidades de acessar outros lugares, outros espaços, e aí sim falar ‘nossa, isso aqui é mais legal do que aquilo que eu tinha’. Então, acho que o contexto social também influencia nas nossas escolhas”.

Das mudanças que a pandemia prometia deixar no ambiente de trabalho, talvez a mais evidente, na opinião de Emerson, seja a necessidade de as pessoas discutirem temas que não eram bem-vindos no passado, como o da saúde mental. Percebe-se agora que as relações humanas são extremamente importantes e mesmo os líderes demonstram maior interesse em escutar sobre o assunto. A eles (os líderes), aliás, o consultor deixa um recado:

“Se o seu papel é liderar, você nunca pode esquecer que você tem que produzir resultados. Agora, para produzir resultados, se fosse só a parte técnica, o Google resolvia. Não é! É a parte da coesão social. É a parte do desafio, do desenvolvimento do indivíduo, de você estabelecer objetivos e de você apoiar um indivíduo na construção desse objetivo”.

Assista ao vídeo com a entrevista completa com Emerson Dias em que falamos, também, de estratégias para nos prepararmos para as mudanças no mercado de trabalho e para realizarmos melhores escolhas na nossa jornada:

O Mundo Corporativo tem a colaboração de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscilla Gubiotti e Rafael Furugen. 

Empresa “pró-família”: por que ainda existem divergências nessa percepção?

por Michelle Terni

Foto de Keira Burton

O significado de um ambiente pró-família ainda é nebuloso, tanto para colaboradores quanto para líderes. 

Na pesquisa “Mapeando um ambiente pró-família nas organizações” (*), feita com 1500 profissionais de empresas de diferentes segmentos do país, com o intuito de avaliar a experiência de mães/pais, líderes e colegas de profissionais com filhos quanto ao entendimento do que é um ambiente acolhedor para colaboradores com filhos, apuramos visões positivas sobre a política de parentalidade das empresas, porém percebemos um percentual contraditório de entrevistados que dizem desconhecer o que é, de fato, uma política parental. 

Além disso, recebemos afirmações díspares quanto ao grau de satisfação entre líderes e liderados, homens e mulheres. E ainda, embora as lideranças digam se sentir preparadas para lidar com o tema ‘parentalidade’ em sua gestão, a maioria dos liderados consultados aponta insegurança em diferentes fases da paternidade, desde o anúncio sobre a espera do bebê até a fase amamentação no retorno pós licença. Além disso:

  • 90% dos homens entrevistados acreditam que a empresa na qual trabalham é um bom lugar para as mães trabalharem. No entanto, quando a mesma pergunta é feita para essas mulheres, o índice cai para 68%. Para os gestores dessas mulheres, 83%. E para seus colegas de profissão, 80%.
  • 35% dos colaboradores afirmaram ter nenhuma ou pouca clareza acerca das políticas de parentalidade da organização. 
  • 98% dos líderes dizem se sentir seguros em gerir uma equipe de profissionais com filhos. Mas, ao serem perguntados sobre o grau de segurança para esclarecer dúvidas relacionadas as políticas de parentalidade, esse percentual cai para 73%. 
  • 70%dos colaboradores se declararam acolhidos pela sua liderança direta quando o assunto é paternidade ou maternidade. Mas, 45% desses liderados ainda dizem sentir alguma insegurança para comunicar suas necessidades com clareza para o gestor. 
  • 4 em cada 10 entrevistados disserem ter apresentado algum grau de insegurança para dar a notícia da gestação e cuidar de suas necessidades físicas e emocionais. 
  • 25%dos pais e mães revelam insegurança no retorno ao trabalho após a licença maternidade/paternidade. Essa é a fase com maior insatisfação. O índice é mais acentuado quando os entrevistados são colaboradores que vivenciam ou vivenciaram uma parentalidade com desafios, caracterizada pelo luto gestacional, a parentalidade solo ou de filhos com necessidades específicas, adoção, gestação de risco ou prematuridade.
  • De modo geral, em relação à licença maternidade e retorno ao trabalho, sustentar a amamentação nesse retorno foi considerado preocupante para metade das mães entrevistadas.

Nas respostas abertas dos entrevistados, esse relato nos chamou atenção:

“(Uma empresa pró-família é) um ambiente onde a chegada de um novo membro na família é vista de maneira tão natural pelos líderes e pelos pares, que o pai e a mãe não sintam receio de falar sobre o assunto e no impacto em seu desenvolvimento profissional”. 

Vejam isso!

Friso aqui que naturalizar a parentalidade como algo que faz parte [e um capítulo na vida dos profissionais] é, inclusive, agregar positivamente na carreira desses pais e mães. É no exercício diário da criação que seus cuidadores desenvolvem habilidades, sobretudo corporativas.

Benefícios

Na pesquisa, também perguntamos sobre os benefícios essenciais na criação de um ambiente pró-família. A maioria dos colaboradores apontou a jornada de trabalho flexível, superando o desejo por políticas como a licença maternidade e paternidade estendida. Em segundo lugar, o auxílio-creche e o plano de saúde estendido aos dependentes. 

Já entre as iniciativas socioemocionais apontadas como desejáveis, a liderança acolhedora e empática foi requisito principal apontado pelos profissionais, a frente da preparação para a licença maternidade e recepção no retorno da licença, mentorias de carreira pós licença, apoio psicológico e programas de acompanhamento para gestantes e parceiros.

Realização pessoal como propulsora de performance

Como consultoria de parentalidade, percebemos um interesse maior por parte das empresas em conhecer mais sobre política parental e sensibilizar os seus para a construção de uma cultura corporativa que suprima esses tabus e reconheça a realização pessoal e o equilíbrio entre família e carreira como propulsores de performance.  

Outro ponto é trazer a isonomia para a conversa. Essa diferença nas percepções de mães e de pais é reflexo de uma sobrecarga para essas mulheres nos cuidados com os filhos. A realidade começará a mudar quando as empresas ampliarem a pauta, deixando de falar somente com a mulher, e passarem a abrir diálogo e propor benefícios para a família toda.

Acreditamos que o caminho para uma revisão das políticas parentais passa pela inclusão de outros modelos de famílias, pela implementação de jornadas flexíveis, de licenças parentais, e de auxílios financeiros e de saúde a esses responsáveis. Para isso, é preciso investir em trilhas de conteúdo, vivências de sensibilização, além programas concretos, com diretrizes e metas, para colocar em prática uma mudança no comportamento da liderança.

*O estudo “Mapeando um ambiente pró-família nas organizações” teve o apoio da Talenses Group e do Movimento Mulher 360. Foram ouvidos 1.568 profissionais de empresas de todas as regiões do país, entre novembro de 2021 e janeiro de 2022.

Michelle Terni é cofundadora e CEO da Filhos no Currículo, consultoria focada em criar ambientes corporativos cada vez mais acolhedores para pais e mães, por meio da implementação de trilhas de conteúdo, vivências de sensibilização e estruturação de programas de parentalidade corporativos. Escreveu esse artigo a convite do blog miltonjung.com.br

Mundo Corporativo: filhos são uma potência na vida profissional, defende Michelle Terni, da Filhos no Currículo

 

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Família é família, trabalho é trabalho. 

Não dá pra misturar. 

Cada coisa no seu devido lugar. 

Se tem “verdades corporativas” que foram desconstruídas nesta pandemia, com certeza essas que estão no topo deste texto entram com destaque na lista. Por anos, empresas, seus chefes e, também, funcionários acreditaram na ideia de que da catraca pra dentro, casamentos, filhos e famílias deveriam ser esquecidos – no máximo deveriam ser motivo de conversa na sala do cafezinho. Com os escritórios fechados, o trabalho invadiu o espaço da família e a convivência se fez necessária. Percebeu-se que apesar das diversas dimensões e realidades que vivemos, em todas essas circunstâncias somos apenas um, e a jornada diária precisa se organizar dentro dessa perspectiva.

“Não é ou filhos ou carreira. É filhos e carreira”. 

É o que defende Michelle Levy Terni, publicitária, formada em comunicação e com especialidade em equidade de gênero, que fundou, ao lado de Camila Antunes, pedagoga e advogada, a consultoria Filhos no Currículo. As duas se conheceram pelo Instagram, e se identificaram por serem mães de dois filhos. Após sentirem as dores que a maternidade gera no ambiente de trabalho, se encontraram em um projeto que acredita na possibilidade da construção de uma relação de vínculo e presença com os filhos sem a desconstrução da carreira. Além de investirem no desenvolvimento pessoal de pais e mães, provocam as empresas a repensarem as suas relações de trabalho e a eliminarem os vieses que limitam o crescimento de seus profissionais:

“Foi muito por nossa experiência pessoal que nasceu esse insight de compartilhar toda a nossa dor com o mercado de trabalho e ressignificar filhos como potência na vida profissional de pais e mães”.

Em entrevista ao Mundo Corporativo, que está completando 20 anos, Michelle explicou como o tema da parentalidade tem avançado nesses últimos tempos. Especialmente no caso das mulheres, ter filhos era visto como um custo a ser pago no crescimento na carreira – lamentavelmente ainda existem pessoas que enxergam dessa maneira. No entanto, hoje, já está bem mais clara a ideia de que ter filhos agrega no currículo profissional. Pesquisa realizada com o Movimento Mulher 360 mostrou que 98% dos pais entrevistados entendem que ter filhos os fez criar alguma habilidade, tais coo empatia, resiliência e liderança. 

“A gente muitas vezes é admitido por hard skills (habilidades técnicas) e demitido por soft skills (habilidades emocionais). E esses soft skills transbordam em quem tem filho”.

Michelle Terni, Filhos no Currículo

Ao longo da própria pandemia houve mudanças de olhar em relação a algumas questões. Se no início. o debate era como se adaptar ao trabalho em casa, ao lado dos filhos e da família, hoje, quando o retorno ao escritório ocorre de forma total ou parcial, a preocupação é como trabalhar distante dos filhos: 

“Essa é uma situação que trouxe para pais e mães uma herança de vínculo, de presença com os filhos. O que ouço de relatos nas consultorias com os clientes é essa alegria que surgiu pela possibilidade de conviver tão de perto (com os filhos). Voltar agora é quase uma impossibilidade. Eu percebo muito essa vontade de um equilíbrio”

Em consulta feita com mulheres, a Fihos no Currículo descobriu que 95% daquelas que são mães acreditam que o ‘home office’ veio para ficar, e 75% se identificam com o trabalho híbrido. Quanto às empresas, boa parte ainda avalia como serão os próximos anos, depois da experiência que a pandemia proporcionou. Michelle diz que, independentemente do que pensem em fazer, todas as organizações têm de ter consciência de que alguma coisa mudou e para trazerem os colaboradores para o presencial precisarão dar ao ambiente de trabalho uma missão, uma importância muito clara: 

“Esse lugar físico vai ser muito mais um lugar de colaboração, um lugar de experiência, de troca, do que necessariamente de sentar e trabalhar”.

Os líderes precisarão estar sintonizados com esse momento e desejo de seus colaboradores sob o risco de perderem talentos. A discussão sobre o retorno aos escritórios, o trabalho híbrido ou o ‘home office’ tem de ser colaborativa, ouvindo as prioridades e necessidades dos profissionais. A esses caberá também uma readaptação, abrindo diálogo com as crianças, porque pais e mães talvez não estejam mais 100% do tempo ao lado dos filhos. 

Outra realidade que ficou escancarada dentro do núcleo familiar – e a oportunidade de mudarmos isso é agora – é a percepção de como a economia do cuidado gera um sobrepeso nas mães. O cuidar da criança, preparar a lancheira e levar na escola são tarefas mais evidentes. Para realizar essas atividades, porém, existem várias outras que costumavam não entrar nesse cálculo: por exemplo, a compra de material, produtos e alimentos, que tomam tempo e geram desgaste de energia. Conversas difíceis tiveram de ser travadas dentro de casa que, se espera, tenham colaborado para reequilibrar as tarefas entre homens e mulheres. 

Michelle lembra que oferecer oportunidades a pais e mães vai além de programas de licença de parentalidade ou de família. A empresa precisa criar uma cultura que permita que esses e outros benefícios sejam usufruídos na prática. E cabe aos líderes esse papel. Para que o ambiente de trabalho seja contaminado por essas ideias, a Filhos no Currículo sugere um metodologia aos gestores que se resume na palavra SETA:

S – SEGURANÇA: o líder é treinado para que crie um ambiente que transmita segurança; as pessoas só vão compartilhar seus desafios ao se sentirem seguras;

E – EMPATIA: é preciso entender e aprender como desenvolver esse olhar empático

T – Troca:  comunicação é via de mão dupla. É você falar e você ouvir. A escuta empática é habilidade socioemocional extremamente importante.

A – Autoresponsabilidade: o líder precisa fazer aquilo que ele fala; tem de ser a referência; se acredita que existe vida além da profissão, tem de saber se desconectar e, por exemplo, não marcar reuniões de trabalho na hora do almoço.

Por mais que ter filhos seja visto como uma potência na vida profissional, Michelle – que também tem de dividir o trabalho da consultoria, com família, filhos e afazeres domésticos – sabe que essa relação é difícil e instável. Haverá momentos em que o lado profissional se expressará mais e outros em que o pessoal pede passagem. O importante é que a escolha seja consciente.

Pra fechar a conversa, deixo o convite da Michelle Terni aos pais: coloque seus filhos no currículo e conte essa experiência nas suas redes sociais corporativas (#meufilhonocurriculo): 

“Desafiem outras pessoas a fazerem o mesmo”.

Assista agora à entrevista completa com Michelle Levy Terni, da Filhos Currículo:

O Mundo Corporativo teve a colaboração de Bruno Teixeira, Débora Gonçalves, Rafael Furugen e Renato Barcellos.