Conte Sua História de São Paulo: das coisas da cidade ao nome de Bartira

Por Vitor Santos

Ouvinte da CBN

Photo by FELIPE GARCIA on Pexels.com

A primeira vez que visitei o Centro Histórico da cidade de São Paulo, tinha cinco anos. Guardei poucas recordações. O local que não esqueci foi o Viaduto do Chá. 

Da segunda vez, já era adolescente. Viajei 17 km em um ônibus da Viação Penha/São Miguel. Era uma linha tradicional, que ligava o bairro mais antigo da cidade, São Miguel,  ao Parque Dom Pedro. Quando desembarquei, fiquei alguns minutos admirando o entorno do parque, e os muitos prédios altos, que eram possíveis de serem avistados. Respirei fundo, ainda que tímido e assustado com o movimento grande naquele horário. Dei alguns passos, foi quando percebi que estava atravessando a 25 de Março. Depois subi a General Carneiro, passei por baixo do viaduto Boa Vista e cheguei no Pateo do Collegio. Em seguida, passeei pela Praça da Sé, visitei a Catedral, fui pela Rua Direita, cheguei no Viaduto do Chá, avistei o Teatro Municipal. Observei as árvores e os monumentos da Praça Ramos de Azevedo.  A curiosidade era enorme, para saber o que tinha no fim da Barão de Itapetininga. Deparei com o coreto da Praça da República.

Percebi que a partir daquele dia, não viveria mais longe da pauliceia. Arrumei emprego, na Avenida da Liberdade, número 61. Era uma empresa que trabalhava com instalação e manutenção de telefones. Era a grande oportunidade que tinha de conhecer melhor São Paulo.

Na hora do almoço era comum ficar no entorno do Teatro Municipal. Visitei o antigo prédio do Estadão, na Major Quedinho — lá também ficava a Rádio Eldorado. 

Depois, trabalhei alguns anos no prédio do Top Center, na Goodyear, onde conheci muitos artistas, dentre eles Wilson Simonal, que tinha uma loja no mesmo prédio. Fui para a Philips no Brasil, na esquina da Paulista com a Bela Cintra. Mais tarde fui ao encontro do Tribunal de Justiça, em um estágio que durou mais de 30 anos,.

De todos os cantos, meu preferido é o café do Pateo do Collegio, ao lado de ruínas da antiga parede construída de taipa de pilão, onde posso ler um livro e vivenciar a história. Ali sou capaz de ouvir os tambores dos índios; contar os peixes pescados por Tibiriçá — o senhor dos campos de Piratininga. Descobrir como o português José Ramalho desembarcou em Santos, subiu o Caminho da Serra do Mar, chegou em Santo André da Borda do Campo, conquistou o cacique, e em seguida a sua filha, Bartira, índia bonita, com quem teve vários filhos. De quem descendem inúmeras das mais tradicionais famílias paulistas. 

Vitor Santos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

A esperança de seguir em frente

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem de @jplenio no Instagram por Pixabay

 

Confesso que nunca fui de superstições na virada do ano. Essa coisa de comer lentilhas, guardar sementes de romã ou pular as ondas como forma de atrair a fortuna ou a sorte não me empolgavam. Não que eu não precisasse disso para o ano que viria, mas preferia comer as lentilhas porque eram saborosas e estar na praia porque era revigorante. Agora, se tem algo que sempre me comoveu na passagem do ano é a sensação de ciclo encerrado e de renovação.

Pertinho da meia-noite, quando todos estão ali reunidos, aguardando para iniciar a contagem regressiva, um filme passa pela minha cabeça, uma espécie de retrospectiva de tudo o que eu vivi ao longo do ano. Ensaio aqui, enquanto escrevo este último artigo do ano, a sensação de fechar os olhos e percorrer o que me marcou: conquistas, decepções, superações, fracassos… E inevitavelmente vem a pergunta instigadora: onde e como estarei daqui a um ano?

A contagem regressiva e em seguida os fogos que clareiam o céu são para mim o marco simbólico de que a partir daquele momento algo novo me espera. Situações que eu nem sei quais serão, mas que eu já desejo experimentar, com uma esperança enorme de que o futuro, mesmo incerto, já está chegando e poderá ser desfrutado, trazer coisas novas, coisas boas.

Em 31 de dezembro de 2019 senti da mesma maneira mas nem a mais remota previsão apontava para o que viveríamos em 2020. Um ano difícil! Com certeza! De oportunidades para poucos e de perdas para muitos.

Existem anos que ficam marcados por grandes eventos. Em 1969, o homem chegou à Lua. O Brasil foi Tetracampeão no futebol, em 1994. O atentado às Torres Gêmeas de 2001. Esse ano de 2020, infelizmente, será o ano da pandemia.

Prefiro manter as minhas tradições de réveillon. Fecho os olhos e penso em tudo que vivemos. Apesar de a pandemia, consigo me recordar de muitas coisas boas. Agradeço pela vida, pelos projetos realizados, pelos familiares e amigos. E quase com a contagem regressiva “pipocando” na cabeça – acho que prefiro contar rápido para ver se 2020 já fica lá no passado – respiro fundo e projeto uma esperança enorme para 2021. 

Longe da lista de metas, tenho um desejo: “que tudo se realize no ano que vai nascer”. Para mim, para você. E se tudo não for possível, que não nos falte a esperança para seguirmos em frente e alcançarmos aquilo que faça sentido para cada um. Por uma vida melhor. Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo! 

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

De asas e raízes

 


Por Maria Lucia Solla



Ouça De asas e raízes na voz da autora

Tradição! clamavam os judeus na Rússia de antes da revolução de 1917. Se você não viu, veja O Violinista no Telhado, com Topol no papel principal. É de comprar e assistir sempre que precisar, como remédio. É amor pela vida, na veia! É arte; remédio para a alma.

Arte pressupõe manutenção de tradição e superação de barreiras.

arte é tradição
e libertação
sem contradição

Tradição! clama o aborígene de todos os cantos da Terra, de todas as cores, de todas as línguas e filosofias. De uma só origem. Implora pela natureza. Implora pela vida

tradição é planta rara
de terra virgem
que alimenta suporta
e cura
levando embora a inverdade
que permeia a transitoriedade

raízes asas
asas raízes
querer voar quando não há céu
querer o chão quando chão não há
galhos raízes
folhas de mil matizes

Temos necessidade de um traçado do desenho, mesmo que seja para nem prestar atenção nele ou para apagar e desenhar outro. Outros! Precisamos de um modelo, um padrão almejado e possível de alcançar, que não exija perfeição nem sorte além da conta.

Contando um conto e aumentando um ponto, estica daqui, puxa dali, moldamos a tradição. Nós a submetemos ao bisturi, de acordo com a moda, para que mantivesse, século após século, cara de modernidade. E a deformamos, a afastamos de sua essência e demos a ela um espelho. Ela mirou a própria imagem e, tendo aprendido a vaidade humana, acreditou no que viu e se submeteu.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung