Velocidade máxima de 120km aumentará risco de mortes em rodovia

 

Por Milton Ferretti Jung

 

No jornal gaúcho Zero Hora, dessa segunda-feira, li e não gostei do que, por enquanto, está apenas em estudo, mas, mesmo assim, me assustou: ”Concepa estuda limite de 120 km/h na freeway”. Se é que alguém não saiba, freeway – que de “free” não tem muito – é a rodovia que une Porto Alegre a Osório e, nos fins de semana do verão, em geral, com o esparramo de veículos que se vê hoje em dia em circulação, para gáudio da indústria automobilística, torna-se congestionada. Não me lembro, mas, no jornal, há um quadradinho, no qual se vê uma foto da freeway, na época em que fazia jus ao apelido. Logo abaixo, lê-se que a fotografia é de 1973. Naquele ano, já um tanto longínquo, existia sinalização indicando que a velocidade máxima permitida na rodovia era a que a Concepa deseja reimplantar agora, isto é: 120 km/h.

 

Em novembro de 2011, o alargamento da rodovia e outras melhorias deram chance a que a velocidade máxima para veículos de pequeno porte – que ridiculamente são chamados de carros de passeio – passasse para 110 km/h. Já os pesados, podem viajar a 90. Não sou dos que mais viajam pela freeway. Neste ano, fui e voltei a Tramandaí duas vezes. Em ambas, mantive-me na velocidade máxima permitida, mas, às vezes, tirei o pé, especialmente para ser ultrapassado por quem dirigia, é fácil imaginar, muito acima dos 110 km/h. Esses, que não são poucos, não querem saber se você está pilotando dentro da velocidade permitida. Sai da frente deles ou se arrisca a ser abalroado.

 

A presidente da Fundação Thiago Gonzaga, Diza Gonzaga, tal como eu e, provavelmente, inúmeros outros, entende que o aumento da velocidade está ligado à letalidade dos acidentes. Para essa batalhadora, que perdeu um filho, vitimado em acidente de trânsito, os 10 quilômetros a mais que a Concepa pretende implantar, diminuirá a segurança das pessoas que usam a rodovia. A concessionária da freeway, por conta de pequisa por ela realizada, afirma que o número de acidentes diminuiu na estrada que liga Porto Alegre às praias do litoral. A mesma pesquisa não esconde, porém, que o número de acidentes com morte caiu de 14 para 13. A pesquisa da Concepa não me convence. Vou continuar defendendo que, sejam quais forem as melhorias que a estrada experimentou neste ano e que são prometidas para 2013, aumentar a velocidade máxima em 10 quilômetros por hora ,parece pouco, mas será uma temeridade e um risco desnecessário. Afinal, tivéssermos, por exemplo, autobahns como as da Alemanha, as velocidades máximas poderiam ser bem maiores. Estamos, porém, distantes delas.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Neste feriado, lembre-se: devagar se vai ao longe

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O feriado do dia 7 de Setembro é daqueles que se prolongam por bem mais que 24 horas, razão pela qual são chamados, talvez por influência da mídia, de feriadões. Não gosto desse superlativo.Prefiro que sejam identificados, apenas, como feriados prolongados. O nome deles, porém, não tem a menor importância. Todos, em geral, começam, como o de amanhã, numa sexta-feira e se estendem até o domingo. Cada um aproveita os longos feriados da maneira que mais lhe apraz. Há quem adore assistir ao tradicional desfile comemorativo da Data Magna da nossa independência, existe quem prefira aproveitar o fim de semana comprido para descansar ou, então, para viajar, elegendo, como destino, praia, serra ou mesmo uma visita a parentes que moram em outras cidades. Quem fica ou quem sai, torce para que o tempo seja bom, coisa que nem sempre acontece.

 

Preocupa-me, no caso dos que optam por viajar, seja qual for o tipo de veículo escolhido para tal, com o que ocorre, principalmente, quando os feriados começam em sextas-feiras. Refiro-me às tragédias provocadas por acidentes de trânsito. No último fim de semana – nem era de feriadão – morreram, nas estradas gaúchas, 11 pessoas. Dessas, apenas duas foram vitimadas na Região Metropolitana. Para tentar evitar quaisquer acidentes, a Polícia Rodoviária Federal, em parceria com a Brigada Militar e Departamento Estadual de Trânsito (DETRAN), vão reforçar os efetivos, montar barreiras e por em ação radares. Isso, com toda a certeza, ajuda. Entretanto, não basta. Os motoristas precisam se conscientizar que não podem transformar os veículos que dirigem em armas letais, o que acontece quando fazem ultrapassagens em locais indevidos, em velocidade superior aos limites ou empunham a direção embriagados. Gosto de velhos ditados. No caso, lembro aquele que diz: “devagar se vai ao longe”.

O poder de polícia do Governo e o chip nos automóveis

 

Faz muito tempo que li o livro que George Orwell, seu autor, chamou de “1984”. Foi a última criação literária daquele que o jornal americano Observer considerou “o maior escritor do século XX” e foi publicado em 1949, pouco antes da sua morte. Na sinopse lê-se que “Winston, herói do romance, vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder cínico e cruel ao infinito, além de vazio no sentido histórico”.

 

Fiz esse nariz de cera, pensando no “poder de polícia”. Em sentido amplo, o “poder de polícia” significa toda e qualquer ação restritiva do Estado em relação aos direitos individuais. Lembrei-me do livro de George Orwell. Talvez meus raros leitores, se é que os possuo, caso tiveram a oportunidade de ler “1984”, entendam que comparar certas iniciativas do nosso Estado com o que se lê no romance é um tanto exagerado. Não lhes tiro a razão. Ocorre, porém, que existem, pelo menos, alguns motivos para que o “poder de polícia”, existente, hoje, no Brasil, se aproxime do enredo da obra.

 

Irritou-me, por exemplo, saber que, por decisão do Conselho Nacional de Trânsito, todos os veículos fabricados aqui, até agosto de 2013, terão, entre os seus acessórios obrigatórios,nada mais nada menos que rastreador e bloqueador. Não bastasse isso, que encarecerá o preço final dos veículos, o pior da decisão do CONTRAN está no fato de que a privacidade dos motoristas será invadida, uma vez que um dos sistemas prevê a presença de um chip no para-brisa do carro, capaz de fornecer informações para uma central de dados sempre que o veículo passar pelas antenas colocadas em ruas. Vejam só o que pode provocar o chip bisbilhoteiro: pagamento de pedágio por quilômetro rodado, limitar áreas de circulação (como em São Paulo) e multas quem não as respeitar, traçar políticas viárias. Ah,o chamado Siniav vai flagar quem estiver com o licenciamento vencido.

 

Tanta tecnologia não prevê, entretanto, ao que eu saiba, melhorias na fiscalização das ruas e rodovias por meio do aumento de efetivo das forças policiais, sejam federais ou estaduais, visando a diminuir o número de acidentes fatais. No Rio Grande do Sul, morreram, até junho, mais de mil pessoas, número igual ao registrado no primeiro semestre de 2011. Somente no fim de semana do Dia dos Pais 25 pessoas perderam a vida em acidentes. Seria interessante que o Governo brasileiro, ao contrário de inventar moda, aumentasse a remuneração do pessoal da Polícia Federal que, na terça-feira, dia em que escrevo este texto, que será lido na quinta, estava disposto a entrar em greve de protesto por melhores salários.

Foto-ouvinte: protesto de motoboys para trânsito

 

Motoboys paralisam ponte

 

Motoboys interrompem pontes e avenidas de São Paulo para protestar contra regras impostas pela prefeitura que entram em vigor dia 4 de agosto. A intenção é tornar mais seguro o exercício da função, mas os motoboys entendem que isto vai dificultar o trabalho deles. Na foto enviada pelo ouvinte-internauta André Pimentel as motos interrompem o tráfego na ponte do Morumbi, na zona sul da capital paulista.

Bons exemplos que podem salvar vidas no trânsito

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Os bons exemplos, venham de onde vierem e versem sobre o tema que versarem, deveriam ser sempre seguidos. O DETRAN do Rio Grande do Sul promoveu um evento, nesta semana, que trouxe a Porto Alegre autoridades de diversos países para ouvi-las discorrer acerca de trânsito. Refiro-me ao Congresso Internacional de Trânsito Idéias que Salvam Vidas. A iniciativa foi oportuníssima. Na Austrália, representada por Janet Dore, diretora executiva da Transport Accident Commission, a queda no número de mortos em acidentes caiu 60%, enquanto no Brasil, tivemos aumento de 25% na última década. Foram mais de 40 mil as pessoas vitimadas na trágica batalha travada em rodovias e áreas urbanas. A realização desse Congresso, em Porto Alegre, veio bem a calhar. Afinal, na capital gaúcha, são vistos, costumeiramente, nas nossas ruas e avenidas, motoristas despreparados ou tresloucados, conduzindo de maneira irresponsável os seus veículos, dos de duas rodas em diante.

 

Estou usando por base, neste texto, reportagem de Itamar Melo, publicada pelo jornal Zero Hora. Por falar em veículos de duas rodas, vem daí de São Paulo um dos bons exemplos, cujos resultados – os paulistanos devem saber melhor do que eu – se não são mais significativos, não é por falta de iniciativas das autoridades do setor. Desde 2005, para combater a mortandade de motociclistas, especialmente motoboys, foram oferecidos cursos gratuitos de pilotagem, teóricos e práticos. As empresas – e isso poderia ser feito em Porto Alegre – proporcionam aulas profissionalizantes e incentivos às que implantarem programas de prevenção.

 

Para resumir e não cansar a beleza dos raros leitores destas que costumo chamar de mal digitadas linhas, cito uma frase da campanha que visa a evitar tragédias, nas estradas, cometidas por quem bebe, lembrada pela australiana Janet Dore, diretora executiva da Comissão de Acidentes de Trânsito do Estado de Victoria: “Se bebe e depois dirige, você é um maldito idiota”. Já na Espanha, representada no Congresso, por Maria Segui Gomes, em 2003, o índice de mortes no trânsito era de 21,8 por milhão de habitantes. Em 2009, esse índice, que chegava a ser uma dos mais altos da Europa, havia caído para 5,9, poupando 10 mil vidas.

 

Preciso enviar este texto para o Mílton para que ele o poste no blog nesta quinta-feira. Estou digitando-o na terça-feira. Talvez possa voltar aos pontos altos do importante evento numa próxima quinta.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Seu Jeremias não fala no celular enquanto dirige

 

Jeremias é motoristas de táxis e estava impressionado com o que havia lido um dia antes, no Estadão de domingo. Uma pesquisa mostrava que 59% dos jovens dirigem teclando no celular e apesar de boa parte deles (48%) entender que o comportamento é arriscado não abre mão de conversar com os amigos, responder e-mails, postar no Facebook ou tuitar no meio do trânsito, pelo smartphone. Um hábito que não se restringe aos instantes em que o carro está “estacionado” no meio da avenida devido ao congestionamento ou porque o sinal fechou. Ocorre mesmo em alta velocidade como se percebe em parte das entrevistas feitas com 350 motoristas de 18 a 24 anos. Um absurdo, uma irresponsabilidade – esbravejava Jeremias – antes de seguir com seu discurso: muitos acreditam serem capazes de realizar os dois atos com a mesma precisão, alguns garantem que digitam sem olhar para o teclado.

 

Tudo foi tão chocante para Jeremias que ele resolveu guardar o caderno Metrópole, do Estadão, para mostrar a passageiros como eu. Por isso, a cada nova informação que me transmitia, sacudia o jornal com a mão direita, enquanto a esquerda mantinha o carro na faixa. Virou a página com destreza para me mostrar outra reportagem sobre o mesmo assunto. Em entrevista ao jornal, um jornalista americano William Powers, autor do livro O BlackBerry de Hamlet, comentou que todo dia jovens sacrificam suas vidas para ler uma mensagem enquanto conduzem um automóvel. Jeremias gostou mesmo foi da ideia de Powers que sugeriu o envolvimento das empresas de telefonia móvel em campanhas para mudar esta situação extremamente grave e que tende a se agravar se nada for feito. Segundo leitura rápida feita pelo motoristas de táxis, enquanto dirigia, empresas como Google e Facebook estão incentivando as pessoas a se desconectar, sair da frente da tela dos computadores.

Ao fim do minucioso relato sobre a reportagem que tanto o incomodou, Jeremias virou para trás e me entregou o jornal para ver uns desenhos que explicavam tudinho o que ele estava me falando. E enquanto o trânsito fluía normalmente nessa segunda-feira de feriado em São Paulo, eu agradecia por não ter embarcado em um táxi conduzido por um desses motoristas jovens e conectados. Ainda bem que encontrei Jeremias, senhor de idade, responsável, adepto as práticas de direção segura e que não usa estes equipamentos eletrônicos enquanto dirige. Só lê jornal.

Nem 8 nem 80!

 

Por Julio Tannus

 

Há alguns anos, um amigo meu nascido e crescido em São Paulo recebeu uma herança. Cansado das contravenções impunes e da pesada carga tributária sem retorno, tomou nas mãos o globo terrestre e passou a meditar sobre qual país seria ideal para morar. A Suíça foi o escolhido. Passou então a morar em um condomínio de luxo e comprou um belíssimo automóvel.

 

Após alguns dias no novo domicílio, ao entrar em seu apartamento, toca o interfone e uma voz pede que compareça a entrada do condomínio. Dá de cara com um policial, que com uma fita métrica nas mãos mostra que seu carro foi estacionado alguns centímetros além da guia, e, portanto ele, o policial, iria autuá-lo por desrespeito a lei.

 

Passado algum tempo, após multas e mais multas, chega ao condomínio bastante irritado e dá um tapa em uma planta. Ao entrar em seu apartamento o zelador lhe informa que acaba de multá-lo por agressão a vegetação. Foi a gota d´agua! Arruma as malas e retorna a São Paulo.

 

Outro dia desses, ao recordar esse episódio, passei a observar com mais atenção o comportamento de nós paulistanos.

 

No trânsito: motoristas falando ao telefone celular enquanto dirigem. Carros parados em fila dupla com pisca alerta ligado em vias de mão dupla, e, portanto, impedindo a passagem de veículos indo na mesma direção. Carros fazendo conversão sem acionar o pisca-pisca. Pedestres que atravessam fora da faixa. Carros que não respeitam pedestres. Motociclistas aos montes vindo em ambos os lados dos automóveis em alta velocidade, sem qualquer regulamentação, etc…

 

Trânsito em São Paulo

 

No Metrô: ninguém ou quase ninguém obedece aos avisos

 

 

Nas escadas rolantes: apesar dos avisos, nenhum deles é seguido pela maioría dos usuários

 

 

E assim por diante…

 


Julio Tannus é consultor em estudos e pesquisa aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

15 quilômetros na contramão e sem fiscalização

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Levar-me de volta a um assunto sobre o qual já escrevi várias vezes neste blog – trânsito – só mesmo um fato inusitado e, ainda por cima, ocorrido em rodovias que passam pelo Rio Grande do Sul,de onde, se é que algum leitor ainda não saiba, envio os meus mal digitados textos para o Mílton. Rendeu manchete nos jornais de Porto Alegre e nos demais veículos de comunicação daqui a façanha do motorista de um automóvel Pálio que trafegou 15 quilômetros na contramão. Olhem que não cometeu a estrepolia dirigindo em estradinhas vicinais. Não, ele começou seu tresloucado passeio (ou coisa que o valha) dirigindo na BR-116, no trecho entre Porto Alegre e São Leopoldo, depois de ingressar na rodovia em Esteio, e conduziu o seu carro até as proximidades do aeroporto Salgado Filho. Por muita sorte, o único acidente cometido por Leo Deimling, 55 anos, aconteceu em Canoas. Uma motorista, que vinha para Porto Alegre, dirigindo em sentido correto, foi ofuscada pelas luzes do Pálio e, para fugir de uma batida frontal, jogou o seu carro contra uma mureta. Ela e seus caroneiros sofreram ferimentos leves. Daimling fez um retorno na altura do aeroporto e entrou na freeway na mão certa,mas deu meia volta e retornou a dirigir na contramão. Para não cansar a beleza dos meus raros leitores, como costuma acentuar o Mílton, acrescento que a saga perigosa vivida pelo contraventor ocorreu em hora de pouco movimento, seja na BR-116, seja na freeway, onde teve a sua trajetória bloqueada, finalmente, por uma viatura policial. Ao tentar desviar dessa, chocou o seu Corsa no guard-rail. Foi encontrada, no automóvel de Leo Deimling, uma lata de cerveja. O bafômetro acusou consumo de bebida alcoólica nove vezes acima do tolerado. Leo foi preso em flagrante por tentativa de homicídio doloso. Disse ter bebido uma cerveja e não queria acreditar que andara 15 quilômetros na contramão.

 

As câmeras, que controlam o trânsito, detectaram parte do temerário trajeto do protagonista dessa história real. Não seria o policiamento, tão bom e muito presente nos feriados prolongados,insuficiente nos dias úteis? Ou, quem sabe, no período em que o motorista faltoso andou na contramão – 1h45min às 2h – o efetivo policial não precisa estar mais presente? Perguntar, não ofende.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Celulares e smartphones, as drogas contemporâneas

Por Carlos Magno Gibrail

 


Campanha de vídeo da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego

 

Estes engenhos eletrônicos têm propiciado aos usuários benefícios e vícios. Tais quais as drogas proibidas, sensações e emoções com sequencias de auto-dependência e interferência danosa a terceiros.

 

Como novos elementos a fazer parte da vida atual, são embalados pela utilidade e pelo prazer que fornecem. Entretanto, a certeza futura do aumento de usuários e da intensidade de uso é preocupante. É hora de estabelecer algum ordenamento jurídico e social para que possam conviver civilizadamente em nosso meio.

 

Os fabricantes preveem que até o ano 2020 não existirão mais celulares. Eles serão substituídos pelos smartphones. Portanto, desconsideremos os inofensivos efeitos dos celulares, embora produzindo irritantes incômodos em salas de espera, aeroportos, elevadores e demais locais em que somos obrigados a ouvir intimidades de toda espécie, avançando em nosso direito de pensar, ler ou mesmo de não fazer nada. Vamos aceitar até mesmo a ilegal e perigosa fala ao dirigir veículos.

 

Os smartphones, estes sim, trazem um perigo multiplicado. De acordo com matéria publicada na revista Época sobre o tema, um estudo da Universidade Tecnológica da Virginia, EUA, dirigir falando ao telefone duplica a possibilidade de acidente. Entretanto ao teclar, o potencial de risco é multiplicado por 23. Além disso, diante de um simulador para medir a reação do motorista em diversos estados de atenção, constatou que ao digitar em redes sociais no smartphone o pesquisado teve a reação reduzida em 38%, enquanto quem fumava maconha ficou mais lento em 21% e quem bebeu de 2 a 3 latas de cerveja respondeu 12% mais demoradamente ao estímulo. Portanto, o Smartphone é 100% mais perigoso que o álcool, e 40% mais danoso que a maconha. Descoberta e tanta, digna do Freakconomics quando alertou que piscina mata mais criança do que revólver em casa.

 

Se considerarmos que o Smartphone além de prazer fornece utilidade e a imagem operacional não causa reprovação, seu potencial de uso comparativo com álcool e maconha é bem maior. Principalmente no trânsito caótico que vivemos.

 

É hora de cuidarmos do Smartphone. Antes talvez que nossa ultima frase esteja digitada no próprio, como o da garota americana de 18 anos. Taylor Sauer teclou: “Não posso discutir isso agora. Dirigir e escrever no Facebook não é seguro! Haha”. Bateu no veículo à frente que andava a 25km/h.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos, e escreve às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

De susto

 


Por Maria Lucia Solla

 

 

A vida é assim, por vezes um lago calmo, por outras um mar revolto; e o segredo para sofrer menos é manter a calma e não perder a esperança. Fácil dizer difícil fazer, mas com treino se consegue quase tudo.

 

Segunda-feira passada, dia quatro de junho, íamos meu filho e eu pela Marginal Pinheiros. Meu filho dirigindo o carro dele, e eu de carona ao seu lado. Íamos quietos. Exauridos pela pressão de dias difíceis, em busca de alívio. O tráfego era denso, mas ainda sem congestionamento. Não chovia, não ventava, e o sol ainda não tinha terminado a tarefa de brilhar neste canto do mundo. Fazia a sua parte, como sempre faz desde o começo dos tempos, e nós fazíamos a nossa, cada um na sua medida, segundo sua capacidade.

 

À nossa frente ia um carro pequeno, vermelho, dirigido por uma moça. Trafegávamos na pista da esquerda da via expressa. Nosso destino, a Marginal do rio Tietê. Pedi ao meu filho que ligasse o rádio e sintonizasse na 90.5 para ouvirmos as notícias na CBN. O assunto era o de todos os momentos nos últimos tempos, a bandalheira generalizada entre os dirigentes, que escolhemos para cuidar do interesse social, e seus tentáculos egocêntricos, gananciosos e criminosos. Bandidos. Verdadeiras quadrilhas. Eu ouvia atenta, de coração apertado, sentindo que minha esperança insistia em me abandonar, na força contrária do meu esforço para mantê-la viva e por perto. Estava triste e sonolenta. Tínhamos saído mais cedo para evitar o sufoco do congestionamento, mas a fila de carros já se adensava.

 

Os carros foram brecando, até que o carro vermelho à nossa frente parou. Meu filho, atento, parou também. Foi aí que o mundo virou de cabeça para baixo, a tristeza tomou forma de dor, e a sonolência virou desespero. Atrás de nós, uma ambulância transportava um menino de quinze anos, que tinha sofrido uma cirurgia num hospital de São Paulo, acompanhado de seus pais, Voltavam para Catanduva, cidade onde moram. Além deles, conduzindo a ambulância, apenas um motorista desatento e apressado. Não havia um médico acompanhando o paciente. Essa ambulância, que vinha em alta velocidade, não parou e nos atingiu violentamente, nos atirando contra o carro da frente. O baque foi forte demais. Meu corpo frágil foi projetado para frente como se tivesse sido arremessado por um estilingue e, com a mesma violência, voltou para trás. Uma dor lancinante se apossou de mim. Meu peito, apertado pelo cinto de segurança, queimava e me apresentava a uma dor que eu nunca sentira.

 

Quatro e cinquenta. Meu filho ligou para 190. Pediu socorro policial e uma ambulância. Um carro da CET chegou rapidamente e fechou todas as pistas, para remover os carros acidentados até a faixa zebrada que separa a pista expressa do acesso à pista local, que tem entrada para a Avenida Rebouças. Desimpediram o tráfego que engordava em ritmo acelerado. E nós? Ali ficamos. Eu, gemendo pela dor insuportável, mal conseguia respirar. Meu filho, desesperado, assistia ao meu sofrimento, fazendo o que podia. Ligava insistentemente para a polícia e para amigos que tinham contato com policiais que também tentavam ajudar por telefone. Cada um apelando aos contatos possíveis e aos que porventura estivessem por perto. A moça do carro vermelho era dentista. Pediu para ver a minha boca e mediu meus batimentos cardíacos, dizendo que iria embora porque o carro dela estava bem. Só tinha amassado um pouco o pára- choque, e ela tinha pressa. Algo nos dizia que a documentação dela ou a do carro não estivesse em ordem e ela preferiu ir embora. Disse que também iria tentar falar com a polícia no 190, para que viessem nos socorrer.

 

Cinco e meia. Seis horas. Sete, sete e meia. Oito horas. A noite caía e a dor subia. Por volta das oito e meia chegou a ambulância do Samu. Dra. Naira e o motorista me imobilizaram com perícia e rapidez admiráveis, me instalaram na ambulância e me levaram ao hospital mais próximo. A dor foi comigo. Se apegara a mim. A polícia, no entanto, só deu o ar da graça por volta das nove e meia da noite. O carro foi rebocado pelo guincho da companhia seguradora, e meu filho foi à delegacia para o procedimento necessário nessas situações. O caso era de lesão corporal grave. Meu filho pediu a um amigo que fosse ao hospital e me acompanhasse. Enzo não saiu do meu lado nem por um instante. A polícia também esteve no hospital para verificar os fatos e a minha situação. Fui parcialmente imobilizada devido a contusões graves no osso esterno e na musculatura que o suporta, e ganhei um colar cervical que protege a medula espinhal e imobiliza o pescoço. Meu filho só foi liberado da teia burocrática, à uma e meia da manhã.

 

É importante dizer que, apesar da demora inimaginável do socorro, a equipe do Samu me atendeu com perícia e carinho. No entanto eu, apesar de pagar alta mensalidade por um plano de saúde, precisei esperar na maca da ambulância, num dos corredores do hospital que transpirava sofrimento e dor. Enfermeiros e médicos cansados e apressados corriam para lá e para cá. A dra. Naira precisou correr atrás de um médico para que me atendesse. Ela dizia que não podia entender a demora do pessoal do 190 em chamá-los. Disse também que deram a eles a posição errada de onde estava o nosso carro, e que por isso tiveram que rodar um bocado até nos encontrarem.

 

Hoje, aqui estou, felizmente pra mim, viva e de volta ao jogo da vida. As dores insistem em não me abandonar, apesar dos remédios fortíssimos para driblá-las. O colar mantém meu pescoço onde deve estar. Meu filho fica atento a tudo, dia e noite. Me ajuda a deitar, a sentar, a levantar e a me alimentar. Inverteram-se os papéis. É ele quem cuida de mim.

 

E nós dois, o que temos a dizer? Só podemos agradecer à vida, pela vida, e aos amigos que torcem por nós e que têm mantido contato diário. Ao Dr. Cristóvão Colombo dos Reis Miller, amigo querido que nos orienta na sequência dos procedimentos legais e pelas orações dos que estão longe.

 

Durante esse tempo todo, quatro dias e dezenove horas, não me sai da cabeça a oração que diz:

 

Senhor, dá-me serenidade para aceitar o que não pode e não deve ser mudado. Dá-me força para mudar tudo o que pode e deve ser mudado, e sabedoria para distinguir uma coisa da outra.

 

Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

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