Saúde mental não é um bicho de 7 cabeças

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Mariana Montrazi no Pexels

O filme ´´Bicho de Sete Cabeças“ (2000), dirigido por Laís Bodanzky, se tornou aclamado no cinema brasileiro ao provocar reflexões sobre os abusos praticados nos hospitais psiquiátricos, desde o uso de eletrochoques como punições às internações de longa permanência que promoviam o isolamento e exclusão social de pacientes, com pouca ou nenhuma finalidade terapêutica.

Infelizmente, essa foi a realidade de muitos doentes mentais até a década de 80, quando novas medicações permitiram uma transformação no atendimento psiquiátrico, que substituiu as longas internações por tratamentos ambulatoriais. Paralelamente, inúmeras denúncias de maus tratos e desrespeito aos direitos humanos desses pacientes permitiram o crescimento de movimentos antimanicomiais, levando ao desmonte de grandes hospitais psiquiátricos no Brasil.

Tal movimento teve início na década de 70, com o médico italiano Franco Basaglia, na cidade de Trieste, cujos ideais preconizavam a desinstitucionalização do paciente psiquiátrico e sua reinserção na sociedade, considerando que os modelos psiquiátricos de tratamento, vigentes até então, contribuíam com a exclusão e opressão dos pacientes.

Esses ideais se difundiram por vários países, incluindo o Brasil, cujo movimento envolveu a defesa pelos direitos humanos e pelo resgate da cidadania dos pacientes com transtornos mentais, contribuindo, ainda, para o movimento da Reforma Psiquiátrica.

Com o lema “por uma sociedade sem manicômios”, profissionais, pacientes, familiares e instituições acadêmicas questionaram o modelo de assistência centrado nas internações, denunciaram as violações aos direitos dos pacientes e propuseram um novo modelo de atenção em saúde mental, incluindo ações para a reabilitação psicossocial através da inserção pelo trabalho, cultura e lazer.

Pessoas com transtornos mentais já foram perseguidas e executadas nos tribunais da inquisição. Pessoas com transtornos mentais já foram internadas e torturadas.

Pessoas com transtornos mentais muitas vezes se tornam invisíveis ou permanecem rotuladas por uma sociedade que ainda concebe a doença mental como sinônimo de fragilidade. 

Atualmente, falar sobre transtornos mentais deixou de ser assunto restrito aos consultórios de psiquiatria e psicologia. Especialmente com a pandemia e as mudanças por ela impostas, temas como depressão e ansiedade se tornaram mais acessíveis e até mesmo mais familiares para muitos de nós.  

De certo modo, isso revela mudanças históricas e culturais significativas relacionadas à saúde mental, apesar da ocorrência, ainda frequente, de estigmas e preconceitos.

Será que estamos mais conscientes? Será que descobrimos, finalmente, que o adoecimento mental faz parte da nossa humanidade?

No dia 18 de maio, comemoramos o Dia Nacional de Luta Antimanicomial. Um movimento que trouxe novas perspectivas para as pessoas com transtornos mentais. Um movimento que abriu caminhos que ainda percorremos, para que novas mudanças ocorram e permitam que “bicho de sete cabeças” seja apenas nome de filme e não sinônimo das dificuldades enfrentadas na promoção e tratamento em saúde mental.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

A Saúde Mental pede socorro

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

 

O dia Mundial da Saúde Mental é celebrado no dia 10 de outubro, e tem se consagrado por ser uma data marcada por alertas e preocupações. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) aproximadamente 1 bilhão de pessoas vivem com algum transtorno mental —- a maioria não tem acesso a tratamentos. Em países de baixa renda, cerca de 75% das pessoas que têm um transtorno mental não recebem nenhum tipo de tratamento. 

Além da falta de investimentos públicos, outro fator que impacta diretamente o acesso ao tratamento é a desinformação, sustentada pela forma histórica como as doenças mentais foram tratadas ao longo dos anos, favorecendo atitudes preconceituosas e discriminatórias.

No Brasil, até meados do século XIX a doença mental era objeto da justiça. Os pacientes psiquiátricos violentos iam para as prisões e os mais pacíficos vagavam pelas ruas, sem tratamento. Em função de mudanças que aconteceram em outras partes do mundo, as Santas Casas de Misericórdia começaram a admitir esses pacientes, porém, por serem numerosos, não foram mantidos por muito tempo. Em seguida, alguns hospitais psiquiátricos foram construídos, os Hospícios, para onde os pacientes eram levados e permaneciam isolados do convívio social. 

Somente após a década de 80, o surgimento de novos medicamentos permitiu que pacientes que permaneciam em internações por longos períodos pudessem ser tratados de maneira ambulatorial. Somando-se a isso, a mobilização de profissionais de saúde e de familiares de pessoas com transtornos mentais denunciando as péssimas condições da maioria dos hospitais e os maus tratos sofridos, como violências e torturas aos pacientes, permitiram o crescimento dos movimentos antimanicomiais, levando ao fechamento dos grandes hospitais psiquiátricos. 

O avanço da ciência favoreceu que muitas crenças associadas ao paciente psiquiátrico fossem revistas, porém, não impediu que ainda hoje estigmas e preconceitos estejam presentes.

Se em outras doenças os tratamentos são preconizados e seguidos, para as  doenças psiquiátricas há uma tendência coletiva de desvalorização dos sintomas, ainda associados a alterações do comportamento que envolvem escolhas pessoais e tentativas terapêuticas não comprovadas cientificamente. 

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Diversas ações podem ser adotadas na direção de promoção e prevenção em saúde mental. Dentre essas ações destacam-se políticas públicas que promovam melhoria das condições socioeconômicas da população, redução dos níveis de desemprego, incentivo à escolaridade, redução da violência e habitação segura; fatores apontados como os principais riscos à saúde mental de adultos.  

 A educação sobre os transtornos mentais também compreende promoção e prevenção em saúde mental, uma vez que a divulgação de informações em escolas, empresas, comunidades e mídias pode aumentar a identificação dos primeiros sinais da doença, permitindo o diagnóstico precoce e o tratamento adequado. 

Falar sobre transtornos mentais não aumenta a sua incidência e tende a reduzir significativamente os números supracitados associados à falta de tratamento. Buscar ajuda pode mudar o curso da doença, reduzindo a sua cronicidade, além de promover uma vida mais equilibrada e saudável, com menos sofrimento para os pacientes e seus familiares.

Demoramos muitos séculos para compreender que a saúde mental não é prêmio nem privilégio, não é escolha nem castigo. A união dos avanços terapêuticos às políticas públicas adotadas não nos permite mudar a história já construída, mas escrevê-la daqui por diante, com ações planejadas que mudem não apenas os números, mas a vida de tantas pessoas.  

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Da Nau dos Loucos ao tanque de roupa suja: “soluções” para os transtornos mentais

 

Por Simone Domingues
@simonedominguespsicologa

 

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Foto: Pixabay

 

Na obra o Alienista, de Machado de Assis, o médico Simão Bacamarte retorna à sua terra natal e constrói um manicômio, chamado Casa Verde, para abrigar os loucos da cidade e região. No início, as internações eram apoiadas pela sociedade, mas com os avanços de sua teoria, o médico chega a internar 75% da população, que se revolta. Então, Bacamarte revê seus estudos, liberta essas pessoas que estavam internadas e confina a outra parcela da população, invertendo seu conceito sobre a loucura: louco seria quem se mantinha estável em suas ações.

 

A busca por explicações sobre comportamentos estranhos ou anormais sempre esteve presente na história da humanidade. Documentos mostram que em 3.500 a.C., na Babilônia, já havia relatos do que hoje chamamos de transtornos mentais. Para os povos primitivos, a “loucura” não era vista como doença, mas como espíritos do mal que dominavam a pessoa e deveriam ser expulsos em rituais espirituais. Na cultura greco-romana, a loucura era decorrente do desequilíbrio de fluídos corporais. Na Idade Média, a ideia de que a doença mental era algo místico e religioso é retomada. Nessa época, a Igreja criou duas formas de controlar e isolar aqueles que apresentavam opiniões contrárias às doutrinas estabelecidas, chamados hereges: a inquisição, na qual o herege era cruelmente morto para que suas ideias não fossem difundidas; e a Nau dos Loucos, embarcações nas quais os loucos eram colocados, vagando pelos rios europeus.

 

No renascimento, a loucura passou a ser explicada de forma filosófica e o louco passa a ser visto como uma pessoa desadaptada e insignificante. Após a Revolução Industrial, o conceito de normalidade foi vinculado ao trabalho e a produtividade. O louco era visto como ocioso e improdutivo. Na tentativa de recuperação, o louco era internado, para aprender um ofício e torturado. No final do século XVIII, Pinel, médico francês, se deteve ao estudo da anormalidade, vinculando a loucura com cuidados médicos. A loucura passou a ser vista como doença mental, passível de tratamento, mas ainda reclusa aos manicômios. Após a II Guerra Mundial, o desenvolvimento da indústria farmacêutica e a descoberta de medicações permitiram o tratamento ambulatorial, ou seja, fora das instituições.

 

Se por um lado o interesse com a doença mental, especialmente na última metade do século passado, despertou o avanço de estudos científicos, como o desenvolvimento das neurociências; por outro lado, os estigmas associados aos doentes mentais sofreram mudanças menos acentuadas. Explicações reducionistas sobre as causas, mitos sobre a doença e soluções de tratamento pouco embasadas em métodos científicos, continuam a exigir das pessoas que sofrem com esses transtornos ter que lidar com o sofrimento e incapacidades decorrentes da própria condição e ainda ter que lidar com o preconceito e a discriminação.

 

Apesar dos transtornos mentais atingirem pessoas de diferentes idades, gênero ou nível socioeconômico, as representações sobre a doença e o doente ainda são permeadas de estigmas. Além das associações inadequadas às causas, o mesmo acontece em relação ao tratamento. Concepções sem embasamento científico ou mesmo preconceituosas, como aquelas que sugerem que ter uma doença mental é “falta de um tanque de roupa suja para lavar”, reforçam as crenças de que ter um transtorno mental é uma escolha e permanecer nele, uma decisão.

 

Ter um transtorno mental não é escolha, mas também não é punição ou castigo. Punição é não termos um sistema que permita o diagnóstico adequado e um tratamento eficaz que possa trazer menos sofrimento à vida de tantas pessoas. Estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que, no mundo todo, menos de 10% das pessoas com transtorno mental têm acesso a tratamento.

 

Enquanto não mudamos esse cenário, compreender a doença mental pode nos aproximar do exercício da nossa humanidade, aceitando as diferenças, imperfeições, anormalidades de cada um de nós mesmos. Dr. Bacamarte tinha o propósito de encontrar, definitivamente, a diferença entre o normal e o patológico. Acabou descobrindo apenas em si características de perfeito equilíbrio mental e moral. Diante disso, liberou todo mundo do manicômio e lá se internou. “Fechando a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e a cura de si mesmo”. Dr Bacamarte deixou um legado: ensinou que de médico e louco, todos nós temos, de fato, nem que seja um pouco!

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: na loucura da cidade, um tempo para cuidar de pessoas

 

Por Maria José Fernandes Amaral dos Santos
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Me conhecem por Zezé Amaral. Hoje sou psicóloga. Cheguei em São Paulo com 5 anos, sou da Bahia, fui criada aqui: estudei, trabalhei, namorei, casei, tive um filho e montei um trabalho maravilhoso.

 

Há 13 anos, um amigo me chamou para atendermos dependentes químicos e seus familiares. Esse trabalho existe, totalmente de graça, até hoje. Todas às sextas-feiras das oito às dez da noite, eu e mais uma equipe de seis voluntários nos reunimos e oferecemos esse atendimento, individualmente e em grupo. Desde então, já fizemos mais de 8.000 atendimentos, todos registrados, com lista de presença e ficha de cada pessoa que passou por lá.

 

Com toda essa loucura que é a cidade, conseguimos separar um pouco do nosso tempo para dedicarmos a essas pessoas. Pessoas carentes e sem perspectivas de vida. Conseguimos muitas vitórias, claro, muitos fracassos, também, pois parar de usar drogas não é fácil, é um trabalho contínuo, para o resto da vida, exige sacrifício do dependente e auxílio da família.

 

Damos assistência por telefone, internamos quando é necessário, temos alguns contatos para internação gratuita e outros quando podem e estão desesperados procuram internação paga. Ocupamos o espaço do Centro Espírita Meimei, não falamos de religião, não é este o objetivo, trabalhamos à prevenção de recaída das drogas dos dependentes e da emocional da família.

 

Porque não falamos de religião, porque atendemos qualquer uma, muitas vezes alguns evangélicos nos procuram escondidos de seus pastores, mas o que importa para nós é que não voltem a usar drogas.

 

E acredite: isso acontece na cidade de São Paulo. Nessa cidade maravilhosa que acolhe todos que chegam. Essa é a minha história, de fazer a diferença em São Paulo.

 

Zezé Amaral é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar a sua histórias, também: envie o texto para milton@cbn.com.br.