Avalanche Tricolor: ao menos tricolor

 

 

Bahia 1×0 Grêmio
Brasileiro — Estádio Municipal do Pituaçu/BA

 

 

Vivemos uma noite tricolor, nesse sábado, aqui em São Paulo. Monumentos importantes, como o em homenagem aos Bandeirantes, que fica em frente ao Parque do Ibirapuera, receberam as cores verde, branca e vermelha, para marcar os 73 anos da República italiana. A “Tricolor” — como os italianos se referem à bandeira do país —- se fez presente na fachada da sede da prefeitura e da Fiesp, e na Ponte Estaiada, por obra e inspiração do cônsul-geral italiano na capital paulista, Filippo La Rosa.

 

O prédio do Terraço Itália, no centro da cidade, também foi iluminado pelas três cores em imagem que se destacou na noite chuvosa da capital. Eu estive logo ali ao lado, onde fica a sede do Circolo Italiano, que recebeu convidados para aplaudir meu amigo e colega Walter Fanganiello Maierovitch, juiz reformado, importante no auxílio ao combate a máfia e ao crime organizado, homem de discurso transparente e equilibrado, sempre atuante em defesa da justiça e uma voz forte em favor dos injustiçados. É palmeirense, fazer o quê, né!?! Ao menos torce hoje por um dos nossos ídolos, Luis Felipe Scolari.

 

Na mesa que estava reservada fiquei ao lado de gente boa como o narrador Oscar Ulisses, o comentarista Mário Marra e o âncora Roberto Nonato —- todos admiradores do bom futebol, assim como eu. Foi o Mário quem me sinalizou o placar final da partida que havia se realizado em Salvador. Era o mesmo que eu havia ouvido no aplicativo do rádio pouco antes de chegar ao local da festa.

 

Estava para estacionar o carro quando o locutor descreveu o lance que culminaria no gol adversário. Perdemos a bola no ataque, tomamos o contra-ataque e Geromel, na tentativa de evitar o gol, viu a bola bater no braço dele dentro da área. Cheguei a torcer por mais um milagre de Paulo Victor. Em vão. Subi para festa com o 1×0 nos ouvidos que, no fim, seria o placar fatal.

 

Além das ótimas companhias na noite que vivi nesta que é a maior cidade italiana fora da Itália, da boa mesa servida aos convivas e do orgulho de ver um amigo ser merecidamente reverenciado pela colônia tricolor, restou-me ouvir o consolo de um dos garçons que servia o vinho e me reconheceu como jornalista e torcedor do Grêmio: “ao menos quem ganhou foi um tricolor, seu Mílton!”.

 

E comandado por Roger Machado, que também é um dos nossos, pensei cá com minha gravata.

 

É, pode ser! Se tiver de ser alguém, que seja ao menos tricolor! Viva a Itália!

Avalanche Tricolor: o guri que vestia a camisa 3 está de volta

 

Rosário Central 1×1 Grêmio
Libertadores – Gigante de Arroyito/Rosário ARG

 

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Todos querem a camisa de Geromel, como se vê na foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

A estreia na Libertadores 2019 me colocou diante de uma das raras fotos que consegui preservar da época em que jogava na escolinha de futebol do Grêmio. Perfilado, com os braços soltos ao longo do corpo, sobre a linha lateral do gramado do saudoso estádio Olímpico, fui flagrado por um dos fotógrafos esportivos que aguardavam o time principal entrar em campo. Não tenho o nome do autor da foto, mas se o fez, tenho certeza, foi para presentear meu pai, que deveria estar orgulhoso de ver o guri naquela posição.

 

Naquele tempo, não tínhamos acesso ao uniforme oficial dos clubes de futebol. Comprava-se as camisetas na lojinha do bairro. A minha era de um tecido mais grosso, com o azul, o preto e o branco desbotados pelas inúmeras lavagens feitas por minha mãe. Com a gola em vê e sem direito a emblema do Grêmio no peito, o único adereço que havia —- e não aparece na foto —- era o número 3 nas costas, que mais do que minha posição preferida, revelava a admiração por um dos maiores zagueiros que já vestiram nossa camisa, Atilio Genaro Anchieta — capitão da seleção do Uruguai e do próprio Grêmio. Uma espécie de Geromel dos anos de 1970.

 

Ver aquela foto me fez voltar para um tempo em que a Libertadores era sonho distante para os gremistas. Nos satisfazíamos com o aguerrido campeonato gaúcho. Nos orgulhávamos das vitórias sobre times do eixo Rio—São Paulo. Ganhar um campeonato brasileiro seria uma façanha. Foi lá, porém, que forjamos o caminho que nos levou ao topo do Mundo e nos coloca, hoje, entre os maiores times do futebol do planeta.

 

Em campo, o Grêmio é respeitado mesmo pelos arquirrivais argentinos, contra quem travamos alguns dos grandes e heróicos clássicos sulamericanos. Afinal, estamos em nossa décima nona participação de Libertadores, competição que já vencemos três vezes — a última em 2017, ou seja, coisa recente, que segue na memória dos adversários. Sem contar o futebol qualificado que temos jogado há três anos, desde o retorno de Renato ao comando técnico do time —- futebol reconhecido aqui e lá fora.

 

Nossa reputação, contudo, não significa vida fácil contra nossos adversários. Ao contrário. Eles transformam a partida em uma guerra. Como se ganhar do Grêmio fosse um troféu à parte na competição. Por isso, não surpreende a maneira até violenta com que fomos recebidos em campo na noite de ontem, na Argentina — boa parte dessa violência ocorreu sem qualquer punição por parte do árbitro.

 

Pelas fotos feitas por Lucas Uebel —- fotógrafo oficial do Grêmio e autor das imagens que costumo reproduzir nesta Avalanche —, o árbitro não apenas deixou de advertir o adversário com a rigidez necessária como também não viu um pênalti sobre Geromel, no qual teve sua camiseta de número 3 agarrada pelo marcador. Foi um pouco antes do entrevero que ocorreu entre o mesmo Geromel e o atacante adversário, já na área gremista, ao fim do primeiro tempo.

 

Independentemente da marcação mais forte do que as regras esportivas recomendam ou da disposição do adversário para nos superar —- e isso são apenas motivos de mais orgulho para esse gremista —-, o Grêmio foi maduro em campo. Não perdeu a cabeça, mesmo tendo sofrido gol logo no segundo minuto de partida. Evitou cair em provocações. Colocou a bola no chão, trocou passes, esperou brechas na marcação adversária e chegou ao empate.

 

O gol que marcou foi resultado dos muitos méritos que essa equipe leva a campo, além da própria maturidade para encarar reveses. Após pressionar muito, ameaçar jogadas por um lado e por outro, contamos com a visão de jogo e a precisão do passe de Marinho. Ele estava marcado pelo lado direito e teve capacidade de enxergar Everton lá do outro lado. A partir daí, ficamos por conta do talento de nosso atacante que driblou dois marcadores dentro da área e completou a jogada colocando a bola no fundo do poço.

 

Não tenho mais aquela camiseta desbotada da foto antiga. As que me acompanham em casa estão emolduradas ou dobradas no armário a espera de um espaço na parede — ainda quero ter uma de Geromel, um Anchieta redivivo e melhorado pelo tempo. Mas o guri com a camisa 3, sem emblema, lá do gramado no estádio Olímpico, voltou a se revelar na noite dessa quarta-feira de cinzas, ao vibrar como louco, com os punhos cerrados e o grito de gol que nos garantiu o primeiro ponto na estreia da Libertadores, jogando fora de casa naquele que é conhecido por Grupo da Morte.

Avalanche Tricolor: Marcelo Grohe merece vestir nossa camisa listrada

 

Figueirense 0x0 Grêmio
Brasileiro – Orlando Scarpelli/Florianópolis (SC)

 

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O time era o reserva. De titular, só Marcelo Grohe. E meu destaque vai para ele.

 

Antes dele, porém, falarei de outros personagens do jogo deste fim de sábado.

 

Era de se esperar pouco, apesar de eu sempre alimentar a esperança de que alguns dos escalados tenham seu momento de recuperação, desempenhando em campo o futebol que imaginávamos ter, mas que deixou a desejar e os levou à condição de reserva.

 

Dos mais jovens, a expectativa é que se destaquem, demonstrem condições de reivindicar um lugar no time e, principalmente, ofereçam alternativas para Renato, nesta ou na próxima temporada.

 

Do que se esperava de uns e de outros, ficou o esforço e a luta pela bola. Foram competentes na marcação e impediram qualquer perigo que o adversário pudesse impor.

 

Tivessem caprichado um pouco mais até sairíamos de campo com os três pontos, subiríamos na tabela de classificação e estaríamos colados no G6. Mas não dá pra reclamar. Eram os reservas em campo. E, independente do que esperávamos deles, tinham como principal missão dar fôlego aos titulares para a batalha que realmente vale, na quarta-feira, pela Copa do Brasil.

 

Além de fôlego, nas duas vezes que foram convocados ganharam dois pontos e nos deixaram ainda na disputa pela vaga a Libertadores, graças a combinação de resultados com os outros jogos da rodada. E convenhamos:  tem uma turma aí que tem metido o time titular, joga em casa, precisa desesperadamente de uma vitória e tem sofrido para conquistar o mesmo ponto que os nossos reservas garantem a cada partida.

 

Como disse lá em cima, o que me agradou mesmo foi ver Marcelo Grohe. Por uma ótima defesa no primeiro tempo, mas, principalmente, por vê-lo vestindo a camisa tricolor. 

 

Tenho sempre um olhar especial aos goleiros, pois os considero solitários em sua função ingrata de impedir que um time inteiro alcance seu maior objetivo: o gol. É sempre difícil de entender por que alguém ao tomar a decisão de jogar futebol queira fazê-lo como goleiro, apesar de eu já ter me arriscado na posição e meu pai ter se dedicado a ela nos times da escola e de amigos. Deve haver um viés masoquista ou algo equivalente que a psicologia saiba explicar.

 

Ao ser goleiro você sequer tem o direito de vestir a camisa titular da equipe que representa. Refiro-me aquela que os torcedores usam para ir ao estádio ou desfilar pelas ruas. Os do Grêmio, por exemplo, jogam anos no clube sem jamais ter usado nosso manto listrado. Imagine a frustração.

 

Fui surpreendido, hoje, com o número 1 e o nome de Marcelo Grohe estampados nas costas da camisa azul, preto e branco. Grata surpresa. Em um jogo de tão poucos atrativos, ao menos ali havia um motivo para minha satisfação.

 

Achei justa a decisão, de quem quer que tenha sido, de oferecer esta oportunidade ao goleiro gremista. Que se repita sempre que o Grêmio entrar em campo com o segundo ou terceiro uniformes. Grohe merece!

Corinthians, devolve minha alma roubada

 

Sou torcedor forjado a sofrimento e lágrimas, acostumado a lutar sempre e não aceitar a derrota mesmo quando esta é inevitável e a vitória, injustificável. Estou sempre disposto a mais uma conquista sabendo que esta somente será alcançada após driblar todos os percalços e no último minuto do jogo, se preciso for que seja no tempo extra. Foi assim que aprendi a me contorcer nas arquibancadas do Olímpico Monumental – no início apenas Olímpico -, empurrando a bola pela linha de fundo para impedir o ataque advesário, chutando o encosto da cadeira da frente para ajudar o volante a despachar o perigo e de bico enfiar a bola onde o goleiro não alcançará jamais. Nunca me iludi com os elogios ao futebol-maravilha, arma preferida de comentaristas e “especialistas” contra o futebol de verdade, aquele que rende títulos e emoção. Desdenham do time viril, bravo e competitivo que alcança sua meta, seja esta qual for, quando deveriam compreender que em campo não há mais espaço para firulas, lances rebuscados e goleadas – e na me venha com as exceções, estão aí apenas para confirmar a regra. Reclamam de jogadores limitados e placares espremidos. E daí ? Futebol é sangue, suor e camisa rasgada.

Chega-se a mais um título brasileiro nestas condições. Não se tem futebol de sobra nem jogador para ser chamado de craque. Tem-se um grupo de guerreiros dentro de campo e uma torcida alucinada do outro lado do alambrado. No banco, o técnico xinga, esbraveja, esmaga o rosto com as mãos, faz substituições para enfeiar a partida se isto for necessário no caminho da vitória. Sabe que todo drible será esquecido se esta não for alcançada e gol do título só serve para agradar programa de televisão. Por isso, se precisar que se vença de 0 a 0.

Caro e raro leitor deste blog (cada vez mais raro), estou feliz pela conquista que a Alma Tricolor alcançou nesta temporada de 2011. Aprendi seu significado e como esta contamina jogadores, técnicos e torcedores transformando-os em campeões lendo o filósofo do futebol Eduardo Bueno, o Peninha, no livro “Grêmio: nada pode ser maior”. É lá que se descobre que esta Alma foi campeã Mundial em 1950 vencendo o iluminado Brasil, no Maracanã; destroçou a Holanda em 1974 e 1978; conquistou a Copa de 2002 contra os badalados alemães; foi a maior e mais forte – nunca a mais talentosa – nas Libertadores de 1983 e 1995, no Mundial de Tóquio, em 1983 e nas muitas Copas do Brasil, em especial a de 2001, que tive oportunidade de comemorar no microfone com os gritos de gol no 3 a 1 contra o Corinthians, no Morumbi – estas últimas todas vestindo a sua tradicional camisa azul, preto e branco.

Neste ano, a Alma Tricolor, sabe-se lá porque os Deuses do futebol assim quiseram, fardou-se de corintiana e acaba de se transformar Campeã Brasileira, sem marcar gols, brigando com o adversário, reclamando do juiz mesmo que ele esteja certo, sofrendo ataques no poste e no travessão, e comemorando ao fim de tudo sob a batuta de um maestro que construiu sua imagem no Monumental, Tite. Fim de temporada, me cabe apenas um pedido ao Corinthinas que festeja merecido título: devolva-me a alma roubada – está fazendo uma falta danada para a turma da Azenha.

N.B: O futebol jogado, a vitória do Corinthians e a temporada de lamentos gremistas nada mais importam diante do minuto eterno de respeito que devemos a Sócrates e sua família. Um jogador que incluiu o calcanhar no vocabulário do futebol e a política no vestiário da bola. Ele também tinha Alma Tricolor.