Feliz Ano Velho: das guerras às vacinas

Ataque dos EUA contra a Venezuela — Foto: STR / AFP

As luzes da árvore de Natal ainda piscavam quando as explosões iluminaram o céu da Venezuela. O brilho artificial da guerra ofuscou, mais uma vez, o olhar de esperança que a humanidade insiste em exercitar neste período de festas. Dias antes, fogos de artifício tinham marcado o que imaginávamos ser a passagem do velho para o novo ano — aquele instante em que nos convencemos de que somos capazes de fazer melhor, rever atitudes, nos reinventar se necessário. Ilusão. Pura ilusão. Foi o que revelou a ordem do presidente Donald Trump para atacar alvos venezuelanos.

A ação americana, que resultou na morte de dezenas de pessoas e na prisão de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, nos empurra para um tempo que julgávamos superado. Um tempo anterior às grandes guerras do século XX. Um mundo em que Estados fortes usavam a força militar como instrumento rotineiro de política externa, sem freios jurídicos ou diplomáticos. Um século XIX reciclado, agora embalado por discursos contemporâneos.

Convém registrar desde já: nada disso transforma Nicolás Maduro em vítima histórica. Seu governo é expressão do mesmo atraso que este texto denuncia. Uma ditadura que sufocou instituições, perseguiu opositores, produziu êxodo, pobreza e violência. Ao impor ao próprio povo um regime anacrônico e sanguinário, Maduro também desrespeitou valores que o mundo diz defender desde o pós-guerra. Criticar a violação da soberania venezuelana não significa ignorar, muito menos minimizar, a tragédia política e humanitária construída dentro do país ao longo de anos. O atraso, neste caso, opera em duas direções.

Depois de 1918, e sobretudo após 1945, o planeta tentou impor limites à barbárie. Criou regras, tratados, organismos multilaterais. Não para abolir conflitos — ilusão maior ainda —, mas para contê-los. Para reduzir danos. Para lembrar que soberania nacional não é detalhe negociável. Quando um país decide agir sozinho, à margem dessas regras, não está apenas violando o direito internacional. Está ensinando o mundo a ignorá-lo.

Em entrevista ao Jornal da CBN, a ex-juíza do Tribunal Penal Internacional Sylvia Steiner ofereceu a imagem mais precisa desse momento histórico. Disse que o direito internacional não está falido, mas constantemente abalado. Um paciente em estado grave, que ainda respira. A metáfora é poderosa porque desloca o debate: o problema não é a inexistência das normas, mas a reincidência de quem insiste em testá-las.

O caso venezuelano expõe também a fragilidade do Conselho de Segurança da ONU. Criado para preservar a paz, tornou-se refém de uma composição congelada no pós-guerra. Cinco países com poder de veto. Pouca renovação. Menos ainda capacidade de reação quando um desses atores decide romper as regras. A própria Steiner admite ter poucas esperanças de que dali surja alguma sanção efetiva. A lei existe, mas tropeça no desequilíbrio de poder.

O alerta do secretário-geral da ONU, António Guterres, de que a operação americana cria um “precedente perigoso”, soa quase como nota de rodapé em meio ao barulho das bombas. Precedentes são perigosos porque ensinam. Hoje é a Venezuela. Amanhã, outro país. O método é antigo; só mudam os alvos.

Enquanto lia a cobertura sobre a prisão de Maduro e as reações internacionais, meus olhos cruzaram outra manchete no The New York Times (leitura disponível apenas para assinantes). À primeira vista, distante da guerra. Na essência, parte do mesmo enredo. Nos Estados Unidos, o secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. decidiu reduzir drasticamente o número de vacinas recomendadas para crianças. De 17 para 11. Uma guinada que ignora décadas de evidências científicas e o processo técnico conduzido por especialistas do Centers for Disease Control and Prevention.

Vacinas são uma das maiores conquistas civilizatórias da humanidade. Salvam vidas silenciosamente. Não produzem imagens espetaculares. Talvez por isso sejam alvos fáceis do negacionismo político. Quando a ciência preventiva passa a ser tratada como opinião, e não como evidência, o retrocesso deixa de ser abstrato. Ele ganha corpo. E rosto. Muitas vezes, infantil.

O elo entre essas duas notícias — guerra e vacina — é mais forte do que parece. Em ambos os casos, instituições incomodam. No direito internacional, porque impõem limites à força. Na saúde pública, porque exigem rigor, método e responsabilidade coletiva. Quando a política atropela essas instâncias, o que se perde não é apenas eficácia. É civilidade.

Wálter Fanganiello Maierovitch, em O Mercado da Morte, lembra que a primeira vítima da guerra é o próprio direito internacional. Talvez possamos ampliar a frase: a primeira vítima do poder sem freios é sempre o conhecimento acumulado. Seja jurídico, seja científico.

Mudamos o ano no calendário. Mas seguimos resolvendo conflitos com ferramentas gastas. Questionamos vacinas. Relativizamos soberanias. Desconfiamos das regras que nós mesmos criamos para nos proteger de nós mesmos. A essa altura, talvez o brinde mais honesto não seja ao novo, mas ao passado que insiste em governar o presente.

Seguimos celebrando a virada com práticas antigas.
O ano muda.
O mundo, nem tanto.

Feliz ano velho — expressão emprestada, com respeito, para descrever um tempo que se recusa a amadurecer.

Avalanche Tricolor: o futebol foi justo com o Grêmio

 

Monagas 1×2 Grêmio
Libertadores – Venezuela

 

 

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O gol da justiça em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O Grêmio foi a Venezuela em busca dos três pontos e jogou o necessário para trazer para casa a liderança do grupo A, na Libertadores. Entrou em campo com com a defesa titular, o meio de campo — que teve o reforço de Ramiro – e o ataque alternativos 

 

Cícero que costuma jogar boa parte das partidas, geralmente no segundo tempo, foi escalado. Alisson, nossa espécie de 12o titular, também — mas com pouco minutos de jogo sentiu lesão na perna e teve de ser substituído.

 

Renato montou a equipe de forma calculada. Sabia que o time não poderia render o mesmo que vem rendendo nas partidas em que jogam todos os titulares — mas tinha consciência que os 11 escalados estavam aptos a superar o adversário.

 

E fomos melhores durante praticamente 90 minutos de jogo. Dominamos a partida, anulamos as jogadas de ataque, ocupamos o meio de campo e tocamos bola com a precisão que o gramado permitia — aliás, um gramado muito aquém do que se deve exigir no futebol profissional.

 

Se no primeiro tempo arriscamos uma ou outra jogada na frente, no segundo, a pressão aumentou, especialmente pela esquerda. Curiosamente, foi do outro lado direito que surgiu o gol, após Ramiro arriscar de fora da área e pegar a defesa de surpresa.

 

Com a vitória parcial, a intenção era deixar o tempo passar reduzindo ao máximo os riscos lá atrás.

 

O adversário realmente fez muito pouco para merecer o empate. Na primeira vez que chegou ao nosso gol, Grohe fez o que sabe fazer — defendeu de maneira espetacular. Na segunda, quando o ponteiro já girava nos acréscimos, a injustiça: Kannemann tentou tirar a bola e marcou contra.

 

O empate nos deixaria em segundo no grupo e em função da tabela dificilmente conseguiríamos chegar à liderança na última rodada, mesmo com um vitória na Arena. Parecia que o futebol nos pregaria mais uma peça, cometendo uma injustiça contra o time mais qualificado do grupo e que se mostrava muito superior ao adversário.

 

Sabemos bem que o futebol tem dessas coisas. Nem sempre o melhor vence. A bola que você chuta bate no travessão, o passe final é desviado por um buraco no campo e o drible que deixaria o atacante na cara do gol é desperdiçado. De repente, um descuido aqui e um tropeço ali e o gol adversário se realiza. O futebol está cheio de injustiça e por muitas vezes já fomos vítimas desses eventos.

 

Quando parecia que nada mais restava fazer, além de lamentar o empate, lançamos a bola para dentro da pequena área e Cícero que estava prestes a dominá-la foi derrubado. Entre o empurrão sofrido e o pênalti assinalado foram milésimos de segundos — tempo suficiente para me passar pela cabeça as injustiças cometidas contra o Grêmio pelo árbitro do fim de semana passado, que não marcou ao menos duas penalidades a nosso favor.

 

Desta vez foi diferente — o juiz estava bem colocado e não titubeou. Pênalti marcado quando o relógio estava fechando o tempo extra. Confesso que, mesmo assim, as injustiças de outros tempos voltaram a me atormentar.

 

Quando vi Jailson pronto para a cobrança cheguei a pensar quanto as circunstâncias de um jogo podem ser injustas com um jogador como ele, que vem tentando reconquistar o lugar no time.

 

Errar em um momento tão decisivo não me surpreenderia. É muita pressão e emoção — pois o Grêmio acabara de levar um gol e aquele seria o último e definitivo lance da partida.

 

Jailson teve personalidade, bateu forte e distante do goleiro — fez o gol que colocaria o Grêmio em primeiro lugar no grupo A e nos deixaria próximo da melhor campanha de todos os demais times que disputam a Libertadores.

 

O futebol que já nos ofereceu tantas injustiças desta vez foi justo!

Avalanche Tricolor: o Grêmio-Show está em campo!

 

Grêmio 4×0 Monagas-VEN
Libertadores – Arena Grêmio

 

Jael1

Jael marca o primeiro do jogo: cruel! (reprodução SportTV)

 

É colocar a bola no chão, trocar passe pra cá e pra lá, esperar o companheiro se deslocar, controlar a paciência e esperar os espaços surgirem. Às vezes demora mais, às vezes demora menos. Mas o gol aparece. E quando aparece um, vem outro e outro e, como no início da noite desta quarta-feira, mais outro.

 

É um show de bola!

 

O adversário bem que ensaiou uma retranca e pensou em dar alguns sustos no contra-ataque. Mas a resistência não foi além do primeiro tempo. Bastaram os minutos de conversa de Renato no vestiário para o Grêmio voltar diferente para o segundo tempo.

 

E quando o futebol do Grêmio que admiramos entra em campo, é outro show!

 

Com a entrada de Alisson, como tem ocorrido com frequência nos últimos jogos, o time fica ainda mais solto, a quantidade de jogador que aparece para receber a bola aumenta e deixa os marcadores completamente perdidos.

 

Até as jogadas pelo lado esquerdo apareceram, com Cortez chegando na linha de fundo e cruzando na área. Esse tipo de lance valoriza ainda mais nosso homem de frente.

 

Jael costuma jogar como pivô, de costas para os zagueiros e por isso é o rei da assistência. Mas quando vem o cruzamento, ele vira o centroavante clássico.

 

Show de Jael!

 

Um gol de cabeça que marcou o início do domínio pleno da partida. Dali para frente, a dúvida era quantos mais gols marcaríamos.

 

E aí vieram os shows de Everton e Luan.

 

O Rei da América corre elegante com a bola no pé, escapa do marcador, limpa o lance, serve os companheiros, chuta a gol e marca gols. É o nosso goleador na temporada.

 

Um show à parte!

 

Já Everton – escrevi isso na última Avalanche – segue a mesma trajetória de seu antecessor Pedro Rocha, que por algum tempo era criticado devido aos desperdícios nas finalizações.

 

Ele ganha cada vez mais confiança, cria oportunidade atrás de oportunidade, investe na velocidade e no talento. Hoje, deu dribles que deixaram seus marcadores desnorteados. E dribles em direção ao gol, produtivos.

 

Everton é outro show!

 

Foi de cabeça e com Cícero, que havia recém-chegado ao jogo, que completamos a goleada. Aliás, mais uma goleada nessa trajetória gremista. Foi assim nas partidas decisivas do Campeonato Gaúcho, foi a assim na Libertadores, esta noite.

 

Virou padrão.

 

Ou, como diria aquele famoso locutor esportivo: virou passeio.

 

O Grêmio-Show está em campo!

Avalanche Tricolor: assim é a Libertadores !

 

Caracas 2 x 1 Grêmio
Libertadores – Caracas (Venezuela)

 

Havia crateras na grama do estádio Olímpico da Universidade Central da Venezuela que, soube pelos narradores da SporTV foram feitas em partidas de rugbi e provas de atletismo, como arremesso de martelo, além do próprio futebol, praticado por oito diferentes clubes. O gramado da Arena, motivo de tantas reclamações pelo pouco tempo para ser implantado, poderia ser comparado a um tapete diante das condições oferecidas para se disputar o jogo desta noite, em Caracas.

 

Esta foi a primeira atividade esportiva oficial na Venezuela desde a morte do presidente Hugo Chavez, há uma semana, o que torna estranha a decisão da Conmebol de não autorizar a realização de um minuto de silêncio antes do apito inicial. Comoção e tensão se misturavam frente ao impasse político pelo qual enfrenta o país já em clima de eleição. Havia nervosismo nas ruas de Caracas, apesar de dentro do estádio se assistir à uma torcida adversária entusiasmada e um adversário disposto a impedir a repetição da goleada na semana anterior, em Porto Alegre.

 

Foi neste cenário que o Grêmio teve de enfrentar mais um desafio no caminho do Tri da Libertadores. Colocando a bola no chão e driblando carências e emoções, se fez forte para sair na frente no placar, no primeiro tempo, mas mesmo com futebol melhor não conseguiu resistir as falhas individuais. Ao contrário das duas partidas anteriores, tinha talento, porém não soube somar a raça que lhe diferencia. Perdeu muitas divididas em um jogo no qual o adversário marcava forte.

 

Em Libertadores é preciso se adaptar a todas as situações e saber que a vitória nunca chegará sem sofrimento. Menos ainda o título que sonhamos.

Twitter contra Chávez, Chavez contra Twitter

O fechamento de 34 emissoras de rádio e canais de televisão regionais somado ao ataque realizado na Globvision geraram forte reação na opinião pública digital, destaca o jornalista argentino Julian Gallo, no Blog Mirá. No post, o ‘periodista’ chama atenção para o movimento espontâneo que surge em redes sociais, principalmente no Twitter, onde é possível seguir a crise com a palvara de busca #FreemediaVe.

Em resposta a ação digital, a Agência Bolivariana de Notícias divulgou comunicado alegando que na internet se desenvolve “campanha midiátia de ultra-direita”.

Na edição de ontem do Jornal da CBN, Miriam Leitão em seu comentário, normalmente dedicado a economia, falou da ação de Hugo Chavez e disse que o governo dele é totalitário. A ação violenta na sede da Globvision apenas reforça esta visão.

Para ler o texto de Julian Gallo e a íntegra do comunicado da Agência Bolivariana de Notícias acesse aqui.