Pesquisa da Noruega lista sete critérios para identificar vício em game

 

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A discussão sobre o vício em videogame tem levado cientistas e instituições a se aprofundarem no tema que ganhou nova dimensão com o reconhecimento deste transtorno pela Organização Mundial de Saúde. Falei bastante sobre o assunto semana passada, no Jornal da CBN e aqui mesmo no Blog.

 

Volto ao assunto hoje por dois motivos.

 

Primeiro, porque ouvi o Doutor Jairo Bouer, comentarista do quadro Papo Livre, responder a pergunta de uma ouvinte preocupada com o fato de encontrar o filho acordado durante a madrugada com o tablet em mãos e jogando videogame sob a justificativa de que estava com insônia.

 

Ouça o comentário de Jairo Bouer: usar aparelhos eletrônicos à noite é a pior coisa a fazer para combater insônia

 

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Cecilie Andreassen Foto: UiB

 

Segundo, porque encontrei no site da Universidade de Bergen, na Noruega, a pesquisa desenvolvida pela psicóloga Cecilie Schou Andreassen para traçar o perfil dos viciados em games e mídias sociais. O estudo, que analisou o comportamento de cerca de 23 mil pessoas, está publicado na revista da Associação Americana de Psicologia sob o título The relationship between addictive use of social media and video games and symptoms of psychiatric disorders: A large-scale cross-sectional study”.

 

Conforme o trabalho, que inclui games e mídias sociais, a dependência aos jogos está associada com o TDHA Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, transtorno obsessivo compulsivo e depressão.

 

“O envolvimento excessivo nos jogos pode funcionar como um mecanismo de escape para os distúrbios psiquiátricos subjacentes, ou lidar com eles, na tentativa de aliviar sentimentos desagradáveis e de acalmar corpos inquietos” – Andreassen.

 

A relação de homens e mulheres com as atrações do mundo digital também é diferente, conforme constatou na pesquisa:

 

“Os homens parecem geralmente mais propensos a se tornarem viciados em jogos, jogos de azar e pornografia online, enquanto mulheres para redes sociais, mensagens de texto e compras online”- Andreassen.

 

A pesquisadora listou ainda sete sinais de alerta que podem ajudar você a identificar se o seu comportamento ou o do seu filho, de seus amigos e conhecidos está fora de controle:

 

1. Você pensa em jogar videogame durante todo o dia;

 

2. Você gasta cada vez mais tempo com videogame;

 

3. Você joga videogame para se esquecer da vida real;

 

4. Outros tentaram, sem sucesso, reduzir o uso do seu jogo;

 

5. Você se sente mal quando não consegue jogar;

 

6. Você briga com sua família e amigos devido ao longo tempo gasto em jogos;

 

7. Você negligencia outras atividades importantes como escola, trabalho e esportes

 

E aí? Você se encaixa em algum ou alguns desses critérios?

Educação digital e diálogo evitam dependência de videogame e tecnologia

 

 

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Usuário de videogame. Foto: CC0 Creative Commons

 

 

A decisão da OMS – Organização Mundial de Saúde de identificar o vício por videogame como distúrbio mental, tema que tratei em post publicado nessa terça-feira, aqui no Blog,  sinaliza o tamanho do problema que algumas pessoas estão enfrentando dentro de casa. Se até há alguns anos, os pacientes que apresentavam sinais de dependência aos jogos eletrônicos, especialmente online, tinham mais de 18 anos, hoje os consultórios de psicologia já recebem meninos e meninas de 11 e 12 anos. Fiquei surpreso e assustado com a informação da psicóloga  Anna Lucia King, que entrevistei no Jornal da CBN, na manhã desta quarta-feira.

 

 

Ela entende do assunto. É doutora em saúde mental e uma das fundadoras do Instituto Delete que surgiu dentro do Instituo de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2008. Logo que começa a conversar sobre o assunto faz questão de ressaltar: “somos a favor das tecnologias porque são muito importantes, elas desenvolvem o mundo”. Mesmo que defenda um detox digital, não prescreve abstinência no acesso a computadores e celulares ao contrário do que se faz com dependentes de álcool e drogas.

 

 

Chama atenção para a necessidade de se diferenciar os que usam de forma abusiva a tecnologia, por lazer ou trabalho, daqueles usuários abusivos que tenham um transtorno associado. Geralmente são pessoas inseguras, dependentes emocionalmente de outras, têm baixa auto-estima, dificuldade de se relacionar, mantém alguma fobia social e usam o computador como um escudo.

 

 

 

 

Existem exames específicos e profissionais preparados para identificar a dependência de videogames – e este é um dos trabalhos do Instituto Delete. Porém, é possível ligar o sinal de alerta no caso de a pessoa, seja mais jovem ou mais velha, ter privação de sono, baixo rendimento escolar e profissional, prejuízos na  vida pessoal, social e familiar. Geralmente, a identificação desses sinais é feita por alguém da família porque a pessoa mesmo não reconhece o uso abusivo com transtorno associado.

 

 

Para Anna Lucia, educação digital e diálogo são os caminhos a serem percorridos por pais e filhos com o objetivo de evitar o uso abusivo das tecnologias: “o importante é o pai entender que ele é o responsável pelo uso da tecnologia do filho … como transmitir educação digital se ele mesmo dá exemplo errado?”.  Portanto, antes de cobrar do seu filho um comportamento que considere mais apropriado, lembre-se de prestar atenção nos seus hábitos.

 

 

Gostei de ouvir na entrevista uma sugestão que já aplico desde que me conheço por pai – e isso lá se vão 20 e poucos anos.

 

 

Anna Lucia comentou que os pais costumam reclamar dos excessos cometidos pelos filhos, mas fazem questão  de montar o quarto das crianças com sinal de wi-fi e equipamentos de última geração: “aquilo (o videogame) é muito sedutor, com luzes, imagens e personagens que são fortes e bem sucedidos”. A sugestão dela é que  o computador esteja na sala para que as crianças não fiquem isoladas e o acesso seja em um ambiente coletivo.

 

 

Por vivência já compartilhada com você, caro e raro leitor deste Blog, quando todos usam a internet em um mesmo ambiente a troca de experiência é muito maior, o relacionamento se torna saudável e educativo. E educativo para ambos os lados. Aprendi muito assistindo a meus filhos e descobri, por exemplo, que eles não vivem na frente do computador jogando videogame. Eles vivem na frente do computador assistindo a documentários e séries, pesquisando para trabalhos escolares e profissionais, conversando com amigos nos mais diferentes cantos do planeta, lendo artigos e textos disponíveis na internet, trocando todo tipo de arquivo de áudio, video, texto e foto, e, claro, jogando videogame.

 

 

“Os pais precisam ver que não é porque o filho joga o dia inteiro que ele é um doente ou tem um transtorno associado, ele às vezes tem uma falta de orientação de como usar adequadamente a tecnologia; e todo jovem que usa muito tempo não quer dizer que ele é um viciado ou dependente, ele só tem um mau uso que precisa ser corrigido e orientado”, comentou.

 

 

Você está preparado para orientar o seu filho?

 

 

Leia mais sobre o assunto:

 

 

O que aprendi com os meninos que não saem da frente do computador

 

 

Um manual para os pais da geração gamer

Seu filho não é um viciado, está apenas empolgado com o videogame

 

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Imagem Pixabay

 

 

Minha experiência com eSport e videogame é caseira. Verdade que fui jogador eventual, mas sem pretensão nem talento. O que mais aprendi foi na convivência com meus guris. Eles se dedicam ao tema (e aos jogos). Divertem-se, estudam, testam estratégias, praticam à exaustão e um deles até se profissionalizou. De minha parte, hoje, leio o que posso, mesmo porque preciso entender o mundo em que eles vivem.

 

Nesta semana mesmo, conheci Will Partin, PHD em comunicação da Universidade da Carolina do Norte, através de artigo no qual explica o que chama de “árdua” e “intransigente” relação entre esportes tradicionais e eletrônicos. É um bem referendado texto que trata do tema na medida certa e se baseia no histórico prazer que a humanidade tem de competir.

 

Leia aqui o artigo “Esports is Dead! Long live  Esposrts!”

 

Essa discussão eterna se eSport pode ser considerado esporte é muitas vezes contaminada pelo preconceito que tem na origem a falta de conhecimento e, pior, de interesse em conhecer. Algo do tipo: não conheço, não quero conhecer e tenho raiva de quem conhece. Colabora com a divergência a distância que existe entre gerações: pais que nasceram na era pré-internet ou nos tempos da internet à carvão tentam reproduzir com os filhos a educação que lhes foi oferecida. E claro que a coisa não pode dar certo!

 

Sempre que comento sobre as atividades digitais de meus filhos e o tempo que eles destinam ao uso do computador, pais me olham desconfiados. Alguns confessam que já entraram em confronto com seus filhos na tentativa de limitar o uso dessas máquinas, outros questionam os riscos deles se transformarem em pessoas anti-sociais e os mais assustados trazem argumentos jamais comprovados de que as crianças ao jogarem jogos violentos tendem a ficar violentas. Coisa de louco!

 

Como sei que essa briga vai longe e o risco de a desinformação só piorar o embate dentro de casa – e nas minhas conversas com amigos -, aproveito o Blog para chamar atenção para a reportagem publicada pela BBC Brasil, nesta terça-feira, que, aliás, já está entre as 10 mais lidas de seu site.

 

“Pela primeira vez, vício em games é considerado distúrbio mental pela OMS”

 

Essa é a manchete da reportagem assinada por Jane Wakefield que nos informa que a 11a. Classificação Internacional de Doenças (CID), que será publicada neste ano, identificará esse vício como “distúrbio de games”. O problema é descrito como padrão de comportamento frequente ou persistente de vício em videogames, tão grave que leva “a preferir os jogos a qualquer outro interesse na vida”.

 

As pessoas diagnosticadas com essa doença não têm controle de frequência, intensidade e duração com que jogam videogame; e continuam ou aumentam ainda mais essa frequência, mesmo após ter tido consequências negativas desse hábito, relata a BBC.

 

Viu só, Mílton? Eu avisei!

 

Caro e raro amigo, antes de você me condenar e espalhar a informação rasa e incompleta nos seus grupos de WhatsApp, Facebook e afins, vamos aos detalhes da notícia.

 

Médicos ouvidos pela BBC, que entendem a importância de a OMS reconhecer o vício em videogame, pedem precaução aos pais.

 

“As pessoas acreditam que as crianças estão viciadas em tecnologia e nessas telas 24 horas por dia a ponto de abdicarem de outras atividades. Mas sabemos que não é o caso (…) Nossas descobertas mostram que a tecnologia tem sido usada em alguns casos para apoiar outras atividades, como tarefas de casa, por exemplo, e não excluindo essas atividades das vidas das crianças (…) Assim como nós, adultos, fazemos, as criança espalham o uso da tecnologia digital ao longo do dia, enquanto fazem outras coisas.

 

Killian Mullan, da Universidade de Oxford

 

 

 

“(A decisão da OMS) pode levar pais confusos a pensarem que seus filhos têm problemas, quando eles são apenas “empolgados” jogadores de videogame (…)”

 

Richard Graham, do Hospital Nightingale, de Londres

 

Anotou o recado?

 

Então, vamos combinar o seguinte: esteja atento aos hábitos de seus filhos, acompanhe suas atividades e faça suas recomendações. É papel dos pais. Mas, por favor, não seja intolerante e não use argumentos falsos para justificar suas ideias. Como disse Dr Grahan, seu filho muito provavelmente não é um viciado, está apenas empolgado! E saiba, por experiência própria, esta empolgação  pode ser o caminho para uma carreira, para novos negócios ou, pelo menos, para uma grande diversão da qual você pode participar.

Tyson diz trocar desejo pelas drogas pelo de ser uma pessoa melhor

 

 

Semana passada, ao escrever sobre MMA aqui no blog trouxe minhas lembranças das lutas de boxes e citei Mike Tyson como ponto final pela admiração que tinha com o esporte. Por coincidência, lendo The New York Times, no fim de semana, me deparo com artigo assinado pelo ex-boxeador no qual fala das tradicionais resoluções de Ano Novo, ponto de partida para tratar de sua maior luta: o vício com drogas e bebidas.

 

Tyson diz que, por ser viciado, faz parte de um grupo que não pode se dar ao luxo de fazer promessas que não mantêm: “a disciplina não é algo por que lutar a cada ano novo – é necessário a cada momento”. Apesar dos pesares, considera-se disciplinado, lição que aprendeu com seu primeiro treinador, Cus D’Amato, com quem trabalhou duro para se tornar o mais jovem campeão dos pesos pesados na história, quando sacrificou boa parte de sua vida social como adolescente e durante anos exigiu de seu corpo ao extremo todos os dias. D’Amato morreu um ano antes de Tyson conquistar o título mundial, em 1986, e com ele se foi o cara que o mantinha sob controle e distante das drogas e bebidas.

 

Tyson conta que os anos de sucesso foram os mais perigosos de sua vida, pois ouvir “você é um Deus” ou “seu retorno é incrível” detonava a certeza de que ele era capaz de beber, se drogar e se conter quando quisesse. Ledo engano. “Quando estava no auge de minha carreira, tinha um sistema de apoio ruim. Abutres gananciosos estavam em volta de mim, colocando suas mãos nos meus bolsos, usando meu status para seu ‘auto-engrandecimento’. Não havia como vencer assim” – escreve. O ex-boxeador conta que estava sóbrio por cinco anos quando teve um deslize e voltou a beber novamente em agosto do ano passado. Em lugar de se esconder, seguir “alto” até se deparar com uma prisão ou um acidente de carro, depois de três dias, ele buscou ajuda, sem necessidade que houvesse uma intervenção: “eu tinha aprendido na terapia a não bater em mim mesmo. Eu lembrei que a recaída é parte da recuperação”.

 

O caminho da humildade e do reconhecimento de sua fraqueza, diz Tyson, o faz se sentir muito melhor: “tive de substituir o desejo por drogas ou álcool pelo desejo de ser uma pessoa melhor”. Encerra o artigo desejando que todas as resoluções mais bem-intencionadas se realizem em 2014. Que as de Tyson, que parece estar construindo uma nova história vencedora, também se concretizem.