Conte Sua História de SP: o cineminha no refeitório da escola e o achocolatado de graça

 

Por Clênio Caldas

 

 

Minha história se passa nos anos de 1950, na rua Dona Júlia, na Vila Mariana, onde se localizava o então Grupo Escolar Marechal Floriano. Ali, estudávamos no curso primário sob a orientação das professoras Maria da Glória, Ana e Júlia. Foram nossas dedicadas mestras, como também educadoras conscientes e responsáveis com os garotos para as quais nossos pais nos entregavam. A classe era somente de meninos. As meninas ficavam em outra ala do prédio.

 

Foram anos tranquilos e proveitosos, prova do alto grau de conceito das escolas estaduais e do quilate dos professores que nos ensinavam com zelo e carinho.

 

Cenas pitorescas, todavia, não deixavam de ocorrer.

 

Houve o garoto que comprou o pirulito e, sem ao menos saboreá-lo, quebrou-o no pátio da escola para ver se a haste estava premiada. Foi advertido pelo rigoroso inspetor Trivino devido o desperdício cometido.

 

Lembro de alunos em pranto ao fim da aula por não notarem a presença dos pais que, atrasados, demoravam a aparecer.

 

Tinha o medo generalizado da molecada nos dias em que todos passávamos pela “revisão dentária” na temida e apavorante cadeira do dentista, em uma das salas da diretoria separada especialmente para isto.

 

Havia dias festivos e felizes, também, especialmente quando eram suspensas as aulas para que todos aproveitassem o “cineminha” no refeitório, apinhado de meninos e meninas, ávidos por assistirem às trapalhadas de “O Gordo e o Magro”. E mais: com direito a amostra grátis do achocolatado Vic Maltema, com o jingle cantado a plenos pulmões por uma gurizada alucinada de felicidade!

 

Ao deixarmos a escola, encontrávamos o Sr. Osvaldo, o guarda civil que com um sorriso singelo e terno, exalando simpatia e confiança, nos conduzia em segurança para atravessarmos a já movimentada Domingos de Morais. Lá do outro lado, pegamos o ônibus ou embarcáramos no bonde que nos levava para casa.

 

Lembrança de uma São Paulo ainda pacata mas em pleno desenvolvimento, com seus momentos singelos e deliciosos, marcados na memória, que permanecerão para sempre em um cantinho especial de muita saudade!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30, no programa CBN SP, da rádio CBN. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung

Conte Sua História de SP: os beijos de despedida na estação Vila Mariana

 

Por Dalva Rodrigues 
Ouvinte da Rádio CBN

 

 

Meu amor por São Paulo é caso antigo, desde que nasci, no bairro do Ipiranga, pertinho do museu, no comecinho dos anos 60. Minha rua , a Aracatu, na Vila Liviero, era de terra, vizinhança pequena, muitos terrenos vazios, campinhos e matas para as crianças explorarem com as mais diversas brincadeiras.

 

Como era gostoso conversar nas noites de céu limpo e estrelado…Histórias de ETs e papos que não acabavam mais (até uma das mães gritar que já passara muito da hora de entrar).

 

Nas noites frias de inverno, mal enxergávamos quem estava ao lado, de tão intenso era o nevoeiro. Voltar da casa da vizinha que tinha televisão, depois de assistir ao cine mistério – aos filmes de terror – era um ato de coragem: rapidíssimo, pernas para que te quero!

 

E no dia seguinte acordava com os galos cantando, o apito das fábricas chamando os operários que sumiam na rua, envoltos em neblina e garoa.

 

Meu primeiro amor de infância era irmão de meu amigo. Numa noite quente, na brincadeira ‘beijo, abraço ou aperto de mão’ ele escolheu: ‘beijo’, mas quando abriu os olhos e me viu, só quis mesmo me dar a mão… Bem me quer, mal me quer…Minha primeira desilusão. Um dia a família se mudou, perdi o amigo e o amor que ainda viveria muito tempo, só em meu coração.

 

Já moça, meus pais separados, fui morar em Vila Mariana, depois passei uns tempos no interior com meu pai, gostei da cidade, mas minha maior alegria era quando, chegando em São Paulo, subindo as escadas rolantes da estação República do Metrô, via minha cidade surgindo, linda, imponente…Como é bom voltar para casa, para nossa cidade!

 

Vivi um grande amor nesses tempos, amor que mais uma vez, mesmo sendo correspondido, não era meu. Um dia nos despedimos na véspera de Natal, na esquina da São João, em frente ao Largo do Paissandú. Foi o beijo mais romântico de minha vida…e o mais triste… Eu ali parada … ele atravessava a avenida. E enquanto as lágrimas desciam, soube que era próximo o fim. Até hoje sempre que passo por lá me lembro da cena.

 

Tempos depois me apaixonei novamente. Como eram bons os beijos de despedida na estação Vila Mariana,  quase todo dia. A suntuosa sala de espera do Cine Ipiranga foi palco de uma cena hilária quando quase saí no “braço” com uma menina que vendia balas, que ousadamente me ignorou e pegava no braço do meu noivo insistindo na venda… Esse episódio quase rendeu o fim do romance, mas superamos e nos casamos.

 

Hoje, moro na zona leste e os amores se foram…Acho que meu tempo já passou, tenho boas memórias, mas o amor por São Paulo…Esse não passa nunca!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, no CBN SP, logo após às 10h30 da manhã. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você participa escrevendo sua história para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: da Vila Mariana ao Jabaquara

 

Por Regina Amelio

 


 

 

Nasci e cresci em São Paulo; da Vila Mariana, passando pela Z.L., fixando-me no Jabaquara. Levada por minha família, dividimos com mais de 11 milhões de habitantes o pão que o padeiro amassou e a carne e o sangue do gado que repousou fria nos açougues paulistanos. Aqui respirei o aroma dos eucaliptos do ar do parque  da Água Branca, brinquei no  da Aclimação e conheci girafas, tigres, ursos, macacos, cobras e hipopótamos no Zoológico da cidade. 
 

 

Adolescente, áurea época do rock nacional, fui a todos os shows do Teatro Brigadeiro. Espremia-mo-nos à porta de vidro, colando os ouvidos nas caixas acústicas do palco para ouvir o que não tocava na rádio como o do Recordando o Vale das Maçãs, Made in Brasil e o melhor de todos os acordes do guitarrista Liminha…hello crazy people!
 

 

Na parede da memória a cena dominical insiste na epifania nada cristã: nossa missa era no Verde, assim batizado por nós o parque próximo ao palácio do Governo, no Morumbí. Eu e meu bando de moleques cabeludos, que segundo minha mãe fumava um cigarro cheirosinho, embarcávamos no coletivo, que naquela época era só um ônibus, rumo ao Parque Real, e lá, de grátis, ouvíamos todos os cobras da MPB, dos mineiros do Clube da Esquina, passando pelos paulistanos do Premê, os Novos e velhos Bahianos, até os cariocas buarquianos. Orra meu!!!!, que demais!!!!
 

 

Na PUC, Nicolau Sevcenko falava dos Beatles e, no Pátio da Cruz,  cruxificávamos a ditadura em nome da LIBERDADE E LUTA. Com os mesmos cabelos e cigarros, meu bando agora era LIBELU. Nas ruas e praças da supercap cantávamos e brincávamos de roda pelas DIRETAS JÁ, fazíamos boca de urna para o operário, mas, antes disso, já havíamos votado no Juruna…tudo gravado em K7. Tivemos aqui a nossa Luísa e a educação ganhou o melhor presente de todos: Paulo Freire.
 

 

Casei-me, tive filho, que arrastei a toda programação dos Sescs, principalmente o Pompeia (acho que agora sem acento), teatros e bibliotecas. Um belo dia, entrei na conversa da vida bucólica do interior e para lá parti. Acostumada às ruas, às manifestações, a tudo de bom e de ruim que a modernidade nos proporciona não consegui acostumar-me á vida do quintal dos fundos, regada a cerveja e churrasco com os amigos da maternidade…nem mesmo fui acolhida…busquei lá minha filha mais nova e voltei para casa.
 

 

De volta ao lar, dei-me ao luxo de dialogar dentro e fora dos muros da melhor universidade da América Latina, com Graciliano, Jorge, Bandeira, Andrades, Cecílias, Clarices…..em aulas conduzidas não por Platão, mas pelo grande e genial Alfredo Bosi.
 

 

Cá estou e, se não me casar novamente, ao menos comprarei uma bicicleta, pois aqui tem ciclovias à vontade….e prostitutas, gays, trans, homo, lésbicas, homens, mulheres…. 
 

 

E só para terminar essa declaração de amor: hoje fiquei 2h30′ no trânsito da avenida Rebouças, pura angústia. Enfim, dei-me conta de que estou em São Paulo, que, em contrapartida, tem Bienal do Livro, de Artes, Teatro Municipal, Casa Mário de Andrade, Roteiro Modernista, Pátio do Colégio, Sala São Paulo, Parque Ibirapuera, ciclovias, CBN, USP, homens lindos de terno e bolsa cruzada nas costas, Casa das Rosas, Centro Cultural Vergueiro, Praça da Sé, gente de todos os estados…enfim, o mundo é aqui. AMO DE PAIXÃO ESSA MINHA CIDADE!

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30 da manhã, no programa CBN SP, da rádio CBN. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar enviando texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: coisas que não existiam no Egito

 

Por Nadine Vogel
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Dia 17 de setembro de 1957.

 

Chegamos em Santos, após uma viagem de 25 dias. Eu tinha 2 anos. Ficamos atordoados com a quantidade de gente no cais: homens, mulheres, crianças, brancos, negros. Isso não havia no Egito. País que por questões políticas havia nos expulsado.

 

Viemos para cá porque minha tia, irmã mais velha de minha mãe, estava aqui. Ela nos havia jurado que São Paulo era uma cidade grande, cheia de oportunidades. Meus pai vieram muito ressabiado, trouxeram uma bagagem enorme e dentro delas latas de óleo, louça, máquina de costura. Nunca havíamos ouvido falar de Brasil e muito menos de São Paulo.

 

Meus tios foram nos pegar em Santos, mas tivemos que deixar nossas 25 malas num guarda malas, pois não cabiam no ônibus. Pegamos a estrada e depois o bonde e chegamos na Vila Mariana, onde minha tia morava, lá no Edifício Amarante.

 

Meu pai disse em árabe:
-Essa cidade é grande!

 

No dia seguinte saiu de casa para procurar emprego. Saiu apenas com o número dos ônibus que deveria tomar e com o endereço do edifício Amarante. Número de telefone? Apesar da pujança da cidade, telefone era só para pessoas muito ricas.

 

Estávamos assustados, era noite, e meu pai não havia chegado. Até que a campainha tocou e seus alhos azuis brilhavam muito. Não era um brilho só de agradecimento, era de surpresa. Ele nos contou que havia tomado o ônibus errado e se desesperou. Um padre franciscano ofereceu-se para ajudá-lo. E o acompanhou até a porta.

 

Meu pai gritava, em árabe:
– Essa cidade é maravilhosa!

 

As coisas melhoraram. Conseguimos alugar um pequeno apartamento na 9 de julho. Era demais morar próximo do Viaduto do Chá, do Vale do Anhangabaú – afinal era lá que todos faziam suas compras. O bairro era ótimo. Íamos as festa na Rua Avanhandava, Manuel Dutra, Rocha e voltámos de madrugada a pé. A cidade era segura, apesar da iluminação amarelada da avenida. Um dia alguém entrou em nosso apartamento enquanto estávamos passeando na Praça 14 bis, mas isso não abalou nossa confiança.

 

Minha irmã começou a trabalhar, minha mãe, também, como balconista na Augusta, uma rua super luxuosa. Meu pai vendia canetas tinteiro. Mais tarde, passou a vender esferográficas. Em época de férias, eu saia com ele pelo centro e visitava todos os caneteiros, seus clientes. Era divertido, aquele centro apinhado de gente num vai e vem que atordoava a todos. Olhava as mulheres chiques chegando de carro para tomar o chá no Mappin; a variedade de mercadorias nas lojas If, Modélia, Americanas e no Esportes Moura, me enlouquecia.

 

Quando eu me mostrava assombrada diante da vitrine, meu pai dizia, em árabe:
-A cidade é grande e maravilhosa!

 

Eu andava de mãos dadas com ele, com medo, mas segura; eu fazia parte dessa grandeza.

 

O fim de semana era demais. Ia aos Sábados na feira. Lá na Praça Roosvelt. Tinha de tudo; frutas, verduras, roupas, sandálias, mas as bijuterias eram irresistíveis.

 

– Que cidade! Tem tudo que precisamos!
Cada vez mais tinha a certeza que éramos muito felizes aqui.

 

O domingo era meu dia preferido. Minha mãe e minha irmã ficavam em casa preparando comida e costurando nossas roupas na máquina Singer, que veio conosco do Egito. E eu me aprontava logo cedo. Era dia de visitar a TV Excelsior e assistir ao programa de auditório “Jardim Encantado” apresentado por Clarice Amaral e Vicente Leporace. Andava feliz na rua com meu vestido novo, cheio de babados, e o sapato comprado nas lojas do centro. O trajeto era longo, e longa era a fila que deveríamos enfrentar para assistir ao programa, mas isso não importava, afinal estávamos em São Paulo.

 

Nadine Vogel é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra aqui no Blog.

Conte Sua História de São Paulo: meu mico paulistano

 

Por Carlos Santiago
Ouvinte-internauta

 

1958

 

Ouça este texto sonorizado pelo Cláudio Antonio no Jornal da CBN

 

Certa vez, meados de 1995, embarquei num ônibus que saía da Vila Mariana e percorria toda avenida Paulista e Doutor Arnaldo, seguindo pela Sumaré, que era meu destino. A viagem era para ser tranquila, sem transtorno. No entanto, quando o ônibus chegou ao Paraíso, o trânsito parou. O trânsito em São Paulo sempre para quando a gente precisa andar. E ficou alguns minutos sem sequer se mover. Eu que já estava com pressa para chegar ao compromisso marcado – a gente está sempre com pressa em São Paulo – não suportei aquela ansiedade. Logo percebi que estávamos em frente à estação Paraíso e tive uma ideia brilhante. Pago a passagem, peço para descer aqui mesmo, corro para o Metrô, embarco no trem e vou até a Estação Clínicas, desembarco, volto à Paulista, e pego o ônibus que vai para o Sumaré que esta mais à frente. Driblo o congestionamento e chega a tempo na reunião. Jogada de gênio. Rapidamente pus o plano em ação, desci do ônibus, entrei na estação do Metrô, peguei o trem, desci do trem e em poucos minutos estava na Clínicas. Logo cheguei no ponto a espera do próximo ônibus. Porém, com o passar do tempo percebi que havia sido muito otimista com relação a quantidade de ônibus disponíveis na linha. Imagine qual não foi a surpresa do motorista, do cobrador e de alguns passageiros, que me reconheceram, assim que entrei no mesmo ônibus pela segunda vez, em meia hora. Todos me olhavam com um enorme ponto de interrogação, sem entender minha estratégia. Eu mesmo não pude conter o riso diante do ridículo da situação, pois além de pagar três passagens em vez de uma, cheguei atrasado do mesmo jeito. Fora o mico paulistano.

 


Carlos Santiago é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Envie um texto para milton@cbn.com.br e vamos juntos comemorar os 459 anos de São Paulo.

Foto-ouvinte: a cara de São Paulo aos 459 anos

Vista desde a Vila Mariana

 

A partir desta semana, teremos aqui no Blog uma seção especial do Foto-Ouvinte com a “Cara de São Paulo aos 459 anos”. Cenas da cidades, ângulos desconhecidos, momentos do seu cotidiano registrados em fotos podem ser enviados para milton@cbn.com.br. Para começar publico foto feita pelo nosso colega de bancada, Thiago Barbosa, desde o apartamento dele no alto da Vila Mariana e com olhar voltado para a zona leste. É uma vista privilegiada, sem dúvida, que revela a dimensão de São Paulo e o horizonte tomado de prédios.

Conte Sua História: Dona Maria do Carmo, uma mulher de verdade

 

No Conte Sua História de São Paulo você acompanha o texto da ouvinte-internauta Meg Guida, no qual fala da Dona Maria do Carmo, a mãe dela que tinha uma enorme capacidade de começar de novo:

 


Ouça este texto que foi ao ar, sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

No bairro da Vila Romana, nos idos de 1970, muitas famílias ainda incorporavam expressões em italiano em frases do dia-a-dia. Eu me lembro que minha avó fumava sem culpa porque, na lavoura, quando emigrou da Sicília para cá, pitava para espantar os mosquitos.” Va via”, repetia a minha mãe quando eu ia roubar a massa do crostole estendido sobre a mesa, me repelindo da cozinha, imitando o que a nonna fazia com os mosquitos. Trabalhar pesado era tão natural quanto acordar todas as manhãs, comer e dormir. “Al lavoro”, como palavra de ordem, sempre foi um mantra para mim. E minha mãe, Maria do Carmo, a Carminha, como ninguém fez valer a prática da lida com suor e recompensa. O nosso verbo era começar.

 

Embora o dicionário descreva como a mesma coisa, recomeçar é diferente de começar de novo. Recomeçar, na minha conta, significa iniciar de onde você parou. E de onde você parou pode ser uma parada nada bacana. Você pode ter parado na mesmice, no ostracismo, na concordata e na falência de si mesmo, de suas ideias e perspectivas. No começar de novo, estão atitude e ação. Você sai do estado de paradeira. Olha o cenário da quilometragem que percorreu e se guia por esse espelho retrovisor para acelerar e chegar inteiro, cuidando para não fazer bobagens no meio do caminho. Quem apenas recomeça, sem entender porque parou ou foi parado, corre o risco de repetir o padrão do erro, inconscientemente. Aliás o prefixo “re” sugere mesmo algo a ser reparado, consertado, remendado para fazer o papel de que voltará a ser e ter o efeito de inteiro. Já viu se algum artista que se relança? Uma empresa que se relança? É a mesma coisa que falar do último lançamento de um cantor. Quer dizer que depois desse, não haverá outro?

 

Bem, mas voltemos ao começar de novo. Minha mãe, Maria do Carmo, a Maria, a Carminha batizada assim pelos amigos nos últimos 30 anos, comemorou os seus 80 no dia 25 deste mês, março. E viveu a vida começando de novo, usando um vigor que eu sei lá de onde ela tirava para cada fase, para cada projeto. Minha mãe olhava pelo retrovisor do passado apenas para estar segura de andar para a frente sem bater em ninguém nas ultrapassagens, nas curvas. E ela chegava com sucesso ao destino, sempre. Lembro que na minha infância eu convivia com muita gente em casa, mais de 15 pessoas no usual. E família de verdade éramos eu, minhas duas irmãs e meus pais. Vocês podem acreditar que ao se casar, minha mãe herdou a sogra viúva doente, velhinha, com mais seis pessoas, marido e filhos de uma cunhada recém-adquirida e falecida? E ainda acham que a Amélia era mulher de verdade….Durante anos eu vi minha mãe na ativa, mirando adiante e para o alto. Fazia tudo em casa, sem empregada, cozinhava para um batalhão e sem sal para a minha avó, cuidava de todas nós, acompanhava o dever de casa e ainda por cima costurava como ninguém. Tirava os modelos das revistas e nos vestia como princesas, sem repetir na criação. Até para os nossos cabelos ela inventava moda, colocando cerveja para fixar os cachos, os rabos de cavalo e coques no alto da cabeça. Não tinha tempo ruim pra dona Maria do Carmo. Desemprego do meu pai? Falta de grana? Com essa agenda absurda, ela ainda costurava para a vizinhança para sustentar a casa e os nossos sonhos. Começou de novo quando saímos do ninho, quando voltamos. Quando passamos apertos de alma e de bolso. Quando o marido pensou ir para o andar de cima, mas os amigos do além e o pai de todos o mandaram de volta. Hoje, aos 80 anos e alguma coisa, minha mãe começa de novo todo dia. Nasce nas manhãs irradiando alegria, louca para testar o prato novo que aprendeu na televisão, a roupa que customizou, contar do bazar que participará, da criança que vai vestir. Ela só esquece de começar de verdade – e aí, recomeça sempre- a briga com a balança. Mas é tão linda a figura que minha mãe mostra ao mundo, esculpida com os excessos que a sua culinária impecável insistiu em destacar!

Foto-ouvinte: Do começo ao fim de expediente, o céu em São Paulo

 

O vermelho dominou o céu de São Paulo no amanhecer desta terça-feira e quando seguia para o metrô Barra Funda, na zona oeste, Massao Uehara se encantou com esta imagem.

 

Começa o dia em São Paulo

 

No fim do expediente, após forte chuva na capital, nosso colega de estúdio Thiago Barbosa encontrou o céu amarelo no horizonte, nesta foto tirada do alto da Vila Mariana, zona sul da capital.

 

Fim do expediente

Conte Sua História de SP: As casimiras do meu pai

 

Omar NaufalNo Conte Sua História de São Paulo, Omar Naufal, nascido em Presidente Prudente há 78 anos, descendente de libaneses que chegaram ao Brasil no fim do século 19. A família dele veio para a capital paulista nos anos 1940. O pai virou comerciante de tecidos e tapetes, ofício que ensinou ao garoto Omar. Anos depois, o jovem virou vendedor de casimiras no centro da cidade. Andando na rua São Bento, o rapaz despertou o interesse de produtores da Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Depois da quase aventura no cinema, Omar se formou em odontologia e montou um consultório perto de casa, na Vila Mariana. Porém, mesmo com a nova profissão, sempre ajudou o pai no comércio de tapetes orientais no bairro.

A história de seu Omar Neufal, sonorizada pelo Cláudio Antonio, você ouve aqui.

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, 10 e meia da manhã, no CBN SP. Você também pode participar contando mais um capítulo da nossa cidade. Agende uma entrevista em áudio e vídeo no site do Museu da Pessoa ou mande seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: E aí, Negão !

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto do ouvinte-internauta Gabriel Fernandes fala de uma cena inesquecível para ele e os meninos que brincavam na Vila Mariana:

Ouça o texto de Gabriel Fernandes sonorizado por Cláudio Antonio

Anos 1960. A molecada andava barbada pelas ruas, cabelos compridos, calças Lee, camisas Volta ao Mundo e O Capital de Marx ¬– do qual nunca foram muito além das primeiras páginas – debaixo do braço.

Eu morava na Vila Mariana, ainda garoto, jogava bola, naquele dia, como fazia quase todas as tardes. Tênis Rainha, sem camisa, calção de brim – ainda não se dizia shorts – e uma Bola Pelé furada.

A algumas casas da minha, ergueram um prédio comercial, havia pouco tempo, que passara a ser a sede da Colorado RQ, uma fábrica de televisores existente na época.

O sossego diminuiu bastante e o movimento na rua aumentou muito: carros, caminhões, operários e, com certa frequência, mulheres jovens que transformavam em passarela as calçadas ásperas da rua em que eu morava. Eram garotas-propaganda desfilando sua beleza para o deleite de nossos olhos infanto-juvenis.

Muitas vezes víamos parar uma Mercedes-Benz, dourada, novinha, brilhante, à porta da fábrica. Dela descia um crioulo jovem, forte, posudo, que vinha sempre aboletado no banco traseiro. O motorista era um português, branquelo, falador, canastrão, que costumava tomar umas canjebrinas no boteco em frente de casa. Contava causos, contava grandeza, contava mentiras. Gesticulava muito, engambelava a molecada com sua conversa fiada, mas, no fundo, parecia ser um boa-praça.

Às vezes o negão, terno branco ou de cores fortes, corte impecável, gravatas coloridas, sapatos de verniz ou cromo alemão, andava pelas calçadas exibindo uma linda moça em cada braço e mais duas ou três fazendo graça para ele.

A rua parava, o tempo congelava, até o vento parecia parar de soprar. As mães, as tias e as avós saíam à janela. Prendiam a respiração à espera de algum desfecho inesperado. Mas só a rotina parecia prevalecer.

O português tomava o último gole, dizia um rápido até-logo, abria a porta da Mercedes para o dândi entrar. Beijinhos daqui, beijinhos dali, as moças se despediam, o crioulo entrava no carro, o portuga assumia o volante e deslizavam suave e silenciosamente pelo asfalto até desaparecerem na primeira esquina.

Uma tarde o português interrompeu nossa pelada ao se aproximar com sua máquina dourada. A molecada abriu passagem preventivamente para que o dândi passasse com sua carruagem. Todos voltaram para a calçada. Eu me contentei em ficar no meio-fio. O carro vinha lentamente, o negão no banco traseiro como de hábito, o vidro aberto pela metade.

Inexplicavelmente, enchi o peito e gritei em direção ao carro:

– E aí, negão!

A uma ordem do passageiro, o português parou o carro. Meu coração quase parou de susto. Apertei a Bola Pelé furada nas mãos como se fossem os braços de minha mãe.

– Venha cá, garoto! – chamou o crioulo.

E eu congelado, pregado no chão, a bola ainda mais murcha nas mãos, incapaz de me mover.

– Venha cá, cara! – insistiu o negão.

E eu fui. Pé ante pé, trêmulo, respiração entrecortada, a bola amarrotada nas mãos suadas.

O crioulo colocou o braço para fora da janela. Ofereceu sua mão para um cumprimento. Titubeei, mas, ainda trêmulo, acabei segurando a mão negra e forte.

– Tudo bem garoto? – ele me perguntou – Batendo uma bolinha?

Eu estava era batendo o queixo.

Quando a molecada viu que eu havia sobrevivido, aproximou-se rapidamente do carro. Todos queriam pegar na mão do negão que, pacientemente, a todos cumprimentou e dirigiu algumas palavras.

O carro se foi, o crioulo acenando simpaticamente, aquela cena sendo gravada em nossas lembranças para sempre.

Eu já tinha aprendido a admirar aquele cara havia muito tempo, pelo que dele ouvia falar, lia ou assistia na televisão. Depois daquela tarde, passei também a admirá-lo pela simplicidade e grandeza de espírito.

Segunda década do século XXI. A molecada já não anda barbada pelas ruas, cabelos compridos são raros, as marcas de calças jeans são incontáveis, as camisas Volta ao Mundo há muito desapareceram, assim como O Capital de Marx ¬– do qual a maioria dos jovens nunca ouviu falar.

Mas alguém atravessou praticamente incólume todas essas décadas.
E aí, negão? Essa frase sempre volta à minha cabeça quando revejo na televisão ou nos jornais aquele crioulo, há décadas mundialmente conhecido. Tive o privilégio de assistir ao fenômeno da transformação de um homem em mito: Pelé.

Conte mais um capítulo da nossa cidade, envie um texto ou agende entrevista no Museu da Pessoa. O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP.