Ficha Limpa no Carnaval

 

 


Este texto foi publicado, originalmente, no Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

 

Carnaval no Sesc Pompeia

 

A baderna que se transformou a apuração de notas do Carnaval de São Paulo, terça-feira, provocou uma série de reações das autoridades paulistanas e ameaças de punição. Em entrevista coletiva, o prefeito Gilberto Kassab (PSD) se esforçou para mostrar indignação e anunciar medidas para impedir a repetição dos fatos, apesar de que na prática a única mudança é que a SPTuris vai assumir a segurança do evento, apesar de não eu não ser capaz de identificar de que forma isto evitaria a invasão do local em que as notas eram anunciadas. Além de pessoal contratado pela Liga, a Polícia Militar estava lá com contigente maior do que nas principais partidas de futebol, segundo informações oficiais, e nada disso foi suficiente para conter os baderneiros. Em respeito ao público do Carnaval, é preciso que se registre que a confusão não partiu daqueles que estavam nas arquibancadas do Sambódromo, mas de gente autorizada, com crachá e pulseira de acesso que representa as principais escolas de samba da cidade. Mesmo a reação violenta, registrada pelas câmeras de televisão, de parte dos “torcedores” da Gaviões da Fiel, torcida organizada do Corinthians, somente explodiu após a invasão comandada por dirigentes – o que não os justifica.

 

Os meios de comunicação, em especial a TV Globo, que tem os direitos da transmissão, foram capazes de identificar uma a uma as pessoas que se manifestaram favoráveis a bagunça para impedir que houvesse a conclusão da apuração. Sem exagero, houve formação de quadrilha, pois os chefes, todos com cargos importantes dentro de agremiações, se reuniram, demonstraram descontentamento por não cumprimento de suposto acordo no qual não haveria rebaixamento de escolas para o Grupo de Acesso, e deram sinal de comando para “melar” a apuração, no que foram devidamente atendidos por seus asseclas, um deles, por sinal, que demonstrou muita agilidade no ato de roubar e extraviar as notas, enquanto fugia com destreza para escapar da segurança – parecia profissional (eu escrevi, parecia). A Polícia Civil já convocou ao menos nove deles para prestar depoimento, teria identificado o envolvimento de seis escolas e promete, em dez dias, a conclusão do inquérito que servirá de subsídio para a prefeitura e para a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo determinarem as punições cabíveis.

 

As declarações dadas até aqui, tanto pelo prefeito quanto pelo presidente da Liga, não foram convincentes e sinalizam para a punição talvez de alguns integrantes mas não das agremiações sob a justificativa de que a comunidade não pode pagar pelos erros de algumas pessoas. Da mesma forma, durante muito tempo, se passa a mão na cabeça de torcidas organizadas no futebol permitindo que usem todo tipo de chantagem, com a parcimônia dos cartolas, e sigam promovendo a violência e afugentando torcedores e suas famílias dos estádios. O Carnaval vai pelo mesmo caminho ao permitir que quadrilhas se apoderem das escolas de samba com financiamento público. Este ano, a prefeitura paulistana investiu R$ 27 milhões.

 

Importante ressaltar que a relação entre criminosos e samba não é privilégio de São Paulo, haja vista o que acontece no Rio de Janeiro, onde os dirigentes afrontam o Estado ao rejeitarem a proposta do governador Sérgio Cabral (PMDB) de afastarem os bicheiros que financiam a festa com dinheiro arrecadado de forma ilegal. Cabral defende a profissionalização das agremiações, tornando-as sustentáveis durante todo o ano e dependendo cada vez menos de verbas públicas. E de verbas sujas.

 

Para mudar a cara do Carnaval, em São Paulo e no Rio, será preciso implantar uma espécie de Ficha Limpa, afastando os criminosos, impedindo a presença de pessoas condenadas no comando das Ligas e das escolas, punindo com todo o rigor da lei as agremiações que se envolverem em baderna e não respeitarem o regulamento e cortando verbas públicas daquelas que forem incapazes de comprovar como gastaram este dinheiro. Está na hora de fazermos com que a criatividade dos carnavalescos, revelada a cada noite de desfile, contamine a administração do Carnaval e impeça que este se transforme em uma festa de quadrilha.

 

A foto deste post é de autoria de Luis Fernando Gallo e faz parte do meu arquivo de imagens no Flickr

Pais têm medo de deixar filhos irem de bicicleta para escola

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Ainda não tinha ouvido falar em um programa chamado Caminho da Escola. Li sobre ele, nessa terça-feira, na Zero Hora, e achei-o muito interessante. Ele está sendo colocado em prática não somente no Rio Grande do Sul, mas em outros estados. Ao todo, por enquanto, foram entregues 100 mil bicicletas até o final de 2011. Vou me fixar, porém, no que está ocorrendo, no meu estado,o Rio Grande do Sul, com o Caminho da Escola. A matéria do jornal explica que três municípios daqui receberam bicicletas visando a beneficiar estudantes que precisam caminhar de dois a 12 quilômetros para que cheguem às suas escolas ou aos pontos onde embarcam em ônibus escolares. Barros Cassal ganhou 400, Marcelino Ramos, 150 e Santo Cristo, 450.

 

Não chega a me espantar, preocupado que sou com questões de trânsito, que a secretária municipal de Educação de Marcelino Ramos, Isabel Ramich, esteja encontrando dificuldades para encontrar famílias dispostas a permitir que os filhos participem do programa. Os meus caros e pacientes leitores já devem ter adivinhado o que leva os pais a temerem que seus filhos pedalem até suas distantes escolas. Claro, a preocupação deles é com a segurança das crianças. Essas, evidentemente, encontrarão veículos pelo caminho. Fosse eu pai de família em uma cidade beneficiada pelo Caminho da Escola, com certeza, pensaria seriamente na questão da segurança e não sei se aceitaria que um filho meu usasse bicicleta para ir ao colégio.

 

Seja lá como for, os pais interessados no programa que, repito, é interessante, devem procurar a prefeitura de sua cidade para fazer o cadastro e assinar contrato de cessão de uso. Os prefeitos precisam, igualmente, entrar em contato com a Polícia Rodoviária Estadual para que, por meio de palestras de seus integrantes, as crianças, que utilizarão as bicicletas, recebam lições sobre segurança, principalmente se terão de pedalar por estradas vicinais. Há, afinal, muitos motoristas que, esses sim, não aprenderam a respeitar sequer os adultos que andam de bicicleta. O que dizer, então, quando se trata de ciclistas infantis? A propósito, a PRF bem que poderia promover palestras. E atenção! Nesta sexta-feira começa a Operação Carnaval 2012 da Polícia Rodoviária Federal. Ponham suas barbas de molho, apressadinhos!

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Fiscalizem o uso do cinto de segurança

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Sinto-me obrigado, volta e meia, a retornar a um assunto sobre o qual não gostaria de ser tão repetitivo: o lado negativo do trânsito. Faz algum tempo, numa dessas quinta-feiras da vida, nas quais, a convite do meu filho, escrevo neste blog, relatei uma pequena viagem a Tramandaí, em que estava acompanhado por Maria Helena, minha mulher. Então, ainda era de 100 quilômetros por hora a velocidade máxima, para veículos leves, na Free-Way, apelido recebido pelo trecho da BR-290 que leva às praias do Rio Grande do Sul, quando se acreditava que a rodovia fosse, realmente, permanecer free, o que não aconteceu. Subiu, hoje, para 110, tratando-se de veículos leves. Já os pesados, ônibus e caminhões, não podem (ou não deveriam) ultrapassar 90 por hora.

 

Fiquei revoltado, especialmente no retorno da viagenzinha, com os motoristas dos veículos pesados que rodavam bem acima da velocidade permitida. Afinal, com minha Tucson a 100 por hora, era ultrapassado por ônibus e caminhões. Pois bem, nos últimos dias, sem falar nos caminhões tombados ao longo de rodovias gaúchas, o que ocorre com frequência, quatro ônibus se envolveram em trágicos acidentes em estradas gaúchas. As causas desses desastres ainda não foram explicadas, mas é difícil que o excesso de velocidade não tenha estado presente.

 

Fiquei sabendo que os ônibus, fabricados antes de 1990, não estão obrigados, por lamentável falha da legislação, a oferecer cinto de segurança para os passageiros. Não me lembro quando o cintos passaram a ser acessórios obrigatórios em veículos leves. Sei, porém, que já faz muitos anos. Ora, por que os ônibus anteriores a 90 também não são forçados a se atualizarem? Caso isso não ocorra, que sejam descartados. O diabo, é que mesmo muitos condutores de automóveis dispensem o uso deste apetrecho que salva vidas. Nunca peguei um táxi, por exemplo, cujo motorista, apesar de eu estar sentado ao seu lado, me alertasse para afivelar o cinto. Se sento atrás, então, nem se fala.

 

A Polícia Rodoviária Federal, aqui no Sul, pretende, visando às viagens do carnaval, fiscalizar os ônibus a fim de tentar conscientizar motoristas e passageiros para a necessidade de usar cinto de segurança. Sem ele, basta apenas uma travada mais forte – imaginem uma queda ou trombada de qualquer tipo – para que as pessoas sejam projetadas contra os bancos que ficam à frente. Seria interessante que a PF desse uma olhada, igualmente, nos motoristas e passageiros de veículos leves.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Coisa de cidade grande

 

Milton Ferretti Jung

 

Nasci em Caxias do Sul no distante ano de 1935. Como a maioria dos que se dão ao trabalho de ler estes meus textos das quintas-feiras sabe ,com certeza, Caxias foi uma das várias cidades, neste Brasil, colonizada por italianos. Meu pai era porto-alegrense e minha mãe, uma das quatro mulheres de uma prole completada por mais seis homens, caxiense como seus irmãos e irmãs. Vovô Vitaliano Ferretti não brincava em serviço. Possuir muitos filhos, naquele tempo, foi-se tornando, com o passar dos anos, cada vez mais difícil. E ainda mais filhos da mesma mulher. A vantagem é que os pais, como meu avô, punham os rebentos a os ajudar. Seu Vitaliano (o nome já dava uma ideia da nacionalidade dele) produzia mandolates e alguns dos filhos, imagino que os mais moços, vendiam a guloseima no cinema – creio que, na época, existia apenas um em Caxias. A receita do mandolate era da região Vêneta, de onde vieram para o Brasil inúmeros emigrantes italianos. Meu avô por parte de mãe foi um dos mais operosos. Chegou a ter uma malharia cuja sede ficava em sua casa. A residência avoenga era um sobrado, com porão e sótão. As peças, em sua maioria, eram grandes. Situava-se na principal avenida da cidade, a Júlio de Castilhos, naquela época ainda uma via sem calçamento. Quando chovia, ficava escorregadia e dificultava o ir e vir de caminhões, muitos carregados com toras.

 

Foi na casa da Júlio de Castilhos que nasci. Meus pais moravam em Porto Alegre e minha mãe deu-me à luz com auxílio de uma parteira, o que era normal naquele tempo. Permaneci por uma semana aos cuidados da vô Joana. Visitávamos seguidamente minha cidade natal, na qual eu possuía uma infinidade de tios e primos, muitos deles empregados da Eberle, forte indústria, dedicada à fabricação de talheres e outros produtos, que nasceu de uma simples funilaria montada por Giuseppe Eberle e vendida ao seu filho Abramo. A Caxias dos velhos tempos, a que mais cresceu na região de colonização italiana, está pagando alto preço pelo seu progresso. Vieram pessoas de todas as partes em busca de trabalho, o que havia sido uma vila se transformou. Os veículos que, aos poucos, foram substituindo os cavalos e as carretas que os colonos usavam para vender seus produtos de porta em porta, entopem hoje as ruas de Caxias. Ainda bem que o meu avô não viveu para ver em que se transformaria a sua cidade .Se vivo fosse, com certeza, tal qual este seu neto, nem sequer teria vontade de ir a pé do bairro de São Palegrino à praça que ficava em frente à Catedral e onde as pessoas se reuniam depois da missa dominical. Vovô Ferretti subia e descia a Júlio de Castilhos tão rápido, apesar de já ter idade avançada, que quase não conseguíamos o acompanhar. Inverno e verão, ele vestia terno com colete e não dispensava a gravata. Saudade machuca, mas não mata. Se matasse, eu já estaria morto. E este sentimento fica ainda mais palpitante quando leio o noticiário policial. Caxias do Sul participa dele com desgraçada frequência. A última notícia ruim publicada pelos jornais de Porto Alegre deu conta de que um jovem, por ter sido expulso de uma boate, matou duas pessoas a sangue-frio e feriu outra gravemente. Faz muitos anos que não visito Caxias. A que eu conheci não existe mais. Era dela que eu gostava.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

De bom e mau

 

Por Maria Lucia Solla

 


Ouça “De bom e mau” sonorizado e na voz da autora

 

 

Olá,

 

pisquei, e a segunda virou quinta. Os dias correm como nós, e num desses dias voadores liguei a televisão e ouvi que o número de assaltos a residência e estabelecimento segue crescendo. Confirmei também que a civilidade segue diminuindo e que a fúria do invasor atinge nível de dar náusea. Se sequestra e se mata por tudo e por nada também. Humano tortura humano, legal e ilegalmente; se degrada, dissolve, mingua.

 

Tem muito ódio, muita raiva, muita amargura nos corações. Campeia a traição, o abuso e o descaso pelo outro. A sociedade do eu primeiro vem fortalecendo alguns músculos, mas vem deixando definhar o próprio coração. Se sobressai no índice do dinheiro, do consumo, e se retrai na educação, no respeito, na consciência do real direito de cada um.

 

Mas tem o outro lado onde pipocam projetos sociais; gente que troca o dia-a-dia, o conhecido, o conforto, pelo inverso da medalha. Gente que se arrisca no universo da diferença, do carência, da doença, do desengano, onde acaba encontrando – dizem os que se entregam – um presente da vida.

 

De um lado o invasor, do outro o libertador. É o que vemos desde criança no desenho animado. Bom contra mau. Falávamos disso, meu filho e eu, no domingo passado. Sobre repressão, criminalidade e atividade das polícias. E eu pergunto o que mais vai ser preciso proibir, quantas vezes mais vai ser preciso remendar a Constituição, para podermos saciar a boca faminta da justiça, do suborno, e das polícias, num desbotado filme de bandido e mocinho.

 

Enquanto o bom continuar a se entrincheirar e se armar para combater o mau, será só um arremedo de bom. Será um mau presunçoso a se considerar do bom lado da cerca. Só isso. E o mau, acreditando ser mau porque é isso que lhe dizem desde que entendeu a primeira palavra, o primeiro olhar, se arma para resistir, lutar e atacar o bom.

 

Não tenho a solução, nem na palavra nem no pensamento, mas sinto no coração que ela existe e que é possível; e tenho certeza de que você também sente. É preciso, no entanto, que a galera do bloco bom não se pavoneie, sentando nos próprios pés na ilusão de que não percebam seu medo e sua vergonha, e que não continue apontando, de bico erguido, o erro do vizinho. Em qualquer área, em todo nível social, cultural, no bloco civil, no bloco militar, penso em gente, não em casta.

 

As maiores e mais fratricidas guerras foram guerras religiosas; e continuam sendo. O religioso rotulado, que se considera bom, fica cada dia mais agressivo e arregimentador. É só olhar em volta, para os que rezam estirados no chão para falar com Deus, e os que se ajoelham para fazer a mesma coisa. Para os que aceitam os santos, e os que não aceitam. Para os que consideram Jesus o Messias, e aqueles que não. É guerra que, como todas as outras, é feia, dissimulada, discriminatória e preconceituosa, disfarçada de divina, correndo solta, acelerando o tempo que se esgota para que a consciência se instale como programa de tecnologia de ponta.

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Nos feriados, a violência nas estradas

 

Os feriados, tanto o do Natal quanto o do ano-novo, tratando-se de trânsito, são altamente preocupantes. É a época em que mais ocorrem desastres em nossas estradas. Não lembro de ter ouvido ou lido notícia, como a do dia Quinze de Novembro, por exemplo, data na qual as Polícias Federal e Estadual esforçaram-se, com aumento de seus efetivos e uso de radares, visando a evitar o excesso de velocidade nas rodovias sob suas jurisdições. Motoristas irresponsáveis, quando tomam conhecimento de que as autoridades estarão mais atentas do que normalmente e prometendo punir os infratores, tendem a respeitar um pouco mais, pelo menos, as leis de trânsito. Não sei se a ausência de noticiário acerca do assunto pode ter influenciado na transformação do feriado natalino deste ano no mais violento desde 2001. O jornal gaúcho Zero Hora contabilizou, do meio-dia da última sexta-feira até o meio-dia de ontem, 24 mortes, oito por dia, em rodovias e vias urbanas. O acidente mais grave foi o que vitimou cinco pessoas de nacionalidade argentina que viajavam, de férias, para Santa Catarina.

Outro feriado vem aí e o número de carros nas rodovias que levam às praias e à Serra tende a ser bem mais alentado do que em 2010, tantos foram os veículos vendidos pelas concessionárias em razão do crédito fácil que proporcionou a muitas pessoas trocarem os seus usados por novinho em folha ou adquirirem o seu primeiro carro. Esses últimos, em geral recém saídos de auto-escolas, mas que se acham “os caras”, são os mais propensos a abusar da velocidade. Tirei minha primeira carteira de motorista com 18 anos – estou com 76 – mesmo assim procuro ser cada vez mais cuidadoso. Não gostei que a nossa “Free Way” tenha sido liberada para que se dirija a 110 quilômetros por hora. Nem todos os que vão pegar a estrada nesta passagem de ano estão com condições de pilotar nesta velocidade. Seja lá como for, sugiro que os motoristas, mesmo os mais experientes, passe os olhos nos jornais dessa semana e prestem muita atenção nas fotos que estampam como ficou a van da família argentina depois do choque com um ônibus.

Palmada neles !

 

Por Milton Ferretti Jung

A bancada evangélica, oportunamente, pressionou e a Câmara dos Deputados comunicou, nessa terça-feira, o adiamento da votação do projeto de lei que proíbe aplicação de palmadas ou castigos físicos em crianças e adolescentes. Trata-se da Lei da Palmada, que seria votada em comissão especial da Casa. Tal lei pode transformar professores, médicos, funcionários públicos e sei lá quem mais em alcaguetes. Basta que, se souberem ou suspeitarem de agressões ou tratamento degradante, inclusive xingamentos, deixem de denunciar esses crimes às autoridades. Quem infringir a Lei da Palmada será multado em 20 salários mínimos.Vejo-a como mais um dos tantos exageros cometidos pelos nossos “criativos” legisladores. Teresa Surita (PMDB-RR), relatora do projeto, declarou textualmente que “na educação de crianças e adolescentes, nem suaves ‘palmadinhas’, nem beliscões, nem xingamentos, nem qualquer forma de agressão, tenha ela a natureza e a intensidade que tiver, pode ser admitida.

Como a maioria dos da minha geração (nasci em 1935) e das que me sucederam, fui criado com admoestações dos meus pais, levei palmadinhas de minha mãe, etc., mas nem por isso me senti vítima de tratamento cruel ou degradante. Vai ver que eu desconhecia possuir “direitos humanos”. A Lei, com os seus exageros, não leva em conta que a maioria das famílias sabe o que é necessário fazer para educar seus filhos, sem precisar que isso seja determinado por parlamentares que, em alguns ou, quem sabe, muitos casos, não dão bons exemplos à sociedade. Seria por culpa dos seus pais? Duvido. É evidente que existem pais despreparados, cruéis, pedófilos, viciados. Nenhuma lei fará, porém, que essa gente vire pessoa de bem.

Estou concluindo este texto às primeiras horas de quarta-feira. Constava na notícia que li sobre a pressão dos evangélicos para o adiamento da votação que, hoje ainda, o projeto da Lei da Palmada voltará a ser debatido. Que Deus ilumine deputados de todas as religiões a votarem com muito cuidado esta lei que, ao invés de beneficiar, poderá prejudicar as famílias.

N.B: O Projeto de Lei (PL) 7.672/10, do Executivo, foi aprovado quarta-feira (14) pela comissão especial criada para sua análise na Câmara dos Deputados. O texto daquela que já é conhecida como Lei da Palmada segue agora para o Senado, exceto se houver recurso no plenário.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele, que, apesar de ter feito por merecer, jamais levou palmadas do pai)

Alckmin tem de vetar lei que proíbe garupa de moto

 

Motos na Radial

Zé é cuidador da rua, passeia com os cachorros da vizinhança e mora em uma favela próxima de casa. Há 15 anos cumpre a função religiosamente e conseguiu com o dinheiro arrecadado trocar os pés pela bicicleta e esta por uma moto, a primeira caindo aos pedaços e a mais recente novinha em folha. Pouco antes de chegar ao trabalho deixa a mulher Sônia na casa da patroa, onde vai buscá-la no fim do expediente. Uma mão na roda para ambos. Desde que “evoluiu” na vida nunca se envolveu em um acidente de trânsito nem assaltou ninguém que passava por perto – até onde eu saiba. Nem ele nem a mulher. Apesar disso serão tratados como criminosos, em breve, se o Governador Geraldo Alckmin cometer o erro de sancionar a lei que proíbe garupas em motocicletas de segunda à sexta-feira nas cidades paulistas com mais de um milhão de habitantes, entenda-se por Capital, Guarulhos e Campinas (calma, gente: no fim de semana pode).

O projeto foi aprovado pelos deputados estaduais paulistas convencidos pelo autor da ideia, Jooji Hato, que já havia ensaiado a iniciativa na época em que foi vereador paulistano, mas foi vetada pela então prefeita Marta Suplicy, em 2003. De acordo com o deputado do PMDB a medida é para controlar assaltos cometidos por garupas que seriam, segundo ele, responsáveis por 61,5% dos crimes de “saidinha de banco” e mais de 60% dos crimes contra o patrimônio, na capital paulista. Além disso, se evitaria uma quantidade enorme de acidentes de trânsito que, sempre segundo ele, ocorrem pela insegurança em transportar um passageiro na moto.

O Código de Trânsito Brasileiro permite o transporte de duas pessoas em motocicletas, é assim que está determinado, inclusive, na documentação do veículo. A Constituição Federal prevê que cabe à União legislar sobre trânsito, portanto nem Estado nem município têm esta competência. Não bastasse ser inconstitucional, a ideia carece de estudo técnico e se baseia em números que não são confirmados pela Secretaria de Segurança Pública que, por incrível que pareça, diz não ter nenhuma estatística sobre o assunto. Deveria ter para planejar ações de inteligência e evitar que soluções mágicas fossem tiradas do bolso dos paletós de deputados paulistas apenas iludindo parte da sociedade que se sente acuada pela violência. Na dúvida, consulte a opinião do delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Marcos Carneiro Lima. Resumo em duas palavras o que ele disse da lei: desnecessária e inconstitucional.

Vamos, então, ao outro motivo que levou os deputados paulistas a aprovarem a lei.


Clique aqui e leia o texto completo no Blog Adote São Paulo, na revista Época Sp

Dinheiro de multa para educar o trânsito

 

Por Milton Ferretti Jung

Mesmo correndo o risco de me tornar repetitivo por insistir, em meus textos de quintas-feiras, no tratamento de questões referentes a trânsito, volto hoje ao assunto que me causa grande preocupação. Retorno ao tema para saudar a iniciativa do senador Eunício Oliveira, peemedebista cearense, que viu aprovado projeto de lei de sua autoria cuja finalidade é evitar o desvio de recursos provindos de multas de trânsito. Como a aprovação se deu em caráter teminativo, que dispensa seja a matéria levada ao plenário, permitindo o seu envio direto à Câmara dos Deputados, é meio caminho andado para que seu conteúdo não tenha o destino de muitos outros, isto é, que fique esquecido.

Há muito se fazia necessário projeto com o teor deste. Oliveira, lembro, é presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado. A sua proposta determina que o dinheiro das multas seja utilizado, em educação para o trânsito e em despesas de sinalizações de vias, este um acréscimo de autoria de Romero Jucá, líder do governo no Senado Direção defensiva, cultura da paz, combate à violência no trânsito, algo comum nas grandes e mesmo nas pequenas cidades deste país, e divulgação de campanhas contra o consumo de álcool e drogas pelos motoristas, inscrevem-se entre os assuntos versados pelo projeto de lei.

Conforme o relator Demóstenes Torres, o país é campeão absoluto em acidentes, mortes e invalidez, causadas pelo trânsito. Nem seriam necessárias estatísticas para se chegar a esta conclusão. Basta que se acompanhe na mídia, especialmente logo após feriados prolongados ou até no noticiário de fins de semana, os registros sobre ocorrências trágicas tanto nas vias urbanas quanto nas rodovias. O projeto de lei do senador Eunício pretende, igualmente, evitar que o caixa de governos estaduais e municipais seja preenchido, graças ao desvios dos valores arrecadados com multas, no pagamento do funcionalismo. Para este e outros fins ainda menos dignos funciona também a “indústria da multa”, que dispensa explicações.

Aproveito, mais uma vez, para cumprimentar Eunício Oliveira. Ele sabe que a EDUCAÇÃO (a caixa alta é proposital) é por onde tudo começa em nossa vida.

Blitze e blitzes contra a violência no trânsito

 

Por Milton Ferretti Jung

Desculpem-me se me torno repetitivo nestes textos de quintas-feiras, mas vou correr o risco de ser visto como chato. Preciso voltar a escrever sobre trânsito. Creio que numa das primeiras abordagens a respeito deste tema salientei que as autoridades policiais, seja por carência de efetivo, seja por outras razões com as quais não chego a atinar, costumavam patrulhar as rodovias durante os feriados prolongados, quando o interessante, por motivos óbvios, seria que fizessem isso mais frequentemente. Agora, entretanto, ao menos nos 25 pontos em que o número de acidentes fatais, nas estradas gaúchas, é maior, policiais estaduais e federais, numa iniciativa inédita no Rio Grande do Sul, se concentrarão nos feriadões deste fim de ano (ainda somente nesses feriados festivos), visando a tentar impedir que motoristas assanhados ponham em perigo a vida dos que sabem se comportar.

Serão realizadas blitze conjuntas da Brigada Militar e Polícia Rodoviária Federal, contando com o apoio da Civil, em casos que exijam prisões em flagrante, já no feriado der 15 de novembro. Os Federais, com efetivo de 170 agentes – o normal é cem – estão contando que conseguirão dissuadir os habituais mal intencionados de praticarem tropelias de toda a espécie, lembrando, desde já, que os policiais, na hora de multar, serão inclementes. Nos pontos mais críticos das rodovias a fiscalização será intensificada. É possível que esta força-tarefa vença a batalha que travará nos estertores de 2011, especialmente nos feriados de Natal e Ano-Novo. Particularmente, no entanto, eu gostaria que o rigor no controle do trânsito nas rodovias não só do Rio Grande do Sul, mas do país inteiro, não se restringisse à realização de blitze em feriados e, sim, fosse posta em prática durante o ano inteiro ou, que seja, na maior parte dele.

Já que tanto digitei a palavra blitze, permitam-me uma digressão em torno dela: não consigo entender que tenham aportuguezado o verbete, mas mantido o plural na língua original – a alemã – contrariando a nossas gramática. Blitzkrieg, em alemão, significa guerra-relâmpago. Os germânicos formam o plural de blitz acrescentando “e”. O lógico para nós, brasileiros, seria pluralizar a palavra acrescentando-lhe “es”,isto é, blitzes.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)