O que fazer para reduzir tiroteios

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Outra escola dos Estados Unidos foi palco não de uma tragédia igual a que recentemente comoveu o mundo por ter vitimado 20 crianças, em um colégio de Newton-Connecticut, mas também teve a protagonizá-la um atirador solitário. Essa ocorreu no Colégio Taft Union, localizado a 190 quilômetros de Los Angeles. Um aluno apenas ficou ferido. O episódio fez com que recrudescesse, porém, o debate, sobre a necessidade do controle da venda de armas naquele país. Lembrou-me o Mílton, quando dei asas, neste blog, à minha revolta com o massacre de Newtown, que no Estados Unidos armas são vendidas até em supermercados.

 

O presidente Barack Obama chorou, recorda-se, ao discursar naquela ocasião, diante dos familiares das vítimas. Mais do que ir às lágrimas, ele decidiu passar ao seu vice, Joe Biden, a responsabilidade de coordenar um grupo de trabalho capaz de construir – palavra em moda por aqui – propostas de mudanças na legislação acerca de porte de armas. Biden teve um encontro com representantes da National Rifle Association (em português ,Associação Nacional do Rifle) e ficou sabendo (?) que, nos últimos 18 dias, a NRA contabilizou mais de 100 mil novos sócios. Possui, agora, 4,2 milhões de membros pagantes. A maldita sociedade que tem como nome uma arma letal, segundo tudo indica, não se impressiona com as tragédias que, volta e meia, estarrecem o seu país. Aliás, apesar dos pesares, a NRA, segundo um dos seus porta-vozes, espera alcançar 5 milhões de associados, antes que termine o debate encabeçado por Joe Biden sobre a posse de armamentos. A declaração do tal porta-voz que mais me impressionou negativamente foi a de que a instituição pela qual se manifesta vai falar com “verdadeiros americanos” ao redor do país que esperam que a NRA não comprometa algum princípio da Segunda Emenda. Textualmente, o ilustre americano, declarou: ”Nós não vamos apoiar o banimento de armas. Mas nós estamos ouvindo”. Desconfio que essa última frase tenha segundas intenções. E não as do Governo dos Estados Unidos. James Alan Fox, professor de criminologia em Boston, lembra que, em alguns estados do seu país, pode-se comprar uma arma por mês; em outros, quantas as pessoas quiserem. Lamentavelmente, vamos ter de continuar tomando conhecimento de novas tragédias, eis que o próprio criminologista americano, ouvido por telefone pela Zero Hora, disse que “não há muito que se possa fazer para reduzir tiroteios”.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

O medo nos mata atrás das grades

 

Segurança por fora

 

A morte de um senhor de 76 anos, em incêndio na Vila Formosa, zona Leste de São Paulo, na sexta-feira passada, ganhou detalhes ainda mais dramáticos no depoimento de um vizinho que tentou salvar a vítima, ouvido pela reportagem da rádio CBN. O homem contou que ao chegar na casa que pegava fogo tentou, desesperadamente, arrancar as grades das janelas. O máximo que conseguiu foi pedir para que o idoso se deitasse no chão e esperasse a ajuda que não chegou. O senhor morreu ali mesmo, deitado, impedido de escapar pelo fogo que consumia a casa de um lado e pelas grades de proteção do outro. O medo da violência urbana nos leva a colocar grades nas janelas e portas na ilusão de que estaremos protegidos. O pavor de termos a casa invadida é tanto que nos cega para outros riscos como a de tornar intransponível as rotas de fuga em caso de emergência como a vivida pela família da pequena e sem saída rua Horácio de Matos.

 

Minha casa não tem grades, mas muros enormes e com portões que impedem a visão para a rua. Descobri que havia construído uma armadilha quando tive a residência invadida por um bando que agiu tranquilamente sem ser importunado por nenhum vizinho que, por ventura, tivesse passado na minha calçada. Ninguém seria capaz de desconfiar o que acontecia lá dentro. Um especialista em segurança me contou que pesquisa feita com presos, condenados por assalto à residência, revelou que eles se sentem protegidos quando entram em casas com muros grandes.

 

Semana passada, Ethevaldo Siqueira divulgou no Jornal da CBN estratégia sugerida pelo SAMU – Serviço de Atendimento Móvel de Urgência para facilitar a busca de parentes de vítimas. Os técnicos pedem para que se coloque no celular o nome AAEmergência e o telefone para o qual gostaríamos que ligassem em caso de acidente. Imediatamente, recebi mensagens de pessoas entendendo que a medida seria um risco à segurança, pois em caso de sequestro relâmpago ou roubo do telefone, os bandidos saberiam para quem ligar. Outros disseram que a medida não teria sucesso pois os celulares têm códigos para impedir o acesso de terceiros.

 

Bloquear celulares, não registrar número de emergência, gradear as janelas e elevar ao máximo os muros de nossas casas são todos sintomas da mesma paranoia que nos leva a proibir os filhos de brincar na rua, deixar de sair à noite, esconder-se em condomínios fechados e dos vizinhos, aceitarmos vivermos em um BBB caseiro, com câmeras vistas pela internet, controlada à distância por estranhos, e GPS pessoal. Resultado do medo que nos cerca e da desconfiança que alimentamos do outro, que consome relações. Precisamos repensar alguns desses hábitos e avaliarmos se vale a pena seguirmos em frente restringindo cada vez mais nossas liberdades e morrendo, aos poucos, atrás de grades.

 

A tragédia de Newtown

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Não sou a pessoa mais indicada, confesso, para falar de certos gostos dos americanos. Só estive nos Estados Unidos de passagem para o México, em 1986, escalado que fui para narrar a Copa do Mundo. Como quem de direito esqueceu de solicitar o visto no consulado dos EUA em Porto Alegre, talvez por imaginar que meus companheiros e eu apenas desceríamos em solo americano e embarcaríamos imediatamente para a capital mexicana, ficamos quarando horas e horas (não me lembro quantas, mas foram muitas) nas dependências do aeroporto de Miami. Nesse longo período, estivemos sempre acompanhados por um policial. A PF deles pôs somente agentes oriundos de Cuba e outros países de língua espanhola para ficar de olho em nós. Com esses conseguimos, pelo menos, conversar. Somente o Dante Andreis, representante da Rádio Caxias, saiu do aeroporto e deu uma banda em Miami.

 

Não deixa de ser uma terrível coincidência que a da última sexta-feira tenha sido a quarta tragédia do mesmo tipo acontecida durante o primeiro e ao iniciante segundo mandato de Barak Obama. A primeira foi a de 2009, em Fort Hood, no Texas, na qual morreram 13; a segunda, dois anos depois, em Tucson, no Arizona, em que as vítimas fatais foram 6; a terceira, que resultou em 12 mortes, enlutou Aurora, no Colorado. A de Newtown se tratou, entretanto da mais chocante, porque envolveu crianças, aluninhas da Sandy Hook Elementary School. Claro que não vou descrever aqui os detalhes do morticínio, porque dificilmente existe alguém que não tenha conhecimento do que ocorreu.

 

Não chega a causar espanto que, em um país no qual as armas são vendidas até em supermercados, como me lembrou o Mílton, meu filho, psicopatas de toda espécie tenham acesso fácil a elas. Para usarem-nas, sem dó nem piedade, quando lhes dá na telha, basta que sofram um ataque de loucura, o que não é incomum em gente com as faculdades mentais prejudicadas. Obama, a meu ver, tem de criar coragem para enfrentar os patrícios que adoram armas de todos os calibres. Chorar e solidarizar-se com os familiares das vítimas, como voltou a fazer agora em Newtown, não serve mais de consolo para quem sofre as consequências dos repetidos massacres. O Presidente precisa agir e enfrentar maníacos por armas como, por exemplo, esses caras da National Rifle Association que, diante da última tragédia, não fizeram qualquer manifestação. Seria por terem participado de inúmeras guerras que muitos americanos não conseguem viver desarmados?

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Vivemos sempre correndo

 

Por Nei Alberto Pies
Professor e ativista de direitos humanos

 

“Vivemos esperando dias melhores /…O dia em que seremos melhores /Melhores
no Amor/Melhores na Dor /Melhores em Tudo”

(Jota Quest, canção Dias Melhores)

 

Ao sermos interrogados sobre como estamos, é comum respondermos a quem nos
interroga de que estamos com pressa, “sempre correndo”. Mas correndo de
quem? Correndo para onde? Correndo atrás de quem? Ou nossas respostas
estão vazias de sentido ou, talvez, revelem que estamos a correr,
desesperadamente, sem rumo e direção.

 

Não há razões que justificam tanta violência nossa de cada dia que decorre
de coisas banais. A violência, transformada em rotina, dá-nos a impressão
de que vivemos num tempo em que tudo se pode resolver impondo a força, a
esperteza, o despudor, a estupidez ou a eliminação física daqueles que,
porventura, “atravancam” o nosso caminho. Mas será que a violência não está
a nos revelar que a estupidez é que tomou conta da gente e que o que nos
resta é administrá-la? Será possível vencer a estupidez humana?

 

A estupidez fundamenta-se na ideia de que não sou humanidade, sou somente
eu. Se somente é eu que valho, tudo o resto é secundário e, portanto,
passível de manipulação. O outro, que se vire, que se imponha, que se
apresente como eu. Não sou capaz de reconhecer a minha condição de
dignidade humana como algo que depende ou que pode ser complementada na
convivência com os outros. Então, se o outro em nada me ajuda, que pelo
menos não me atrapalhe. E, se resolver atrapalhar, nada melhor que
julgá-lo, humilhá-lo ou mesmo eliminá-lo.

 

Muito preocupante é que muitos de nossos adolescentes e jovens, a partir
das constatações referidas, operam as suas condutas e ideias na mais
absoluta relatividade, menos quando se trata da exaltação do próprio eu
(egocentrismo). Para muitos, tudo é razão de competição ou de etiqueta.
Representar é mais importante do que ser. Ter é muito mais importante do
que ser. Viver, na máxima velocidade e intensidade, é o melhor do que se
tem para fazer. Então porque pensar no futuro?

 

Sempre é importante retomar valores que são a base de nossa compreensão de
convivência social, como de nossa civilização. A generosidade, o convívio e
a compreensão, por exemplo, são geradas pela escutatória. A escutatória é a
nossa capacidade de desprender-se um pouco de si para tentar compreender as
atitudes e pensamentos dos outros. Mas será que ainda estamos a fim de
perder tempo para ouvir alguém? Ainda temos paciência para compreender que
determinadas atitudes resultam de nossa vivência pessoal atribulada e pela
falta de habilidade de conviver? Ainda seremos capazes de reconhecer que
tão importante quanto falar é também saber ouvir?

 

A violência é a face mais perversa de nossa estupidez humana. Na medida em
que viver, matar ou morrer viraram obras do acaso, estamos perdendo a
verdadeira noção de humanidade, sempre latente em cada um e cada uma de
nós. Esta humanidade, presente e latente em cada um e cada uma de nós,
requer ser reinventada e recriada em cada momento histórico. Nem sempre
vivemos do jeito que vivemos hoje e, no futuro, poderá ser que viver seja
ainda muito mais diferente e complexo.

 

Vivemos esperando dias melhores. Dias melhores virão se formos capazes de
perceber que vivemos enozados, interdependentes, frágeis, desejosos de
comunhão e trocas, mesmo que quase todo o mundo conspire contra a gente.
Mas somente a espera pode nos cansar. Vivamos, pois, escolhendo caminhos de
liberdade; não de estupidez.

 

Novo Secretário da Segurança já venceu primeira batalha, em SP

Texto publicado originalmente no Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

 

 

Na era da informação o que se diz tende a ter a mesma força do que se faz. Por isso, é pelas palavras que muitos somos julgados e precisamos ter muito cuidado ao usá-las. O peixe morre pela boca, era um dos ditados que ouvia de minha mãe quando era um guri, em Porto Alegre. O ex-secretário de Segurança Pública Antonio Ferreira Pinto, peixe grande na estratégia do governo paulista para conter a violência e, diga-se, com resultados positivos na redução dos índices de homicídio, até bem pouco tempo, errou o tom de seu discurso em meio a crise provocada pela sangria que São Paulo vem enfrentando há mais de 30 dias. Transmitiu arrogância ao dizer, através da imprensa, que não precisava da ajuda da União para conter o crime organizado, em recado direcionado ao ministro da Justiça José Eduardo Martins Cardoso. Foi descredenciado pelo governador Geraldo Alckmin que, no dia seguinte, abriu as portas do Palácio dos Bandeirantes para discutir ações conjuntas com o Governo Federal. Ferreira Pinto sentou-se à mesa, mas, aparentemente, já havia perdido a batalha da comunicação.

 

O próprio governador, após o episódio de seu secretário, também tropeçou na fala e ensaiou discurso moralista ao denunciar uma campanha contra a imagem de São Paulo. Subestimou os fatos reais relatados pela mídia e o desespero de moradores e comerciantes da periferia que se escondiam em casa ou fechavam as portas com medo dos ataques. O exercício de distorção da realidade, comum entre autoridades políticas brasileiras, não resistiu aos 959 assassinatos intencionais registrados entre janeiro e setembro deste ano, e ao crescimento de 92% nos crimes cometidos em outubro de 2012 na comparação com outubro de 2011. Percebendo o erro, Alckmin recuo, disse que o momento era crítico e trocou o comando da Segurança Pública.

 

Desde que teve seu nome anunciado para o cargo, Fernando Grella, ex-procurador-geral de Justiça, acertou o tom do discurso. Deve ter identificado que há na polícia um grupo atuando de forma ilegal, matando a esmo para vingar a morte de colegas, e na posse prometeu unir direitos humanos e ação preventiva:

É preciso encerrar a noção equivocada de que o combate firme ao crime e os direitos humanos são excludentes. Não se pode tolerar a omissão do Estado. Não se pode aceitar a violação dos direitos fundamentais do cidadão”.

 

Grella não esqueceu de levantar a moral da tropa ao dizer que apoia o plano de carreira dos policias e pretende atuar no sentido de integrar os trabalhos da Polícia Militar e da Polícia Civil. Destacou a importância do serviço de inteligência e a necessidade de se combater o crime organizado com planejamento. O novo secretário deu sinais de que no uso das palavras tem mais habilidade que seu antecessor. Precisará, agora, de ações rápidas e efetivas para provar sua capacidade no comando de área tão sensível à sociedade paulistana.

 

Na comunicação, palavras e atitudes precisam ser coerentes para convencer o interlocutor – neste caso, o cidadão.

A Violência do Mundo

 

Por Julio Tannus

 

 

Escrevi aqui, há pouco tempo, sobre a questão da segurança em nossa cidade. Volto ao tema, mas com um foco ampliado e direcionado para a violência no nosso planeta. Após sobrevoo em alguns autores, suas reflexões apontam para uma realidade nada confortadora. Tomo como exemplo o filósofo francês Jean Baudrillard, que tem visão bastante pessimista de nosso coletivo humano. Para ele, “se os progressos científicos, técnicos, médicos e sociais são admiráveis, não se deve subestimar o terrível poder destrutivo e manipulador da ciência e da técnica. Pela primeira vez na história do homem, graças à ciência e à técnica, pode-se aniquilar irremediavelmente toda a humanidade. A biosfera também está ameaçada de degradação: os perigos são o fruto de nosso progresso. O desenvolvimento, cujo modelo é ocidental, ignora que ele comporta também grandes inconvenientes. Seu bem-estar gera mal-estar, seu individualismo comporta egocentrismo e solidão, seus desenvolvimentos urbanos geram estresse e danos, e suas forças irreprimíveis conduzem à morte nuclear. O que isso quer dizer? Não se deve continuar nessa estrada nem indicar o caminho que percorremos: é preciso mudar de estrada”.

 

E tem uma visão pessimista de nosso coletivo. Para ele, o coletivo humano acumula tensões com o passar do tempo. Essas tensões só são aliviadas com guerras, distúrbios sociais, e outras violências. Faz uma associação com nossa atmosfera: as nuvens vão acumulando tensões que só são dissipadas a partir de descargas atmosféricas.

 

Segundo relatório divulgado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a violência mata mais de 1,6 milhão de pessoas no mundo a cada ano. Afirma também que outros milhões de pessoas são mutiladas por ataques. A violência é hoje a principal causa das mortes de pessoas com idades entre 15 e 44 anos. Ao divulgar o relatório, a OMS pediu aos governos em todo o mundo que adotem medidas urgentes para diminuir índices de assassinatos, violência doméstica e conflitos armados. 

Ainda segundo o relatório, a violência responde por 14% das mortes de homens e 7% das mortes de mulheres. Isso quer dizer que uma pessoa morre em algum lugar do mundo a cada minuto. Outras estatísticas publicadas dizem que uma pessoa comete suicídio a cada 40 segundos e 35 pessoas morrem a cada hora em conflitos envolvendo armas. Metade das mulheres mortas em crimes violentos é assassinada pelo marido, ex-marido ou namorado. Em alguns países, o índice sobe para 70%. Uma em cada quatro mulheres no planeta vai sofrer violência sexual por parte do parceiro. A violência contra os idosos também é um problema crescente com 6% de idosos tendo se declarado vítimas de abuso.



 

E aqui uma esperança, onde uma frase de Heidegger ganha toda a sua dimensão (“a origem não está atrás de nós, mas sim diante de nós”). O diretor da OMS, Gro Harlem Brundtland, disse que o relatório representa um desafio. “Ele nos força a ir além das noções do que é aceitável e confortável, a questionar a crença de que a violência é uma questão de privacidade da família, escolha individual ou um fato inevitável da vida.” 

O diretor do departamento de prevenção de ferimentos e violência da OMS, Etienne Krug, disse que as mortes podem ser evitadas com uma mudança de atitude. “No mundo inteiro, há evidências de que a violência pode ser evitada por uma série de medidas envolvendo indivíduos, famílias e comunidades.” O relatório reivindica programas educacionais para crianças nas escolas, treinamento para os pais e esquemas para diminuir o uso de armas de fogo, além de melhor suporte para as vítimas da violência.

 

Esperemos que isso aconteça!

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada, co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier) e escreve às terças-feiras no Blog do Mílton Jung

Até a Santa Inveja foi roubada

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Muitos moradores de grandes cidades possuíam santa inveja dos que habitavam as pequenas. Viver em metrópoles tem lá suas vantagens, quem não sabe. Seria ocioso citá-las. Elas, no entanto, enfrentam, hoje em dia, alguns problemas que tendem a crescer. Um deles é o trânsito cada vez mais movimentado e, consequentemente, complicado. Até as classes menos favorecidas conseguem, hoje em dia, por força do alongamento dos prazos de pagamento, possuir veículo próprio, tanto os chamados “carros de passeio”(detesto essa expressão) quanto os usados para outras utilidades. Problema bem maior do que os motoristas enfrentam no trânsito, por pior que esse seja, diz respeito à falta de segurança. Afinal, é uma carência que, não faz muito, afetava mais os habitantes de cidades grandes. Já os moradores de cidadezinhas do interior – isso justifica o que chamei de santa inveja que temos dos interioranos – viviam tranquilos, sem medo de qualquer tipo de violência. Roubos ou furtos eram raríssimos. Assaltos a bancos, então, somente eram vistos no cinema.

 

Os – como sempre diz o Mílton – caros e raros leitores dos meus quintafeirinos textos talvez se perguntem por que digitei “possuiam santa inveja” na primeira linha do parágrafo inicial. Ocorre que a tranquilidade em que viviam, no Rio Grande do Sul, os moradores dos pequenos municípios, já não existe mais. Não sei, por exemplo, se aí em São Paulo os assaltos a bancos são tão rotineiros quanto se tornaram aqui. Estou postando estas linhas, como de hábito, numa terça-feira. É bem possível que a relação de crimes da citada espécie já seja mais ampla do que a elencada pelo jornal Zero Hora em suas edições dos dias 17 e 18 do corrente mês.

 

O primeiro do ano foi levado a cabo no dia 21 de janeiro, em Triunfo. Nesse, um policial morreu e outro foi baleado, numa ação contra o Banco do Brasil. Foram visitados também por facínoras os municípios de Ipê, Sapucaia do Sul, Santa Maria, Caxias do Sul, Canoas (duas vezes), Tapes, Dom Feliciano, Uruguaiana, Bento Gonçalves, Feliz, São Francisco de Paula, Torres, Picada Café, Tio Hugo e Nova Bassano. Algumas das cidades citadas, saliente-se, não podem mais ser consideradas pequenas. No último dessa estatística, que dispensa adjetivo – o décimo oitavo de 2012 – os bandidos utilizaram explosivos para detonar terminal de autoatendimento do Banco do Brasil, a instituição mais visada pelas quadrilhas, em Fagundes Varela.

 

A Polícia Civil e a Brigada Militar (a nossa PM),fazem das tripas coração para coibir esse tipo de crime que, muitas vezes, começa com o roubo de um carro em Porto Alegre. É fácil para os bandidos, entretanto, praticarem seus roubos, em especial, nos municípios menores, nos quais os efetivos policiais são pequenos, embora, repito, o atrevimento dos quadrilheiros não poupe, também, cidades mais populosas. Imaginei que, um dia, ao deixar de trabalhar, poderia estender até fins de março minha estada em Tramadai, praia marítima gaúcha, onde parte da família veraneia. Nessa, porém, se não há assaltantes que usam explosivos, existem gatunos oportunistas, sempre dispostos a invadir as casas de veranistas até mesmo quando esses estão presentes.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Como enfrentar o desafio da violência nos centros urbanos

 

 

Na revista Época São Paulo que chega às bancas nessa sexta-feira, a violência na cidade está estampada na capa com a pergunta: “O que há de errado com a nossa segurança?”. A edição traz análise de especialistas, relato de casos e entrevista com o secretário de Segurança Antonio Ferreira Pinto. A maior autoridade estadual no setor diz, entre outras coisas, que “toda vez que eu paro num semáforo, tenho a preocupação de não ser vítima de um assalto”. Na edição de julho, em minha coluna mensal na revista, já havia chamado atenção para o fato de ser um risco entregar a nossa segurança ao Zé da Rua (pode ser ao Totonho da Avenida, também) hábito comum de muitos de nós que moramos por aqui. Desculpe-me se pareço repetitivo, mas voltarei a falar sobre segurança pública neste post, a medida que os dados oficiais ratificam a informação de que os casos de violência estão em alta no Estado, em especial na Capital e arredores.

 

Um dos livros que li nos dias em que estive de férias foi “Os Centros Urbanos – A maior invenção da humanidade”, do economista Edward L. Glaeser, publicado pela Campus. Ele é defensor ferrenho dos aglomerados urbanos e entende que tem de se investir no aumento do adensamento pois é nas cidades que o mundo e o ser se desenvolvem melhor. Discordo de alguns de seus pensamentos, impostante ressaltar, mas o trabalho é bastante rico de informações que nos ajudam a pensar. No capítulo quatro, Glaeser fala da segurança como um dos maiores desafios para a vida nas cidades e apresenta uma série de fatos históricos como a transformação de Paris em Cidade-Luz, no século XVII, “porque o homem que dirigiu a força policial lançou um amplo projeto de iluminação das ruas para tornar a cidade menos perigosa à noite”.

 

Para o autor, “as cidades também incentivam os crimes porque as regiões urbanas apresentam densa concentração de vítimas potenciais. Enquanto é difícil o ladrão ganhar a vida em uma estrada solitária do interior, as multidões no metrô propiciam grande quantidade de bolsos para depenar. Eu estimei em uma ocasião que o retorno financeiro de um crime médio era aproximadamente 20% maior dentro de áreas metropolitanas do que fora delas”.

 

E quais as soluções viáveis para encarar este desafio?

 

Glaeser não é taxativo nas respostas e trabalha com muitas variáveis. Identifica a importância do policiamento comunitário ou da ação de inteligência como a desenvolvida pelo agente de trânsito, Jack Maple, que marcou em uma mapa do Sistema de Trânsito de Nova York os pontos em que os roubos eram mais comuns, na década de 1990. Técnica apurada pelo uso de tecnologia como o CompStat, um sistema estatístico computadorizado que permite ver qual crime está ocorrendo e agir em conformidade.

 

O autor também avalia dados resultantes do aumento no policiamento ou na rigidez das penas aos criminosos. “Muitos trabalhos estatísticos apoiam a ideia intuitiva de que o crime cai com o aumento das punições, embora muitos estudos tenham constatado que o crime cai mais em resposta ao aumento das taxas de captura do que em resposta a sentenças mais longas”, escreve.

 

A liberação no uso de armas pelos cidadãs comuns, sempre anunciada como a salvação da lavoura, serve apenas para aumentar o número de suicídios seja nas cidades seja nas áreas rurais, constata Glaeser.

 

Tornar as cidades mais prósperas e menos violentas a partir do combate a pobreza foi outra ideia abordada pelo economista: “Infelizmente, ninguém sabia realmente como criar dois milhões de empregos novos para os desempregados urbanos, como resolver o problema da pobreza de forma geral ou como conter o declínio da industrialização urbana durante essa época”, disse ao se referir aos números propostos por uma comissão de estudiosos, nos anos de 1960, nos Estados Unidos.

 

Se Glaeser também não é capaz de oferecer uma fórmula pronta para reduzir a violência nos centros urbanos, fica evidente que a resposta é muito mais complexa do que as propostas simplistas e fantasiosas que costumam aparecer nos momenros de crise ou de delírios eleitorais. E contra estes devemos estar preparados, também.

Bons exemplos que podem salvar vidas no trânsito

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Os bons exemplos, venham de onde vierem e versem sobre o tema que versarem, deveriam ser sempre seguidos. O DETRAN do Rio Grande do Sul promoveu um evento, nesta semana, que trouxe a Porto Alegre autoridades de diversos países para ouvi-las discorrer acerca de trânsito. Refiro-me ao Congresso Internacional de Trânsito Idéias que Salvam Vidas. A iniciativa foi oportuníssima. Na Austrália, representada por Janet Dore, diretora executiva da Transport Accident Commission, a queda no número de mortos em acidentes caiu 60%, enquanto no Brasil, tivemos aumento de 25% na última década. Foram mais de 40 mil as pessoas vitimadas na trágica batalha travada em rodovias e áreas urbanas. A realização desse Congresso, em Porto Alegre, veio bem a calhar. Afinal, na capital gaúcha, são vistos, costumeiramente, nas nossas ruas e avenidas, motoristas despreparados ou tresloucados, conduzindo de maneira irresponsável os seus veículos, dos de duas rodas em diante.

 

Estou usando por base, neste texto, reportagem de Itamar Melo, publicada pelo jornal Zero Hora. Por falar em veículos de duas rodas, vem daí de São Paulo um dos bons exemplos, cujos resultados – os paulistanos devem saber melhor do que eu – se não são mais significativos, não é por falta de iniciativas das autoridades do setor. Desde 2005, para combater a mortandade de motociclistas, especialmente motoboys, foram oferecidos cursos gratuitos de pilotagem, teóricos e práticos. As empresas – e isso poderia ser feito em Porto Alegre – proporcionam aulas profissionalizantes e incentivos às que implantarem programas de prevenção.

 

Para resumir e não cansar a beleza dos raros leitores destas que costumo chamar de mal digitadas linhas, cito uma frase da campanha que visa a evitar tragédias, nas estradas, cometidas por quem bebe, lembrada pela australiana Janet Dore, diretora executiva da Comissão de Acidentes de Trânsito do Estado de Victoria: “Se bebe e depois dirige, você é um maldito idiota”. Já na Espanha, representada no Congresso, por Maria Segui Gomes, em 2003, o índice de mortes no trânsito era de 21,8 por milhão de habitantes. Em 2009, esse índice, que chegava a ser uma dos mais altos da Europa, havia caído para 5,9, poupando 10 mil vidas.

 

Preciso enviar este texto para o Mílton para que ele o poste no blog nesta quinta-feira. Estou digitando-o na terça-feira. Talvez possa voltar aos pontos altos do importante evento numa próxima quinta.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)