De tentativa

 

Por Maria Lucia Solla

 

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o papel
insiste no branco puro
a palavra
no crucial momento da emissão
se perde na vida
vira a casaca

 

o bom fica babaca
a certeza perde a realeza a pose
e a casaca

 

a impermanência exige atenção
pula
se estica
faz careta
me mostra a foto da permanência
coitada
correndo na contramão
envelhecida e mofada
destruída

 

cena triste de se ver

 

insisto ainda um pouco
busco temas teoremas
que ratifiquem a minha razão

 

mas me perco no local do encontro
de mim mesma com a emoção

 

apago tudo
faço a vontade do papel
dou à palavra alforria
ao bom o seu complemento

 

e
bem

 

a certeza
não encontrei
ouvi dizer que ela e a razão
se mandaram para Canoa Quebrada
e que vivem disfarçadas
de sardinhas enlatadas

 

E voilà

 


Maria Lucia Solla escreve aos domingos no Blog do Mílton Jung

De opção

 

Por Maria Lucia Solla

Chuva em São Paulo

Ouça De Opção na voz e sonorizado por Maria Lucia Solla

Olá,

quando eu era adolescente, entre os catorze e os cinquenta, tinha comigo uma sensação deliciosa que se manifestava o tempo todo, nas mais diversas situações. O meu acordar era seu momento favorito para mostrar que estava ali para ficar, e durante o dia pipocava: numa conversa solta com alguém, enquanto eu dirigia pela estrada sem fim. Ouvindo uma música que fazia ferver o sangue que corre pelas estradas de mim. No cinema, no teatro…

uma sensação folgada
iluminada
moleca
ilimitada
sem fronteira
nem preconceito
redentora

E não é que, depois de umas férias de mim, ela volta! Volta como se nunca tivesse ido embora, como se nunca nos tivéssemos afastado, firme e forte, vibrante, ágil como antes.

Noutro dia, quando abri os olhos, de manhã, lá estava ela, me acenando, sorrindo, se agarrando em mim. E eu não hesitei, me entreguei sem reserva, sem resistência, feliz com a volta dela. Fiquei rolando na cama, viajando na sensação, vendo de novo as prateleiras da vida abarrotadas de possibilidade, ideia, desafio, caminho, experiência. Onde eu posso tudo. Posso escolher o que ser. Posso ser padeira se quiser. Adoro fazer pão. Cada vez faço um pão diferente, é verdade; às vezes cresce, noutras não, um dia fica comprido e encorpado, no outro encolhido e embatumado. Mas eu faço.

Posso ser o que quiser, estar onde o meu dinheiro der, dizer o que me vier na telha, confessar, declarar, perdoar, fazer arte; ah! fazer muita arte. De todo tipo: arte artística e arte arteira. Preparar o almoço, fazer surpresa e ser surpreendida. Escolher morar onde quiser, economizar tostões ou gastar milhões. Sair de mim e passear na terra onde sim quer dizer sim, e não, não.

E de novo, cada dia que nasce, e num leque de lampejos ao longo do dia, vivencio isso tudo e me reinvento, como sempre fiz. Me lembro de que não devo nada, não tenho que, coisa nenhuma. Sou livre. Livre para desenhar e costurar os meus dias. Arrematá-los bem ou deixar os fios pendurados e sair pirilampa pelo mundo afora, saboreando o caminho, solta ou mendigando atenção e carinho,

entre o sonho e
o fato realizado
a ilusão e
a realidade palpável

vivi muitas vidas numa vida só

fui escrava
fui rainha
comi caviar
e sardinha
inebriada
fascinada
pela caminhada

Posso escrever, ler, subir, descer, chorar, rir, até tarde dormir, ou bem cedo acordar.

E você?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung