Avalanche Tricolor: Papai, ganhamos!

 

Por Gregório Jung

 

 

Papai, ganhamos. Estou escrevendo antes do jogo este texto sem receio de dar azar para o nosso time, pois confio nos Imortais que jogarão.

 

Papai, ganhamos. Foram muitos anos, vendo você vidrado na frente da TV, se virando com seus compromissos para acomodar tempo porque “hoje tem jogo do Grêmio”.

 

Não cresci no Menino Deus, posso contar em uma mão as vezes que fui ao Olímpico e em um dedo as minhas visitas à Arena. Vivi muito do futebol através de você. Nunca entendia muito bem o fanatismo, apesar de sempre ter gostado de ouvir as histórias, mas sempre me considerei gremista.

 

Papai, ganhamos. Foi de uns anos para cá que comecei a entender o que move as pessoas para o esporte, me apaixonar pelas jogadas e aprender assim como você faz para aprender League of Legends, que eu adoro explicar para você.

 

Papai, ganhamos. Você narrou o último título nacional do Imortal e hoje comemorou como nunca essa vitória que é mais que merecida. O Vovô está em Porto Alegre, mas com certeza deve estar sentindo a mesma coisa.

 

Papai, ganhamos. Via os jogos esporadicamente, de canto de olho: “como está o Grêmio?”, perguntava para mostrar que você não estava assistindo sozinho. Sofria junto, mesmo de trás da tela do computador.

 

A última vez que lembro ter torcido como nunca foi na Batalha dos Aflitos. E que jogo!

 

Não entendia muito bem o que acontecia, mas via por você o que o Grêmio estava passando, sofria sem saber ao certo por quê, mas se você estava sofrendo era porque valia a pena.

 

Papai, ganhamos. Não peguei o Grêmio Copero, o Grêmio Campeão Mundial, o Grêmio de Tite, de Danrlei, de Ronaldinho Gaúcho, de Renato Gaúcho (jogador), de Yura, de Tarciso.

 

Peguei o Grêmio Vencedor da Série B do Campeonato Brasileiro, título que falo com orgulho.

 

Peguei o Grêmio de Anderson, de Galatto, de Mano Menezes, de Tcheco, de Kléber Gladiador, de Pará, de Barcos, de Victor, de Róger, de Marcelo Grohe, de Geromel, de Douglas, de Luan.  Todos os que citei na segunda lista foram porque marcaram para mim os jogos do Grêmio, são os meus craques.

 

Papai, ganhamos. Novas amizades que fiz nessa minha fase da vida me ensinaram a amar ainda mais o esporte, me ensinaram o que é cadenciar o jogo, me ensinaram nomes de jogadores que eu nunca saberia sozinho, me ensinaram tudo e muito mais para que eu pudesse entender uma fração do que você sente ao ver o nosso Grêmio entrar em campo.

 

Papai, ganhamos. O Vovô tinha um grito de gol sem igual, um grito que você fez no gol de Marcelinho Paraíba, em 2001, um grito que eu fiz quando narrei o Brasil nas Olimpíadas, neste 2016. Um grito que passou por três gerações: o mesmo número de gols no “Gol Gol Gol” do Vovô.

 

Posso não ter narrado um jogo do Grêmio (ainda) ao fazer esse grito, mas ele foi uma homenagem que fiz para os dois Milton Jung que marcaram e marcam a minha vida.

 

Papai, te amo.

De descendência

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Aos meus netos e seus descendentes.

 

Meu pai, o vovô Solla, nasceu no Brasil. Em São Paulo. Mais precisamente, na Lapa. Seus pais eram europeus jovens, que chegaram com suas famílias fugidas do caos que se abatia no continente europeu, àquela época. Guerra, escassez de tudo – principalmente de trabalho. Seus pais, meus bisavós, tomaram a difícil decisão de abandonar a vida que tinham por lá e de se aventurarem por países de outro continente, cuja língua não falavam.

 

Meu avô Pedro, pai do meu pai, nasceu na Espanha, e a vovó Deolinda, sua mulher, em Portugal. Vieram diretamente para o Brasil, de navio, como veio a maioria dos imigrantes.

 

Os pais da vovó Clélia, meus avós maternos, vieram da Itália, com um pé na Grécia – mas ficaram algum tempo em Buenos Aires, na Argentina. Amigos já estavam lá, e imaginaram que seria mais fácil enfrentar a nova vida em companhia; mas a vida não é previsível. Não sei o que aconteceu, e decidiram deixar a Argentina e se estabelecerem no Brasil, em São Paulo, e adivinha onde… na Lapa.

 

Sou péssima em História, mas eles conseguiram, não apenas sobreviver, mas viver.

 

Os avós que chegaram ainda muito jovens, o vovô Pedro e a vovó Deolinda, cresceram, se conheceram, se casaram e formaram a sua família. Os avós que vieram da Itália casados, o vovô Vito e a vovó Grazia, tiveram uma filha na Argentina, a tia Adélia, e mais dez no Brasil. Uma delas foi a minha mãe, a vovó Clélia.

 

Sem bolsa família, num ambiente totalmente estranho, língua diferente, costumes idem, mantiveram uma vida digna, de lutas, perdas e ganhos; e mantiveram unida a sua família. Colaboraram na construção de um Brasil de diversidade. Uma linda colcha de retalhos das mais diversas origens.

 

Hoje, no entanto, ficariam arrepiados se pudessem ler as manchetes dos jornais. O Brasil tem sido agressivamente assaltado, e estraçalhado, não por imigrantes, mas pela corja que se instalou nos castelos do poder.

 

Tenho medo do Brasil que vamos deixar para vocês, e tenho vergonha de fazer parte da população que é parte desta História.

 

Juízes vão para a cadeia, empresários só trabalham se pagarem propina, obras são superfaturadas, tráfico de influência é a mais nova e lucrativa profissão do mercado, jovens não têm educação minimamente decente, saúde púplica não existe, nosso dinheiro não vale nada, e agora somos nós que procuramos a via de saída para outros países onde não existam tantos ladrões.

 

A vida de vocês está começando, a minha acabando, e eu apenas confio na sabedoria da Vida, que dá a cada um de Seus filhos, o fardo que podem suportar.

 

A vovó espera que o fardo de vocês seja leve.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

Rodolfo Gibrail Tannus: o mágico Vovô e um amor de sete décadas

 

Na sexta-feira, faleceu um amigo de todos nós, Rodolfo Gibrail Tannus, pai do nosso colunista semanal Carlos Magno Gibrail e do colaborador Julio Tannus. A história dele foi muito bem resumida no obituário da Folha de São Paulo, nesta semana, resultado da conversa que a jornalista Andressa Taffarel teve com o Carlos em busca de informações sobre a trajetória de vida desse personagem do nosso cotidiano. Em homenagem ao Seu Rodolfo deixamos de publicar, nesta quarta-feira, o texto do filho para conhecer um pouco mais a história do mágico, avô, pai e amigo. Como o próprio Carlos nos escreveu em e-mail, Andressa “produziu um excelente material, que tenho orgulho de reproduzir”. E todos nós, caros e raros leitores deste Blog, temos o prazer de ler: