De descendência

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Aos meus netos e seus descendentes.

 

Meu pai, o vovô Solla, nasceu no Brasil. Em São Paulo. Mais precisamente, na Lapa. Seus pais eram europeus jovens, que chegaram com suas famílias fugidas do caos que se abatia no continente europeu, àquela época. Guerra, escassez de tudo – principalmente de trabalho. Seus pais, meus bisavós, tomaram a difícil decisão de abandonar a vida que tinham por lá e de se aventurarem por países de outro continente, cuja língua não falavam.

 

Meu avô Pedro, pai do meu pai, nasceu na Espanha, e a vovó Deolinda, sua mulher, em Portugal. Vieram diretamente para o Brasil, de navio, como veio a maioria dos imigrantes.

 

Os pais da vovó Clélia, meus avós maternos, vieram da Itália, com um pé na Grécia – mas ficaram algum tempo em Buenos Aires, na Argentina. Amigos já estavam lá, e imaginaram que seria mais fácil enfrentar a nova vida em companhia; mas a vida não é previsível. Não sei o que aconteceu, e decidiram deixar a Argentina e se estabelecerem no Brasil, em São Paulo, e adivinha onde… na Lapa.

 

Sou péssima em História, mas eles conseguiram, não apenas sobreviver, mas viver.

 

Os avós que chegaram ainda muito jovens, o vovô Pedro e a vovó Deolinda, cresceram, se conheceram, se casaram e formaram a sua família. Os avós que vieram da Itália casados, o vovô Vito e a vovó Grazia, tiveram uma filha na Argentina, a tia Adélia, e mais dez no Brasil. Uma delas foi a minha mãe, a vovó Clélia.

 

Sem bolsa família, num ambiente totalmente estranho, língua diferente, costumes idem, mantiveram uma vida digna, de lutas, perdas e ganhos; e mantiveram unida a sua família. Colaboraram na construção de um Brasil de diversidade. Uma linda colcha de retalhos das mais diversas origens.

 

Hoje, no entanto, ficariam arrepiados se pudessem ler as manchetes dos jornais. O Brasil tem sido agressivamente assaltado, e estraçalhado, não por imigrantes, mas pela corja que se instalou nos castelos do poder.

 

Tenho medo do Brasil que vamos deixar para vocês, e tenho vergonha de fazer parte da população que é parte desta História.

 

Juízes vão para a cadeia, empresários só trabalham se pagarem propina, obras são superfaturadas, tráfico de influência é a mais nova e lucrativa profissão do mercado, jovens não têm educação minimamente decente, saúde púplica não existe, nosso dinheiro não vale nada, e agora somos nós que procuramos a via de saída para outros países onde não existam tantos ladrões.

 

A vida de vocês está começando, a minha acabando, e eu apenas confio na sabedoria da Vida, que dá a cada um de Seus filhos, o fardo que podem suportar.

 

A vovó espera que o fardo de vocês seja leve.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

6 comentários sobre “De descendência

  1. AMIGA MARIA LUCIA,

    QUE ORGULHO DE NOSSOS AVÓS,SOU ORIUNDI DOS QUATRO LADOS,MOOCA/BRAS/BELEM/PARI.

    OUTRO SÃO PAULO,OUTRA TERRA DA GAROA.QUANTA SAUDADE,QUANTA FELICIDADE NA NOSSA INFANCIA.ABRAÇOS FARININHA

  2. Farina,

    Recordar é viver… uma vez que prospectar está impossível!
    Hoje tenho muita vergonha do meu país. Temo pelos meus netos e ao mesmo tempo torço para que eles tenham força e coragem para fazer melhor do que nós fizemos, ou para se mandarem daqui o mais depressa possível.
    Que consigam superar a banda podre e ignorante que se instalou na nossa terra para pilhá-la e violentá-la, com suas ideias de guerrilha ultrapassada e virulenta.

    Viva a educação, viva a cultura, viva a sensatez! Abaixo a pequenez de alma.
    Seja o que Deus quiser!

    Beijo, bom domingo e bom feriado, e um beijo na Vivi

  3. Sempre será uma mensagem a quem precise de Exemplo de Vida, pois a cada historia contato por pessoas que superaram todos as dificuldades e hoje estão vivas em suas famílias. Parabéns.

    • Muito obrigada Almir,

      num feriado destes, dar um passo à frente para apoiar um simples relato é um enorme passo, e eu te agradeço por isso. Que possamos todos reconhecer o que vale realmente a pena, nesta Vida que nos acolhe.

      Grande abraço,

  4. Maria Lúcia, a história é farta de corruptos e incertezas, mas estamos todos aqui. Chegamos coma coragem e com nosso sentimento de sobrevivência. E não vamos desistir!!
    A sua vida não está acabando. Ela só está mais madura com o que os homens podem fazer, mas suas palavras são de esperanças e é nelas que confiamos.
    Confiança faz parte de nosso sentimento de sobrevivência.

  5. É verdade, Rafael, “estamos todos aqui”. A cortina ainda não se fechou pra nós. Você tem razão. Vamos fazer deste espetáculo, um espetáculo memorável, cada um no seu papel, até que venham os aplausos.

    Obrigada pela companhia de sempre e um abraço pela dose de confiança

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