Avalanche Tricolor: vitória para afastar a zica

Deportivo Riestra 0x3 Grêmio
Sul-Americana — Estádio Nuevo Gasómetro, Buenos Aires, ARG

Deportivo Riestra x Grêmio
Carlos Vinícius comemora gol de pênalti. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Zica é daquelas palavras curiosas que surgem no vocabulário popular com sentidos opostos. Na maior parte das vezes, aparece como sinônimo de urucubaca, uma energia negativa que tentamos afastar batendo três vezes na madeira. É possível encontrar a expressão associada ao azar, à má sorte, na maioria dos dicionários brasileiros, como o Michaelis. Mais raro nos registros oficiais, porém comum nas conversas de rua, é o uso da palavra para definir algo muito bom, marcante, de alta qualidade: “esse jogo foi zica” ou “ideia muito zica” são exemplos que encontrei no Priberam.

Na partida desta noite, na Argentina, os opostos se encontraram para alegria do torcedor gremista.

Foram jogadores zica, como Gabriel Mec e Amuzu, que nos ajudaram a nos livrar da maior das zicas que nos acompanhavam nesta temporada: ficamos 104 dias sem vencer fora de casa. O três a zero que nos leva à liderança temporária do Grupo F da Sul-Americana foi apenas a terceira vitória longe de Porto Alegre desde o início do ano.

Luis Castro repetiu a escalação com três zagueiros, mas colocou apenas um volante à frente deles. Esperava que William conseguisse suprir a ausência de mais um marcador no meio e chegasse à frente. Se não alcançou êxito com nosso capitão, foi recompensado pelo desempenho de Mec, que parece ter assumido de vez a posição de titular. O guri foi zica: driblou adversários, distribuiu o jogo e cavou faltas.

Caído pela esquerda e sempre cortando para dentro em direção ao gol, Amuzu foi zica também. Voltou muito bem da lesão. Mais uma vez, foi o atacante mais perigoso. Fez o segundo gol ao completar uma belíssima triangulação com Carlos Vinicius e Mec. Antes, já havia sido dele o drible dentro da área que provocou o pênalti no primeiro tempo. Lance que nos livrou de outra zica: Carlos Vinicius, que havia errado três cobranças na partida da semana passada e vinha de dois gols anulados, impôs-se com personalidade e confiança. Marcou seu décimo quarto gol na temporada.

O terceiro gol também foi bonito. E teve mérito inicial de Pavón, que já foi zica no mau sentido e, com um esforço brutal, improvisado na lateral, conseguiu reverter essa imagem. Ele cobrou a falta que explodiu na barreira e deixou a bola pronta para o contra-ataque adversário. Foi o próprio Pavón quem apareceu para marcar e, de carrinho, impedir a ação ofensiva. Com a bola recuperada, tabelou, chegou à linha de fundo e cruzou para Braithwaite. O dinamarquês fez um golaço, o primeiro desde a parada de nove meses por lesão. Outra zica da qual nos livramos nesta noite.

Entre trancos e barrancos, Luis Castro segue no desafio de reconstruir o time. Nas últimas oito partidas, a equipe não sofreu gols em sete. Isso não significa que os problemas defensivos estejam resolvidos. Há muito posicionamento para ser ajustado. Ganhamos fora de casa, finalmente, mas sem nenhuma ilusão de que o resultado se repetirá automaticamente nas demais competições. Ainda é preciso melhorar muito. Alguns jogadores zicas, porém, me dão esperança de que podemos encontrar um caminho com menos zicas pela frente. A começar domingo quando vamos enfrentar o time do Zico.

Avalanche Tricolor: xô, zica!

Botafogo 2×5 Grêmio

Brasileiro – Nilton Santos, RJ/RJ

Matheus comemora o 5º gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Fizemos 5 gols. Tomamos 2. Fizemos de bola tocada, de bola colocada e de falta cobrada. Teve gol de Churín. Gol de pênalti. Gol de Jean Pyerre. De falta. Teve o primeiro do Alisson. E os dois últimos do Matheus Henrique. Do último, tiro inspiração para esta crônica. 

Já com a braçadeira de capitão —- legado de Maicon que havia saído mais cedo —-, nosso camisa 7 marcou o quarto gol gremista depois de uma assistência de Isaque, aos 27 do segundo tempo. Da entrada da área e com a defesa no meio do caminho, encontrou um espaço para colocar a bola com classe na rede adversária. Foi um gol importante porque pouco antes havíamos levado o primeiro e, apesar de ainda estar 3 a 1, a saga de empates que marcou nossa jornada na temporada voltava a fazer sombra.

Se no primeiro que fez a comemoração foi tímida, no segundo, Matheus revelou o peso que estava sobre os seus ombros —— o mesmo que pesa nos ombros de toda a equipe. Aos 32, após mais uma assistência de Isaque, desta vez de calcanhar, Matheus entrou na área conduzindo a bola até encontrar o gol. Na festa, fez aquele movimento com as mãos sobre o próprio corpo que, em bom português, significa: “xô, zica!”

Zica tem diversos significados aqui no Brasil.

É nome do vírus que nos assustou anos antes da Covid-19. É como, em alguns estados, descrevemos jovens descolados, com estilo próprio, que têm a capacidade de fazer coisas que fogem do nosso comum. Matheusinho —- é assim que locutores de futebol gostam de chamá-lo para revelarem uma intimidade inexistente —- pode ser considerado um moleque zica ou um guri zica, apesar de a gíria não ser própria do Rio Grande. Naquele momento do gol, do seu segundo gol, a zica que Matheus queria afastar nem era uma nem era outra. Era a zica que vem acompanhada pelo azar, pelos lances de infortúnios, pelo tanto de coisa ruim que se acumula em um determinado momento de nossa vida.

O quinto gol gremista definiu o placar e encerrou uma interminável trajetória sem vitórias neste ano de 2021. Já passava de um mês desde a última conquista, em 6 de janeiro. De lá para cá, além de resultados doloridos e pênaltis esquisitos, tivemos um amontoado de empates que nos fizeram patinar na subida ao topo da tabela do Brasileiro, momentos depois de uma arrancada que chegou a nos dar alguma esperança.

A despeito da capacidade do adversário,  tão abatido quanto rebaixado, que os gols de Alisson, de Jean Pyerre, de Churín, de Matheus Henrique, de pênalti, de falta, de bola passada e bola colocada, nesta noite de segunda-feira, sejam os gols que nos livraram da zika que carregamos nesta ano e marquem a virada de expectativas para as três rodadas finais do Brasileiro —- que ainda podem nos devolver, pela porta da frente, a Libertadores —- e nas duas partidas finais da Copa do Brasil.

Xô, Zica!