Conte Sua História de SP-462 anos: Vila Joaniza, meu lugar no passado

 

Por Tadeu Gentil Gomes

 

 

Eram os idos de 1960…

 

Nasci na Vila Joaniza, Zona Sul de São Paulo, em uma casinha simples de três cômodos no fundo do quintal: quarto, cozinha e banheiro. Tive como parteira minha avó paterna, Dona “Artina”, que é como se falava no idioma mineirês da época. No quintal, uma hortinha, uma laranjeira e, de vez em quando, umas galinhas, segundo contava minha mãezinha Tereza.

 

Lembro-me muito vagamente de, nos fins de tarde, ver minha mãe colocando o vidro de leite vazio ao pé da porta da cozinha para, na manhã do dia seguinte, encontrar um outro cheinho. Uma vez corri e tive tempo de ver o caminhão do leiteiro partir. Mas meu grande sonho mesmo era o de conhecer o bondoso homem que nos entregava o leite fresquinho. Nunca consegui.

 

Meu pai (Seu Gentil) trabalhou por longo tempo à noite. E eu, cheio de quereres, me apossava de seu lugar na cama bem quentinha ao lado do anjo da minha vida: minha mãe. Ela me contava histórias e mais histórias de assombração e de sua vida na roça, no interior de Minas Gerais. Eu adorava! Adormecia imaginando-me personagem das narrativas caipiras que ouvira um pouco antes. Não sei se sonhava depois de dormir, mas sei que sonhava acordado com os fantasmas mais fantasmas de que já tinha ouvido falar e com os tios e outros parentes de minha mãe, os quais conheci por fábulas contadas nas noites frias de São Paulo. Ela também recitava versinhos e cantava para mim. Foi meu primeiro contato com a literatura.

 

Naquele tempo, havia o costume de se engordar porcos. E, como a Vila Joaniza constituía-se num reduto de mineiros em São Paulo, não era muito difícil avistar um chiqueiro. Alguém fazia um no quintal, depois passava de casa em casa pedindo sobras de comida para ajudar a engordar o bicho. Já criado, o porco era abatido, e sua carne dividida entre os que colaboraram na engorda. A maior parte ficava para o dono, é claro. Foram muitas as manhãs em que acordei atordoado pelos gritos de um porco. Às vezes era abate; às vezes, castração. Presenciei algumas execuções suínas em casa de tios e vizinhos. Para mim era algo normal, comum; algo que era assim porque era assim mesmo e pronto!

 

Uma vez meu pai engordou um porco no quintal de casa. Acompanhei da construção do chiqueiro ao abate. Abate que seria trágico não fosse o episódio de comicidade que o envolveu, dando-lhe um ar de tragicomédia grega. Meu pai entrou no chiqueiro para amarrar o bichinho, de modo a facilitar a facada no coração (era assim que se matavam os porcos). Contudo, percebendo que havia algo errado, o danado do porco iniciou uma fuga alucinada dentro de seu pequeno espaço de confinamento, estragando os planos de meu pai. Eu, secretamente, estava torcendo para o porco. Em dado momento, o suíno fingiu que ia para a direita, mas rapidamente tomou o sentido oposto. Como o ambiente estava abarrotado das fezes de seu hóspede, meu pai escorregou e caiu. Caiu e rolou xingando todos os palavrões que sabia e que talvez inventasse na hora. Fiquei feliz pelo porco e senti uma enorme vontade de rir, mas tive que me conter. Meu pai, furioso, ergueu-se e atirou a cordinha que tinha na mão para fora da pocilga. Em seguida, ele saiu e foi buscar uma marreta. O final da história não preciso narrar. Pela primeira vez na vida, fiquei triste pela execução de um porco. É que ele era meu amigo…

 

Nas manhãs de frio, ia para a escola passando a mão sobre as camadas de gelo que se formavam sobre os poucos carros estacionados pelo caminho. E em todas as noites, praticamente, garoava. Minha mãe me Obrigava a usar um boné estilo “Chaves”, matando-me de vergonha. Era a chacota para os colegas. Que ódio!!!

 

Num determinado Natal, íamos ver um Presépio no Vale do Anhangabaú, pois minha família era católica. Tudo pronto. A vizinha, Dona Cláudia, veio com seus três filhos para irmos as duas famílias juntas. Tão logo me viram, os mosqueteiros começaram a fazer “aquela cara” de deboche. Emburrei para não usar o boné. Apanhei na frente de todo mundo, mas não usei o desgraçado do boné. Resultado: não houve passeio, não houve Presépio.

 

Estudei no Grupo Escolar de Vila Joaniza, a famosa “Granja”. Alguém perguntava: “Onde você estuda?” Lá vinha a resposta: “Eu estudo na Granja.” Mas isso tinha fundamento. Contavam que o bairro fora uma fazenda, e que seus donos (João e Nilza, daí Joaniza) cederam a parte do terreno em que havia um antigo galinheiro para que se estabelecesse ali a escola. As salas de aula eram os antes criadouros de galinha. Nos dias de chuva, para ir ao banheiro, muitas vezes o aluno descia a trajeto derrapando o traseiro, ou mesmo rolando. E não foram poucas as vezes que professoras, professores e bedéis passaram pela mesma situação. Quando estava na 5ª Série do I Grau, numa tarde chuvosa, um colega e eu que sentávamos nas últimas carteiras, chegamos a tomar choque ao encostar, por acaso, o braço e as costas na parede.

 

Na inauguração da Praça da Vitória, minha prima Cássia e eu fomos uma das atrações. Havia até políticos no evento! Pois bem, ela e eu cantamos a música tema do seriado Nacional Kid. E… pasmem… em japonês da nossa cabeça e dos nossos ouvidos!!! Foi lindo! Todo mundo aplaudiu ao final. Não me lembro se fiquei emocionado, mas achei muito legal. Hoje, passados os anos, fico imaginando a vergonha que fiz meus pais sentirem.

 

Em junho, havia fogueiras e balões. Íamos em turmas passando pelas fogueiras das ruas vizinhas, e os meninos das ruas vizinhas passavam pela nossa. Todo mundo era bem recebido. Todo mundo comia e bebia. Eu, sempre meio lunático, já quase na hora de entrar para dormir, a fogueira esfriando, sentava-me em um tronco e ficava tempos olhando os balões coloridos navegarem sem rumo pelo céu afora misturando-se às estrelas. Sentia vontade de ser um deles…

 

Em três de junho de 1970 meu pai mandou alguém fazer um balão para soltar depois do jogo Brasil x Tchecoslováquia. Nessa época, ele era dono de um bar: Bar e Mercearia Bossa Nova – Secos e Molhados. Ao final da partida, fizeram uma faixa enorme com cartolina: Brasil 4 x Tchecoslovaquia 1. Quando o balão começou a subir, a faixa enganchou no fio de luz e… fogo!!! Adeus balão! Não subiu nem dez metros.

 

Uma vez andei de bonde, porém a imagem que guardo na tela de minhas retinas é quase esvaecida, muito tênue. Vejo-me sentado ao lado de minha mãe, que me segurava com força, bem apertado ao seu corpo. Lembro-me também de uma igreja (acho que a do Largo 13 de Maio, em Santo Amaro), um homem pulando antes de o bonde parar e muita gente em torno de nós. Só.

 

Também vivi a colocação do esgoto na atual Avenida Yervant Kissajikian, antiga Estrada do Zavuvus, seu asfaltamento e a colocação de luminárias. Na “inauguração das luzes” houve festa e uma espécie de desfile de escola de samba, só que formada pelos próprios moradores do lugar.

 

Hoje, quando passo pelas ruas da Vila Joaniza, tento encontrar o meu lugar do passado, e não encontro. Não encontro porque a mudança faz parte de tudo na vida. Tudo muda. Sinto uma enorme saudade, e isso é bom. Só sentimos saudade daquilo que nos deu prazer, daquilo que nos fez bem. Se os bandeirantes ainda estivessem vivos, com certeza sentiriam saudade do tempo em que saíam sem rumo para desbravar a nova terra. Sei que meu lugar do passado jamais retornará materialmente. Mas sei também que ele jamais deixará de existir dentro de mim.

 

Tadeu Gentil Gomes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A narração é de Mílton Jung e a sonorização de Cláudio Antonio. Participe deste quadro, enviando seu texto para milton@cbn.com.br

Pôr do sol no lixão

 

Por Devanir Amâncio
ONG Educa SP

Pôr do Sol no lixão no Grajau

Vale a pena ver o pôr do sol do lixão ao longo da rua Cláudio Artaria, Jardim Gaivotas, Parque Residencial Cocaia, região do Grajaú, extremo sul de São Paulo. Para chegar ao lixão do pôr do sol é só pegar o trem e descer na estação Grajaú e depois pegar o ônibus Jardim Gaivotas e descer no ponto final. Procure pela Vera Lúcia(foto), ela mora no bairro há 14 anos e conhece tudo sobre a vila. O Jardim Gaivotas, bairro com mais de 10 mil habitantes, às margens da Represa Billings, também é uma boa pedida para quem gosta de pescar […].

Dona Vera e os moradores suspeitam de uma empreiteira que prestava serviço para a Subprefeitura do Socorro na construção de uma praça comunitária e o asfaltamento da rua Cláudio Artária (um quilômetro). Têm quase que certeza que a empreiteira desapareceu com dinheiro andiantado pela Prefeitura. Segundo os moradores a rua consta como asfaltada na subprefeitura . Os moradores vão reclamar no Ministério Público. Trecho da rua não tem luz, o que leva os moradores apelarem para o uso de celulares e isqueiros para não caírem em poças d’água. É o que sempre faz Francisco das Chagas, que trabalha como porteiro na Vila Olímpia. Em noites de muito calor as crianças têm a rua sem asfalto como espaço de lazer .Francisco criticou a publicidade do Natal Iluminado da Prefeitura.

Lixão no Grajau

Vilma Rosa de Jesus, moradora próximo ao lixão, diz que há pelo menos seis anos a Prefeitura não faz a limpeza do local e desabafa: “Não aguento mais receber cartinha de vereador”. Ao ser informada da campanha “Adote um Vereador”, reagiu com humor: “Nem lembro mais o nome do homem, como vou adotá-lo? Ele ganhou e desapareceu, como a empreiteira . Só sei descrevê-lo.”

Jardim Ângela não é curral

 

Por Devanir Amâncio

Maria do Agameno

Maria do Carmo, de 62 anos, e seu marido João Lorenço, de 70 anos, do Jardim Nakamura, região do Jardim Ângela, zona sul, sugerem que os vereadores, o prefeito e o subprefeito do M’Boi Mirim subam de joelhos a rua Agamenon Pereira da Silva, rua interditada e abandonada pela Prefeitura de São Paulo. Dona Maria disse que está cansada de papo furado e que os moradores, injuriados, promentem escorraçar os oportunistas na eleição do ano que vem.

Maria do Agamenon

“Sempre são os mesmos, tratam o bairro como curral. Tem um que é cara de pau, chega como um cachorrinho. Dia desses foi vaiado no barrancão, do outro lado. Ninguém no bairro quer esmola, bloco, camiseta, bola… Pagamos impostos… Queremos uma solução para o nosso problema. Moramos aqui desde 1971. Muita gente paga IPTU. Há 8 anos eu pagava 180 , agora 1.440 reais… alguma coisa está errada.”

Dona Zulmira do Capão Redondo

 

Dona Zulmira do Capão


Por Devanir Amâncio
ONG EducaSP

Dona Zulmira dos Santos é um exemplo de vida. Simpaticíssima, de fala pausada e cheia de otimismo; baixa, de corpo franzino -, o seu semblante  é sereno e profundo, lembra a freira baiana, Irmã Dulce. Dona Zulmira tem 80 anos, coleta recicláveis e pensa no futuro. No domingo, 03/4, subia a ladeira  Modelar, no Capão Redondo, zona sul, onde mora, carregando na cabeça uma banheira plástica com quinze quilos de jornais e revistas  :

“Não é porque sou de idade que vou ficar o dia inteiro dentro de casa, criei  os meus oito filhos com muita garra. Trabalho todos os dias e sou feliz.  Vou ao ferro velho bem cedo, vender tudo. Com a banheira vai dar uns dois reais e cinquenta. Vou comprar meia dúzia de bananas e um pacote de bolacha.

Minha casinha é simples ,bem arrumadinha, vale uns quarenta mil . Penso em vendê -la e dividir o dinheiro com os filhos e netos, para não dar briga quando eu morrer.”

             
Dona Zulmira mostra com orgulho um quadro pequeno que acabara de encontrar no lixo : a imagem de um pescador  recolhendo a rede , sem nenhum peixe .
 
A mineira  de Teófilo Otoni , manda um recado :  ” O importante é não parar, não esmorecer.”
 

Paz no lixo

 

Por Devanir Amâncio

Mensagem no lixo

 
A mensagem de paz: ” Se todos derem as mãos … Quem sacará as armas ?”, grafitada numa parede,  na Rua Terra Portugalense, altura do número 22, no Jardim Irene , Zona Sul.

                                             

Dona Antônia do Grajaú, a dona do reciclado

 


Por Devanir Amâncio
ONG EducaSP e colaborador

A ex-gari Antônia Maria Felippe, “Dona Antônia do Grajaú “, mora no Jardim Lucélia, zona sul, nunca participou de encontros e fóruns internacionais sobre o Planeta Terra. Dona Antônia gosta do que faz e acredita no seu empreendimento. Ela sonha em ser empresária da natureza, fabrica em sua casa bolsas cadeiras e pufes de garrafas Pet:

 Gari faz trabalho com reciclado
 
– “Hoje só não ganha dinheiro quem não quer.”
 
– “Vendo um pufe e uma cadeira por 30 reais cada um, a bolsa  é 30 reais.”
 
– “Para fazer uma cadeira uso 60 garrafas Pet, um pufe  sete, e uma bolsa 20 garrafas.”
 
– “Vou escrever uma carta para  a Dolly voltar a  fabricar garrafa Pet  cor vinho.”
 
– “Qualquer dia vou levar as minhas coisas lá na Fiesp.”
 
– “Eu ainda vou dar de presente uma bolsa de garrafa Pet para a presidenta Dilma. Vai dar um ibope danado ela chegar para uma reunião com gente importante no exterior carregando uma bolsa de garrafa Pet.”
 
 
– “Se a Prefeitura quisesse resolveria  parte do problema dos moradores de rua com a reciclagem. Na Praça da Sé ficam uns homens ‘tudo fortão’ sem fazer nada um dia inteiro, à noite vão para o albergue, comem , bebem , dormem e no outro dia estão na rua outra vez .”
 
 
 – “Por que  a Prefeitura não  abre  uma fábrica de cadeiras de gafarrafas Pet e bota esse pessoal pra trabalhar, ganhar dinheiro? E a própria Prefeitura poderia comprar as cadeiras e pufes para escolas e creches.”
 
– “Já pensou o Prefeito Kassab sentado numa cadeira de garrafa Pet!?.. A cadeira parece um troninho.”
 
 A dona Antônia não para por aí. Está empenhada em abrir até o fim do ano uma loja de produtos  reciclados na garagem da casa dela no Jardim Lucélia.

Foto-ouvinte: Se tem lixo, tem ratos

 

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“Passo todos os dias pela Av. Almirante Delamare, em Heliópolis, zona sul de São Paulo, e sempre gostei desse grafite, onde se lê “Se tem lixo, tem ratos”. No dia em que o semáforo me deu a chance de tirar uma foto havia essa equipe da prefeitura tentando recolher a montanha de entulho e lixo permanentes no local. Pelo visto não deram conta, pois ainda tem muito lixo por lá. Nenhuma crítica ao trabalho deste pessoal, pois várias vezes eu vi pilhas de entulho serem recolhidas em um dia e reaparecerem logo depois” Texto e foto do ouvinte-internauta Victor Zamora