Mauro Castro: o taxista da Saldanha

A Saldanha Marinho tem algumas coisas estranhas. Já falei dela na crônica “É Hoje” (se tiver interesse vá até o arquivo aí ao lado), na qual descrevo minha caminhada ao estádio Olímpico. Mas nunca citei a história da sua banda, que hoje mudou de lugar mas mantém o nome da rua; das casas de umbanda que se avizinhavam da minha; ou da Nega Lu, pai-de-santo-gay, gente boa, de voz potente e verve afiada, já falecida. Virou purpurina diriam os amigos próximos. Guardo estas curiosidades para outros bate-papos do blog.

Hoje quero me ater a um personagem que ganhou destaque mais recentemente, na Saldanha: Mauro Castro. O conheci pessoalmente nestes dias de Porto Alegre. Seu trabalho, no entanto, já havia sido apresentado a mim através de meu irmão que tem em casa o livro “Taxitramas”, lançado pela Editora Sulina. Aliás, tinha. Pois foi parar na minha mala.

Quando liguei para o “Ponto da Saldanha” e chamei o táxi, torci para que fosse ele o motorista. A sincronicidade – coisa inventada pela família Jung – me ofereceu a chance de reconhecê-lo dentro do Fiat Mille cor laranja (como todos os táxis que circulam em Porto Alegre) que parou diante da minha casa. Mesmo com a imagem obscurecida por trás do pára-brisa o rosto marcado pelo bigode e barbicha e a cabeça liberada de cabelos me eram familiares. Já tinha visto Mauro Castro em foto reproduzida no livro escrito por ele há um ano.

“Já está na segunda edição”, falou com orgulho o autor das crônicas que começaram a ser escritas há quatro anos no jornal Diário Gaúcho. O convite partiu de um de seus passageiros, editor do jornal, que após ouvir seus casos sugeriu-lhe uma coluna, aceita de bom grado.

Lendo as demais crônicas descobre-se que no banco ao lado de Mauro Castro já andaram Luis Fernando Veríssimo e Moacyr Scliar. Sujeito de sorte este, não !

Mauro transferiu os textos do Diário para o blog Taxitramas (http://www.taxitramas.blogger.com.br/) que leva o simpático subtítulo: “Taxistas são terríveis: reparam em tudo. Alguns ainda escrevem na internet”. Lá, como no jornal, descreve situações do cotidiano, daquelas que muitos de nós podemos ter passado, mas que apenas os homens de boa visão são capazes de enxergá-las como histórias a serem contadas.

No pouco tempo da corrida, entre a Saldanha e a José de Alencar, onde fica o Hospital Mãe de Deus, tive oportunidade de tirar-lhe algumas informações. Soube, por exemplo, que o segundo livro vem aí; que nunca havia escrito nada antes do convite do jornal; que leu pouco até a provocação do jornalista; que gosta mesmo é de ler crônicas; que não se considera escritor, apesar de muita gente o reconhecer como tal; que as corridas não aumentaram após ter escrito o livro; que “esse negócio de escrever livro não dá dinheiro, dá prazer”; e que andar de táxi em Porto Alegre é muito barato.

Com pouco mais de R$ 5,00 conheci um personagem famoso da Saldanha, fiz uma entrevista, cheguei no meu destino e “ganhei” o direito de reproduzir uma das crônicas assinadas por Mauro Castro:

“O Panfleto Sobre o Painel”


A passageira pediu que eu a ajudasse a colocar sua mãe no carro, uma senhora idosa, que caminhava com dificuldade. Depois de algumas tentativas desastradas de levar a velhinha até o táxi, pedi licença e peguei-a no colo. Ela era miúda e não foi difícil. Acomodei-a no banco da frente, ajustei o cinto e fomos embora.

A mulher ia no banco de trás, falando pelos cotovelos, enquanto a velhinha, sua mãe, corcunda, com a cabeça projetada a frente, agarrada na alça da porta, ia ao meu lado, muda. Tudo transcorria bem, até que uma rajada de vento atingiu o painel do carro.

Os motoristas da noite costumam receber panfletos de casas noturnas – elas oferecem comissão aos taxistas que levam passageiros até seus estabelecimentos. Em geral, são casas de prostituição de luxo. Os papeluchos trazem fotos de belas mulheres com pouca roupa e nenhuma vergonha. Meu motorista da noite sempre tem alguns destes panfletos sobre o painel do táxi, para mostrar a clientes em busca de diversão.

Naquele dia eu tinha um livro do português António Lobo Antunes, sobre o painel. Além de excelente leitura, ele ajudava a ocultar os tais panfletos indiscretos. Isso até aquela lufada de vento trazer à tona um folheto com a foto de uma morena arrasa-quarteirão, nuazinha da Silva. O papel fez uma pirueta no ar e parou em pé, preso entre o livro e o painel, bem em frente à velhinha !

O susto foi tamanho que ela teve de segurar a dentadura, que já lhe escapava pelo queixo caído. Sua filha precisou socorrê-la com uma bombinha para a asma, enquanto eu sumia com o panfleto e me desmanchava em desculpas.

No fim da corrida, quem diz que ela me deixou pegá-la no colo ?

2 comentários sobre “Mauro Castro: o taxista da Saldanha

  1. Grande Milton, é um grande prazer te ler. Um grande abraço também para o Milton Pai, a quem reverencio como um dos maiores jornalistas-radialistas do pais, com quem tive o prazer de trabalhar por alguns meses na Rádio Guáiba, há muito, muito tempo.
    Abraços

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