Da dança à quadrilha

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Roupa entra e sai de moda. A cintura desce, a barra sobe, e a gente cresce nisso e se acostuma.
Dança também. Um andamento mais rápido ou mais lento, e com apenas sete notas, o mesmo tanto de pecados capitais, faz-se milagre na cadência. Junta daqui, espicha dali e haja imaginação para dar nome ao resultado, na música e no pecado.
A quadrilha, por exemplo, aquela da contradança, nasceu na Inglaterra, por volta do século XVIII, pra tirar sarro do povo e animar os grandes salões da nobreza. Posso apostar que a razão primeira era que, das janelas do palácio, a corte olhava e sentia uma pontinha de inveja dos folguedos populares. Como não podia simplesmente copiar, confessando que gostava, fingia que arremedava, quando na verdade se esbaldava. Foi glamurizada quando chegou à França e acabou desembarcando aqui, com os mesmos propósitos europeus, na bagagem da aristocracia e de não tão aristocráticos invasores. Uma vez instalada e aclimatada deu início à zombaria, só que o destino da quadrilha, que ironia, na falta da nobreza que não vingou aqui na terra onde (quase) tudo dá, foi descer a escadaria do palácio e cair no colo do próprio povo. Esse, sem saber, ria de si mesmo, mas acabou por condená-la a um único mês que nem trinta e um dias tem. A quadrilha brilhava, então, em festa junina, fazendo troça de roupa reformada, de botina velha e de chapéu de palha. Era bigode falso, vestido de noiva remendado, e padre de faz-de-conta.
Mas o tempo foi passando, a moda foi mudando, e a quadrilha, como era de esperar, cansou da roça. Sentiu saudade do cenário suntuoso e do requinte dos idos tempos e resolveu galgar de novo os degraus palacianos. Nobreza, como bem sabemos, já não havia, mas a quadrilha exigiu roupa de grife, perfume importado, peruca, botox e bigode bem cuidado. Zombeteira, vaidosa e gananciosa que é, decidiu alojar-se onde o discurso é bonito e onde se faz conta tão bem que só se erra quando convém. Já assimilara trejeitos tropicais, mas descartou milho cozido, pé de moleque e quentão e passou a caviar, vinho importado e camarão. Ditou moda e ficou. Soberana!
Hoje os nada nobres – apesar de excelências – que povoam palácios, não dançam mais. A quadrilha, seguindo a moda, mudou, e como o solo aqui é fértil, ramificou. Em nova formação ganhou tentáculos e deixou o ritmo pra lá.
Pena que da alegria da festa junina tenha sobrado tão pouco. Nela a dança rolava solta num tablado ao rés-do-chão e a gente assistia aplaudindo, comendo e bebendo quentão. Hoje é a quadrilha que se refestela. Mantém a tradição e ainda zomba do povo, só que agora, quem dança? Nós.
Hoje, haja imaginação pra dar nome ao resultado, na dança e no pecado. E a gente cresce nisso e se acostuma.
Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

Um comentário sobre “Da dança à quadrilha

  1. Genial!! Quem sabe não teremos de volta as “legítimas quadrilhas” de festa junina, aquelas que só nos traziam alegrias. As quadrilhas que somos obrigados a ver diariamente numa dança doida e acelerada, só nos faz dançar de modo duro e sofrível. Quem sabe um dia, as coisas serão melhores no reino chamado Brasil.

Deixe um comentário