De vida, morte, e seus odores

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Tudo vive e morre a cada instante, dentro e fora de nós. Em cada pulsar de cada partícula de vida, há um cíclico viver e morrer; um suceder infindável e arrítmico de vida e morte. Há que fluir com o seu fluir. Acontece que nós, os humanos, aprendemos quase nada sobre morte e sobre vida. Ficamos entalados em gargalos estreitos que retardam nosso processo de crescimento e evolução, fugindo das duas.

Contraditório, porque dizem que a Terra existe há aproximadamente quatro bilhões de anos e que nós, pobres mortais, estamos aqui há cerca de um bilhão apenas (!). E a história mostra que desde que chegamos ao planeta, não temos feito outra coisa a não ser lutarmos pela sobrevivência, ou seja, pela vida. Enfrentamos a voracidade de répteis, mamíferos, aves e anfíbios, para quê? Para continuar vivendo. Desde os parasitas, em todos os níveis de vida, às formas mais sofisticadas e empreendedoras, todos lutamos por ela. Anarquistas e seguidores da ordem, bactérias e abelhas, ignorantes e doutores, peixes e cães, ricos e pobres, moços e velhos, estamos todos de acordo num ponto, escolhemos viver. Excelente ponto de partida para qualquer empreitada, pois forma a base mais sólida possível. Somos unanimidade.

No nosso planeta dual, onde tudo tem seu complemento, o Ser é acompanhado pelo Não Ser, mas por alguma estripulia da nossa natureza humana, ele trocou de parceiro e passou a viver com o Ter. Então, em algum ponto do processo a receita desandou, o equilíbrio foi para o brejo e nós confundimos tudo. O Ter trancafiou o Ser, para poder tê-lo, assumiu o comando e tem ditado as regras. Não me entenda mal, o Ter é de tão boa cepa quanto o Ser, e juntos e equilibrados chegam muito perto do ideal, mas o ser humano optou por ter razão, dinheiro, poder, controle e prazer, a qualquer custo, mesmo à custa do ser justo, honrado, fiel, amoroso, amigo, irmão, solidário; ser feliz. E então, já não somos livres. O Ter trancou nossas portas e janelas uma vez que a violência cresceu livre dos limites do Ser, encontrando terreno fértil na obsessão e no fanatismo, dos dois lados do rio.

Eu que me considero mulher de vanguarda, moderna e corajosa, talvez seja, na realidade, apenas triste remanescente de dinossauros, ainda ligada a valores antigos. Mas se somos unanimidade em relação à vida, onde é que perdi o rumo, se é que perdi. Continuo acreditando que antes de nos tornarmos seres partidários, fechados em células oposicionistas por definição, precisamos nos religar à origem, diretamente e sem intermediários, e assumirmos de vez nossa condição humana. Só assim deixaremos de temer a morte e a vida.

O mundo tem se voltado para o transcendente porque é o rumo a seguir, mas grande parte é impulsionada por não suportar mais o cheiro de carniça do imanente. Que voltem os leques antigos da Europa sem banho. O cheiro da vida anda insuportável por aqui!

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

3 comentários sobre “De vida, morte, e seus odores

  1. Sem dúvida é um chamado à reflexão do momento em que vivemos e o porquê de nossa existência. O quanto precisamos de tudo que nos cerca e quanto teremos que ter para continuar vivendo. Até onde iremos? Nós temos um compromisso de viver e por isso seguimos.

  2. Cara Maria Lúcia,

    O cheiro de carniça pode ser bom… Só não é para a maior parte da Humanidade.

    Uma hiena ou mosca varejeira deve achá-lo agradável… Mesmo animais que consideramos predadores como leões preferem encontrar carniça farta a caçar.

    Desconfio que certos parasitas humanos também não descartem os cadáveres de outros seres humanos como parte de sua busca pelo TER…

    Ter mais petróleo, ter mais carros, ter mais sexo com mulheres de países subdesenvolvidos, ter mais tranqueiras chinesas baratas, ter mais…
    Tudo tem um custo e nem sempre é aparente…
    A China vai perceber logo que seus dólares virão caro…

    Boa Semana!

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