Trote: origem e destino

Por Carlos Magno Gibrail

Calouro , foto de Diogo MeloMais da metade dos adolescentes não reconhece limites, é o que registra recente pesquisa da PUC SP.

Bruno C. Ferreira a vítima do trote 2009 na Veterinária de Leme e seus algozes fazem parte de que metade? Como estarão analisando o trote contemporâneo e a legislação que está por vir os estudantes da Medicina Pinheiros, que há 10 anos assassinaram Edson Hsueh e foram absolvidos?

Elide Signorelli, psicanalista da UNICAMP tenta explicar o trote: “O jovem está num momento muito importante de sua vida, em que finaliza um ciclo e fecha as portas para a infância e adolescência. Sem dúvida é uma ferida na ilusão de perpetuar, por mais tempo, uma condição infantil. Por isso, penso que os veteranos, feridos em seu narcisismo, esperam, ao receber os calouros, a oportunidade de serem os agentes dessa “notícia”.”

Para o psicólogo Antonio Zunin, da Universidade Federal de São Carlos e autor do livro O Trote na Universidade : “O trote está inserido numa relação de soberba intelectual com práticas de integração sadomasoquista”. A palavra tomada do passo do cavalo representa a ação de domar o animal entre a marcha lenta  e o  galope e para tanto há que usar o domínio através de comandos e chicotadas.

O Prof. Oriowaldo Queda da ESALQ pesquisou entre seus alunos durante longo tempo através de eficiente expediente. Dava um ponto a mais na sua matéria se o aluno se dispusesse a descrever 3 trotes violentos e 3 brincadeiras . Junto com o professor Antonio Almeida analisaram as respostas que originou em livro do qual destacam que efetivamente o trote é uma tradição de barbárie, quer dizer , nas suas origens é um instrumento extremamente discriminador entre as pessoas. Ao contrário do que alguns pregam. É uma violência que ocorre principalmente nas áreas que originaram a Universidade no Brasil, Direito, Medicina e Engenharia e que fornecem a maior parte da “elite brasileira”.Conservadora e monopolista.

O Prof. Almeida acentua “O que é um elemento curioso e que faz parte das nossas explicações hoje sobre o trote, é que este ocorre dentro da universidade, diante de toda a intelectualidade brasileira. Então o sujeito é pesquisador antropólogo, pesquisa índios e outras situações, e jamais fez uma investigação sobre o trote”.

A partir daí conclui que esta falta de pesquisa comprova que a Universidade quer o trote, para formar uma falange conservadora que apóie politicamente dirigentes tradicionalistas. Como professor da USP não pode criticá-la nem a Unicamp, nem tampouco fazer pesquisa sobre trote.

Se ainda restar alguma dúvida que trote é barra pesada, Glauco Matoso, autor de ampla pesquisa sobre trote, alerta que a ditadura recrutou torturadores nas hostes militares e nos trotistas universitários.

Diante das barbáries modernas fomos ao passado e encontramos as origens nos ritos de passagem das sociedades orais que antecederam a escrita.

Nos bons tempos gregos Platão faz referências ao trote entre os alunos que entram para a academia. Mas o primeiro trote universitário documentado foi em Paris no ano de 1342. Era uma operação “social” e “profilática” propondo-se a receber a maioria que vinha da zona rural introduzindo-a aos ritos universitários. Raspava-se o cabelo, queimava-se a vestimenta e mantinha o calouro no vestíbulo, daí o vestibulando. Na Alemanha em 1491 documentos descrevem rostos esfolados e refeições regadas a vinho com urina e temperos de fezes de animais. Inglaterra e Espanha também tinham suas especialidades, naquela ficava-se discursando, afinal o vernáculo é de Shakespeare, totalmente nu e em cima de uma mesa enquanto nesta era tortura direta.

No Brasil, logo que chegou vindo de Coimbra pela via do Direito, Francisco C. Menezes foi morto por Joaquim S. de Carvalho em Recife no ano de 1831.

Hoje passados dois séculos, estamos em pé de igualdade, pois neste mês efetivamos o 10º aniversário da morte de Hsueh da Medicina Pinheiros além de presenciar em Leme estudantes serem atirados ao chão e empanados em fezes.

A única diferença é que ainda em fevereiro 2009 a Câmara aprovou a criminalização do trote. Um avanço, pois nos desenvolvidos os ritos de passagem continuam.

Que seja em boa hora.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e toda quarta escreve aqui no blog. Já foi “bixo” e veterano, sobre participação em trotes nada consta.

Imagem: Diogo Melo

13 comentários sobre “Trote: origem e destino

  1. Damos ênfase a violência dos jovens de periferia do Brasil. Mas como podemos constatar, a suposta “elite”, não perde a oportunidade de exercitar seus “requintes” de crueldade. Ou seja, violência, intolerância, ignorância e o sentimento de superioridade de um grupo pelo outro, está contida em todas as camadas. Leis rígidas para todos!

    abraços

  2. Desculpe Milton, sou médico ortopedista e hoje Chefe de Serviço de um grande hospital de trauma de São Paulo. Minha formação acadêmicia foi na Universidade Federal de Sergipe há quase 15(quinze) anos atrás. Não ouço falar em trotes violentos em meu estado.Raspamos a cabeça apenas e isto era um orgulho, pois mandávamos uma mensagem…Lá percebo, ainda existe muito respeito entre pais e filhos ( “bença mãe…bença pai…” ) com horas de chegar e sair. Regras.Filhos, ao meu ver continuam escutando “não” dos país e ou responsáveis. Longe de mim afirmar que a craição dos meus filhos é perfeita, mas precisamos hoje reconhecer que a base de estrutura de uma sociedade justa são nossos valores familiares . Acho que a resposta pra violência DE ALGUNS LOCAIS ESPECÍFICOS no Brasil está dentro de casa.

  3. Beto, acredito que o Brasil não é mais o país do futuro, é do presente. Previsões vindas do exterior estão apontando para o país que menos sofrerá na AL e o que mais rápido sairá da crise.
    Na parte social e como nação temos que caminhar. Entretanto exemplos como o do cinto de segurança, do controle do álcool são positivos.
    Espero que a criminalização do trote tenha o mesmo destino e que acabemos de vez com este ritual originário da antiguidade.

    Abraço

    Carlos Magno Gibrail

  4. Carlos, sou um torcedor ardente para que todas as leis que melhorem nossas vidas, tenham o sucesso do cinto de segurança. A do alcool e direção, teremos que torcer muito, pois, ja se discute o afrouxamento da fiscalização.

  5. Ao médico Carlos Andrade, concordo totalmente com sua opinião.
    A imagem do pai do estudante de Leme mostrada no jornal da Globo, aos prantos é , além de emocionante bastante elucidativa. É a familia vertendo a sua tristeza e indignação.

    Abraço

    Carlos Magno Gibrail

  6. Carlos Magno … lei temos muitas … mas concordo com a criminalização de “bandidos” e não do trote “per si”.Temos lei pra isto, lei pra aquilo … mas veja um exemplo que você citou: a ‘Lei Seca”, que num primeiro momento, reduziu drasticamente o trauma violento dentro dos hospitais, mas agora sugiro uma nova rodada de pesquisas na porta dos grandes centros de trauma de SP: o número voltou a subir. O número de casos graves por trauma/álcool cresceu novamente. Sem fugir do tema: volto a afirmar o PROBLEMA da violência está em casa e na educação e bom relacionamento entre pais e filhos. Ah, claro,e na PUNIÇÃO EXEMPLAR do erro.

  7. Falta responsabilidade e trabalho!!! Entrei na faculdade há 15 anos e já naquela época resolvi não ir à Faculdade na primeira semana “de aula”, pois eu já trabalhava, ganhava por trabalho feito e por isso decidi ganhar dinheiro ao invés de pedir esmola pintado nos faróis para regar os veteranos de cerveja…

  8. Armando , você está corroborando com o ouvinte internauta Carlos Andrade, que enfatiza o exemplo familiar.
    Concordamos todos.
    Entretanto é bom lembrar que é condição necessária e não suficiente e vice versa.
    De acordo com a pesquisa do Freakeconomics pode haver desencontros, o que na realidade é positivo, pois se naõ fosse os de familias desajustadas estariam fadados ao insucesso.
    De qualquer forma vale sempre enaltecer o facilitador que é uma boa familia.
    Quanto aos limites, voce tem razão. Vale a pena ler a pesquisa da PUC SP, publicada no Estado de segunda feira

    Abraço

    Carlos Magno

  9. Então Armando, voltamos naquele tema do FREAKONOMICS que lembra a importância das relações com amigos.
    Além de educar em casa você precisa controlar as amizades, que segundo a pesquisa é mais importante que o ensinamento dentro de casa.
    Na minha opinião fico com os dois, isto é, educação e exemplo em casa de observação e orientação a respeito das amizades e companhias.

    Abraço

    Carlos Magno

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