O remédio que cura, mata

Por Carlos Magno Gibrail

Imagem do álbum de Daniel Lobo, no Flickr

Brasil 3D  –  radicaliza na questão do trabalho do menor de idade, contemporiza na destruição da floresta amazônica e fecha os olhos para o crescente descontrole do dinheiro público.

Nesta fotografia ética, destacamos a exploração do menor, controlada pela justiça do trabalho.  Suas baterias estão dirigidas às quadras de tênis.

A partir de 2005 a legislação regulamentou a atividade do menor com 14 a 16 anos dentro do projeto Aprendiz.

Os Clubes bem estabelecidos em boa parte aderiram, outros eliminaram a função do pegador de bola e os demais estão sendo avisados que serão punidos.

O tênis até então incluía o pegador de bola, o rebatedor-assistente do professor, e o professor. Todos invariável- mente vinham das camadas menos favorecidas e imediatamente iniciavam um processo de inclusão social, a partir de 7 anos em diante.

Foi assim que surgiu uma série de tenistas profissionais como Givaldo Barboza 32º ATP, Júlio Goes 68º ATP, João Soares 72º ATP.  João ainda treinou Flávio Saretta 62º ATP e Ricardo Mello 50º ATP.  Isto para não citar McEnroe, de pegador de bola a 1º ATP e ícone do tênis mundial.

A nova regulamentação originou  séries e sérias iniciativas de inclusão. Entretanto, ao mesmo tempo impediu a manutenção do modelo anterior, menos burocratizado e mais natural. Além de proibir o acesso antes dos 14 anos, o que faz muita diferença.

Independentemente da existência de infindáveis propostas para evitar o “gap” entre 7 e 14 anos, como a do ex  pegador Clovis Silva com Kirmayr, precisamos de uma regra especifica para o tênis, antes que o drama atual se intensifique.
Temos que evitar episódios como o do Secretário Municipal do Trabalho de SP, Prof. Marcos Cintra:

“VIVI RECENTEMENTE uma triste e pungente experiência. Observando as fotos das arruaças ocorridas em Paraisópolis, quando jovens moradores daquela favela depredavam propriedades e agrediam inocentes transeuntes em combate campal com a Polícia Militar paulista, identifiquei alguns jovens que eu havia conhecido algum tempo antes em circunstâncias totalmente diversas.
Lembrei-me deles sem as feições embrutecidas que exibiam durante as arruaças, mas como saudáveis meninos pegadores de bola em uma academia de tênis. Eram jovens com idade aproximada entre nove e 12 anos que, após o período escolar matutino, ganhavam alguns trocados participando como auxiliares de partidas de tênis.
Nos períodos de ociosidade das quadras alugadas, brincavam alegremente entre eles, praticando o esporte e tomando gosto pela prática salutar da cultura física.
Não ganhavam salário, não tinham horário fixo nem obrigações a serem observadas. Apenas passavam seu tempo pegando bola e ganhando em troca alguns reais para suas pequenas despesas.
No passado, esse costume induziu vários desses jovens pegadores de bola a se tornarem profissionais em suas respectivas modalidades esportivas. Outros acabaram cursando faculdades de educação física. Outros ainda se profissionalizaram como treinadores. E tudo como resultado dessa convivência lúdica com o esporte e com o aprendizado de uma técnica ou de uma profissão.
Chamava-me a atenção que o dono da academia exigia desses meninos que mostrassem seus boletins escolares e dava-lhes uma dura, chegando até mesmo a impedir que frequentassem a academia enquanto não demonstrassem que suas notas eram adequadas.
Um dia, as autoridades baixaram no recinto e proibiram, sob alegação de trabalho infantil, que esses jovens continuassem naquelas condições”.

Tudo indica que a sorte da criançada do Brasil ,que vive nos arredores das quadras de tênis deverá mudar.

Ontem, 11 dias após este artigo na Folha, indaguei ao Secretário se já tinha feito algo a respeito.

Imediatamente relatou que além de reunir vários segmentos e grupos organizados pertinentes ao tema, está trabalhando em 3 alternativas: PEC, TAC e Aprendiz. Ou seja, emenda da constituição, termo de ajuste de conduta e adaptação ao projeto Aprendiz são ações efetivas e já compromissadas pelo Prof. Cintra.

Que solicita apoio nosso, ao que prontamente atendemos. Convidamos a todos, que façam o mesmo em nome dos futuros tenistas, professores e empresários do tênis, vindos desta maravilhosa trilha da ascensão social.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda, escreve às quartas no Blog do Milton Jung e, dizem, é mestre com a raquete de tênis em punho.

Veja mais fotos de autoria de Daniel Lobos no Álbum do Flickr

14 comentários sobre “O remédio que cura, mata

  1. Essa situação realmente tem que mudar pois quem observa as quadras de tênis percebe que este esporte, apesar de tido como de elite, realmente proporciona uma importante inserção social. A grande maioria de professores/rebatedores hoje foram pegadores ontem.

  2. André,quem frequenta as quadras de tenis sabe que a inserção social é absolutamente natural.
    A criança começa a ter contato com pessoas diferentes do meio ambiente que estava acostumada, inicia uma atividade profissional e esportiva de forma até ludica como o Secretário Marcos Cintra se referiu.
    Quem vivencia as quadras sabe disso. O problema são pessoas que não tem familiaridade com este ambiente.
    Eu já presenciei uma Procuradora do Estado fazer pressão total em uma academia de tenis no Morumbi onde visivelmente os pegadores estavam bem instalados e tinham toda assistencia possivel.
    Parece que agora estamos proximo do encaminhamento correto da solução dada a atenção do Prof. Marcos Cintra

    Abraço

    Carlos Magno

  3. Pedro, acredito que um bom encaminhamento será através do TAC, conforme uma das 3 hipóteses que o Secretário do Trabalho está executando.
    Ou seja, o caso dos pegadores de bola precisa ser considerado pontualmente.

    Abraço

    Carlos Magno

  4. Se existe um local onde as crianças podem desenvolver os seus potenciais de forma plena, saudável é no meio esportivo, clubes, agremiações.
    Fui pegador de bolinhas de tenis no clube Pinheiros e sei quanto foi bom para mim.
    Nem por isso deixei de estudar ate me formar e trabalhar desde os dez anos de idade por necessidade.

  5. Parabenizo Carlos Magno pela questão em pauta, e torço por soluções que incluam e não o contrário as crianças, que são protagonistas da história no Brasil.
    Espero por soluções eficazes de todos os envolvidos.
    Abç
    Clóvis Silva

  6. Beto, as pessoas as vezes se incomodam de vê-las pegando bolas de tenis e não imaginam que em vez disso poderiam estar vagando nas ruas sem nada para fazer. É bem provável que as imaginam em casas confortáveis lidando com pais educados.

    Abraço

    Carlos Magno

  7. Armando Italo, acho que precisamos esclarecer que não há contra indicação ao projeto Aprendiz, mas pretendemos que as crianças menores de 14 e maiores de 16 possam também participar de atividades nas quadras de tênis.

    Abraço

    Carlos Magno

  8. Vejo como avanço a regulamentação do ofício de pegador de bolas, uma vez que agora todos os que oficialmente forem selecionados para tal estarão inseridos na Lei da Aprendizagem. Os clubes que visitei recentemente como o Paulistano, Pinheiros e Harmonia tem uma gama enorme desses aprendizes de 14 a 16 anos, todos uniformizados, com horários a cumprir, carteiras de trabalho assinadas, direito a férias e 13º salário garantidos por lei. Seguramente um passo rumo a um futuro melhor, seja através desse ofício ou de outras opções que sairão desse meio social.
    Quanto aos menores de 14 anos, temos que pensar a melhor forma para que vivam uma infância digna, com educação, saúde, prazer e lazer. A inserção dessas crianças no meio esportivo pode se dar de outras formas que não a do trabalho remunerado. Pelo menos em São Paulo a Secretaria de Esportes Lazer e Recreação do Município, tem programas gratuitos com muitas opções de esportes, espalhados em diversas unidades (Programa Clube Escola), ainda com muita disponibilidade de vagas.
    O crescimento do terceiro setor vem oferecendo inúmeras oportunidades de inserção através do esporte seja através de núcleos esportivos em comunidades carentes, parques ou de outras iniciativas do gênero. Quanto às Academias de Tênis, com o intuito de inclusão , poderiam oferecer em horários ociosos, programas de aulas gratuitas para as crianças menores, porém como ato de responsabilidade social e não em troca de serviços remunerados. Dessa forma, além do ato cidadão, estariam dando a sua contribuição para a continuidade dessa cadeia formativa de atletas.

  9. Patricia Medrado, primeiramente é sempre preciso registrar a importancia de seu ponto de vista, dado que vem junto uma bagagem rara de vivência nas quadras de tênis.Tanto como esportista de alta performance – Primeira do ranking nacional anos a fio e rankeada na WTP em posição que há tempos o Brasil não tem alcançado – como empreendedora no setor do tenis em prática esportiva recreativa e de formação de tenistas.
    O projeto Aprendiz tenho acompanhado no Paineiras do Morumbi, entretanto vejo a lacuna dos anos que o antecedem.
    Além disso tenho presenciado ações de controle em outras Academias que tem posto para fora crianças que estavam bem tratadas e felizes.

    O assunto é importante e acredito que realmente merece análise técnica e profunda.
    Aposto em normas especificas para este setor.

    Agradeço sua participação

    Abraço

    Carlos Magno

  10. Carlos Magno você tocou no fundo da ferida.
    Virou moda nesse país destruir boas idéias em detrimento do politicamente ou juridicamente correto.

    Eu resumo na frase “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”. Custa analisar cada situação?
    É muito fácil autoridades chegarem na Academia de Tênis e acusar a mesma de incentivar trabalho infantil.

    Eu quero ver chegar lá e propôr coisa concreta e melhor.
    Moro em frente de uma Academia de Tênis e via sempre um garoto jogando bola com uma raquete surrada na parede da escola em frente.

    Achava aquela cena estranha. Ele me parecia pobre e sem condições de frequentá-la, más me intrigava aquele jovem não ser convidado para nos intervalos das aulas ser chamado para brincar lá dentro.

    Conheci o dono da Academia e perguntei a ele sobre o garoto e advinha o que ele me respondeu?

    Hoje vejo esse garoto para lá e para cá na rua.
    “Pobre”, menino! Deve estar esperando as autoridades competentes do meu país usarem o cérebro que não tem.

  11. Claudio Vieira, além de acompanhar no Paineiras há tempos o desaparecimento dos pegadores de bola, pois hoje o pessoal do projeto Aprendiz preenche apenas parte da demanda para a função, tenho observado que professores de tenis estão trabalhando sem pegadores. Ainda, tenho informação que várias Academias estão sendo avisadas previamente para não descumprirem a lei.
    É hora de tratar especificamente o tenis na relação pegador de bola e a lei.

    Abraço

    Carlos Magno

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