“Não há o que esconder”, diz Secovi sobre doação eleitoral

Uma semana após o jornal Folha de São Paulo ter publicado que o Secovi estaria usando uma associação para doar dinheiro aos candidatos a prefeito e vereador na eleição municipal do ano passado, o presidente do sindicado, João Crestana, divulgou nota para negar a existência de irregularidades:

O Secovi-SP (Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo), cumprindo de maneira plena a legislação que coíbe o financiamento de campanhas eleitorais por instituições de classe de sua natureza jurídica, não fez doação alguma a partidos ou candidatos nas eleições de 2008 ou em quaisquer outras. Tampouco, intermediou ou repassou recursos para que doações fossem feitas de maneira indireta. Burlar normas vigentes não é vocação da entidade, que sempre se pautou pela mais absoluta transparência, respeito ao arcabouço legal e parâmetros éticos na legítima defesa da habitação.

Desse modo, é improcedente a ilação, contida em noticiário da Folha de S. Paulo veiculado ao longo desta semana, de que o Secovi-SP teria usado a Associação Imobiliária Brasileira (AIB) para doar dinheiro a políticos e partidos. A série de matérias, com todo o respeito que merece esse grande jornal brasileiro, não corresponde à verdade.

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É proibido ter família

A criança e o velho

Em 40 e poucas páginas, o juiz Fernando Antônio Lima justifica a decretação do “toque de recolher” para crianças e adolescentes na cidade de Ilha Solteira, desconhecida de boa parte dos brasileiros, que ganhou direito a citação em rede nacional de televisão – jornal, rádio e internet, também. A intenção dele é “proteger o cidadão que está com seu intelecto e moral em desenvolvimento”.

O país está cheio de gente bem intencionada como o magistrado. Preocupada com a educação dos jovens e a falta de limites. Interessada em oferecer mais segurança as crianças. Leis não faltam neste sentido. O Estatuto da Criança e do Adolescente é peça primordial desta rede de proteção.

Em nome desta defesa, lá no noroeste do estado de São Paulo, quem tem até 14 anos só fica na rua, desacompanhado, até às oito e meia da noite; adolescentes entre 14 e 16 anos de idade voltam para a casa até às dez da noite. E meninos e meninas de 16 a 18 anos podem “brincar” até às 11 da noite.

Assim que o tema foi ao ar no CBN SP, dezenas de ouvintes-internautas se posicionaram em relação a medida que está em vigor em Fernandópolis e Itapura, além de Ilha Solteira. Maioria assustadora defende a intervenção do Estado na educação dos filhos, não confia na competência dos pais e no poder da família. Há quem veja na regra uma forma de se defender dos jovens e não defendê-los.

Aguarda-se decreto judicial que coiba a violência doméstica contra crianças, esta sim uma das formas mais cruéis de violência que parte dos próprios pais, escondida da sociedade, dentro de casa. O serviço Disque-100, que recebe denúncias anônimas, registra mais de 67% de ligações feitas devido a agressão física e moral contra meninos e meninas.

Sugiro que se proíba a instituição da família para “proteger o cidadão que está com seu intelecto e moral em desenvolvimento”.

Jaime Lerner põe em dúvida investimento em metrô

Cheguei ao texto do ex-prefeito e ex-governador Jaime Lerner por indicação do ouvinte-internauta Hilton. Faz abordagem interessante sobre a defesa insistente de que devemos investir todas as fichas no metrô como opção para o transporte público. Curitiba, onde a experiência de Lerner foi forjada, é exemplo mundial em transporte público sem uma linha sequer de metrô. Vale a leitura, pois o urbanista traz argumentos importantes para nossa reflexão. O maior impecilho à proposta de Lerner, porém, é a falta de coragem de se tirar espaço dos automóveis nos centros urbanos:

Um dos grandes equívocos na discussão dos problemas das cidades no mundo inteiro é a polarização entre a opção pelo carro ou pelo metrô no enfrentamento dos desafios da mobilidade urbana.

Com o crescimento do número de carros nas ruas, alimenta-se o imaginário popular com a ideia de que a solução seria a ampliação da infraestrutura viária, como viadutos e vias expressas, e o consequente aumento de grandes estacionamentos – subterrâneos ou não, e a adoção de toda a parafernália que acompanha a opção pelo automóvel com as metodologias de engenharia de trânsito.

Para contrabalançar isso, vende-se a ideia de que só o metrô poderia resolver essa confusão fenomenal. E aí aparecem os ‘vendedores’ de sistemas enterrados a abastecer a mente dos prefeitos com essa solução.

Leia mais em Terra Magazine

O remédio que cura, mata

Por Carlos Magno Gibrail

Imagem do álbum de Daniel Lobo, no Flickr

Brasil 3D  –  radicaliza na questão do trabalho do menor de idade, contemporiza na destruição da floresta amazônica e fecha os olhos para o crescente descontrole do dinheiro público.

Nesta fotografia ética, destacamos a exploração do menor, controlada pela justiça do trabalho.  Suas baterias estão dirigidas às quadras de tênis.

A partir de 2005 a legislação regulamentou a atividade do menor com 14 a 16 anos dentro do projeto Aprendiz.

Os Clubes bem estabelecidos em boa parte aderiram, outros eliminaram a função do pegador de bola e os demais estão sendo avisados que serão punidos.

O tênis até então incluía o pegador de bola, o rebatedor-assistente do professor, e o professor. Todos invariável- mente vinham das camadas menos favorecidas e imediatamente iniciavam um processo de inclusão social, a partir de 7 anos em diante.

Foi assim que surgiu uma série de tenistas profissionais como Givaldo Barboza 32º ATP, Júlio Goes 68º ATP, João Soares 72º ATP.  João ainda treinou Flávio Saretta 62º ATP e Ricardo Mello 50º ATP.  Isto para não citar McEnroe, de pegador de bola a 1º ATP e ícone do tênis mundial.

A nova regulamentação originou  séries e sérias iniciativas de inclusão. Entretanto, ao mesmo tempo impediu a manutenção do modelo anterior, menos burocratizado e mais natural. Além de proibir o acesso antes dos 14 anos, o que faz muita diferença.

Independentemente da existência de infindáveis propostas para evitar o “gap” entre 7 e 14 anos, como a do ex  pegador Clovis Silva com Kirmayr, precisamos de uma regra especifica para o tênis, antes que o drama atual se intensifique.
Temos que evitar episódios como o do Secretário Municipal do Trabalho de SP, Prof. Marcos Cintra:

“VIVI RECENTEMENTE uma triste e pungente experiência. Observando as fotos das arruaças ocorridas em Paraisópolis, quando jovens moradores daquela favela depredavam propriedades e agrediam inocentes transeuntes em combate campal com a Polícia Militar paulista, identifiquei alguns jovens que eu havia conhecido algum tempo antes em circunstâncias totalmente diversas.
Lembrei-me deles sem as feições embrutecidas que exibiam durante as arruaças, mas como saudáveis meninos pegadores de bola em uma academia de tênis. Eram jovens com idade aproximada entre nove e 12 anos que, após o período escolar matutino, ganhavam alguns trocados participando como auxiliares de partidas de tênis.
Nos períodos de ociosidade das quadras alugadas, brincavam alegremente entre eles, praticando o esporte e tomando gosto pela prática salutar da cultura física.
Não ganhavam salário, não tinham horário fixo nem obrigações a serem observadas. Apenas passavam seu tempo pegando bola e ganhando em troca alguns reais para suas pequenas despesas.
No passado, esse costume induziu vários desses jovens pegadores de bola a se tornarem profissionais em suas respectivas modalidades esportivas. Outros acabaram cursando faculdades de educação física. Outros ainda se profissionalizaram como treinadores. E tudo como resultado dessa convivência lúdica com o esporte e com o aprendizado de uma técnica ou de uma profissão.
Chamava-me a atenção que o dono da academia exigia desses meninos que mostrassem seus boletins escolares e dava-lhes uma dura, chegando até mesmo a impedir que frequentassem a academia enquanto não demonstrassem que suas notas eram adequadas.
Um dia, as autoridades baixaram no recinto e proibiram, sob alegação de trabalho infantil, que esses jovens continuassem naquelas condições”.

Tudo indica que a sorte da criançada do Brasil ,que vive nos arredores das quadras de tênis deverá mudar.

Ontem, 11 dias após este artigo na Folha, indaguei ao Secretário se já tinha feito algo a respeito.

Imediatamente relatou que além de reunir vários segmentos e grupos organizados pertinentes ao tema, está trabalhando em 3 alternativas: PEC, TAC e Aprendiz. Ou seja, emenda da constituição, termo de ajuste de conduta e adaptação ao projeto Aprendiz são ações efetivas e já compromissadas pelo Prof. Cintra.

Que solicita apoio nosso, ao que prontamente atendemos. Convidamos a todos, que façam o mesmo em nome dos futuros tenistas, professores e empresários do tênis, vindos desta maravilhosa trilha da ascensão social.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda, escreve às quartas no Blog do Milton Jung e, dizem, é mestre com a raquete de tênis em punho.

Veja mais fotos de autoria de Daniel Lobos no Álbum do Flickr

Avalanche Tricolor: Paciência e caráter

Paulo Autuori, futuro técnico do GrêmioForam duas semanas das mais perigosas para o Grêmio. Nem tanto pelos adversários em campo, superados um após o outro, a ponto de estarmos hoje com uma das melhores campanhas do futebol sul-americano. Mas corremos sérios riscos. E não digo isso devido a ausência do técnico, não. Rospide se comportou bem para a função de interino. Seu rosto tímido ao lado do gramado estava a altura do seu papel.
Os nomes que surgiram na mídia para substituir Celso Roth é que não ofereciam segurança nenhuma. Diga-se a bem da verdade que dos diretores do Grêmio, os que decidem mesmo, jamais ouvi que pretendiam contratar este ou aquele treinador – exceção a Paulo Autuori, por quem iremos esperar mais 30 dias . Mesmo os pedidos insistentes por Renato Gaúcho, inclusive com aval de Fábio Koff, foram elegantemente negados. Desde o fim de semana, leio também que Vanderlei Luxemburgo estava cotado. Ninguém confirmou. Mas confesso que temi o pior.

A cobrança por uma decisão rápida, apressada, no afogadilho, conspirava contra o Grêmio, após o erro na forma e momento com que Celso Roth foi afastado. Para atender a pressão, Duda Kroeff e companheiros poderiam falhar como nossos atacantes o fizeram nas primeiras partidas da Libertadores ou os homens do meio de campo ao não serem precisos no passe ou nossos defensores quando dão o bote errado para desarmar o adversário.

Paciência é um mérito. Não sei se foi esta a virtude exercitada pelo presidente do Grêmio no evento da contratação de Paulo Autuori.  Um contratação acertada, mesmo com a presença apenas após as oitavas-de-finais da Libertadores e a estreia do Campeonato Brasileiro. Melhor a espera do que o erro da precipitação.

Seja o que tenha sido, o destino nos ajudou, afastou os perigos e vai colocar no comando da equipe gremista alguém que conquistou duas Libertadores e o respeito de clubes no mundo inteiro. Alguém a altura do Grêmio, pelo conhecimento e pelo caráter. Por que para mim, caráter é fundamental.

Conte Sua Historia: O Rolex do meu pai

Iamgem de Alexander Kruel, no Flickr

O tic-tac do relógio se confundia com as batidas do coração daquele homem, na imaginação de sua mulher. O filho deste casal Rubens Soderi decidiu contar para nós como esta história terminou.  Acompanhe mais um capítulo do Conte Sua História de São Paulo que vai ar, aos sábados, às 10 e meia, no CBN SP:

Ouça “O rolex do meu pai”

Participe enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahitoria@cbn.com.br.  E leia mais no livro “Conte Sua História de São Paulo” editado pela Globo.

Veja mais fotos como essa no Álbum de Alexander Kruel, no Flick

‘As estradas nasceram sob meus pés e minhas rodas’

Por Adamo Bazani

José e esposa na Talismã

O jeito firme, forjado pela vida, típico de quem teve de trabalhar desde a juventude, se mistura ao romantismo e saudade do passado na figura do empresário José Pereira, de 65 anos. Tem orgulho em dizer que sua família, há várias gerações, dedicou-se ao setor de transportes. No começo, de carga, para mais adiante transportar passageiros.

A versão “transportista de passageiros” da família começou com José Pereira, praticamente por acaso.

Filho e neto de caminhoneiro, de Tupã, interior paulista, a infância de José Pereira foi marcada pelo ronco possante de caminhões e o cheiro do diesel e gasolina. Sim, há 40 anos, alguns caminhões e ônibus eram movidos a gasolina, algo, impensável hoje em dia devido ao enorme consumo de combustível desses motores.

O pai de José, Américo Pereira, trabalhava na estrada de ferro Santos – Jundiaí, até então operada pela São Paulo Railway, empresa de capital inglês, até virar estatal, nos anos 40. Transportava madeira de qualidade para a confecção dos dormentes (apoios de madeira) dos trilhos da ferrovia que foi responsável pelo desenvolvimento da indústria do café, a qual por muitos anos foi a principal ligação de passageiros entre   o litoral e a capital paulista.

O velho e experiente caminhoneiro, a cada dia se apaixonava pela região de Paranapiacaba, considerada patrimônio histórico da humanidade, e a pequena cidade de Rio Grande da Serra. Em 1954, a família se mudou para lá, onde José Pereira tem com os filhos três empresas de ônibus. Mudança apenas de endereço, pois o ramo era o mesmo: o transporte.

“Nosso início, em São Paulo, foi muito difícil. Meu pai e meu irmão mais velho, Oswaldo, com o caminhão, foram um dos construtores de vários bairros em Praia Grande. Na época, entre anos 50 e 60, o litoral começou a se desenvolver muito, então foi uma oportunidade de negócios. Eles carregavam areia de cima pra baixo, a semana toda. Só voltavam para casa sextas à noite. Segundo de madrugadinha, já iam pro litoral”.

Na época, José Pereira tinha 12 anos. Mesmo com todo o trabalho, o dinheiro não era suficiente. Boa parte de Rio Grande da Serra é de Mata Atlântica, com áreas preservadas, atualmente. Mas na época, todos podiam caminhar pela mata sem medo de se perder ou cair em alguma cilada de assaltantes que roubam turistas em trilha. Então, o garoto José Pereira, retirava flores nativas, arrumava em xaxins e vendia na beira das estradas.

A paixão pelo volante, porém, já falava mais alto.

Mais velho, José conseguiu emprego na, hoje, extinta São José Turismo, em Santo André. “Eu já era acostumado ao volante de veículos de grande porte. Fiz o teste facilmente, mas transportar gente, em vez de carga, me fez sentir especial. Afinal, eram vidas, semelhantes, almas. E todo ônibus, pode ter certeza, tem um coração, pronto para abrigar pessoas que nem sempre gostam dele, mas que precisam dele”.

No fim dos anos 60, José já tinha dirigido os ônibus de alumínio da Viação Pérola da Serra, que não existe mais, da Viação Ribeirão Pires, chamada pelos passageiros de VIRIPISA, devido as iniciais, e Alvorada, também extinta.

Apesar da paixão pelo transporte de passageiros, o pai tinha deixado um legado no setor de cargas. José então troca os ônibus pelos caminhões, que eram dele e prestavam serviços em todo o País.

Como bom caminhoneiro,  José Pereira é casado com a esposa e tem a boleia como amante. Não se cansa em contar que cortou as principais estradas do País e se orgulha em ver caminhos estreitos nem sempre pavimentados se transformarem em rodovias essenciais para a ligação entre os Estados e cidades, escoando a produção e transportando passageiros.

Entre os anos 60 e 70, José Pereira diz ter sido um dos primeiros motoristas a circular pelo novo pavimento da rodovia Marechal Rondon, até a divisa com Mato Grosso do Sul.

Na década de 70, vários trechos de estradinhas de municípios do interior de São Paulo e de Minas Gerais, foram “tomados” pela Fernão Dias, conta José. “O pessoal reclama da Rodovia Fernão Dias hoje, tinha que ver na minha época, os buracos eram até nossos velhos conhecidos, havia ainda trechos ao pavimentados e muitas, mas muitas curvas fechadas. O caminhão era de queixo duro (jargão do meio do transporte para designar veículo com direção dura, sem ser hidráulica). No fim do dia doía os braços”.

Foi também um dos primeiros caminhoneiros a percorrer a rodovia dos Imigrantes. A estrada, que liga a capital paulista ao litoral, opção para a Anchieta, foi inaugurada em 1976, mas a pedra fundamental para as obras foi lançada em 23 de janeiro de 1974.

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Do cheiro do Mercadão ao grito do povo

Mercadão de SP por Fernando Stankuns, no Flickr

São Paulo é cidade para muitas sensações. Percebe-se em pesquisas formais e enquetes casuais. Quarta-feira passada, o colunista Carlos Magno Gibrail provocou os ouvintes-internautas a descreveram a cidade a partir dos cinco sentidos. Reproduzia ação da SPTuris que desenha o Mapa das Sensações.

Na pesquisa oficial, os mais de 600 internautas que deixaram suas  percepções sobre a capital paulista indicaram 2 mil e tantos locais que marcaram seus sentimentos pelo olfato, visão, audição, tato e paladar. Aqui no blog, nossos ouvintes-internautas também foram generosos nas opções oferecidas, 72 indicações.

Há cenários assíduos dentro os que mais emocionam. O Mercadão, centro da cidade, excita tanto pela língua como pela narina dos seus frequentadores. É no prazer provocado por um pastel de bacalhau, um sanduíche de mortadela, as azeitonas expostas na banca ou no conjunto da obra.

Nada supera, o pastel de feira, lembrança mais registrada entre todas. E daí tanto faz a feira.

Locais inusitados surgiram nas dicas dos ouvintes-internautas quando o tema é o olfato e o paladar: a porta do estádio. As barraquinhas no seu entorno mexem com os torcedores já devidamente tomados pela expectativa da espera do jogo. O sanduíche de calabresa da Dona Joana – com mais de 60 anos, fez questão de lembrar um dos participantes -, no caminho do Morumbi, foi lembrado duas vezes na enquete do blog (preciso experimentar). Se equipara aos cheiro e sabor provocados pelo café e o pão francês feito na hora.

Torcida na arquibancada do Morumbi por Lilit Pari, no álbum do Flickr

Nossa enquete sinaliza que o futebol é elemento importante neste cenário, não apenas pelos cheiros que exala. Aguça a visão quando as arquibancadas estão lotadas, o tato no sonhando instante de pegar a taça de campeão e os ouvidos com o som entoado pelas torcidas.

Estranhos ouvidos, registre-se. Se satisfazem com o grito de “É campeão”   no estádio e dos feirantes na Ceasa; se irritam com a sirene, a buzina e o barulho do trânsito; se emocionam com o sino da Igreja Santo Antônio,  as crianças brincando no parquinho perto de casa e o “silêncio salpicado de gorjeios no Trianon”.

Olhar, ouvir, cheirar, tocar e saborear. Nem mesmo todos os problemas que encaramos no cotidiano do ambiente urbano foram suficientes para nos tirar a capacidade de exercitar estes sentimentos. Esta aí uma notícia que me faz sentir bem.

Você ainda pode participar da pesquisa realizada pela SPTuris acessando o Mapa das Sensações.

Veja outras imagens de São Paulo no álbum do Flickr de Fernando Stankun e Lilit Pari 

De descobertas

Por Maria Lucia Solla

Click to play this Smilebox slideshow: De descobertas 18.04.09
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Ouça e veja as “descobertas” na voz da autora clicando na imagem acima. A música é St. louis Blues – Benny Goodman  

Olá,

Esta semana, dirigindo à noite na Marginal Pinheiros, fiz uma descoberta do tipo dois. Deliciosa.

Conheço e percebo dois tipos de descoberta. A do tipo um que acontece de fora para dentro, e é chamada de aprendizado ou conhecimento, e a do tipo dois que acontece de dentro para fora, e é chamada de percepção, intuição, clarão, loucura ou eureka. Vão em sentido contrário, mas são porções da mesmíssima realidade, e uma contem a outra. A do tipo um é popular e circula por aí, feito celebridade. A do tipo dois já se mostra com cautela; é comentada a boca pequena, como no tempo da fogueira e da forca. Ao pé do ouvido.

No entanto, o modo como somos treinados a viver nos dificulta o contato com a descoberta do tipo dois, e a gente não consegue ver o que mora debaixo de véus, carimbos, dissimulação, e crenças adquiridas. Imagine! Crença adquirida! Adquirimos sim, herdamos, engolimos a seco ou com um trago, recebemos intravenosamente… Compramos a maioria das crenças, e nem chiamos. Que loucura!

Na adolescência, um dos meus amigos tinha mais de um carro, e meu pai não gostava nem um pouco quando ele me trazia da escola para casa num carro diferente. O que os vizinhos iriam pensar?! Claro que ele herdou essa crença. Não podia ser uma escolha dele. Eu era sua filha. Ele me conhecia. Conhecia meus amigos. Percebia quem eu era. Ou não? Enfim, só um exemplo de que corremos o risco de nos transformarmos naquilo que aprendemos. Usamos fragmentos de conhecimento para construir barreiras, dogmas, preconceitos, e para nos protegermos da vida.

Não nos deixamos permear.

Impermeabilizamos as cidades, e é exatamente o que fazemos conosco. Veias, artérias, vísceras; nossas emoções. Nos reprimimos doentiamente, e adoecemos doentiamente. Lutamos contra a própria Terra, através da terra e dos rios. Nós a aprisionamos, nós a sufocamos, nós a violentamos. Boicotamos nossa sociedade criando partidos que abrigam indivíduos que tiram partido deles. Nós os criamos para que se oponham visceralmente. Brigam tanto, medindo forças, que acabam brigando só por si mesmos e estamos conversados.

Mas voltando a elas, a maior parte das vezes, quando fazemos uma descoberta do tipo um, entramos em contato só com uma partícula da realidade. Aquela visível através dos olhos do corpo, inteligível através da mente terrena. Não reconhecemos o outro; não percebemos o outro. Estamos tão acostumados a olhar carcaças e a usá-las como espelho, que acabamos nos contentando com pouco.

Subverter é preciso. Afinal, subverter não quer dizer descobrir? Não quer dizer mudar a vertente? Mudar a direção? Sub não é um prefixo que dá a idéia de por baixo, pela base da estrutura? Então, é por isso que o verbo foi mandado para a masmorra. Subverter ganhou outro significado, outra roupagem. Hoje quer dizer quebrar a ordem vigente. Percebe?

Prefiro chamar a descoberta de dentro para fora de percepção, que está em estreita sintonia com a Vida. Perceber é um verbo que usamos quase sem perceber. É como se ele se escondesse dele, e nele mesmo. Os esotéricos seguramente perceberam que o perceber se escondia  ali e, alguns se prevaleceram dessa percepção para dominar e manipular o  mundo em volta, sem que o mundo percebesse. E a história se repete.

E você, costuma perceber?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos, nos ajuda a olhar as coisas de outro modo, sem modos nem modas.