De real e irreal

Por Maria Lucia Solla

Galeria de h.koppdelaney, no Flickr

Ouça “De real e irreal” na voz da autora e com “Raymonde” cantando e composto por Maxime Le Forestier

Olá,

Cresci ouvindo dizer que é preciso parar de sonhar, e continuo a ouvir versões  modernas da mesma canção. Põe os pés no chão do mundo real, menina ! Aterrissa !

Um dia, desobedecendo, tirei os dois pés do chão e aterrissei de cabeça, na quina da pia. Tinha quatro ou cinco anos. Peguei meu banquinho de madeira, arrastei até a pia da cozinha e subi para pegar água no filtro de barro que morava ali. Não deu nem tempo de abrir o berreiro, e eu já estava aninhada nos braços do meu pai, enauanto a mamãe enrolava minha cabeça com uma toalha felpuda. Segundo ato, hospital. Homens e mulheres de branco, agitados, costurando a minha testa.

Para de sonhar e cria juízo, menina !

Ah, aí a coisa foi ficando braba ! Eu crescia e não conseguia parar de sonhar. Além disso, não tinha a mínima ideia de como criar juízo. Só sei que a vida foi se revelando, foi me deixando cada vez mais encantada e mais curiosa, e continuei a me esticar e a escalar montanhas, viajando entre os mundos, real e irreal, para  matar a minha sede.

Mergulhei nos livros. Eu ia tão bem na escola ! Será que meus pais acreditavam  que eu tinha desistido do mundo dos sonhos ? Doce ilusão. Os livros, o teatro e a música eram meu meio de transporte. Eu vivia era lá.

Só muito tempo depois, consegui entender que tinha passe livre, e que não era pecado ter a cabeça nas estrelas. Tem vezes que estou nos dois ao mesmo tempo.

René Descartes, pai do pensamento cartesiano, entre os dois mundos deu as costas ao irreal. Pensou, pensou, e não conseguiu isolar nem mesmo uma característica que diferenciasse um do outro. Chegou à conclusão de que só tinha certeza de que não tinha nenhuma certeza.

O sábio chinês Chuang-Tsu sonhou que era uma borboleta. Vivenciou no sonho a realidade de ser a borboleta. Provavelmente pousou nas flores, voou, encantou alguns humanos e fugiu de outros. Ao acordar, vendo-se no corpo de homem, chegou à conclusão de que jamais saberia se de fato era um homem que havia sonhado ser borboleta, ou se era uma borboleta sonhando ser um homem.

E você, já pensou nisso ?

Pense, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos, com sua escrita, nos dá a certeza de que vale a pena sonhar.

12 comentários sobre “De real e irreal

  1. carlos magno,

    não resisto e vou acrescentar dois pensamentos de julio verne:

    “Tudo que um homem pode imaginar outros homens poderão realizar.”

    O segundo eu amo!

    “Deus ter-nos-ia posto água nas veias, em vez de sangue, se nos quisesse sempre imperturbáveis.”

    E o que faz o sonho senão nos impulsionar? Baita combustível, hein?

    Obrigada.
    Beijo, e bom domingo,
    ml

  2. Ola M.L
    O que seria da vida sem sonhos?
    “uma mente sem sonhos, é igual a um jardim sem flores”
    Sonho + desejo real = pensamento materializado.
    Parabéns pelas suas pérolas dominicais!
    Armando Italo

  3. Deus é mesmo maravilhoso! Fez a máquina perfeita.

    Deu asas aos pássaros e aos homens a capacidade de sonhar.

    Penso eu, que um homem sem sonhos é vácuo puro.

    O motor propulsor da vida está naquilo que sonhamos.
    Quando se torna real, deixa de ser sonho e nos realiza.

    Como a máquina é infalível produz novos sonhos, graças à DEUS.

    Também graças a Maria Lúcia Solla com suas puxadas de orelha que nos faz lembrar de sonhar e realizar sempre.

  4. Na verdade, não (risos).

    Tenho fome de criticar, elogiar, falar e escrever pelos cotovelos e pelo teclado também (risos).

    Você sabe como é bom acordar de um sonho e vê-lo realizado. Afinal se acordamos é porque ainda vivemos.

    Eu me comparo aquela frase do futebol que diz:

    “- É muito mais fácil destruir uma jogada, que contruí-la”.

    Bom domingo e boa revisão da futura obra.

  5. A gente sonha, sonha, sonha e não e que de vez em quando de tanto insistir o sonho é realizado!
    Que magavilha!
    Pois é caro Claudio:
    É dificil a gente segurar as nossas linguas tagarelas e os nossos dedinhos no teclado.
    Coitada da patroa em casa
    Principalmente hoje se o peixe faturar o mosqueteiro da marginal sem numero.
    Bom final de domingo a todos.
    Arando Italo

  6. Oi Lùzinha , quanto tempo ! Não estava acessando a internet
    há vários dias . E que bom te reencontrar no belo mundo dos sonhos , sejam eles “reais , materiais ou mesmo impossiveis”,porque sem eles perderiamos muito do que nos impulsiona na caminhada ,aqui da terra.
    Bjs saudosos e colorados , há! há! h´a! Maryur

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