Conte Sua Historia: O penico

Ouça o texto de Suely Aparecida Schraner

A Loja das Folias era mesmo uma folia. As coisas, empilhadas no chão de
cimento, encerado com vermelhão e em cima de plásticos, que prateleira não
tinha não. Tinha de um tudo: roupas, panelas, cordas, lampiões, redes,
pratos, talheres e, penicos.  Competia às vendedoras meninas moças,
acompanhar o cliente e ajudá-lo a carregar a compra até o setor de pacotes.
Ah, trabalhar no pacote, o objeto de desejo de todas elas. Era o lugar mais
limpo e discreto. E ninguém tinha que andar pela loja segurando um penico
pela alça.

A rotina: no alvorecer, levar as duas pilhas de penicos (uma esmaltada e a
outra de alumínio) e deixar na frente da loja, em destaque. Como ninguém
gostava e dava vergonha, esta tarefa era feita por sorteio. Cada dia da
semana, uma garota ‘sortuda’, bem cedo, ao alvorecer, tinha que levar as
pilhas e postar na entrada da loja. Na boca da noite, ao escurecer, a
obrigação era recolher os bispotes para o interior da loja. Fim do
expediente que era das 7h as 19h.(E hoje em dia, ainda falam em crise…).

Ano 1965,a Loja das Folias, funcionava na Barão de Duprat em Santo Amaro.
Em frente, ficava o ponto final do ônibus Pedreira. Ela era a balconista
mais jovem. Tinha 15 anos, pagava I.A.P.I. e ganhava metade do salário
mínimo. Assim era a lei, que ECA não tinha não.

Naquele dia, trajava saia justa vermelha, blusa branca de  jabot (voltou a
moda)  e usava delicada sandália, com saltinho de metal. Tac-tac-tac.Num
átimo, era só pegar a pilha de urinóis e entrar correndo antes de alguém
ver. Num átimo a estratégia falhou. Escorregou. Caiu de bunda. Na queda, seu
pé esbarrou nas pilhas e lá se foi penico pra tudo quanto é lado. Bem no
meio da rua. O som dos penicos rolando no asfalto doeu na alma. Ninguém
podia saber que se faz isso naquilo.  Seu Geraldo, o gerente, gritando: “Vai
lá logo recolher os urinóis, menina!Os carros buzinando sem parar.

De relance ela visualizou a fila inteira do ônibus Pedreira, com seus
paqueras habituais, rindo desbragadamente. Prostrada estava, prostrada
ficou. Queria que o chão se abrisse e a tragasse como naquele acidente do
metrô há pouco tempo. Que Deus a perdoe.

Foi correndo chorar no banheiro.  Benedito, o menino laçador e que ficava
na frente da loja, cuidando  pra ninguém roubar, é quem teve que catar a
penicada sob risos gerais.

Do banheiro ela não queria sair nunca mais. Já que o chão não se abriu,
melhor era morrer de vergonha na privada. Os gritos do Seu Geraldo nem mais
a incomodavam. Depois de muito insistirem e na certeza que a fila do ônibus
já tinha entrado, ela deixa seu sonho de um dia ser promovida ao ‘setor de
pacotes’. Saiu de fininho.
No breu da noite alguém ainda comentou: ‘Foi aquela ali que derrubou os
penicos’.

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, sábados, às 10 e meia da manhã, no CBN São Paulo. E você participa enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br

7 comentários sobre “Conte Sua Historia: O penico

  1. Essa “História de São Paulo” não pode ficar aí no blog “sem comentário”. Gostei muito de ouvi-la na tua interepretação,Milton,que valorizou o texto da ouvinte Suely.Consigo imaginar o drama que ela viveu,mas garanto que,ao recordá-la,a autora ainda dá boas risadas

  2. Você captou muito bem, Pablo. Endosso o que você dise. Na voz do Milton a história se valorizou. Era de chorar e ,agora é pra rir mesmo.

  3. Erika, rir é o mesmo o melhor remédio. Na época, um vexame mas, de longe os costumes mudam e, fica tudo mais fácil de digerir.

  4. Lucia e Mirtes escreveram para Conselho Gestor:

    Muuuuiiiitto bom, Suely!!!!

    abs
    Lucia

    Olá Suely! de onde tiras estas estórias? he, he, he….
    são tuas vividas? rs rs rs
    bjs
    e parabéns!
    Mirtes

  5. Suely, minha querida,
    tenho um baita orgulho de você.
    Que delícia de história.
    Ah! Conheci as Lojas da Folia, quando criança;
    só não lembro se foi para comprar penico…
    (isso é tão anacrônico que meu computador grifou a palavra em vermelho. Será que não consta no dicionário?).
    Beijos
    Penha

  6. Obrigada Penha. Você é que é motivo de orgulho e inspiração pra todos nós do curso de italiano. Vejo que já está se recuperando da cirurgia nos olhos. Ah, achei bispote como sinônimo de penico (o dicionário é antigo e a necessidade fisiológica continua atual ). Beijos Suely

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