Por Willian Porto
Movimento Voto Consciente
Por conta de uma reportagem que denunciava a venda de pontos para ambulantes por parte da fiscalização municipal que atua na Lapa, foi convocado a comparecer perante a Comissão de Finanças da Câmara Municipal de São Paulo, o agente da Subprefeitura da Lapa envolvido.
Em resposta às perguntas sobre o ocorrido, o funcionário público municipal concursado e carreira estável respondeu singelamente: “- Ah, era cunversa di cachacero! Eu tava travado i aí bêbado fala qualqué coisa,sabe né! Eu tava lá nu buteco tomando umas, tava comemorandu u jogu e já tinha tomado todas. ..Mais eu nunca peguei nada isso é com os grande lá.”
Os aturdidos vereadores ainda tentaram dar alguma seqüência razoável, perguntando sobre suas funções e qualificações, detalhes sobre o ocorrido, se ele foi beneficiado por algum camelô e se havia algum superior hierárquico que tivesse vantagens financeiras na fiscalização. A partir de determinado ponto entretanto parte da vereança sucumbiu ao clima de ópera bufa e não resistiu ao levantar questões como:
“-O senhor é palmeirense ou são-paulino?”
“…Velho Barreiro, hein? E gosta de cachaça da boa, 51 nem pensar!” (em comentário à resposta do servidor sobre o que tinha bebido no boteco)
“- O senhor tem carro? (Não)Nem bicicleta? (Não)”
De causar pena também foi constatar na sessão da Comissão de Finanças a falta completa de dignidade e auto-estima quando o funcionário referiu-se a si mesmo como “Cachaceiro” e “Bebum” que falava demais, numa patética tentativa imagino de causar alguma simpatia naquele ambiente que a ele provavelmente intimidava.
Dentre as irrelevâncias dois vereadores colocaram-se sobriamente (com toda a ironia que esta palavra poder ter nas circunstâncias) levantando questões apropriadas:
Adilson Amadeu apontou um desvio de funções em virtude de o servidor estar em função diversa da que prestou concurso.
Aurélio Miguel levantou vários pontos importantes:
– Perguntou quantos tinham problemas com alcoolismo no grupo (de dez agentes) que ele trabalhava. Oito deles.
– Se bebiam em expediente. Sim, bastava o superior hierárquico ficar fora de vista, e que usavam dizer que iam ao toalete quando na verdade iriam beber.
– Se estava fazendo tratamento para a dependência. Sim, mas tinha parado e voltado a beber (a prefeitura dispõe de um hospital equipado para isso).
– Com que freqüência bebia. Sempre, pois no trabalho de “rapa” era preciso beber muito para agüentar a pressão e o stress e que os confrontos físicos com os camelôs eram constantes.
Ao final da sessão a impressão que tive é de que tinha atravessado o caos original onde nada fazia sentido. Paga-se cerca de R$ 10.000,00 mensais além da estabilidade e encargos a um grupo de agentes dos quais 80% não são plenamente capazes de exercer suas funções por conta de dependência alcoólica, além do risco inerente de agressões por trabalhar bêbado (o convocado informou ter-se ferido seriamente -“sete pontos na cabeça”- em confronto). Outra constatação é de que tais equipes sejam “terra de ninguém” onde trabalhar embriagado é a regra e não haja liderança por parte da chefia imediata nem do principal responsável que é o subprefeito e além do mais, para que serve o “rapa”?
Eu pessoalmente já presenciei tais atuações uma delas na 25 de Março: Antes do grupo passar alguém passa gritando “Olha os home!” e em seguida desmontam seus tabuleiros e ensacam sua mercadoria e ficam ali parados; na seqüência passa o grupo (aquele dos 80%); como esse grupo não olha para trás quando passa à distância de dois passos às costas de agentes e guardas municipais eles rearmam suas coisas. Eventualmente há confrontos, e dias depois tudo está como antes aguardando a repetição dos eventos.
E como o próprio servidor mencionou aos vereadores estes deveriam ver “…os grande lá” onde reside a fonte dos problemas.
Não é de se admirar que a que boa parte da população faça críticas reiteradas à qualidade do atendimento e eficiência do serviço público municipal, mencionando grosserias, falta de informação, má vontade, incompetência. O serviço público em sua essência não é composto de leis e regulamentos, mas de pessoas que deveriam ser bem gerenciadas. Não se trata de desmerecer o funcionalismo mas de cobrar ações proativas de liderança daqueles que estão à frente de um número tão grande de servidores com imensas dificuldades de gestão, treinamento e como vimos carentes em parte de atendimento médico e psicológico. Bem traduziu isso o vereador Mutran quando disse na Sessão “… correria o risco de ficar com dor na consciência (se o dispensasse); onde é que o senhor conseguiria outro trabalho?”. De fato, em nenhum outro lugar onde se cobre eficiência e resultados.
Numa situação dessas corremos o risco de enfrentar com discursos inflamados e indignados a corrupção, incompetência, a violência, o desperdício de recursos públicos quando o problema está na falta de gestão e liderança inspiradora.
Não é possível que a própria Prefeitura Municipal esteja lutando contra si mesmo ao abrigar ao mesmo tempo uma disposição de fazer e uma disposição de não fazer aquilo que se propõe como gestor público.
É bem possível que um dia – em nada sendo feito – possamos reconhecer em uma nota de rodapé de um jornal burlesco sobre um funcionário público municipal, falecido jovem em uma briga de bar vítima do vício e da passividade municipal.
Willian Porto é voluntário do Movimento Voto Consciente e acompanha o trabalho da Comissão de Finanças da Câmara Municipal.
Lamentável. Não que as empresas privadas não tenham um quê de “público” nem que o público tenha um quê de “privado”, ou muitas vezes “privada”, mas longe de defender a privatização, o que o público poderia aplicar são alguns métodos de gestão do setor privado. Fatos como esse não passariam tão em branco assim.
Detalhe: ninguém procurou ouvir a Subprefeita Soninha Francine? Detalhe dois: será que o relato é privilégio exclusivo da dada subprefeitura?