Os ônibus na luta pelos direitos civis no mundo

 

Por Adamo Bazani

A atitude isolada de uma mulher negra em uma linha de ônibus municipal se transforma em referência na luta contra a segregação, nos Estados Unidos. E daquele ato surge um líder mundial

Quem diria que um ônibus seria cenário de uma revolução capaz de mobilizar o mundo? Nas pesquisas sobre os ônibus, seja aqui no Brasil ou lá fora, é possível perceber que a história deste veículo, muitas vezes tão criticado, é a história de pessoas: algumas anônimas, algumas bastante simples, algumas que se transformaram em referência.

Rosa Parks é nome nem sempre lembrado. Mais fácil lembrar de Martim Luther King. Os dois se cruzaram justamente em um ônibus, na luta pelos direitos civis e contra as desigualdades. Juntos marcaram a evolução da humanidade (por incrível que possa parecer, os seres humanos evoluem interiormente; nem todos, mas evoluem).

Nos anos de 1950, o racismo no mundo era explícito. A segregação, legitimada. A discriminação, sinal de status para alguns. Neste clima, vivia a costureira Rosa Parks, 42 anos, moradora de Montgomery, no Alabama. Em 1955, os ônibus da pequena cidade americana tinham lugares separados para brancos e negros. Com aqueles tendo preferência sobre estes.

O ônibus, velho, estava lotado e Rosa se negou a dar o lugar dela para um passageiro branco que acabara de entrar. O motorista advertiu de que isso poderia levá-la à polícia, mas ela se manteve firme. Pressionado pelos passageiros da “ala branca do ônibus”, o motorista teve de chamar o policiamento.

O ato levou Rosa à justiça e chamou atenção da comunidade local. No dia do julgamento, o Conselho Feminino do Alabama decidiu realizar um boicote ao transporte público, no Estado. O protesto pretendia mostrar que o serviço público deveria ser um direito de todos, brancos e negros. Rosa perdeu a batalha judicial. Revoltada, a população negra criou uma associação de lutas pelos direitos civis, a MIA – Montgomery Improvement Association.  Foi eleito para presidente da Associação, o recém-chegado a cidade, Pastor Martin Luther King. Nascia ali um líder.

A eloquência e o desejo de justiça sem violência eram marcas de Luther King. Já em seu primeiro discurso, o pastor dizia: “Quero assegurar a todos que trabalharemos com vontade e determinação para fazer prevalecer a justiça nos ônibus da cidade. Não estamos errados. Se estivermos errados, a Suprema Corte desta Nação está errada. Se estivermos errados, a Constituição dos Estados Unidos está errada. Se estivermos errados, Deus Todo-Poderoso está errado.”

O discurso comoveu a multidão em frente de uma igreja batista e marcaria o início de uma luta de dor, sofrimento e superação. O boicote aos ônibus que só deveria ter ocorrido no dia do julgamento de Rosa se prolongou.

Como reação, a prefeitura de Montgomery usou lei de 1921 que combatia qualquer tipo de boicote a negócios lícitos. 80 pessoas foram indiciadas. Entre elas, o pastor que teve de pagar U$ 550 de multa para não ser preso. Outros ativistas, como o pastor Ralph Abernathy e o líder negro ED Nixon também sofreram. Este, assim como Luther King, teve sua casa incendida.

Nada disso os fez desistir. O que era uma questão local, ganhava destaque internacional. O boicote aos ônibus continuava e lideranças nacionais de luta pelos direitos civis, Bayard Rustin e Glenn Smiley, se uniram à ideia. Mais de 42 mil negros entraram nesta luta.

Os taxistas negros implantaram um sistema de carona para que os apoiadores do boicote pudessem se deslocar. Os motoristas – mais de 300 – foram reprimidos. Alguns tiveram a permissão de trabalho cassada, outros foram presos. Mas Luther King, milhares de anônimos, inclusive Rosa, na cadeia ainda, não se rendiam. Os ônibus de Montgomery circulavam vazios, só com os brancos, insuficientes para sustentar o serviço.

Após intensa luta, em 5 de junho de 1956, a Corte Federal dos Estados Unidos, reconhece que a segregação nos transportes públicos era ilegal. Em 13 de novembro, a Suprema Corte do País tem o mesmo entendimento. Vitória.

Um dos momentos mais marcantes na vida de Martin Luther King foi dia 21 de dezembro de 1956, pouco mais de um mês do posicionamento da Suprema Corte. Um dia antes, após 381 dias de boicote, o protesto teve fim, e Luther King e o colega pastor Ralph Abernathy entraram num ônibus, em Montgomery.

Este é o momento que você vê na foto que está neste post extraída de uma edição especial da revista Veja de 1968, ano do assassinato do líder negro, pouco antes de uma marcha organizada pelo comitê que presidia.

Apesar da vitória naquela batalha, a luta contra o racismo, pela igualdade e pelos direitos civis, continua. A passageira de ônibus Rosa Parks, cuja determinação mobilizou o mundo, pressionada e sem emprego, teve de se mudar para Detroit.

A este busólogo, a certeza de que a história do transporte público não se conta a partir de marcas e modelos de ônibus, mas de gente como Rosa Parks.

Adamo Bazani, é repórter da CBN e busólogo. Às terças, escreve no Blog do Mílton Jung

Um comentário sobre “Os ônibus na luta pelos direitos civis no mundo

  1. Parabens mais uma vez Adamo e Milton pelo excelente trabalho, realmente pessoas como Rosa Praks e Martin Luther King, foram os icones na Revolução e na melhoria das condições de igualdade deste planeta, e hoje ainda existe de forma velada ou nao o preconceito e o racismo, mas pelo menos nos transportes, ja nao existe essa desiguladade. Cabe a cada um de nos, independente da cor ou etnia, reprimir e extinguir esse tipo de preconceito.
    abraços
    Vitor Matos

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