Rádio na Era do Blog: Eu foco, tu focas, por Ruy Castro

 

Na fusão de mídias, confundiu-se muita coisa. A línguagem, entre elas. Tem texto de rádio escrito como se fosse para jornal; tem texto na internet lido na televisão; tem jornalão redigido como folhetim. Copia-se de um e se cola no outro, sem que se pare para pensar a necessidade do público de cada uma das mídias. Além disso, há expressões que usamos pelo hábito. Sem reflexão. Sem noção. Foram sobre algumas dessas que o jornalista e escritor Ruy Castro escreveu, neste sábado, na Folha. Um alerta para redatores de rádio, cada vez em menor número, e para redatores de blog, que não param de crescer.


Eu foco, tu focas, ele foca

RIO DE JANEIRO – Já tratei do assunto nesta coluna, mas, como diria o Cony, ninguém tomou providências. Continuamos a chamar um filme de “longa”, mesmo que ele tenha a rotineira hora e meia de projeção -o que, somando os trailers, os comerciais e o tempo que se gasta indo lá fora comprar pipoca, perfaz uma sessão ideal de duas horas. Então, por que “longa”?

Deve ser para distingui-lo dos “curtas”, que têm 12 ou 15 minutos. Mas quantos curtas você vê por ano a ponto de obrigarem um filme normal a ser chamado de longa? Longas, até outro dia, eram “E o Vento Levou”, “Os 10 Mandamentos”, “Ben-Hur” e “Lawrence da Arábia”, que duravam para lá de quatro horas. Se, hoje, qualquer filme é um longa, o que seriam aqueles queridos mamutes?

Ou, quando se trata de filmes do passado -digamos, “A Malvada”, com Bette Davis, ou “Barnabé, Tu És Meu”, com Oscarito-, lê-se às vezes que eles foram gravados assim ou assado. Só que os filmes do passado não eram gravados. Eram filmados. Quem grava imagens é a televisão, e o cinema, pelo menos o anterior a 1990, sempre dependeu de película, laboratório, revelação e outras práticas ancestrais.
Falando em gravar, não perdemos a mania de escrever que “Fulano entrou em estúdio para gravar seu novo CD”. Mas onde queriam que ele o gravasse? Na rua, do outro lado da calçada? “Entrar em estúdio para gravar” é o mesmo que “apostar todas as fichas”, “correr atrás do prejuízo” ou “dar nó em pingo d’água”. É escrever sem ter de pensar. Uma palavra puxa outra, como uma locomotiva que arrasta vagões vazios.

Mas minha grande birra é com o verbo focar. Quando leio, por exemplo, que “Ronaldo foca voltar à seleção”, conjugo imediatamente eu foco, tu focas, ele foca, e imagino o Fenômeno batendo as nadadeiras. Com todo o respeito.


O texto original você acessa aqui se tiver assinatura do UOL

Um comentário sobre “Rádio na Era do Blog: Eu foco, tu focas, por Ruy Castro

  1. Focado em uma certa noticia, nos comentários um internauta reclamava que, a notícia estava incompleta e iria ler em outro portal concorrente. Segui a idéia do mesmo e não tive surpresa: A noticia estava escrita da mesma maneira, com algumas palavras diferentes. A colagem de notícias anda correndo solta por jornalistas de todos os veículos que assinam como suas.

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