Oito dicas para textos bem ditos no seu rádio

Foto: Pixabay

 

Conversar com jovens é revigorante. Com jovens e jornalistas, é provocante. Pela profissão que pretendem exercer, tendem a ser mais curiosos ao mesmo tempo que desconfiados. Olham você de revesgueio, ouvem com atenção enquanto matutam alguma pergunta que possa lhe tirar do trilho e quando você menos espera querem saber aquilo que você não imaginava ter de contar. É preciso preparo e cuidado extremo com as palavras.

Fiz esse exercício dias atrás. Em conversa online, estive com alunos da PUC do Rio Grande do Sul. Da mesma FAMECOS que frequentei no início dos anos 1980. Uma turma sob a batuta do mestre Cláudio Mércio —- que conheci sob o apelido de Batata quando ele ainda tinha dúvidas se seria advogado ou jornalista. Contou-me que foi o convite que fiz para ser estagiário do SBT, em 1989, que lhe deu rumo profissional. Saber disso me fez acreditar que alguma coisa boa deixarei para o jornalismo. Mércio, dentre outros afazeres acadêmicos, cuida do laboratório de texto da PUC — ao lado do professor Sílvio Barbizan — e foi nesse contexto que me convidou a participar do encontro virtual. 

Lembrei aos guris e gurias que me assistiam a frase do professor e jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, quando foi ombudsman da Folha, na virada da primeira para a segunda década deste século: 

“80% dos erros que saem no jornal podem ser atribuídos a três fatores: pressa, preguiça e ignorância”. 

Como tudo acelerou de lá para cá, fico imaginando o quanto a pressa em publicar tem provocado erros. No rádio, que é o meu assunto, temos pressa, muita pressa, cada vez mais pressa. E, lamentavelmente, em nome dela justificamos boa parte dos nossos erros, quando deveríamos redobrar os esforços para essa pressa ser substituída por precisão. 

Para nos ajudar a desenvolver um texto mais bem qualificado no rádio, listei oito sugestões que reproduzo a seguir para você, caro e raro leitor deste blog:

  1. Escreva a palavra certa, nunca a palavra mal dita

Se não houvesse a pressa, a preguiça e a ignorância —- para citar os três erros identificados por Lins da Silva, deixaríamos de repetir no ar informações e expressões que costumamos ouvir das diferentes fontes com quem temos contato —- uma gente que cria jargões, usa de tecnicismo, exagera no anglicismo e mal preparada para conversar com o cidadão. Cabe ao jornalista (não apenas de rádio) traduzir para o bom e claro português toda palavra mal dita — incluindo as malditas. 

Dia desses, ouvi nas notícias de trânsito que o problema na via era da “temporização semafórica”, que nada mais é do que o tempo em que o semáforo, ou a sinaleira, como falamos no Rio Grande do Sul, abre e fecha. Aliás, a família “semafórica” parece ser enorme entre os técnicos de controlam o tráfego nas cidades brasileiras: sem puxar muito da memória já fui apresentado no ar ao pai conjunto, à mãe sinalização e ao irmão temporão, ops, temporização.

As pautas de saúde e coronavírus também vão ao ar sem que se dedique alguns minutos em busca de palavra melhor. Dos médicos, repetimos a expressão “evoluir a óbito”. O problema não é o que o médico diz —- lá na sala de cirurgia, no registro oficial, ele tem todo o direto de evoluir a pessoa a óbito —- mas isso não cabe na boca de um jornalista. Ou a pessoa sobreviveu ou morreu. Se ela evolui para algum lugar, isso é assunto para outra editoria.

Tem as paravas e expressões da moda, também. “Mortos contabilizados” e “novos mortos” estão por todos os lugares do noticiário. Não há um dia em que eu não depare com um texto em que o verbo contabilizar aparece —- não bastasse o fato de que a ideia inicial de contabilizar está relacionada a transação financeira, por que não procurar outra formas de escrita? Por exemplo: em lugar de o Brasil contabilizou 1.500 mortes por Covid-19, nas últimas 24 horas; use o Brasil registrou 1.500 mortes …; ou 1.500 pessoas morreram no Brasil… Jamais “contabilizou novas mortes” (aí é de matar) como ouvimos a todo momento. Faria algum sentido dizer que o Brasil teve 1.500 velhas mortes?

  1. Só use a palavra mal dita, quando disser que foi dita

É claro que se um entrevistado, alguma autoridade ou uma fonte que mereça e possa ter seu nome citado usar uma expressão mais complicada, um jargão da área em que atua ou uma palavra estranha ao nosso vocabulário, podemos e devemos reproduzir sua declaração —- mas não esqueça de, em seguida, traduzir para o ouvinte o que foi dito. E de forma bem dita.

  1. De preferência, deixe o mal dito na voz do dito cujo

Nesses tempos de autoridades desbocadas, que acreditam que com palavrão podem descrever uma pessoa, uma profissão ou um fato; já que estamos falando em mídias faladas, de preferência deixe que ele ou ela diga em viva voz aquela expressão. Um exemplo aleatório: imagine que você viva em um país no qual o presidente chame os jornalistas de bundões (Deus me livre de viver em um lugar desses). Você não precisa repetir no texto da reportagem, em viva voz, a palavra usada pelo presidente, se tiver a gravação do próprio mal dizendo seus colegas. Tem coisa que cabe na boca da autoridade, mas não cabe na sua. Nem na minha.

  1. Números ditos costumam ser mal ditos

Costuma-se dizer, em tom de brincadeira, que jornalista não entende de números, mas adora usá-los. A impressão que se tem é que reportagem sem número parece não ter lead, manchete ou credibilidade. Que fique claro, discordo piamente dessa ideia.  Reportagem não precisa de número, precisa de histórias, fatos e pessoas, além de um bom texto, é claro. Histórias, fatos e pessoas são a alma de uma reportagem.

Hoje, temos, inclusive, uma área que tem crescido bastante, que é a de jornalismo de dados, que nos especializa nos temas e nos ensina ao menos a saber quando usar ou não “morte por milhão de pessoas”. Nesta pandemia, fomos muito cobrados por parte do público —- especialmente bolsonarista ou aquele que se identificava como amante (?) do Brasil —- o fato de não relativizamos o número de pessoas infectadas ou mortas levando em consideração a população do país. Seria, segundo essa turma, uma maneira de mostrar que o problema não era tão grave quanto “vocês jornalistas que não gostam do Brasil querem que seja”. Aprendemos na crise que o número de mortos por 100 mil ou por milhão pode trazer distorções na avaliação em situação aguda como esta. A medida é importante quando tratamos de casos crônicos; por exemplo, assassinatos, acidentes de carros ou mortes por problemas no coração. 

Em situações nas quais números são relevantes para a reportagem, é preciso que se tenha parcimônia quando formos informá-los no rádio —- o preciosismo pode acabar em desinformação. Decida o número que realmente interessa; dê ênfase a esse número; faça comparações que ilustrem a dimensão dele; e evite publicar uma sequência de números com milhão, milhares, centenas e dezenas. Na dúvida, faça a você mesmo a seguinte pergunta: se eu fosse o ouvinte qual desses números que tenho em mãos, eu gostaria de memorizar para contar aos meus amigos? Esse é o número que você vai ter de trabalhar de forma precisa na sua reportagem.

  1. Sempre há uma nova forma de dizer a mesma coisa

Esses dias, li um e-mail armazenado no arquivo de meu computador que fazia parte de uma série escrita por um dos ex-diretores de jornalismo da CBN, Giovanni Faria. Guardei todos os e-mails porque o conteúdo é riquíssimo e produzido com base no que ele ouvia no ar. Em um deles, pedia para que âncoras e repórteres buscassem uma outra maneira de perguntar a opinIão de seus entrevistados. Reclamava, com razão, que em quase todas as entrevistas nós usávamos a mesma fórmula: “como o senhor vê isso?”; “como a  senhora vê aquilo?”. Sugestão do chefe, aceita e nem sempre cumprida: restringir o uso do verbo VER para seu sentido literal e abandonar o modismo de usá-lo como sinônimo de EXAMINAR, ANALISAR, PENSAR, COMPREENDER, ENTENDER, SENTIR …. Só com um puxão de orelhas desse para a gente perceber que exagera no “ver”. 

  1. O texto falado para ser escutado pode ser escrito 

O rádio é uma tremenda escola para o improviso, o que não significa que ao entrar no ar você não possa preparar o seu texto. Aliás, na abertura do Jornal da CBN, quando apresentamos uma espécie de resumo de notícias e declarações que interessam ao público, o texto é todo escrito. Há um roteiro, não exatamente com o cuidado que aprendemos na academia, mas há um roteiro adaptado às nossas necessidades.

Os repórteres —- especialmente os mais novos —- temem cometer erros e, portanto, não há mal nenhum que preparem um texto escrito com antecedência, desde que isso não atrase a participação dele na programação. Se o tempo for pouco e a insegurança muita, anote apenas os tópicos, de maneira ordenada e lógica. Quando for chamado, com texto ou sem texto, o repórter tem de estar pronto para contar a história que lhe cabe. 

  1. O texto escrito para ser escutado tem de ser falado

O cuidado essencial é entender que o texto escrito para ser escutado tem de ser escrito como é falado. E esse é talvez dos erros mais comuns, muitas vezes cometido por pressa, preguiça, ignorância ou medo —- acrescentei mais um motivo para os nossos erros, além dos três citados por Carlos Eduardo Lins da Silva. 

A forma como você escreve um texto para o rádio tem de ser da forma como falamos, caso contrário, ninguém vai ouvir como deveria. Isso não significa contrair o para para pra; ou a pessoa pelo cara; ou o bandido pelo crápula …. Há regras a serem respeitadas, mas a frase escrita tem de caber na boca do locutor; tem de fazer parte do seu cotidiano e do cotidiano do ouvinte.

*O jornalista catalão Iván Tubau, doutor em filologia francesa, graduado em arte dramática e professor do Departamento de Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade Autônoma de Barcelona, em seu livro “Periodismo oral” (Jornalismo oral), lançado em 1993, chama atenção para a necessidade de aqueles que escrevem os textos jornalísticos destinados a uma execução oral traduzirem a linguagem popular, sem destruí-la:

“Quem escreve para rádio e televisão deve ouvir a algaravia da rua, ordená-la e limpá-la um pouco e devolvê-la levemente melhorada a seus emissores primigênios (primitivos), procurando que estes a sigam conhecendo como sua”.

*(reproduzido do livro “Jornalismo de Rádio”, Editora Contexto, 2004)

  1. O texto para ser escutado tem de ter ouvintes

Então, não os espante com textos mal ditos!

Expressividade: a representação correta de seu papel transmite credibilidade.

 

Acompanha hoje mais um trecho do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, escrito para o livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. É minha homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz, comemorado em 16 de abril:

Screen Shot 2020-04-30 at 11.56.59

 

A LINGUGAGEM DO CORPO

 

Como já vimos, comunicação não é o que eu digo, mas o que você entende. Para que a mensagem seja compreendida em sua plenitude é importante usar todas as ferramentas que temos à disposição. Sobrancelhas, olhos, bocas, gestos, mão são elementos que complementam este processo, mesmo porque a linguagem do corpo é considerada mais fiel por ser inconsciente.

É fácil mentir com as palavras, difícil é confirmá-las com a mímica.

Para ser bem recebido pelo telespectador, fala-se com o corpo inteiro mesmo que apenas seu rosto esteja aparente. Os pés dividem com a coluna a responsabilidade de dar equilíbrio e, portanto, devem estar colocados de forma firme no chão, mesmo que você esteja sentado. Ter consciência da sua postura colabora para o pleno desempenho da sua função.

 

Aproveite o gravador abandonado no fundo da gaveta e grave a leitura de um texto sem movimentar as mãos, de preferência estático. Grave o mesmo texto marcando a fala com gestos e o corpo relaxado. Preste atenção no resultado final.

Atuar naturalmente tanto quanto falar de forma coloquial criam cumplicidade entre os agentes da comunicação.

Usar as mãos e o corpo é preciso, mas sem exagero. Os acenos, o movimento da cabeça ou a expressão facial devem antecipar a notícia que se vai dar. Algumas vezes acontecem simultaneamente. Jamais depois da mensagem porque não transmite confiança. Por normais que sejam estas ações, não podemos esquecer que diante das câmeras ou do público —- que pode ser formado por centenas de pessoas, dezenas de colegas ou apenas algumas unidades de desconhecidos — encaramos uma situação diferente da fala espontânea.

 

O apresentador de televisão quando transmite a notícia utiliza-se de equipamento eletrônico, o teleprompter. Ao ler textos escrito por um redator, tem de transformá-lo em mensagem falada. Conversa com a máquina como se falasse para cada uma das pessoas que formam sua audiência. Assim, age como ator diante das câmeras. Este fenômeno é que torna a tarefa jornalística um desafio à medida que o profissional atua mentindo, mas apresentando a realidade. A representação correta de seu papel será traduzida em credibilidade.

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora, você tem acesso, na ordem decrescente, clicando aqui

Expressividade: cuidados com os gestos e a postura ao se comunicar

 

Segue mais um trecho do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, escrito para o livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. É minha homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz, comemorado em 16 de abril:

berlin-2733812_960_720

foto PIXABAY

 

ÊNFASE DEMAIS, FÉ DE MENOS

 

Um dos mais famosos locutores do Rio Grande do Sul é José Aldair, até hoje titular da síntese noticiosa da Rádio Gaúcha de Porto Alegre. Uma das marcas na narração de Aldair era a mania de introduzir o noticiário do esporte esticando a primeira sílaba do título “esportivas”. O “es” se estendia até o som praticamente sumir para, somente depois, completar a palavra. O costume ganhou fama e havia quem ouvisse o noticiário apenas à espera do anúncio das “esportivas”. Um dia acompanhava o noticiário dentro do estúdio, sentado ao lado de José Aldair, o comentaristas esportivo Osvaldo Rola, o Foguinho, nome conhecido no Rio Grande do Sul por seus préstimos ao futebol gaúcho, tanto quanto por sua fala com o erre extremamente enrolado. Quando José Altair começou o interminável “essssssss…..”, Foguinho se assustou, imaginou que o locutor teria tido algum problema e não se fez de rogado, se aproximou do microfone e completou: “porrrrrrtivas”.

 

O preço que José Aldair pagou pelo excesso de ênfase foi o susto no momento do acontecido e o nome dele registrado para o resto dos tempos no anedotário do rádio gaúcho. Pelo sucesso dele na locução até que o preço foi baixo. O mesmo não se pode dizer de outros narradores que, exagerados, comprometem a mensagem. E suas carreiras, também. Ênfase demais ou na palavra errada prejudica o entendimento do que está sendo comunicado, porque o público perde a noção do que realmente é importante na sentença. A marcação excessiva empobrece o discurso e o torna caricato. É a “Síndrome de Alberto Roberto”, personagem humorístico de Chico Anysio que brinca com a figura dos comunicadores antigos do rádio.

 

Peço licença para um comentário sobre figura que brilhou no rádio e na televisão. Gil Gomes marcou sua presença no jornalismo com uma voz cheia de nuances e gestos exagerados. Conseguiu se comunicar. Seu domínio de cena o permitia contar uma história de violência sem ter necessidade de imagens ou entrevistas. Era praticamente um monólogo. Envolvia o telespectador — e antes já havia feito isto com o ouvinte —- apenas com a retórica e recursos da dramaturgia. Quando muito, se valia de efeitos sonoros. Espetacularizava a informação. Transformava realidade em ficção e da ficção fazia realidade. Gil Gomes fez desta capacidade seu personagem. No entanto, não é exemplo para ser seguido. Porque é único. É exceção. E para ilustrar o tema aproveito-me, mais uma vez, de frase de Iván Tubau, autor já citado neste trabalho.

“O comunicador de televisão deve interpretar sempre um personagem. É desejável, portanto, que seja ator. O comunicador de televisão deve dizer algo. É desejável que seja jornalista. O comunicador de televisão, sendo ator e jornalista, só pode interpretar bem um personagem: o mesmo”.

O telejornalismo tem aspectos da dramaturgia. Utilizam-se recursos da arte cênica para transmitir informação. No entanto, não se deve trocar os papéis. Jornalismo trabalha com a realidade. Quem o consome, crê no que se vê. Teatro usa da ficção para conquistar seu público, que aceita a encenação porque busca o entretenimento. Existem jornalistas que foram buscar nos cursos de teatro formas de interpretar a notícia. Mas, assim como na voz, o exagero nos gestos prejudica o processo de comunicação.

 

Às vezes, as mãos se movimentam tanto diante da câmera de vídeo que chamam mais atenção do que a mensagem. Sem falar na sensação do telespectador de que a qualquer momento vai receber uma tapa no rosto. Quase tomei um banho d’água durante entrevista com um empresário que, entusiasmado com a oportunidade de falar na televisão, usou de todo seu conhecimento cênico e acabou derrubando o copo que estava sobre a bancada.

 

Outro erro comum é a repetição dos movimentos, principalmente da mão. Você já deve ter visto o horário eleitoral gratuito. Se não, aproveite a próxima eleição e se divirta diante da televisão —- se possível encontre um bom candidato para votar, também. Veja quantas vezes determinados candidatos fazem um mesmo gesto durante mensagens que não duram mais de 30 sgundos. Acreditam que assim são capazes de atrair a atenção do eleitor. Prometem mais educação e com a mão fechada dão um pequeno soco no ar. Prometem mais saúde e lá vem mais um soquinho. Prometem mais transporte e a cena de pugilismo se repete. Podiam trocar os socos pela fórmula para cumprir todas promessas.

 

A gesticulação — recurso não-verbal que pode dar ênfase à informação —- quando repetitiva provoca monotonia. A mesma sensação se tem quando a apresentação é feita de forma estática. A televisão, principalmente no jornalismo, demorou a aceitar movimentos naturais de seus apresentadores. Eram quase bonecos ventríloquos.

O excesso de gestos incomoda muita gente. O excesso de gestos repetitivos incomoda muito mais. O excesso de gestos contraditórios nem se fala. O aceno, a expressão facial, a entonação da voz têm de estar em concordância com a informação. Tente dizer não e sacudir a cabeça afirmativamente. Agora, faça o contrário. Diga sim e gire a cabeça de uma lado para o outro. É estranho, não é mesmo? Tem quem faça isso sem a menor dificuldade ou sem nenhum constrangimento. Se o gesto confirma a informação, esta se reforça. Se contradiz, a mensagem se perde. Não esqueça que o impacto da comunicação não-verbal sempre é mais forte do que a verbal quando feita de forma simultânea.

Há outros casos em que os meneios de cabeça, com o objetivo de marcar expressão ou fim de frases, se sobrepõem à informação, tal os excessos cometidos. Lembro de um apresentador de telejornal que, na busca de expressividade, piscava os olhos, mexia a cabeça, reforçava a dicção e acenava tanto que me provocava irritação. Senti-me —- por favor, falo como telespectador —- vingado quando o próprio ao usar de todos esses recursos para fazer uma pergunta relacionada ao susto que os empresários haviam tido por causa de uma medida do governo federal, causou tanta estranheza na comentarista de economia que esta não se conteve: “você é que me assusta assim”.

 

Por falar em meneio de cabeça. Tem jornalista que ainda insiste em balançar a mesma afirmativamente enquanto o entrevistado fala. Quer passar a impressão de que está atento ou entendendo tudo o que está sendo dito. Quem assiste tem a ideia de que o entrevistador está é concordando com o entrevistado. Postura que não condiz com a profissão. Se é para mostrar conhecimento do assunto, faça boas perguntas: é o melhor caminho.

 

Aproveito para chamar atenção de outra mania que toma conta da tela. Alguém espalhou por aí que apresentador de programa esportivo tem de estar feliz. Com cara de quem assistiu ao time dele ser campeão pela primeira vez. Moral da história: tem uns que fazem um esforço danado para aparentar simpatia. Por favor, não estou aqui defendendo a cara fechada. Gosto tanto de um sorriso que já dediquei um capítulo anterior a favor dele. Mas em excesso, torna a apresentação falsa. “Do que é que este moço está rindo, se meu time perdeu hoje?”, se pergunta o telespectador.

Você se comunica com muito maior intensidade do que imagina. À frente da câmera de vídeo, esta situação ganha mais destaque, ainda. As lentes ampliam nossas qualidades, com certeza, mas estão prontas para revelar todos nossos cacoetes, afetações e presunções. Pessoas extramemente amáveis no dia-a-dia se transformam em arrogantes na televisão. Têm a imagem distorcida por pequenos detalhes como o de falar olhando acima da lente ou com o queixo erguido —- o que é traduzido por “nariz empinado” —- simplesmente porque a câmera não está posicionada na altura do seu rosto.

Outro erro capaz de mudar a sua imagem é a postura. Curvado demais para a frente para a ideia de agressividade. Atirado demais para trás, de desinteresse. Há situações em que postura demais também prejudica.

 

Um ex-prefeito de São Paulo, adepto do yoga e outros esportes mais relacionados à classe política, que tendem a resultar em rombos olímpicos nas contas públicas, costumava dar entrevistas sempre com o olhar neutro, as duas mãos à frente apenas com a ponta dos dedos se tocando em formato de triângulo e os pés separados o suficiente para manter uma postura de equilíbrio. Deve ter lido, antes de assumir o cargo, todos os manuais de sobrevivência para entrevistados em situação delicada que se encontram nas livrarias e decidiu aplicá-los de uma só vez. Um esforço tão evidente e exagerado que era lido pelos repórteres que o acompanhavam como sinal de intranquilidade. Sempre tive vontade de dizer a ele quando o enxergava estático diante de uma câmera: “relaxa prefeito, relaxa e fala”.

 

Expressividade é preciso. Exagero, não. O risco é que o comportamento exacerbado atinja a imagem de quem comunica. O público deixa de acreditar, perde a fé.
 

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora, você tem acesso, na ordem decrescente, clicando aqui

Agora é lei: informação pública tem de ser simples, direta e objetiva em SP

 

 

writing-1209121_960_720

 

Faz pouco tempo, precisei migrar meu plano de saúde. Coisa aparentemente simples. Escolhe um pacote, decide o que quer pagar, inclui os dependentes e … a dor de cabeça começa. Tanto a plataforma do plano que pretendia deixar quanto a do plano que buscava me associar, eram inacessíveis. E o problema não era tecnológico. Era tecnicista. Quase impossível entender o que era solicitado, devido a complexidade do linguajar usado na prestação de serviço.

 

Falta de clareza não é privilégio de plano de saúde. É assim no serviço público, no banco privado, no setor de imóveis, no mundo corporativo … Somos reféns de uma cultura baseada em leis e regras que têm sua gramática própria, feita por “gente do campo jurídico” —- por motivos óbvios — e que a “gente do atendimento ao cliente” reproduz sem dó.

 

Quer um exemplo? Aqui em São Paulo se por acaso você deixou de pagar em dia uma das parcelas do IPTU, vai receber em casa uma cartinha com o seguinte texto:

“Comunicamos a existência de pendência(s) relativa(s) a débito(s) de IPTU que serão inscritas no CADIN após 30 dias contados da data de expedição do presente comunicado. Necessária a quitação de todas as parcelas vencidas no momento da pretendida regularização. O pagamento excluirá a pendência do CADIN Municipal, automaticamente após a conciliação bancária e baixa.”

A “pretendida” mensagem está errada já na primeira frase.

 

Em lugar de informar, ameaça. Dá a entender que o objetivo é inscrever você no CADIN (seja lá onde for esse negócio), quando a ideia é dizer que você precisa colocar as contas em dia. Faz firulas de pouca utilidade ao usar expressões como “presente comunicado”, “pretendida regularização” e “conciliação bancária”. Deixa de exercitar o que costumo chamar de mantra da boa comunicação: ser simples, direto e objetivo.

 

Screen Shot 2020-03-05 at 21.30.31

 

Há alguns anos, o departamento de bioética do Hospital das Clínicas de Porto Alegre debruçou-se no vocabulário dos diagnósticos médicos e exames clínicos e identificou que para entender o que estava escrito, as pessoas precisavam ter, no mínimo, o ensino médio completo.

 

Para ter ideia: três em cada 10 brasileiros, de 15 a 64 anos, são analfabetos funcionais, de acordo com ONG Ação Educativa e o Instituto Paulo Montenegro. Se pegar o caso aqui de São Paulo, tem pesquisa que mostra que um em cada cinco pessoas não tem o ensino fundamental completo. Ou seja, a maioria dos pacientes deixava as consultas sem saber exatamente o mal que tinha.

 

Com treinamento e esforço dos profissionais de saúde, decidiu-se implantar regras para tornar as informações mais claras. Deram preferência às palavras mais curtas, reduzindo o uso de polissílabas; diminuíram o tamanho das frases; e privilegiaram o vocabulário do cotidiano em detrimento dos jargões médicos. Cefaleia virou dor de cabeça. Dispepsia virou má-digestão. Resultado: a confiança no tratamento, aumentou em até 11%.

 

Para deixar as coisas mais claras, a partir de agora, falar simples é lei na cidade de São Paulo — ao menos nos órgãos municipais, como prefeitura, secretarias, câmara de vereadores e tribunal de contas. De autoria do vereador Daniel Annenberg (PSDB), a lei da Linguagem Simples entra em vigor nesta sexta-feira para promover uma mudança na forma de a cidade se comunicar com seus cidadãos:

“Hoje existe uma enorme distância entre a complexidade da escrita que orienta a população e a capacidade de compreensão da maioria dessas pessoas … e o primeiro passo para enfrentar esse problema é adotar uma linguagem simples e clara, que permita ao cidadão entender e ter certeza sobre a informação que o poder público deseja transmitir.”

Nos Estados Unidos, na Colômbia e, consta, no estado do Ceará já se tem regras com a intenção de tornar a comunicação oficial mais simples, porque isso aumenta a eficiência e a eficácia na gestão pública, torna as regras mais transparentes e reduz a desigualdade —- o cidadão, independentemente da sua condição socioeconômica e educacional, tem mais acesso à informação, e resolve seus problemas com maior facilidade.

 

Na capital paulista, a nova lei determina que a comunicação simples será realizada por meio de um conjunto de práticas, instrumentos e sinais que facilite a compreensão dos textos. As ideias, palavras, frases e estrutura devem ser organizadas para que a informação esteja acessível ao cidadão, que ele entenda o que está sendo dito pelo servidor e pelo serviço públicos.

 

A informação pública, por lei, tem de ter:

 

  •  linguagem respeitosa
  • palavras comuns
  • termos não discriminatórios
  • linguagem adequada para as pessoas com deficiência
  • explicar termos técnicos quando necessários
  • evitar siglas desconhecidas

Se cumprida a lei, aquela cartinha com cobrança do IPTU, a partir de agora terá de chegar a sua casa com um texto bem mais simples, direto e objetivo.

 

Algo do tipo:

“Você tem parcelas do IPTU que precisam ser pagas em até 30 dias da data acima. Se isso não for feito, você entrará no CADIN e depois na Dívida Ativa do Município.”

Simples, direto e objetivo!

 

Em tempo: Cadin é o Cadastro Informativo de Créditos não quitados do setor público, um banco de dados que registra pessoas físicas e jurídicas que tenham dívidas em órgãos e entidades federais, estaduais e municipais. É a lista suja do serviço público

Americano que é sucesso no You Tube aprende português ouvindo a CBN

 

 

 

Você fala no rádio e influencia pessoas. Seja pela informação que pode ser transformadora seja pelo que ela aprende ao ouvi-lo: vocabulário rico, palavras pronunciadas corretamente, respeito as regras gramaticais. De onde se percebe que nosso trabalho diário à frente do microfone é pedagógico. E exige enorme cuidado. Precisão. Atenção no que dizemos.

 

Pensei sobre o assunto ao ouvir o youtuber Gavin Roy, americano nativo, apaixonado pela língua portuguesa. Ele mantém o canal Small Advantages no You Tube e tem mais de 980 mil inscritos, onde ensina brasileiros a falar inglês. Dá dicas de pronúncia, sugere livros e conta curiosidades dos Estados Unidos.

 

O que ele tem a ver com a linguagem que usamos no rádio?

 

No trecho da entrevista destacado neste post, que foi ao ar no canal AskJack, também no You Tube, ele conta que ouvia a rádio CBN antes de saber falar português: “queria saber como era o som do português em comparação com o espanhol”, diz com todo sotaque americano que lhe é de direito.

 

Pensar sobre a responsabilidade que temos na formação da língua e na educação das pessoas é fundamental em um momento no qual muita gente confunde informalidade com ignorância. Acredita que falar errado, abrir mão de regras gramaticais, viciar-se em jargões e gírias aproxima você do cidadão. Fazer isso é um desserviço à sociedade.

 

O importante é que se fale de maneira que as pessoa entendam o recado e respeitando a língua portuguesa, que aceita muito bem a forma coloquial, como nosso colega professor Pasquale Ciro Neto sempre reforça em seus comentários no “Nossa língua de todo dia”, no Estúdio CBN.

 

Eu sempre me esforcei em tratar a língua portuguesa com carinho, mesmo que, às vezes, pelo improviso que a fala no rádio nos exige, ocorram tropeços. Identificados, corrigi-se. O ouvinte merece.

Quintanares: De gramática e de linguagem

 

“Quintanares” foi o nome de programa apresentado na Rádio Guaíba de Porto Alegre, no qual a poesia de Mário Quintana era interpretada por Milton Ferretti Jung, que dispensa apresentações a você, caro e raro leitor deste Blog. Nos primórdios deste blog – refiro-me ao ano de 2008 -, reproduzimos aqui algumas dessas gravações. Uma busca no sistema disponível vai lhe remeter àqueles posts, mas, devido as diferentes migrações feitas, de uma plataforma para outra, os arquivos e áudio se perderam.

 

Neste domingo, retomo a publicação do programa com a devida autorização do seu apresentador, é lógico.

 

Levante o som do seu computador, clique no link a seguir e se delicie com Mário Quintana na voz de Milton Ferretti Jung:

 


Mario Quintana: De Gramática e de Linguagem E havia uma…

 

De Gramática e de Linguagem

 

E havia uma gramática que dizia assim:
“Substantivo (concreto) é tudo quanto indica
Pessoa, animal ou cousa: João, sabiá, caneta”.
Eu gosto das cousas. As cousas sim !…
As pessoas atrapalham. Estão em toda parte. Multiplicam-se em excesso.

 

As cousas são quietas. Bastam-se. Não se metem com ninguém.
Uma pedra. Um armário. Um ovo, nem sempre,
Ovo pode estar choco: é inquietante…)
As cousas vivem metidas com as suas cousas.
E não exigem nada.
Apenas que não as tirem do lugar onde estão.
E João pode neste mesmo instante vir bater à nossa porta.
Para quê? Não importa: João vem!
E há de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão,
Amigo ou adverso…João só será definitivo
Quando esticar a canela. Morre, João…
Mas o bom mesmo, são os adjetivos,
Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.
Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. luminoso.
Sonoro. Lento. Eu sonho
Com uma linguagem composta unicamente de adjetivos
Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.
Ainda mais:
Eu sonho com um poema
Cujas palavras sumarentas escorram
Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,
Um poema que te mate de amor
Antes mesmo que tu saibas o misterioso sentido:
Basta provares o seu gosto…

No jornalismo, você procura ouvir quem sabe mais do que você, ensina Zuenir Ventura

 

Zuenir Ventura na Bienal

 

A eleição de Zuenir Ventura para a Academia Brasileira de Letras, semana passada, me permitiu duas alegrias. A primeira de ver um dos meus escritores favoritos elevado à condição de imortal. De 1968:o ano que não terminou à Cidade Partida, passando por Sagrada Família e Inveja:Mal Secreto, todos seus livros me conquistaram não apenas pela história contada, mas pela forma como os fatos são descritos, a precisão na informação e a riqueza do texto. Gosto entre tantas outras coisas da definição divertida que tem para jornalista – um cara que não sabe nada do que fala, mas conhece quem sabe. Não é bem esta frase, mas a ideia é a mesma. Se quiser copiá-la ipsis litteris não deixe de ler Inveja:Mal Secreto, livro que integra a coleção sobre os sete pecados capitais. Aproveite e compre Gula:O Clube dos Anjos, de Luis Fernando Veríssimo, que é da mesma série. São deliciosos. Coincidentemente (ou não), ambos são jornalistas.

 

Antes que me perca pelo deslumbramento com o autor, vou logo à segunda alegria: a possibilidade de entrevistá-lo, no quadro Time das Oito – Sexta Especial, do Jornal da CBN. Na véspera, Zuenir havia enfrentado uma maratona de cumprimentos que mexeu com seu coração a ponto de obrigá-lo a fazer exames à noite em um hospital, quando descobriu que estava firme e forte para encarar a imortalidade recebida aos 83 anos. Um susto que acabou em pizza e vinho em um restaurante carioca, segundo nos contou. Na sexta-feira pela manhã, atendeu nossa ligação pouco antes de sair para a caminhada matinal na praia e se prontificou a atrasar sua programação para conversar conosco no ar. Zuenir é daqueles entrevistados que deixa o entrevistador à vontade, apesar de seu alto saber. Quem ouve, pensa que são amigos conversando, quando, na realidade, minha intimidade com ele se dá pelos livros que guardo carinhosamente na biblioteca.

 

Dos muitos assuntos que o pouco tempo me permitia abordar, tive a curiosidade de saber a opinião dele sobre o texto jornalístico, preocupação que tenho especialmente quando se refere ao que escrevemos para ser lido no rádio. Zuenir, claro, se ateve mais ao texto impresso, pois esta é a sua origem, e alertou para o que chama de processo perigoso que estamos enfrentando devido a influência muito grande da narrativa da internet, que muda a forma de as pessoas se expressarem devido a velocidade da escrita, que faz desaparecer vogais e provoca uma redução da linguagem. Apesar do medo de que isso contamine o texto, ressalta que nunca se leu nem se escreveu tanto como agora: “e você só aprende a escrever, escrevendo”.

 

Como todo entrevistado inteligente, não se resume a pergunta do entrevistador, pois sabe conduzir a conversa para os temas que entende ser interessante ao público. Assim, ao terminar de falar da influência da internet no texto jornalístico, fez a ponte para a influência da internet no jornalismo. Para ele, as pessoas hoje registram um fato e o publicam em blogs e redes sociais acreditando que estão, assim, praticando o jornalismo. “Jornalismo é apuração, investigação, é usar o saber do outro (…) no jornalismo você estuda. Quando você faz uma matéria tem uma hierarquia do saber, você se informa sobre a matéria, procura ouvir quem sabe mais do que você”.

 

Poucos sabem tanto sobre jornalismo quanto Zuenir Ventura, o imortal.

 


Ouça a entrevista com Zuenir Ventura, que foi ao ar no Jornal da CBN, no dia 31 de outubro de 2014

 


A foto deste post é do álbum de Julio César Mulatinho, no Flickr

Em novo livro, Ferraretto diz que o rádio “sintonizado com o presente, prepara-se para o futuro”

 

image006

 

Além de ter nascido no Rio Grande do Sul, compartilho com o professor Ferraretto o mesmo gosto pelo rádio. Ele, porém, vai muito além, pois é profundo pesquisador do veículo e autor de várias obras sobre o tema. Está lançando Rádio – Teoria e prática (Editora Summus) que, com certeza, contribuirá para entendermos mais sobre as estratégias necessárias para manter este meio de comunicação atualizado com as demandas da sociedade. Por confiar no que ele faz e compartilhar de muitas de suas ideias, reproduzo a seguir o material de divulgação do livro e espero ter, em breve, o prazer da leitura de mais este trabalho com a assinatura do mestre Ferraretto:

 

O professor e jornalista Luiz Artur Ferraretto apresenta no livro Rádio – Teoria e prática os principais padrões para a produção de conteúdo em um meio que se adapta às novas tecnologias. Do que é o rádio hoje, passando por uma detalhada explanação a respeito da linguagem do meio, ao planejamento da programação e à produção de conteúdos, a obra aborda temas como locução, sonoplastia, redação jornalística, produção de conteúdo, reportagens e entrevistas.

 

O rádio é o meio de comunicação mais popular do Brasil. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), está presente em 88% dos domicílios brasileiros. Além disso, de acordo com a Agência Nacional de Telecomunicações, 267 milhões de aparelhos celulares constituem um receptor em potencial e 36% dos internautas brasileiros ouvem rádio em tempo real enquanto estão conectados, segundo o Comitê Gestor da Internet no Brasil. Mas como produzir conteúdo de qualidade para esse meio numa era de transformações tecnológicas cada vez mais velozes? No livro Rádio – Teoria e prática (272 p., R$ 78,10), lançamento da Summus Editorial, o professor universitário e jornalista Luiz Artur Ferraretto reúne anos de pesquisa e de atuação profissional voltada para o rádio. Dicas de redação, gráficos e ilustrações tornam a obra especial para jornalistas, radialistas, publicitários, profissionais de áreas afins e estudantes desses campos.

 

Trata-se da mais completa e atualizada obra produzida no país a respeito de rádio. Sem descuidar dos conceitos básicos e das transformações provocadas, em especial, pela internet e pela telefonia celular, o autor apresenta em linguagem clara e didática as principais informações para que o profissional – seja ele recém-formado ou não – enfrente o cotidiano de uma emissora de rádio. “Neste século 21 de tantas tecnologias e, por vezes, de poucas humanidades, o rádio constitui-se por natureza, e cada vez mais, em um instrumento de diálogo, atento às demandas do público e cioso por dizer o que as pessoas necessitam e desejam ouvir em seu dia a dia. Tudo de forma muito simples, clara, direta e objetiva”, diz o professor.

 

Partindo do funcionamento das emissoras nos dias de hoje e passando por uma detalhada explanação a respeito da linguagem utilizada no meio, o livro aborda ainda o planejamento da programação e a produção de conteúdos para que o profissional possa enfrentar o cotidiano de uma emissora de rádio, considerando ainda novos protagonistas, como web rádios e podcasters. É uma ferramenta de trabalho com informações sobre apresentação e locução, sonoplastia, redação jornalística, produção de conteúdo falado ou musical, reportagens, entrevistas, opinião, cobertura esportiva, documentários, programas especiais, spots, jingles e muito mais.

 

“É uma obra para acompanhar estudantes e profissionais em seu dia a dia, aliás, como o próprio rádio faz em relação aos ouvintes”, diz o autor. Em sua avalição, as novas tecnologias, abordagens conceituais e demandas do público surgidas e/ou consolidadas na primeira década deste século fizeram que o rádio se modificasse em alguns aspectos, embora suas características básicas tenham sido mantidas. Porém, o cenário de atuação profissional de fato se alterou e as técnicas empregadas evoluíram.

 

Sem perder de vista a ímpar e rica trajetória das emissoras brasileiras, Ferraretto parte do pressuposto de que o rádio segue tendo importância e vigor nessa nova era. Adaptado aos tempos modernos, o meio ocupa um espaço valioso no cotidiano e no imaginário de milhões de ouvintes, que têm nele um insubstituível companheiro. “A era do rádio continua sendo a de cada minuto em que ocorre a transmissão”, complementa.

 

Com o objetivo de ensinar novas gerações de profissionais, é exatamente sobre isso de que trata o livro. “Do bom rádio, aquele que, seja no velho aparelhinho transistorizado, na internet ou no celular, acompanha o ouvinte, fornece-lhe informação, proporciona entretenimento, conversa. Do rádio que se adapta, se renova e segue ocupando um lugar especial. E que, sintonizado com o presente, prepara-se para o futuro”, conclui Ferraretto.

 

O autor

 

Luiz Artur Ferraretto é professor da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre. Formado em Jornalismo pela mesma instituição, onde também concluiu o mestrado e o doutorado, integra o Grupo de Rádio e Mídia Sonora da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). Com a jornalista Elisa Kopplin Ferraretto, escreveu Assessoria de imprensa – Teoria e prática (Summus, 2009). Autor de diversos livros e colaborador de inúmeras antologias, publica artigos em revistas científicas da área. Concentra suas pesquisas na história e no futuro dos meios de comunicação, em especial analisando a indústria de radiodifusão sonora.

De língua e linguagem

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Falar uma língua pode ser comparado a compor uma sinfonia, ou queimar uma oportunidade de fazê-lo. É ser capaz de decodificar vinte e seis sinais gráficos, e usá-los para pensar, escrever, sonhar, falar, como notas musicais que compõem

 

sinfonia
sonata
samba rasgado
serenata
um recital de fundo de quintal
samba de uma nota só
uma canção de Natal

 

A partir das letras do alfabeto, é possível formar um mundaréu de palavras que se põe à disposição para ser usado como cada um quiser. Na língua que quiser.

 

Tem as de som labial, nasal, gutural, dental, e outros, emitidos pelo nosso aparelho fonador, isto é, a orquestra formada de língua, dentes, cordas vocais, ar, lábios, nariz, traquéia, caixa-craniana, pulmão, diafragma e instrumentos coadjuvantes, como olhar, postura, expressão facial e corporal de todo tipo.

 

palavra
sociedade
diversidade
riqueza
poder
cada uma
como puder
ser

 

Mas mesmo com enorme poder e infindável riqueza, língua é só a base da comunicação de cada comunidade que cobre o planeta Terra. Ao menos a Terra, pelo que sabemos.

 

Só isso. Alicerce. O que você construir terá a tua cara, teu jeito, tua ginga. Mostrará quem você é e de onde você vem. E a essa construção se dá o nome de linguagem, que é a forma como você se expressa. É um instrumento de contato com o mundo à volta.

 

Espero que possamos adornar a linguagem com o luxo de compreensão, objetividade, doçura e gentileza, e desvesti-la de certeza.

 

Espero que possamos temperar a linguagem com afeto e incentivo, e desarmá-la de palavrão e crítica maldosa.

 

Espero que possamos respeitar a expressão do outro

 

Meu desejo é o de podermos lapidar a linguagem pensada, sonhada, bradada, sussurrada, escrita ou gravada.

 

Assim mudamos e desarmamos o mundo inteiro.

 

Simplesmente mudando a linguagem.

 

Ou não…

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

A linguagem do rádio AM

 

No mês em que comemoramos os 90 anos do rádio no Brasil, fui entrevistado por Saulo de Assis, graduado em comunicação social pela Unimep, para trabalho que desenvolve sobre a linguagem do rádio AM. Divido com você o que penso sobre o assunto, a partir das perguntas formuladas pelo Saulo:

 

– A linguagem jornalística das rádios AM garante a médio/longo prazo a fidelização do público? A linguagem mudou nas últimas décadas para manter audiência e/ou atrair novos públicos? Quais as mudanças?

 

A linguagem do rádio somada ao seu conteúdo é que fidelizam o público. Percebe-se, nas últimas décadas, a popularização desta linguagem provocada pela mudança de perfil do público AM, assim como também se identifica a vulgarização no texto radiofônico, contaminado, cada vez mais, pela linguagem escrita. Esquece-se, o que nos ensinou o jornalista catalão Ivan Tubau , do Departamento de Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade Autônoma de Barcelona, que ao escrever para quem ouve, se deve escrever como quem fala. Teimamos em reproduzir textos de mídias impressas, redigidos para quem lê.

 

– A linguagem empregada no radiojornalismo nos dias de hoje nas emissoras AM atrai os jovens? Se não, por quê?

 

A linguagem empregada no radiojornalismo, pelos motivos que apontei na resposta anterior, não me parece ser o maior atrativo para qualquer dos públicos, seja jovem ou não.

 

Esta questão, porém, me permite abordar o aspecto educativo e de formação que o rádio tem em diferentes camadas da sociedade brasileira. Ao desenvolvermos o conteúdo e a forma desta programação temos de estar ciente deste papel. No tocante a linguagem, por exemplo, é claro que devemos estar com os ouvidos abertos ao que as pessoas dizem, a forma como dialogam e as expressões que usam. Temos de ser capazes de ouvir este rumor popular, esta linguagem falada pelo nosso público, levá-la para dentro da redação, limpá-la e entregá-la de volta levemente melhorada a ponto dessas pessoas a receberem de volta reconhecendo-a como sua.

 

– A diferença de qualidade de áudio do AM para o FM é um fator determinante para o declínio da audiência do AM?

 

A difícil recepção de som das emissoras que transmitem em AM, principalmente nos grandes aglomerados urbanos, tem afastado cada vez mais seu público que busca informações em outras fontes ou nas emissoras em frequência modulada.

 

– Em que medida o processo de digitalização de rádios afeta as emissoras AM?

 

Assim como a internet foi um novo oxigênio para o rádio, a digitalização o será para as emissoras que transmitem unicamente em AM. Porém, o modelo de digitalização a ser implantado terá de ser muito bem estudado, a medida que o alto custo para a recepção destas transmissões poderá torná-lo inacessível ao público do rádio AM, formado por classes sociais mais populares, como a própria mediação de audiência nos mostra.

 

– O sistema de rádio AM corre o risco de ser extinto? Por quê?

 

A enorme dimensão e as diferenças sociais e regionais do país podem levar a sobrevivência do rádio AM, nos moldes de hoje, por muitas décadas ainda. Porém, é evidente a necessidade de uma modernização na transmissão de seu sinal e o apuro maior na qualidade do conteúdo oferecido a um público que tende, pelo maior acesso às informações, ser cada vez mais exigente.

 

– Na CBN, o que está sendo feito para atrair jovens e manter a linguagem acessível e atraente a esse público?

 

Atenção ao que dizem e pensam; percepção do que necessitam, mesmo que eles ainda não tenham identificado estas demandas; adaptação dos temas discutidos na programação; e ocupação dos espaços que hoje usam para consumir informação. São estratégias usadas, nem sempre com êxito, no intuito de atrair os jovens que, por chegarem ao mercado de trabalho, precisam construir novas fontes de informação. Este é o enorme desafio que a rádio CBN tem pela frente, assim como todas as demais empresas que atuam na radiodifusão. Temos de estar cientes de que as novas gerações estão consumindo notícias em outros formatos, e precisamos colocar nossos produtos nestes formatos, por isso a internet é um meio a ser explorado pelo rádio.

 

E se temos realmente interesse em formar estes jovens, temos a obrigação de prezar a boa língua portuguesa. De forma simples, clara e objetiva, como pede a línguagem do rádio.