Os Flechas, a evolução dos Dinossauros

 

Da disposição das poltronas que ofereciam mais conforto aos passageiros até a criação de um dialeto para as estradas brasileiras, os modelos que vieram na linha dos Dinossauros também deixaram suas marcas no transporte rodoviário. Conheça algumas dessas novidades na segunda reportagem desta série.

Dinossauro 4703 x Cometa Flecha Azul 5518

Por Adamo Bazani

Os Dinossauros, apesar do apelido, eram modelos de ônibus mais leves, menos ‘beberrões’ e com motor que aproveitava melhor sua potência. Tinham boa fama nas estradas e excelente apelo de marketing. Isto tudo somado a relação custo-benefício fizeram com que a Cometa decidisse seguir em frente com a linha.

Foi, então, que em 16 de março de 1983, a empresa lançou a fabricante exclusiva para os modelos de ônibus duralumínio, a CMA – Companhia Manufatureira Auxiliar. Nascia a era dos Flechas, já que, comercialmente, por questões de licença, a empresa não podia continuar com o nome Dinossauro, além de dar a linha a ideia de evolução.

Graças a parceria com a Scania, a Cometa trazia nos Flechas inovações que apenas anos depois seriam vistas nos demais ônibus brasileiros. Um exemplo: o Flecha Azul Automático (nome dado por causa da faixinha azul sobre a carroceria aluminizada nos ônibus). O modelo, sobre chassi Scania BR 116, prefixo 5223, trazia uma caixa de transmissão eletroautomática.

Em 1985, foi lançado o Flecha Azul II. Era 20 centímetros mais alto que a versão anterior e todas as poltronas estavam dispostas de modo a não ficarem na coluna divisória das janelas. (Tem modelo de ônibus até hoje em quem o passageiro, ao olhar para o lado enxerga apenas um pedaço de lata da coluna). Em 1987, saiu uma série nova de Flecha Azul II com quatro, em vez de três lanternas traseiras de cada lado. A mudança ofereceu maior visibilidade aos demais motoristas e se transformou em uma espécie de sistema de comunicação entre eles. Vitor Matos, motorista que atua em transporte de estudantes em Minas Gerais atualmente, explicou que a forma com a qual o condutor acionava as oito lanternas transmitia uma determinada mensagem. Dependendo das “piscadas” da lanterna, ele indicava que queria ultrapassar, que poderia ou não ser ultrapassado, que seguiria em velocidade alta ou reduzida, que havia perigo ou policiamento na pista. “Era o dialeto das estradas”

Neste vídeo, feito pela Comunidade de Admiradores deste tipo de ônibus, é possível conferir o jogo de luzes de um Flecha Azul.

Em 1993, um Flecha Azul II saiu da fábrica com mais uma particularidade. Uma caixa de câmbio eletropneumática mais moderna, a GR 801 CS,  conhecida como Confort Shift, que era de série na Suécia. Naquela época, a maior frota da montadora sueca não estava na Suécia, estava no Brasil, graças a Cometa e seus Flechas.

Ainda em 1993, surgiu o flecha Azul III com mais uma preocupação para o passageiro. O espaço para o braço do passageiro foi projetado para que ele não tivesse que mexer muito o corpo, alongando-se para fechar as janelas.

O Flecha Azul IV nasceu em 1995, o modelo mais caro da linha até então. Introduziu-se no mercado um modelo de ônibus com rodas totalmente de alumínio. A porta do veículo ganhou mais uma janela, desta vez perto do degrau, facilitando a visão do motorista.

O ano de 1996 foi o mais rico para a série de ônibus exclusivos, que ainda despertavam a atenção e revelavam inovações tecnológicas para o mercado. Foram lançados o Flecha Azul V e o Flecha Azul VI, este com ar condicionado de controle eletrônico. Enquanto o Flecha Azul VII começou a rodar com poltronas mais modernas, ergonômicas e reclináveis com pistão a gás.

1998 foi o ano de fabricação do último Flecha, o VIII, que acompanhava a série 4 de chassis da Scania, com painéis, resfriamento de motor e relação peso potência mais eficiente ainda. A saga fabril dos Flechas termina em 1999, com a fabricação dos dois últimos ônibus que levaram os prefixos 7455 e 7511.

O fim da evolução se deu por questões administrativas. Em 2000, a CMA lançou um modelo diferente dos Flechas, o CMA Cometa. Ficou conhecido no mercado comoEstrelão pela enorme estrela que ostentava na pintura. O veículo seguiu os padrões americanos, com os rebites na lataria dando impressão de robustez, mas sem os frisos laterais e a tradicional “caída” no teto na parte dianteira. Diferentemente dos Flechas, que eram de dois eixos, o Estrelão era tribus. É que o mercado brasileiro de rodoviários havia popularizado os modelos de três eixos, e a CMA não poderia ficar para trás.

Em dezembro de 2001, o grupo JCA comprou a Viação Cometa e não assumiu integralmente a CMA, a produtora de carrocerias da Viação. A sigla JCA se remete ao nome do fundador, Jelson da Costa Antunes, que começou a atuar no ramo de transportes de passageiros em 1948, no Rio de Janeiro, com a empresa 1001. A CMA, sem a parceria da Cometa, ainda tentou sobreviver no mercado de ônibus fornecendo veículos para outras empresas, como a Breda, em 2003, mas não resistiu.

Por lei, as empresas automobilísticas são obrigadas a fornecer peças de reposição por 10 anos após o fim da produção de um modelo. Como os Flechas, veículos em série da CMA foram fabricados até 1999, em 17 de junho de 2009, a CMA fez suas últimas peças, passando o encargo para a própria Viação Cometa.

Mesmo superados por modelos mais novos da indústria nacional, os Dinossauros e Flechas aindam despertam paixão, interesse, olhares nas estradas e mostram que são bons de briga. Relógios, camisetas, fotos e miniaturas destes modelos são peças obrigatórias nas coleções de busólogos. A admiração também pode ser medida pelo tamanho da memória digital que você encontra na internet. São blogs, comunidades em redes sociais e sites que preservam a história destes ícones das estradas brasileiras.

Leia aqui a primeira reportagem da série sobre os Dinossauros e Flechas.

Adamo Bazano é repórter da CBN, busólogo e, lógico, mantém uma coleção dedicada aos Dinossauros e Flechas.

6 comentários sobre “Os Flechas, a evolução dos Dinossauros

  1. Com certeza vão deixar saudades, mas como eu disse no comentário da semana passada, ao olhar para as plataformas de embarque na rodoviária do Tietê, e não nos deparamos com os “Ônibus da Cometa”, parece que falta alguma coisa.

    Podem mudar o modelo dos ônibus, subirem mais um andar, colocarem televisores de LED entre outras coisas, para garantir o conforto dos passageiros.

    Mas o espírito da viagem e do estradão, com toda certeza estão nas ligas de alumínio dos Flechas.

  2. Faço minhas as palavras do Daniel Aveiro! Concordo em gênero, número e grau!

    Espetacular e impressionante, pra dizer o mínimo, esse trabalho de pesquisa que o Adamo vem fazendo há alguns anos! O acervo fotográfico é de uma riqueza monstruosa! Parabéns!!

  3. Uma coisa é certa a Viação Cometa sempre estará em nossas memórias através das suas cores e modelos exclusivos de ônibus como os Dinossauros e os Flechas, é interessante perceber que esses modelos sempre fizeram parte do imaginário das pessoas, pois lembro-me de quando eu era criança e ia viajar e via aqueles imponentes e lindos Dinos, confesso que dava raiva de não poder viajar neles, o dia que fiz uma via para BH num quase tive um torço de tanta emoção, enfim parabens Adamo pela brilhante matéria.

  4. É, o tempo é cruel… outrora os Flechas eram os “reis da Estrada”, não tinha pra ninguém. Flecha era sinônimo de Cometa.Rapidez e velocidade era sinônimo de Flecha Azul. Aquele ronco de 113 é inesquecível. Ainda mais nos Flechas, que tinha a carroceria pelo menos 30% mais leve que os convencionais. Esse vídeo que o Adamo colocou foi feito na BBF em 2007, onde foi realizado o PRIMEIRO PASSEIO DE FLECHA AZUL ORIGINAL PREFIXO 7163 PELA COMUNIDADE DO ORKUT.Eu participei deste pioneiro passeio. Eu não tinha noção do que era esse movimento de “apaixonados pelo ônibus fabricado pela Cometa”. Hoje eu sei.Eu pensava que só eu era apaixonado por um Flecha. Me enganei , e muito. Ainda hoje, rezamos para que os Flechas perpetuem por um bom tempo na Cometa. Flecha a 130 na Bandeirantes era a coisa mais normal. Saudades dos tempos da Viação Cometa S/A

  5. Como uma pessoa que acompanhou a Cometa entre 1982 até hoje, e consequentemente um apaixonado pela VIAÇÃO COMETA S/A. posso dizer que a maioria das pessoas tinha como a viagem em onibus rodoviario apenas o conceito de serem transportadas de uma origem a um destino porque na sua totalidade são todas iguais. Agora viajar em um Onibus da Viação Cometa, era algo impar!!! existia todo um protocolo desde o momento do embarque até a chegada!! não há quem não tenha uma história para contar. Imaginem que na Liha de São Paulo-Belo Horizonte, a empresa mantinha 3 motoristas, sendo um apenas para fazer o embarque de passageiros, e conduzia o onibus até a garagem que ficava no caminho. ( E ao entrar naquela garagem era algo impressionante ver uma estrutura inigualável) Um motorista para conduzir o onibus até a garagem de Belo Horizonte, que também ficava no caminho (Onde antigamente faziam embarques e desembarques, o que tornou-se uma referencia e hoje não fazem mais) e por fim um motorista que fazia o desembarque dos passageiros. Infelizmente a evolução das empresas é algo indiscutivel e a Cometa foi obrigada a se adequar aos novos tempos, mas com isto perdeu alguns conceitos, que foram receita do seu sucesso e admiração. Embora hoje ela mantenha uma trajetória de crescimento, ao meu ver, ela se tornou uma empresa de transporte como qualquer outra e perdeu seu brilho, admiração e respeito conquistados ao longo dos anos. Imagine que uma empresa que foi a maior frotista mundial da Scania hoje usa chassis e motores Mercedes Benz. Não acho que a Mercedes Benz passa uma boa imagem ao nome Viação Cometa, razão pela qual em minhas viagens, prefiro utilizar outras empresas que atuem na mesma linha e/ou região

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