O caminho para um transporte melhor, em São Paulo

 

Um sistema rápido de transporte por ônibus, tecnologia avançada e limpa, serviço de embarque com maior agilidade, são os caminhos para melhorar o serviço aos passageiros. Na última série de reportagens em homenagem aos 456 anos de São Paulo, saiba para onde vão os ônibus

Foto de Ednei Lopes


Por Adamo Bazani

Para relacionar todos os fatos que marcaram a história do transporte coletivo na cidade de São Paulo seria necessário muito mais do que uma série de artigos como estes que escrevo desde segunda-feira. Sem contar que acontecimentos importantes não foram registrados.

Quando falo em fatos importantes não me refiro apenas aos de grande magnitude. Às vezes são pequenas alterações de itinerários, uma postura educada e cordial de motoristas e cobradores, um cuidado especial em relação a limpeza dos veículos para que os passageiros se sintam num ambiente melhor. Coisas simples, mas que deixam menos pesada a rotina de quem usa os transportes na cidade de São Paulo. Fatores que influenciam na qualidade de vida do passageiro que devido aos trajetos e trânsito complicados pode ficar mais tempo dentro do ônibus do que no próprio trabalho.

Apesar de ter melhorado em vários aspectos, numa análise fria e imparcial, o sistema de transportes por ônibus em São Paulo ainda deixa muito a desejar.

De acordo com a mais recente pesquisa Origem-Destino feita pelo Metrô de São Paulo, os principais problemas apontados pelos passageiros de ônibus são lotação, tempo das viagens, espera nos pontos, falta de locais de integração e preço das tarifas.

E um problema puxa o outro. O ônibus preso no congestionamento demora para passar, mais gente se acumula no ponto, a viagem é mais lenta e quando o ônibus chega lota rapidamente. A sensação de a tarifa ser cara (e realmente é elevada) aumenta pela deficiência do serviço prestado.

Boas referências encontramos em países que priorizam o transporte de passageiros, uma tendência que São Paulo deveria seguir se é que dentro de 20, 30 ou 40 anos pretenda ter a história dos ônibus lembrada pela evolução e não por um apanhado de problemas e retrocessos.

O Sistema BRT – Bus Rapid Transit – é aplicado em diversos países da Europa, América do Norte, Ásia e América do Sul. Há necessidade de se investir em corredores segregados de ônibus de verdade, como em Curitiba e no ABC Paulista pela Metra e EMTU, modelos que foram copiados na Colômbia, onde Bogotá melhorou a qualidade de vida dos cidadãos com o Transmilênio.

Busway, na França. Veículos com tecnologia limpa, corredor moderno e integração com o carro

O BRT de verdade não é um simples canteiro por onde passam ônibus ou um uma faixa pintada na rua, que provoca congestionamento e demora próximo dos pontos de parada. Há diferenciação física na via, estações de embarque, preferencialmente na altura do piso dos ônibus, pagamento antes da entrada no veículo e pontos de ultrapassagens para evitar o que ocorre, por exemplo, na Avenida Rebouças e Rua da Consolação.

A criação de um sistema rápido por corredores segregados chega a ser 10 vezes mais barata que a construção de uma linha de Metrô, além de a implementação ser mais rápida e interferir menos no cenário urbano.

Outra tendência que se aplica no mundo é a integração de modais, existente em São Paulo, mas ainda muito tímida. Ônibus deve complementar trem e metrô. Trem e metrô tem de rodar em parceria com o ônibus.

Alguns países vão muito mais além. É o caso do BusWay, na França. Lá, o corredor, com ônibus extremamente moderno, liga a região central de Nantes à zona sul da área metropolitana, em Verton. O corredor ainda integra ônibus e carro. Os passageiros vão com seus carros fora da tumultuada região central, deixam em estacionamentos próprios para os usuários e mais ao centro, onde há trânsito complicado, embarcam no BusWay. Quatro estações do sistema possuem o esquema “park-and-ride”, no quakl o motorista/passageiro deixa seu automóvel e segue a viagem de ônibus.

Isso poderia ser uma opção para São Paulo, se houvesse um sistema de ônibus que atraísse a classe média. O usuário sairia de um bairro mais distante de carro, o deixaria em local seguro com preço acessível e seguiria o trajeto de maneira mais rápida para área central ou bairros de negócios. Em Nantes, o “park and ride” ajudou na redução dos congestionamentos, principalmente em horário de pico.

As prefeituras que investiram no BRT priorizaram os recursos para os transportes públicos atraírem as diversas camadas sociais da população. O Transmilênio da Colômbia, por exemplo, é usado tanto pelo executivo da empresa, como pelo operário.

Facilidade de pagamento de passagens, eliminado o uso de dinheiro dentro do ônibus, também é uma tendência. Em São Paulo, há o Bilhete Único, um grande avanço. Mas ainda o passageiro tem de enfrentar filas nos postos de recarga ou em estabelecimentos comerciais. Em vários países, os cartões são recarregados pela internet, por débito bancário ou, simplesmente, usam o celular.

Veículos com tecnologia limpa estão na “moda”, tornam as cidades mais agradáveis, o ar menos poluído e ônibus menos barulhento. Na Europa o uso do diesel limpo, o biodiesel, já está numa fase bem mais avançada. Ônibus movido a etanol, com o álcool produzido no Brasil; motores a base de células de hidrogênio; e, claro os trólebus de rede aérea mais modernos do que os que conhecemos em São Paulo, onde começaram a rodar nos anos 1940. Lá foram andam nas vias segregadas, ao contrário daqui.

O metrô e o trem podem ser apresentados como melhor forma de transporte de massa. A verdade, porém, é que São Paulo vai de ônibus. E foi este tipo de transporte, o único capaz de acompanhar e contribuir para o desenvolvimento da cidade.

Adamo Bazani é repórter da CBN e busólogo

6 comentários sobre “O caminho para um transporte melhor, em São Paulo

  1. Como usuário do sistema de transporte público paulistano, sou mais um que vê vantagem infinita nos engarrafamentos ao ensardinhamento dos coletivos e carros sobre trilhos.
    Defender cegamente o transporte público na cidade de São Paulo é possível quando se faz trajetos curtos fora de horário de pico, driblando a saturação de todo o sistema, em boa parte resultante por falta de planejamento e investimento.
    Pago hoje por ônibus um valor de tarifa praticamente idêntico ao de trens e metrô e me pergunto: a higiene não pode ser a mesma, além do preço? E o conforto na forma de vias em bom estado, suspensões sem ruídos e limpeza no interior/exterior?
    Da mesma forma, onde está o mantra “trem com qualidade de metrô” cuja paridade há somente nas tarifas, mas não do nível de serviço? Basta fazer um comparativo entre a velocidade média de uma composição do metrô com a de trens da CPTM, um cálculo de quanto tempo se gasta para percorrer a mesma distância em cada um dos sistemas. Estes são uma tartaruga, por precariedade e falta de manutenção visível nas vias, o que implica na redução de velocidade máxima para prevenir descarrilamentos. Sem contar a compra de composições mais curtas, com intervalos longos, numa linha que pretensamente se direciona mais usuários, como a que liga Osasco ao Grajaú.
    Quanto aos ônibus, tenho sistematicamente feito reclamações de toda natureza, desde má postura dos operadores de ônibus, a falta de limpeza de coletivos, terminais etc. Já são quase 200 em menos de um ano: sujeira por falta de higienização (alguém já viu metrô encardido? Mas ônibus…), suspensão quebrada, iluminação interna e externa precária, motoristas e cobradores que permitem atuação de ambulantes etc. Poucas são as queixas que fogem de resposta padrão, que dirá em melhorias e correções concretas após muita insistência e repetidas queixas.
    Ganhar 20min após um tráfego pesado e massacrante parece interessante a lidar com o descaso e a falta de providências rápidas, consistentes e permanentes frente às reclamações que faço e ao que milhões sofrem diariamente de maneira passiva.

  2. Olá Manoel. Primeiramente, agradeçou muito seu comentário. O que o senhor falou é uma realidade. As pessoas hoje preferem ficar mais tempo nos congestionamentos pois, pelomenos, dentro dos carro, têm o conforto que não encontram nos ônibus. Pudemos observar ao longo das reportagens da série que os transportes por ônibus em São Paulo se desenvolveram muito, no entanto, aquém das necessidades básicas de conforto e agilidade. Mas discussões como a que o senhor porpôs são de fundamental importância para se começar a mudar o sistema. Tudo começa com discussão, diálogo, mas não pode parar nisso, tem de ir para medidas concretas. E o objetivo deste último capítulo da série é mostar que as mudanças são possíveis sim. Deixando a falta de vontade política de lado e o fato de muitos lucrarem com a péssima condição dos transportes, qual o motivo de os outros países terem um sistema de ônibus desenvolvido e integrado com a malha ferroviária e nós não termos esse direito? Umforte abraço, Adamo

  3. ola
    não sou usuario do sistema de são paulo , sou ususario do
    sistema de porto alegre ,
    aqui tambem quase não temos problema .
    temos o corredor de onibus dentro da cidade de porto alegre
    mas na região metropolitana temos alguns problemas
    tem uma empresa que ganhou o trofeu lata de sardinha .
    a defesa da empresa foi que ela segue religiosamente os
    horarios concedidos pelo orgão gestor , então as reclamações devem ser dirigidas ao orgão publico .
    se há super lotação é porque falta onibus , quem determinou
    os horarios a serem cumpridos ?
    é o orgão gestor .
    um abraço
    salomão

  4. Bom, gostei muito das matérias aqui apresentadas no Ponto de Ônibus.
    Sou de Campinas e vejo que não bastam corredores de ônibus, mas os corredores precisam ser eficientes, embasados num sistema de transporte integrado que seja rápido.
    Quando uma pessoa ganha de 10 a 15 minutos num deslocamento, isso pode significar um tempo a mais para dormir, para fazer mais coisas ou para dar mais atenção à família. Infelizmente muitos que insistem em andar de carro mesmo em deslocamentos pequenos não conseguem enxergar este ponto de vista e ainda defendem pontes e viadutos faraônicos, em detrimento daqueles que utilizam o transporte coletivo diariamente.

  5. Muito oportuna esta série protagonizada por nosso amigo Adamo Bazani Parabéns mais uma vez!
    Não é possível deixar de notar a predileção da administração de Gilberto Kassab pelo transporte individual em detrimento pelo coletivo,basta ver as obras da marginal que privilegiam mais pistas para CARROS e nehuma faixa expressa ou seletiva sequer para ônibus,além da falência dos sistemas de corredores de ônibus que se tornram ineficientes por falta de vontade política de modernização,pois exemplos não faltam.
    Contudo há um tímido avanço na questão de frota,com ônibus de piso baixo.
    De outro lado o Governo do Estado COM SUA ALARDEADA COMPETÊNCIA ADMINISTRATIVA DEIXA A EMTU AS MOSCAS… presa a um sistema de Consórcios que na verdade são Cartéis que fazem o que querem no transporte metropolitano,haja visto a situação da Intervias que matem ônibus velhos e sujos na ligação entre o ABC E A ESTAÇÃO SAÚDE DO METRÔ.Como dizer a uma pessoa que deixe seu carro em casa com um transporte destes? Sugiro que o amigo Adamo Bazani TENTE UMA ENTREVISTA COM ALGUÉM DA EMTU no sentido de cobrar das empresas metropolitanas um tipo mínimo de ônibus como piso baixo por exemplo,ou ainda que se dê incentivos em impostos para empresas adquirirem estes ônibus,uma vez que é insustentável continuar com essas charretes ou micrões como fazem as empresas de Guarulhos.

  6. Mais uma vez é preciso elogiar a ótima inicitaiva do amigo Adamo Bazani Parabéns pelas excelentes reportagens.
    É precido contudo observar que a realidade não é nada animadora e passa por uma reeducação de nosso usuário no sentido de cobrar mais empenho e melhoria de nosso sistema de ônibus municipal e metropolitano.
    Não é preciso ir longe para ver como é difícil reclamar na SPTRANS OU EMTU,pois o usuário logo desiste ou é estimulado a isto dada a dificuldade; e o resultado aparece: ônibus vellhos e sujos na região controlada pela EMTU.que permite que veículos quase sucatedaos façam a ligação entre a estação SAÚDE DO METRÔ E A REGIAÕ DO ABC ou ainda MICRÕES QUE MASSACRAM O USUÁRIO DE GUARULHOS. Enquanto não nos unirmos para reivindicar nosso direito( e não favor como pensam algums com a frase:” já foi pior” que esconde um comodismo torpe só aumenta a piora da situação!) E nos colecionadores e busólogos temos a obrigação de nos unirmos para REIVINDICARMOS DAS EMPRESAS UMA MELHORIA EM SUAS FROTAS E ATENDIMENTO A POPULAÇÃO.

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