Foto-ouvinte: quem sabe uma ciclovia na Tiradentes?

 

Bicicleta na Avenida Tiradentes

 

De boas intenções, as gavetas do gabinete do prefeito estão cheias. Hoje, destaque nos jornais com citação e entrevista no Jornal da CBN, a pretensão de Fernando Haddad de construir dois corredores de ônibus, no sistema BRT, com segregação de faixa, embarque e desembarque rápido, pontos de ultrapassagem e maior velocidade nos transportes. Um no corredor Norte-Sul, passando pela 23 de Maio, e outro na avenida Bandeirantes. No papel, haverá, também, ciclovia do lado oposto dos ônibus nestas vias. Se apertar de um lado e apertar do outro, os motoristas de carro vão gritar, com certeza, e a pressão será enorme para impedir a construção dos corredores que podem ajudar muito os paulistanos que dependem do transporte público.

 

Já que o período para sonhar e pedir é mesmo no início de governo, e todos parecem estar sonhando alto no Edifício Matarazzo, não custa tentar: o Marcos Paulo Dias, colaborador do Blog e incentivador do Adote um Vereador, passou pela avenida Tiradentes e percebeu a dificuldade do ciclista para circular por ali. A sugestão dele é que a prefeitura crie uma faixa para as bicicletas. E os motoristas de carro, respeitem os ciclistas.

O caminho para um transporte melhor, em São Paulo

 

Um sistema rápido de transporte por ônibus, tecnologia avançada e limpa, serviço de embarque com maior agilidade, são os caminhos para melhorar o serviço aos passageiros. Na última série de reportagens em homenagem aos 456 anos de São Paulo, saiba para onde vão os ônibus

Foto de Ednei Lopes


Por Adamo Bazani

Para relacionar todos os fatos que marcaram a história do transporte coletivo na cidade de São Paulo seria necessário muito mais do que uma série de artigos como estes que escrevo desde segunda-feira. Sem contar que acontecimentos importantes não foram registrados.

Quando falo em fatos importantes não me refiro apenas aos de grande magnitude. Às vezes são pequenas alterações de itinerários, uma postura educada e cordial de motoristas e cobradores, um cuidado especial em relação a limpeza dos veículos para que os passageiros se sintam num ambiente melhor. Coisas simples, mas que deixam menos pesada a rotina de quem usa os transportes na cidade de São Paulo. Fatores que influenciam na qualidade de vida do passageiro que devido aos trajetos e trânsito complicados pode ficar mais tempo dentro do ônibus do que no próprio trabalho.

Apesar de ter melhorado em vários aspectos, numa análise fria e imparcial, o sistema de transportes por ônibus em São Paulo ainda deixa muito a desejar.

De acordo com a mais recente pesquisa Origem-Destino feita pelo Metrô de São Paulo, os principais problemas apontados pelos passageiros de ônibus são lotação, tempo das viagens, espera nos pontos, falta de locais de integração e preço das tarifas.

E um problema puxa o outro. O ônibus preso no congestionamento demora para passar, mais gente se acumula no ponto, a viagem é mais lenta e quando o ônibus chega lota rapidamente. A sensação de a tarifa ser cara (e realmente é elevada) aumenta pela deficiência do serviço prestado.

Boas referências encontramos em países que priorizam o transporte de passageiros, uma tendência que São Paulo deveria seguir se é que dentro de 20, 30 ou 40 anos pretenda ter a história dos ônibus lembrada pela evolução e não por um apanhado de problemas e retrocessos.

O Sistema BRT – Bus Rapid Transit – é aplicado em diversos países da Europa, América do Norte, Ásia e América do Sul. Há necessidade de se investir em corredores segregados de ônibus de verdade, como em Curitiba e no ABC Paulista pela Metra e EMTU, modelos que foram copiados na Colômbia, onde Bogotá melhorou a qualidade de vida dos cidadãos com o Transmilênio.

Busway, na França. Veículos com tecnologia limpa, corredor moderno e integração com o carro

O BRT de verdade não é um simples canteiro por onde passam ônibus ou um uma faixa pintada na rua, que provoca congestionamento e demora próximo dos pontos de parada. Há diferenciação física na via, estações de embarque, preferencialmente na altura do piso dos ônibus, pagamento antes da entrada no veículo e pontos de ultrapassagens para evitar o que ocorre, por exemplo, na Avenida Rebouças e Rua da Consolação.

A criação de um sistema rápido por corredores segregados chega a ser 10 vezes mais barata que a construção de uma linha de Metrô, além de a implementação ser mais rápida e interferir menos no cenário urbano.

Outra tendência que se aplica no mundo é a integração de modais, existente em São Paulo, mas ainda muito tímida. Ônibus deve complementar trem e metrô. Trem e metrô tem de rodar em parceria com o ônibus.

Alguns países vão muito mais além. É o caso do BusWay, na França. Lá, o corredor, com ônibus extremamente moderno, liga a região central de Nantes à zona sul da área metropolitana, em Verton. O corredor ainda integra ônibus e carro. Os passageiros vão com seus carros fora da tumultuada região central, deixam em estacionamentos próprios para os usuários e mais ao centro, onde há trânsito complicado, embarcam no BusWay. Quatro estações do sistema possuem o esquema “park-and-ride”, no quakl o motorista/passageiro deixa seu automóvel e segue a viagem de ônibus.

Isso poderia ser uma opção para São Paulo, se houvesse um sistema de ônibus que atraísse a classe média. O usuário sairia de um bairro mais distante de carro, o deixaria em local seguro com preço acessível e seguiria o trajeto de maneira mais rápida para área central ou bairros de negócios. Em Nantes, o “park and ride” ajudou na redução dos congestionamentos, principalmente em horário de pico.

As prefeituras que investiram no BRT priorizaram os recursos para os transportes públicos atraírem as diversas camadas sociais da população. O Transmilênio da Colômbia, por exemplo, é usado tanto pelo executivo da empresa, como pelo operário.

Facilidade de pagamento de passagens, eliminado o uso de dinheiro dentro do ônibus, também é uma tendência. Em São Paulo, há o Bilhete Único, um grande avanço. Mas ainda o passageiro tem de enfrentar filas nos postos de recarga ou em estabelecimentos comerciais. Em vários países, os cartões são recarregados pela internet, por débito bancário ou, simplesmente, usam o celular.

Veículos com tecnologia limpa estão na “moda”, tornam as cidades mais agradáveis, o ar menos poluído e ônibus menos barulhento. Na Europa o uso do diesel limpo, o biodiesel, já está numa fase bem mais avançada. Ônibus movido a etanol, com o álcool produzido no Brasil; motores a base de células de hidrogênio; e, claro os trólebus de rede aérea mais modernos do que os que conhecemos em São Paulo, onde começaram a rodar nos anos 1940. Lá foram andam nas vias segregadas, ao contrário daqui.

O metrô e o trem podem ser apresentados como melhor forma de transporte de massa. A verdade, porém, é que São Paulo vai de ônibus. E foi este tipo de transporte, o único capaz de acompanhar e contribuir para o desenvolvimento da cidade.

Adamo Bazani é repórter da CBN e busólogo