Faixa reversível faria ônibus andar melhor

 

FAIXA REVERSÍVEL

A opinião é de especialistas em mobilidade urbana, que defendem a medida até mesmo para desafogar o número de passageiros do sistema de trens de São Paulo

Por Adamo Bazani

A cena é comum em várias vias de movimento intenso da Capital Paulista. Uma longa fila de carros e ônibus ladeada por uma faixa do sentido oposto, demarcada por cones, onde carros de passeio com dois, no máximo, cinco passageiros, trafegam com mais tranqüilidade. Enquanto isso, o ônibus, com 30, 50, 70 ou mais de 100 passageiros fica parado no meio do congestionamento.

Boa parte dos especialistas em trânsito e transportes vê nessa imagem que ainda a política de mobilidade das grandes cidades, em especial São Paulo, privilegia o transporte individual.

A pergunta parece ser simples demais, a resposta mais ainda: Se o ônibus consegue transportar na rua ou avenida o equivalente a até 70 carros, dependendo do seu porte, por que ele não recebere a preferência e as faixas reversíveis não se transformam em corredores?

Os investimentos seriam os mesmos. Os mesmos cones, os mesmos horários, os mesmos agentes e o mesmo dinheiro servindo um número maior de pessoas.

E quanto aos pontos de ônibus? Como seriam os embarques e desembarques?

Aí que viriam as vantagens financeiras e operacionais do sistema. Com um número menor de ônibus, as empresas e a cidade poderiam atender uma demanda maior de pessoas que necessitam de deslocamentos diários. Isso porque, a transformação de faixas reversíveis em corredores poderia propiciar a criação de linhas semi-expressas, que lotam já nos terminais e podem percorrer o trajeto até o fim de maneira mais rápida, com menos paradas.

A lógica é tão simples que, além de dinamizar e baratear os transportes por ônibus, incentivaria o uso de transporte coletivo nos horários de pico.

Mas e os carros com dois ou mais ocupantes?

É a lógica da democracia. A maioria tem prioridade. Se um carro leva duas pessoas em 4 metros de comprimento, um ônibus leva isso em apenas um banco repartido, sendo que, no mínimo, um ônibus convencional oferece de 35 a 40 lugares.

Foi isto que pensou Enrique Peñalosa, prefeito de Bogotá, que implantou o Transmilênio, considerado um dos sistemas de corredores de ônibus mais modernos e eficientes, cujas obras começaram em 1998 e em 18 de dezembro de 2000 foram concluídas. “É a democratização do espaço público” – defende até hoje o colombiano.

Além do trânsito e dos transportes por ônibus, a utilização de faixas reversíveis como corredores de ônibus pode ajudar a desafogar o quase esgotado sistema. É o que revela reportagem do Jornal Agora São Paulo, publicada nesse sábado, 7 de agosto.

O texto de Willian Cardoso destaca o sofrimento dos passageiros da linha 11 Coral, da CPTM, entre Guaianazes, na zona Leste da Capital e o bairro da Luz, no centro. Entre 6h30 e 7h30 passam pela estação 21 mil passageiros, sendo que a capacidade de transporte é de 20 mil, de acordo com a própria CPTM. O número de pessoas transportadas aumentou de maneira considerável nos últimos 10 anos: em 2000 eram 25 mil passageiros contra 200 mil no pico.

Na ocasião, o jornal entrevistou o especialista em transporte público Horácio Augusto Figueira, que defende o uso das faixas reversíveis para ônibus.

“A superlotação dos trens da zona Leste é uma tragédia anunciada. Ele defende a transformação da faixa reversível da Radial Leste em um corredor expresso para ônibus biarticulados nos horários de pico”- escreve o jornal. Isso, para Figueira, poderia atrair parte dos passageiros dos trens para o ônibus, auxiliando na diminuição da superlotação das estações.

Não só a Radial Leste, como, na visão de estudiosos, outras faixas de carros poderiam ser transformadas em corredor. Em São Paulo, há mais de 15 faixas reversíveis, sendo que a minoria prioriza o ônibus.

A faixa para ônibus na estrada M Boi Mirim, na zona Sul, tem se mostrado uma alternativa interessante.

Adamo Bazani, busólogo e repórter da CBN

13 comentários sobre “Faixa reversível faria ônibus andar melhor

  1. Ádamo, a utilização EXCLUSIVA de ônibus nas faixas reversíveis em horários de pico me parece um “ovo de Colombo”, ou seja, a medida é tão simples que dá até raiva constatar por que cargas d’água ainda não foi implantada.

    Sugiro uma campanha da própria CBN para que as faixas reversíveis sejam utilizadas somente pelos ônibus, microoônibus ou vans. Os motoristas parados nos congestionamentos, ao virem a maior rapidez dos ônibus, se sentirão estimulados a trocar de meio de transporte.

    Mas tem uma coisa: conhecendo a atual administração municipal como a gente conhece, vocês têm que dar a impressão de que A IDEIA FOI DELES, caso contrário eles não implantam.

  2. Certamente sou a favor do trasporte coletivo. Sou um pedestre que sofre com os carros. A cidade esta pensada em função dos mais fortes (veiculo motorizados) é não das pessoas.

    Acho que o problema está em pensar que a cidade tem que ser um emprendimento rentável (coglomerado de carros e predios).
    Isso uno comprova ao ver o apoio politico da prefeitura (com emprendimentos imoviliarios e mais autopistas)!!!

    A cidade esta sendo pensada não como cidade, mais como uma empresa que tem que produzir beneficios! É so ver os projetos que o prefeito e os vereadores apresentam.

  3. O que acontece na Linha 11 prova que o transporte sobre trilhos não é solução mágica para a mobilidade urbana. Não basta “enterrar” a massa e liberar o espaço na superfície para os carros. É preciso democratizar o espaço público, priorizando o transporte coletivo.

  4. Excelente matéria, só faltou comentar a participação do Governo do Estado, que por intermédio da EMTU praticam TARIFAS totalmente desestimulantes aos usuários.

  5. Primeiramente, agradeço a todos os amigos leitores internautas os comentários.

    Realmente, até fiquei na dúvida em escrever este texto ou não, de tão obvia que parece ser, se não a solução para os transportes e trânsito, uma significativa melhoria.

    Mas depois vi que sua “obviedade” justificava tocar no assunto.

    Não falo agora como busólogo (tento separar a minha paixão por ônibus na hora de escrever sobre assuntos como estes) e nem como jornalista da CBN, mas como cidadão, morador do ABC Paulista que usa as vias da Capital para trabalhar: é revoltante ver gente que mora a 5, 10 15 min do trabalho e insistir em lotar as ruas.

    Muitos dizem que é porque o transporte público não é bom. Concordo em termos, mas algumas dessasa pessoas moram perto de trem, linhas de ônibus e do metrô, trabalham em horário flexível, nãol precisam se deslocar pasra outra área da cidade depois do serviço e mesmo assim insitem no carro.

    Por isso que, como disseram os amigos, o ônibus deve terprioridade na via e o transporte ferroviário melhorado para que gente como essa sofra sim no congestionamento e acabe deixando o carro em casa.

    Não é por nada pessoal, mas tem gente que vai na padaria comprar um pãozinho de 37 centavos e gasta mais que isso em gasolina.

    Caminhada também é forma de transporte.

    Por isso, o “carrista” poder público tem de priorizar o transporte coletivo sim e confinar os carros………A medida é impopular? É. Vai ferir a classe média? Vai..Rquer coragem? Sim…..Mas se for tomada, vocês verão quanta gente deixará o carro em casa.

    Apesar de o trólebus ser o transporte por vi 100 por cento limpo, sabe qual é o que polui menos ainda…o SP 2 – Sapato e Dois Pés……Vamos caminhar pessoal

    • Caro, André

      Sei lá sobre o que você se refere ao fazer esta crítica. Se escreveu aqui, eu publico. Desde que náo tenha uma palavra de baixo calão ou ofensa moral – pois isto tende a me tornar co-responsável pelo que pode ser considerado calúnia ou difamação. Se quiser fazer críticas, o espaço estará sempre aberto como sempre esteve. Sinta-se à vontade.

  6. São Paulo é comandada por grandes lobbys
    Da industria automoblistica
    Das construtoras e incoporadoras
    Quanto mais predios e cada vez mais altos, com mais unidades, mais moradores, a população aumenta, mais vagas de garagens, de zonas azuis, de estacionamentos publicos e privados, mais sera a necessidade de alargar ruas, avenidas, fazer novas avenidas, viadutos, resultando na venda de mais e mais automoveis.
    Em quanto isso o transporte publico vai ficando cada vez mais para traz, se degradando a cada dia e quem sofre é quem tem que usar o transporte publico em São Paulo.
    Essa é a realidade paulistana.
    Quem sabe o proximo prefeito perceba que a atual administração caminha na contramão e altere para o rumo correto.
    Solução a curto, medio e longo prazo não creio que possa acontecer, uma vez que a bagunça está generalizada, com leis de uso e de ocupação do solo absoletas favorecendo uma minoria de abastados cidadoes paulistanos somente, pouquissimos privilegiados.
    Para os amigos do rei tudo para o povo a lei!

  7. Realmente as principais vias por onde trafegam ônibus não reservam um espaço (um corredor) exclusivo. Nos fins da década de 1970 foram criados corredores que tinham como objetivo o CONTRA-FLUXO faixa exclusiva o que fazia fluir com mais rapidez entre um destino e outro. Sobraram alguns desta época como o da Brigadeiro, Nove de Julho e alguns trechos da da Celso Garcia. Nesta época este sistema era chamado de COMONOR (Comboio de Ônibus Ordenados) onde além do corredor exclusivo cada linha e/ou empresa era identificada por uma letra que correspondia a sua parada não tumultuando a faixa e os passageiros se dirigindo na parada correspondente ao embarque.
    Bela matéria Ádamo, parabéns mais uma vez !
    Abs,
    William

  8. Pois é Milton, a idéia é tão óbvia, que corre o risco de não ser adotada pelo poder concedente, pois além da falta de vontade política, parece que os ditos “técnicos” e “engenheiros” tem preferência pelo paliativo e pelo retrógrado. Quer um exemplo? Os ônibus com “piso baixo central”, onde o passageiro que quiser sentar no fundo do mesmo, tem que subir e descer 3 lances de degraus. Isto sem falar de um certo corredor de ônibus que 20 anos depois, é entregue á população sem pontos de ultrapassagens e sem iluminação nos pontos de paradas.

  9. Adamo.
    O que mais me espanta, mais pessoas adquirindo carrões digo no tamanho, tipo utilitários, caminhonetes, cabines duplas.
    Note que nesses carrões quase do tamanho de cavalos mecânicos sem a carreta e no seu interior só o motorista.
    e o que ocupam de espaço!!!!

Deixe uma resposta para José Marques de Oliveira Filho Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s