Os Mosqueteiros que levaram o Corinthians adiante

 

Com torcedores no teto e jogadores abrindo caminho para ele passar, os ônibus que fizeram parte da história do centenário do Corinthians estão nesta reportagem especial.

Por Adamo Bazani

Um time como o Corinthians que neste 1º de setembro completa 100 anos tem muitas marcas, símbolos, mascotes e tradição. O setor de transportes, sempre relacionado a economia, ao comportamento e aos costumes da sociedade, também imprime sua marca no esporte. Na história corintiana, de maneira emblemática. Todos os ônibus do clube são batizados com o nome de um dos símbolos da equipe: Mosqueteiro.

Há duas versões para o mosqueteiro ter se transformado em símbolo do Corinthians. Uma diz que veio do autêntico D’Artagnan, personagem do escritor francês Alexandre Dumas. Em 1913, o clube participou da Liga Paulista de Futebol ao lado do Germânia, Americano e Internacional, considerados os Três Mosqueteiros do futebol de São Paulo. Com a entrada, o Corinthians seria o quarto mosqueteiro.

A outra versão é de que em 1929, na sua primeira partida internacional, o Corinthians venceu os argentinos do Club Sportivo Barracas, fundado em 1913, que fazia amistosos entre o Rio e São Paulo. Os paulistas venceram por 3 a 1. No dia seguinte, no jornal “A Gazeta” o jornalista Thomas Mazzini colocava como título: “Corinthians vence com fama de Mosqueteiro”.

Seja qual for a versão real, o fato é que mosqueteiro remete a imagem de alguém, ágil, forte e útil … atributos ideais para um ônibus.

Assim, nos anos de 1960, quando o Corinthians comprava um veículo próprio para o transporte de jogadores e demais funcionários rumo aos estádios, treinos e demais compromissos, os integrantes do time tiveram a ideia de dar ao imponente ônibus o nome do símbolo do clube.

E a era dos Mosqueteiros do Corinthians começou com grande estilo. O Mosqueteiro I, restaurado pelo clube, é um veículo de carroceria Caio, modelo Gaivota, sobre chassi Mercedes Benz O 355. O ônibus era um luxo só e bem inovador para a época. A começar por suas linhas futuristas, aproveitando bem os ângulos e áreas arredondadas. O Caio Gaivota foi lançado no Salão do Automóvel em 1966. Nele, estavam presentes itens até então impensáveis em ônibus, como banheiro, bar, iluminação individual para leitura, carpete e cinto de segurança.

O ônibus foi um campeão de vendas e digno para transportar um time campeão. O Mosqueteiro I levou grandes craques e participou de momentos de glória do time fundado no Bom Retiro, região central de São Paulo.

Várias vezes, o ônibus foi invadido, cercado por fanáticos torcedores que chegaram até a pegar uma carona no teto em momentos de maior euforia. É o que retrata a primeira foto do álbum que você vê neste post que faz parte do acervo deste repórter, guardada há anos. Foi na invasão ao Maracanã, quando em 5 de dezembro de 1976, cerca de 70 mil torcedores viram o time vencer de maneira triunfal o Fluminense. A partida no tempo normal ficou em 1 a 1. Nos pênaltis, o time paulista superou o tricolor do Rio por 4 a 1 com gols de Neca, Ruço, Moisés e Zé Maria.

Quando o time chegou a São Paulo, tão triunfante quanto a equipe, estava lá o Mosqueteiro I, Caio Gaivota. Certamente, aquele dia, foi o ônibus mais querido do Brasil. Ele foi cercado por uma legião de fanáticos.

O Corinthians sempre teve uma frota de ônibus, que assim como uma equipe de futebol, variava de qualidade conforme a fase. Por exemplo, um dos ônibus do time, um Caio Vitória Mercedes Benz OF 1318, que foi muito útil para o clube, transportando jogadores, a equipe feminina e funcionários, foi flagrado pela equipe do Globo Esporte, abandonado num canto, esquecido, como um craque que não teve seu reconhecimento.

Mas os Mosqueteiros tiveram ótimas fases também, com veículos de luxo.

O Mosqueteiro I se aposentaria no fim dos anos de 1970. Nesta época, um craque mais novo apareceria no clube. Era um Nielson Diplomata 2.60, motor Mercedes Benz O 362, um veículo considerado de ponta para a época. Esse ônibus foi uma das marcas do Corinthians até os anos de 1980.

Logo em seguida, surgia o Mosqueteiro III. Se nessa época, o clube tinha jogadores que pela sua habilidade e força física eram considerados potentes, como Sócrates que atuou de 1974 a 1986, o goleiro Ronaldo de 1988 a 1998 e Neto de 1989 a 1993 e depois em 1997, no quesito ônibus, potência era o que não faltava.

O novo Mosqueteiro era um Dinossauro Scania que  voava rápido e com força como as bolas nas cobranças de falta de Neto.

O próximo Mosqueteiro, o IV, não ficaria para trás. Já final dos anos de 1990 e início da primeira década dos anos 2000, jogadores como Marcelinho Carioca e Gamarra eram confortavelmente transportados num Busscar Jumbuss 380, veículo alto, com quase 4 metros, motorzão Volvo B 10M. Se a década foi de glórias para o Corinthians, para os transportes do clube, este ônibus também foi glorioso.

Nem sempre os ônibus tinham a visibilidade que merececiam; mas a torcida sabia reconhecê-los e gritava “Todo Poderoso Timão” quando passava o Todo Poderoso Busão.

Vários jogadores têm histórias interessantes sobre um Mosqueteiro. Que o diga Neto:

Nosso time estava à bordo do ônibus batizado de “Mosqueteiro ”. Fazíamos o trajeto tradicional rumo ao estádio quando, na própria avenida Pacaembu, o trânsito parou. Naquele tempo não tinha essa força toda do CET, batedores policiais, etc… Simplesmente ninguém passava. Foi quando nosso motorista, o Ivo Caqui, avistou um carro impedindo nossa passagem. Naquele momento o improvável aconteceu. Enquanto eu e o Ronaldo estávamos sentados lá no fundo do ônibus, vi o presidente Vicente Matheus, no alto de seus 81 anos, descer pela porta da frente e, sozinho, começou a empurrar o carro tentando livrar o caminho. A comoção foi tão grande que todo mundo desceu pra ajudar. E conseguimos.

Tanto esforço valeu a pena, naquele 6 de dezembro de 1990, dia de uma semifinal do Brasileirão, o Corinthians ganhou por 2 a 1 do Vitória.

As encarroçadoras e montadoras perceberam tarde o apelo que um ônibus de clube tem. Afinal, ela é uma das marcas do time. Mas os transportes e o marketing no Corinthians deram as mãos quando em 2007 a Volkswagen Caminhões e ônibus, hoje MAN Latin América, fecharam parceria. Sob carroceria Irizar, a Volks operou seu chassi mais potente na época.

É da Volks também o famoso ônibus roxo do Time.

Mas o Mosqueteiro não parou de crescer e se tornou enorme. Ainda na era do Marketing Bus, o Time fechou parceira com a Scania, que em 29 de julho apresentou nada mais nada menos que um K 380 completo. Máquina de 380 cv, com sala de reuniões, DVD, 4 TVS LCD LED, banehiro, gerenciamento eletrônico e todo luxo possível, encarroçada por um portentoso Marcopolo Paradiso 1550 G 6.

Desculpem-me o trocadilho mas, os 100 anos do Corinthians, é ótima oportunidade para lembrarmos que por trás de um grande time, há um grande ônibus.

Adamo Bazani, jornalista da CBN, busólogo, torcedor do São Caetano e de família palmeirense, escreve no Blog do Mílton Jung

3 comentários sobre “Os Mosqueteiros que levaram o Corinthians adiante

  1. Olá, Adamo,

    É sempre bom te ler. Mas, por favor, responda a esta questão de ordem policial:

    A Toffoletto que ouvimos hoje é um clone? (Temo que a original não tenha se curado da centenária ressaca Corinthiana.)

    Muito obrigada,
    Forte abraço,
    Eliane

  2. Olá, Adamo,

    É sempre bom te ler. Mas, por favor, responda a esta questão de ordem policial:

    A Toffoletto que ouvimos hoje é um clone? (Temo que a original não tenha se curado da centenária ressaca Corintiana.)

    Muito obrigada,
    Forte abraço,
    Eliane

  3. Eliane, da análise fria, policial, palmeirense e “sulsãocaetanense” só tenho a dizer que Cátia Tofoletto ganhou uma injeção de ânimo com o centenário e depois do feito histórico do Corinthians, ela trabalharia sem reclamar por 100 anos sem folga.

    Cátia Tofoletto, aliás, que foi a primeira motiorista mulher de um Mosqueteiro. Só não vou falar qual modelo do ônibus, porque aí revela idade, o que é chato.

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