Avalanche Tricolor: Comemora, Vanderlei!

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Brasileiro — Arena Corinthians, SP/SP

Renato e o antirracismo em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

O segundo tempo já estava avançado quando em um contragolpe a defesa do Grêmio cortou mal a bola que caiu nos pés do adversário. Recuada, chegou livre para o chute a gol. Em situação normal de pressão e temperatura, era bater, estufar a rede e correr para o abraço. Havia, porém, uma pedra no meio do caminho. Uma rocha com a dimensão de Vanderlei, que saltou de braços abertos e com uma só mão despachou a bola para escanteio. A vibração com punhos cerrados do nosso goleiro dizia muito sobre o que acabávamos de assistir. 

Aos 36 anos, tendo chegado sob o olhar desconfiado do torcedor, depois de deixar seu clube anterior porque apresentava dificuldades técnicas para se adaptar a estratégia do técnico — diziam que não sabia jogar com a bola nos pés —, Vanderlei logo se tornou titular, no lugar do criticado Paulo Victor, que apesar de ter tido bons momentos com a camisa do Grêmio, revelou-se inseguro, especialmente na segunda parte da temporada passada.

Vanderlei, mesmo tendo ganhado o direito de vestir a camisa número 1, ainda não conquistou o coração do torcedor. Já fez uma sequência de bons jogos desde que chegou à Arena, mas sempre que tomamos um gol, aparece alguém disposto a puxar a lupa, chamar o VAR e fazer contorcionismo para encontrar a falha do novo goleiro. Até mesmo quando o gol é de pênalti há buchicho na arquibancada (que agora é apenas virtual).

Com 1,95 e cara sempre séria, ainda está longe de se igualar a alguns dos grandes nomes que passaram pelo gol gremista nestes anos — para a maioria de nós a imagem de Marcelo Grohe e seus milagres é muito presente. No memorial que mantenho na parede de casa, a camisa autografada por Danrlei está ao lado da de Geromel. Sem falar em Victor, Leão, Mazaropi e, sim, o lendário Eurico Lara — todos merecedores do nosso mais alto respeito. 

Nem se pode exigir essa paixão por Vanderlei. É muito cedo. Por enquanto, ganhou apenas o Campeonato Gaúcho e está sendo testado a cada partida do Brasileiro, da Copa do Brasil e da Libertadores. Uma defesa com a importância desta que fez, nesta noite em São Paulo, sinaliza que está na hora de começarmos a nos convencermos de que estamos nas mãos de um grande goleiro.

Foi ele quem garantiu mais um empate neste campeonato e mais um empate contra este adversário —- é o quarto em dois anos, sem gols. E se hoje não houve gols, Vanderlei tem total responsabilidade no resultado ao fazer aquela defesa magistral.

Tê-lo como destaque nesta partida atípica do Campeonato Brasileiro — na qual o adversário teve dois jogadores expulsos, um deles ainda no primeiro tempo —- também diz muito do que foi o Grêmio nesta noite. Haverá de ser melhor na quinta-feira, creio.

Em tempo: a camisa tricolor trouxe no peito a mensagem antirrascismo que o Grêmio tem propalado ao longo do tempo: somos azuis, pretos e brancos, em meio ao desenho do rosto de negros ilustres que vestiram nossas cores; enquanto Renato estampou uma camisa amarela com a frase “vidas negras importam”. Que o recado seja entendido por todos nós!

Avalanche Tricolor: como escolho meus próprios caminhos, prefiro falar da Portuguesa

 

 

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Brasileiro — Arena Grêmio

 

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Memórias de um das vezes em que a Lusa esteve no meu caminho (Foto: Canindé, 2013)

 

Jogar em casa, obriga à busca dos três pontos. E o Grêmio buscou pelos caminhos que gosta de percorrer no campo. Com bola tocada, passe trocado, tentativas pelo meio e investidas pelos lados. Às vezes, fico com a impressão de que preferimos refinar o lance a chutar a gol — como se ele fosse surgir a qualquer momento, de forma natural, resultado do domínio da bola. Quase surgiu, em um cabeceio aqui, um bate e rebate acolá, e um pênalti desperdiçado.

 

Aqui um parênteses: alguém sabe me dizer quantos pênaltis nos perdemos em um ano? Pode ser implicância minha. Mas há algum tempo que reclamo o pênalti em favor do Grêmio — como hoje no carrinho imprudente do marcador de Diego Souza —, mas não comemoro antecipadamente pelo alto risco de frustração. Parênteses fechado.

 

De volta ao jogo.Ou melhor. Não vou falar do jogo, não. Se em campo os dois times fizeram pouco para vencer e saíram com cara de “melhor assim do que perder”, prefiro seguir esta Avalanche pelos meus próprios caminhos. E carinhos.

 

Durante a transmissão da TV, o locutor de esportes lembrou que o último título de Brasileiro conquistado pelo Grêmio foi em 1996, na final contra a Portuguesa, no estádio Olímpico. Isso me remeteu às cenas que ainda estavam na minha memória do filme “Lusitanos — o centenário da Portuguesa” que assisti pela internet na sexta-feira, dia 14 de agosto, data de nascimento da Lusa. A produção é de meu colega Luiz Nascimento e Cristiano Fukuyama, ambos torcedores da Portuguesa, é claro.

 

O filme é um primor, pois relembra momentos incríveis vivenciados por torcedores resilientes; e revela na voz embargada e no olhar mareado da maior parte dos depoentes, a única razão pela qual a Portuguesa sobrevive a tudo que enfrentou na história —- de injustiças a falcatruas; de lances imperdíveis a momentos impensáveis. É uma gente apaixonada. Que revive cenas que talvez jamais tenha vivido, mas que ouviu dos bisavós, dos avós, dos pais ou de algum lusitano com quem um dia sentou à mesa para dividir um prato de sardinha, saborear um bacalhau ou um cozido à portuguesa.

 

A colcha de lembranças muito bem costurada pelos produtores, a partir de depoimentos de torcedores, sócios, ex-jogadores e admiradores da Lusa, me envolveu de tal maneira que passei a pensar como a Portuguesa fez parte da minha vida paulistana, que se iniciou em 1991 — muito mais do que qualquer outro time daqui; e não foi por falta de grandes confrontos com os paulistas nestes últimos anos todos.

 

Logo que cheguei, a primeira partida de futebol que assisti foi a final da Copinha, em que o Grêmio enfrentava a Lusa. Perdemos de 4×0 para um time que tinha como maior destaque Dener, que um dia tive a alegria de ver vestindo a camisa gremista. O talento da gurizada lusitana era tal que nem mesmo a goleada e a perda do título me fizeram tristes naquela manhã, no estádio do Pacaembu.

 

Danrlei era o goleiro naquela final de jovens que acompanhei com resignação e admiração. E estava no gol em outro momento histórico que colocou a Portuguesa no meu caminho, cinco anos depois. Foi a final do Brasileiro em que na primeira partida perdemos por 2 a 0 em São Paulo — jogo que não pude assistir no estádio mas que acompanhei com o rabo do olho em um monitor ligado embaixo da câmera em que apresentava, no mesmo horário, o Jornal da Cultura.

 

No domingo seguinte, coube a mim a tarefa de editar os melhores momentos da final, que seria disputada em Porto Alegre, para o Cartão Verde, programa esportivo da Cultura. Minha escala naquele plantão tinha requintes de crueldade, pois meus colegas de redação apostavam todas suas fichas no time lusitano e queriam ver minha cara editando a conquista da Portuguesa em cima do Grêmio.

 

O fim da história você —- caro e raro leitor desta Avalanche —- haverá de lembrar. Faltando oito minutos para o fim do jogo, no estádio Olímpico, o Grêmio marcou o segundo gol que deixava o confronto igual e nos dava o título pela melhor campanha no campeonato. Minha felicidade não cabia naquela fita Betacam que, com o sorriso de um campeão, entreguei ao diretor do programa para ser reproduzida para todo o Brasil.

 

Apesar de nunca ter assistido nada muito empolgante em campo, desde as finais, em 1991 e 1996, os confrontos entre Portuguesa e Grêmio sempre foram os meus preferidos, aqui em São Paulo. Eram os poucos que conseguia ver, ao vivo, no estádio, e levar meus filhos, por considerar mais fácil de entrar e torcer no Canindé, a despeito da fila interminável na bilheteria e da fúria dos Leões da Fabulosa.

 

Lamento apenas ter sido testemunha do mais triste momento da Portuguesa na série A do Campeonato Brasileiro, em 2013, quando na última partida da rodada, em que o empate deixava todos felizes — o Grêmio, na Libertadores, e a Lusa na primeira divisão — um erro administrativo fez o time paulista ser rebaixado, por escalar irregularmente um jogador (e deixo para os torcedores da Portuguesa a explicação das razões que levaram a escalação equivocada). Era o início de uma longa jornada de decepções lusitanas.

 

Neste momento em que a Portuguesa comemora seu centenário, todo meu carinho aos torcedores da Lusa. E o desejo de que, o mais breve possível, eu possa voltar à assistir ao Grêmio jogando no Canindé, ao lado de meus filhos.

Avalanche Tricolor: uma ótima leitura e as boas notícias de sábado

 

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Brasileiro — Arena Grêmio Porto Alegre, RS

 

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Que o cara entendia do riscado, eu já havia ouvido falar —- dele próprio quando o entrevistei em um dos programas que apresento na CBN, o Mundo Corporativo. Que era o verdadeiro craque da família mas que não seguiu carreira, soube nesse sábado enquanto aguardava na fila para pedir-lhe um autógrafo. Era o que um dos mais próximos de mim contava entusiasmado: o Geromel bom de bola era ele —- só não lembro bem se jogava na mesma posição ou de lateral. Mas jogava muito, falava com entonação capaz de me fazer acreditar no que dizia.

 

Estávamos falando de Ricardo Geromel, 32 anos, empreendedor e escritor, que pelo sobrenome tem parentesco que carece de apresentações, especialmente a você caro e raro leitor desta Avalanche. Ele era o destino da fila que se estendia do salão da Livraria da Vila até o corredor do Shopping Cidade Jardim, em São Paulo. Estava lançando o livro “O poder da China” (Editora Gente).

 

Com escritório sediado em Xangai, Ricardo é um entusiasmado com os avanços que a China implementou nos últimos anos, transformando-se de “fábrica” do mundo em fabricante de bilionários, além de uma das maiores criadoras de startup do oriente ao ocidente.

 

Para ter ideia, havia 64 bilionários chineses em 2010. Oito anos depois, já eram 372. A cada 3,8 dias nasce um novo unicórnio no país —- são aquelas empresas de capital fechado com valor de mercado de US$ 1 bilhão ou mais. E tudo isso impactando a vida das pessoas em seu cotidiano, pois, em cerca de 30 anos, a China tirou 850 milhões de pessoas da situação de pobreza. Tem porque se entusiasmar, não é mesmo?

 

Se quiser outros motivos, leia o livro —- ou ouça a entrevista que fiz com ele no Mundo Corporativo. Eu já avancei alguns capítulos apenas neste fim de semana e recomendo (se é que vale alguma coisa a minha recomendação).

 

Mas vamos voltar a esta Avalanche.

 

Sou resistente a essas histórias que já foram contadas nas mais variadas famílias do futebol brasileiro. Sempre haverá alguém para garantir que Dondinho, pai de Pelé, é quem jogava muito. Teria feito cinco gols de cabeça em uma só partida de futebol. Sem contar os que descrevem as habilidade de Zoca, irmão do Rei, que aliás jogou ao lado dele no Santos.

 

Edu, por sua vez, tinha futebol refinado, dribles curtos e desconcertantes, passes e lançamentos precisos —- o que parece ser verdade, mas não o suficiente para torná-lo maior do que Zico, o irmão mais moço. A não ser nas palavras da turma que sempre gosta de uma boa história para puxar papo.

 

Diante de tudo isso, ouvi os elogios ao futebol que Ricardo Geromel jogou no passado e coloquei na conta dos contadores de história. Prefiro admirá-lo por aquilo que ele é do que por aquilo que poderia ter sido. Até porque duvido muito que alguém pudesse ser maior do que Geromel, o Pedro —- zagueiro que trouxe uma nova maneira de jogar dentro da área, tem uma ótima leitura de jogo e forma, ao lado de Kannemann, uma das maiores duplas de zaga que já passaram pela história do Grêmio.

 

Abracei Geromel, o Ricardo, o cumprimentei pelo livro que lançava, recebi orgulhoso o autógrafo dele, e voltei para casa para assistir ao Grêmio no Campeonato Brasileiro. Do sofá, vi o meu time tentar o gol de várias maneiras sem sucesso e terminar mais uma partida contra o Corinthians no zero a zero.

 

Jogo que não foi de todo perdido, pois tivemos ao menos duas boas notícias para quem entra em campo no Brasileiro mas tem a cabeça na semifinal da Libertadores: Léo Moura está de volta e Maicon desfila talento com a bola no pé — leio nas estatísticas de que de 111 passes que deu, errou apenas três.

 

A terceira boa notícia, tive lá na livraria mesmo: Geromel, o Pedro, não jogaria logo mais à noite, mas está prestes a voltar ao time titular depois da lesão que o tirou da primeira semifinal da Libertadores. Que o Ricardo faria diferença se tivesse seguido em sua carreira como jogador, deixo por conta dos amigos de infância que o viram jogar. Mas que o Pedro faz uma baita falta para a gente, ah, isso eu garanto!

Avalanche Tricolor: respeito é bom e eu gosto

 

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Brasileiro — Arena Itaquera

 

Gremio x Corinthians

Everton em mais uma arrancada, em foto de LUCASUEBEL/GREMIOSFBPA

 

O Grêmio e Corinthians mais importante da minha vida foi em 2001. Fomos campeões da Copa do Brasil. E antes que você pense que exagero, levando em consideração que as duas equipes já se enfrentaram em outras grandes decisões, preciso lembrar que na partida final, disputada no estádio do Morumbi, apresentava-me ao público na versão narrador de futebol.

 

Sim, já narrei jogos de futebol —- e de tênis, também —- em uma experiência que vivenciei na Rede TV!, nos anos de 2000 e 2001. Foi uma oportunidade incrível, proporcionada pelo colega e amigo Juca Kfouri — agradeço a ele até hoje essa chance, lamento apenas não ter sido capaz de retribuir tudo que ele merece. Juca me convidou para transmitir partidas de futebol, na época em que a emissora estava começando.

 

O convite foi resultado de conversas que já havíamos tido sobre modelos de transmissão de jogos pela TV, das quais meu pai também chegou a participar. Acreditávamos na ideia de que o narrador deveria ter uma interferência menor no espetáculo já bastante valorizado pela qualidade tecnológica à disposição e a quantidade de imagens disponíveis. Podemos falar sobre isso em outra oportunidade se assim você pedir, caro e raro leitor desta Avalanche.

 

Vamos ao que interessa —- ao menos ao que me interessa agora: imagine que desde pequeno assistia a meu pai narrar jogos no rádio e na TV; arriscava alguns gritos de gol ao lado da mesa de botão, no quarto de casa; e de repente passo a ter a chance de narrar partidas, ao vivo, pela TV, como gente grande. Era um sonho de criança se realizando.

 

Para esse sonho ficar ainda mais maravilhoso, depois de narrar partidas pela Champions League e Campeonato Paulista — além de uma final de Grande Slam, no Torneio de Wimbledon —-, a Rede TV! teve o direito de transmitir a Copa do Brasil de 2001. E exatamente naquele ano, a equipe, então treinada por Tite, chegou à final contra o Corinthians.

 

O primeiro jogo foi em Porto Alegre e empatamos em 2 a 2. A disputa do título seria em São Paulo, diante da torcida adversária que lotava o Morumbi e tendo o adversário como favorito —- era o que diziam os críticos da crônica esportiva. Escalado para narrar o jogo, tive de controlar a ansiedade e a torcida pelo Grêmio, em respeito ao telespectador.

 

Aos poucos, porém, o Grêmio dominou a partida. Terminou o primeiro tempo na frente e quando mal se iniciava o segundo já ampliava a vantagem. Fechou a conquista do título com um 3×1 que calou o estádio e levou este locutor ao delírio —- possível de se identificar no grito desafinado de alguns gols gremistas.

 

Aquele foi sem dúvida o Grêmio x Corinthians mais importante da vida —- não bastasse ter sido a última partida de futebol que narrei.

 

Independentemente dos fatos relacionados à minha carreira —- de profissional e de torcedor —-, a verdade é que os dois times já protagonizaram momentos memoráveis no futebol brasileiro. Com vitórias de um lado, vitórias de outro e muitos empates, semelhantes ao desta noite, em Itaquera.

 

Tenho a impressão de que existe entre os dois times um respeito mútuo que os faz comemorar quando saem de campo sem serem derrotados, estejam jogando em casa ou não. Respeito, aliás, foi a palavra usada por um dos jogadores corintianos ouvidos pela TV ao fim da partida. Revelou que o importante era não ter tomado gol e conseguido somar ao menos um ponto contra um adversário do tamanho do Grêmio.

 

Sempre bom saber o quanto nossas conquistas e nossa dimensão são respeitadas pelos adversários.

 

Melhor se conseguíssemos transformar esse excesso de respeito deles em vitórias para nós, mas sair de Itaquera com um ponto ganho não é ruim, não — mesmo com a insistência de alguns em lembrar que já estamos na quarta rodada e ainda não vencemos um só jogo neste Campeonato Brasileiro. A esses — entre os quais alguns dos nossos torcedores que se expressam nas redes sociais —, quero apenas fazer um pedido: respeitem a nossa história, parem de fazer projeções desesperadas e se lembrem que até um mês atrás muitos de vocês estavam apostando que estaríamos fora da Libertadores.

 

Às vezes, tenho a impressão de que a turma não aprende a lição. Respeitem, apenas respeitem. 

Conte Sua História de São Paulo: a camisa de futebol que me salvou a viagem

 

Por Neide Brum Duarte
Ouvinte da CBN

 

 

Eu moro em Bom Jesus dos Perdões, São Paulo, uma cidade pequena e distante da capital mais ou menos 70km. Eu vou à capital com certa frequência. E há mais de 10 anos, em uma dessas idas, eu levava um amigo para uma audiência no Fórum da Barra Funda, na zona Oeste. Íamos, esse meu amigo, duas filhas dele, eu e meu filho mais novo que morava na capital para estudar. Meu filho Guilherme é corintiano fanático — a segunda pele dele é (agora é um pouquinho menos) a camisa do Corinthians.

 

Bem, fomos com tempo para chegarmos ao fórum antes da audiência. Mas logo na chegada a São Paulo, meu carro que era novo teve uma pane na rodovia Fernão Dias. Fiquei apavorada, liguei o pisca alerta e desci do carro para colocar o triângulo. Meu filho desceu e meu amigo também para pedir que os carros desviassem. Foi horrível. O que fazer??? Telefonei para a seguradora que se prontificou a mandar um guincho e um táxi, ficamos à espera e as coisas nesse caso demoram um século.

 

De repente, eu vejo uns homens vindo em nossa direção. Fiquei com medo pois aquele lugar é bem feio. Os homens se aproximaram, uns fizeram uma espécie de muro na rodovia parando o trânsito e outros tiraram o carro, no braço, e o puseram no acostamento. Acredita????

 

Depois de feito isso, eu comecei a chorar de emocionada e fui humildemente agradecer a um deles que me pareceu o líder: — Muito obrigada, nem sei como lhe agradecer. Ele me respondeu: — Senhora, não me agradeça; nós não viemos por sua causa, nem a vimos, nós viemos por aquela camisa!!!Acredita???

 

A camisa do Corinthians salvou o meu dia em São Paulo.

 

Neide Brum Duarte é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br

Avalanche Tricolor: Luan voltou!

 

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Brasileiro – Arena Corinthians SP/SP

 

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Bom te ver em campo 

 

Imagino que muitos de nós queríamos sentir o gosto da vitória, nesta noite, em São Paulo. Seria a confirmação de que o time começa a retomar o rumo, uma pressão maior sobre o adversário direto ao título e a manutenção da vice-liderança. 

 

Mas vou lhe dizer uma coisa, caro e raro leitor desta Avalanche, com toda a minha sinceridade. Independentemente do placar final da partida de hoje – e o empate está de bom tamanho, tudo levado em consideração -, eu tinha um só desejo e esse se realizou no momento em que o time entrou em campo. Ver Luan de volta. E Luan voltou.

 

A perna ainda está presa e o ritmo não é o mesmo de quando sofreu a lesão e teve de ficar afastado do Grêmio. Mas se vê claramente que ao tocar na bola, Luan modifica a forma de o time jogar.  Ela chega certa no pé do companheiro, faz um traçado diferente, driblando a burocracia e permitindo mais agilidade no ataque. Os espaços aparecem e os jogadores se aproximam. Tira a carga das costas – ou dos pés – de Arthur que tem com quem dividir o domínio da bola e pode se movimentar com mais liberdade em campo.
 

 

Para quem tem a Libertadores como obsessão e a final da Copa está a apenas dois jogos, ter o time reformatado é fundamental. E Luan é quem põe o Grêmio no eixo como mostram as estatísticas: o aproveitamento chega a 79% quando ele está jogando. Vai ficar melhor ainda até a semana que vem quando teremos pela frente a primeira decisão da semifinal.

 

Jogamos melhor do que o adversário, ficamos mais com a bola no pé, demonstramos uma consistência impressionante na defesa e provocamos os lances de maior perigo no ataque. Não foi suficiente para vencer. Mas neste treino de luxo que o Grêmio fez para Libertadores, repito o que disse no início desta Avalanche, o mais importante era ver Luan em campo. E Luan voltou.

Avalanche Tricolor: orgulho, humildade e sabedoria ajudarão a encarar as prioridades

 

 

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Brasileiro – Arena Grêmio

 

 

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Edilson em foto de LUCAS UEBEL/GrêmioOficial

 

 

Estouravam foguetes e gritavam a vitória quando eu estava chegando à zona norte de São Paulo. Era lá que encontraria um dos meus filhos que, horas antes, havia conquistado bom resultado no cenário do esporte eletrônico – ainda bem, pois assim tive motivos para comemorar neste fim de semana. A distância entre minha casa e o local em que o time dele vive rendeu mais do que os 45 minutos do segundo tempo, o que me dividiu a atenção neste fim de tarde de domingo: parte do jogo na TV, outra no rádio – aliás, que saudades me deu de Pedro Carneiro Pereira, Armindo Antonio Ranzolin e, claro, das narrações que ouvia do pai na Guaíba de Porto Alegre.

 

A comemoração da torcida adversária, que ecoava no início da noite, às margens da Rodovia Dutra, sinalizava a importância que esta dava ao jogo e o respeito que tem pelo Grêmio. Respeito que construímos até aqui com o futebol qualificado e intenso imposto a cada partida, mas que não apareceu com a mesma eficiência neste domingo.

 

As maiores chances de levarmos vantagem no placar surgiram no primeiro tempo, mas, curiosamente, a maior de todas veio exatamente no segundo, quando desperdiçamos pênalti. E se sequer fomos capazes de empatar com um pênalti a nosso favor, que o resultado sirva de ensinamento para as próximas partidas. Tenho certeza que será, pois temos um grupo maduro para absorver derrotas, aprender com elas e dar a volta por cima.

 

Primeiro de tudo, tirar da cabeça esta história de final atencipada. Nada se decidiu hoje à tarde, por mais que a vitória caísse muito bem para encararmos a maratona de competições que temos pela frente. Só de Brasileiro são mais 28 rodadas e 84 pontos a serem disputados. Acreditar que o campeonato lá no fim do ano será o mesmo desta primeira parte e não considerar os tropeços naturais que ocorrem no meio do caminho, é esquecer as temporadas passadas disputadas em pontos corridos.

 

Segundo, nada que ocorreu neste domingo deve ou pode impactar nossos objetivos. Nesta semana temos Copa do Brasil e logo ali vamos disputar a Libertadores, e sabemos bem que esta é a nossa prioridade. Portanto, cabeça erguida, orgulho com o que fizemos até agora, humildade para identificar as fraquezas e sabedoria para melhorarmos a cada jogo. Renato haverá de saber fazer tudo isso.

Avalanche Tricolor: o prazer de narrar o Grêmio campeão da Copa do Brasil

 

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Faz muito tempo. E tantas coisas mudaram por aqui.

 

Em 2001, quando vencemos a Copa do Brasil, tive um dos maiores prazeres da minha vida. Além de assistir ao Grêmio campeão – e isso me dá prazer mesmo em disputa de cuspe à distância – fui premiado com o direito de transmitir a final contra o Corinthians, no estádio do Morumbi.

 

Naquela época, fazia experiência como narrador de futebol na Rede TV! a convite de Juca Kfouri que acreditava como eu haver espaço para uma transmissão mais sóbria e menos intrusiva na vida do telespectador. Éramos poucos a acreditar no resultado daquela iniciativa. Mas a levamos em frente.

 

Tudo se iniciou com os jogos da Champions League, aos quais a emissora tinha direito de transmitir na televisão aberta. Na sequência, por acordo com a TV Globo, passamos a apresentar, também, as partidas do Campeonato Paulista e da Copa do Brasil.

 

Por uma rica coincidência, naquele mesmo ano, o Grêmio, treinado por Tite, em sua primeira experiência na elite do futebol brasileiro, foi surpreendendo um adversário atrás do outro. Os tropeços nas primeiras partidas eram superados com vitórias contundentes em casa, no jogo de volta. Foi assim com Vila Nova e Santa Cruz.

 

Os resultados mais importantes, porém, vieram nas etapas finais, ao superar o Fluminense (uma vitória e um empate), o São Paulo (ao vencer em casa e no Morumbi  – com um incrível 4×3) e o Coritiba (quando vencemos as duas).

 

Apesar dos bons jogos e resultados, não havia tido oportunidade ainda de narrar uma só partida do meu Grêmio, pois enquanto nós avançávamos de um lado da tabela, o Corinthians avançava do outro e, por motivos óbvios, a televisão privilegiava os jogos do time paulista. Isso me levava a narrar os jogos deles e, de revesgueio, assistir aos do Grêmio.

 

A televisão me deu a chance de narrar a partida final, no Morumbi, depois de já termos empatado em dois a dois no Olímpico. A festa havia sido preparada para os paulistas. E a casa estava cheia. Naquele estádio, além de um pequeno grupo de torcedores concentrado na arquibancada, onde eu não conseguia enxergar da cabine de transmissão, apenas eu acreditava na possibilidade do título.

 

Perdão, naquele estádio havia um outro grupo que acreditava como ninguém na vitória. Era o time do Grêmio comandado por Tite, o técnico que se atreveu a pedir para que seus jogadores driblassem e se divertissem em campo, apesar da forte pressão que o adversário iria impor no estádio lotado.

 

E o Grêmio driblou, se divertiu, fez três gols e comemorou o título da Copa do Brasil.

 

Lá no alto, em uma cabine muito maior do que a minha capacidade de narrador merecia, assistia àquele espetáculo e narrei para todo o Brasil cada momento da nossa conquista. Foi difícil controlar a emoção pois ali estava quem só havia feito aquilo em menino e nas partidas de botão lá no Menino Deus, em Porto Alegre.

 

Em jogos de verdade, até então, me satisfazia em ouvir a voz de meu pai, Milton Ferretti Jung, nas jornadas esportivas da Rádio e TV Guaíba. E foi para ele que gritei o último gol gremista, marcado por Marcelinho Paraíba, após jogada que lembra muito o toque de bola do nosso time atual. Verdade que foi um mal e desafinado grito de Gol-gol-gol, mas era o que podia fazer naquele momento em que fui tomado pela alegria de comemorar o título que se confirmava em campo.

 

Como disse, faz muito tempo. E tantas coisas mudaram até aqui.

 

Aquele foi meu último jogo como narrador esportivo, pois tinha ciência de que a experiência seria passageira. Meu rumo era o jornalismo, onde já navegava com mais segurança e personalidade. Passei por outras redações e persisti no microfone da rádio CBN.

 

De lembrança, além daquelas guardadas na memória e o vídeo do jogo que narrei, tinha até pouco tempo uma medalha oferecida aos campeões da Copa do Brasil de 2001, que havia sido perdida no gramado. Como não encontraram o seu dono, entregaram para mim algumas semanas depois. Infelizmente, quando tive a casa invadida por bandidos, assim como toda minha coleção de camisas do Grêmio, foi-se a medalha, também.

 

Minha família cresceu. Os meninos que eram pequenos na época, hoje tomam seu próprio rumo, apesar de estarem todos em casa. São gremistas como eu, clube que eles adotaram, mesmo nascidos em São Paulo, após ver o pai sofrer na Batalha dos Aflitos.

 

Meu pai já não narra mais. Em contrapartida se agarra na imagem de Padre Reus em sinal de sua fé no Grêmio, diante da televisão, em Porto Alegre. Eu estou mais experiente. Calejado pela vida e pelo futebol.

 

A nos aproximar daquele ano de 2001, o nosso desejo alucinante de conquistarmos mais uma vez um grande título, porque eu, o pai e os meninos, todos nós #QueremosACopa

Avalanche Tricolor: espírito Olímpico volta no Dia dos Pais

 

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Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Sou gremista porque meu pai decidiu assim. Nasci sem cor nem clube, como nascem todos os bebês. E no momento em que meu destino teria que começar a ser traçado foi ele quem me ensinou, nos moldes da época, o caminho a seguir.

 

Foi meu pai quem me levou pela mão ao estádio Olímpico que ficava logo ali, quase na esquina de casa. A primeira vez, pelo que me lembro, foi para ver Pelé em campo. E daquela lembrança tenho a caminhada pelo “beco”, como chamamos as ruas de terra e cercadas por casas pobres, para cortar caminho.

 

Pode ter me levado antes ao estádio, mas a memória me trai. Sei, porém, que depois daquele jogo, levou-me duas, três, quatro, um centena de vezes, até que eu soubesse percorrer aquele caminho sozinho.

 

Meu pai me forjou gremista, sentindo o frio das cadeiras cativas no arco de cima do estádio Olímpico e visitando os corredores internos daquele monumento construído para abrigar nosso time de coração. Tive o privilégio de ver jogos ao lado dele na cabine de transmissão da rádio Guaíba. As arquibancadas lotadas causavam arrepios e minha emoção muitas vezes se transformou em lágrimas, tanto pela vitória quanto pela derrota.

 

Hoje, ao ver a Arena do Grêmio tomada por mais de 50mil torcedores, em um domingo especial no qual se comemora o Dia dos Pais, percebi que o espírito do Estádio Olímpico estava de volta. A torcida cantou e vaiou. Atreveu-se a pedir olé quando o placar estava decidido. O caldeirão esquentou.

 

Mesmo distante, tinha a impressão de que estava lá, sentado em um das cadeiras ao lado do pai, no velho Estádio Olímpico – que ganhou este nome por abrigar a Universíada – os Jogos Olímpicos Universitários, em 1963.

 

O número de torcedores presentes jamais havia sido registrado em partidas disputadas na Arena. E se estavam lá é porque sabiam que o time poderia responder a altura. Torciam para que isso acontecesse. E aconteceu.

 

Um time que começou a partida com postura diferente das últimas, semelhante a que nos deu vitórias importantes neste campeonato. Que não se importou com as ausência de dois de seus maiores talentos, Luan e Wallace, que ajudam o Brasil a ser melhor nos Jogos Olímpicos.

 

O resultado foi que nossos atacantes, Pedro Rocha, Everton e Miller, fizeram o que esperamos deles: gols. Nossos defensores, com destaque para Geromel, o Incrível, e Marcelo Grohe, cumpriram com méritos suas funções. E, mesmo com uma partida a menos, estamos de novo na disputa da liderança.

 

No Dia dos Pais, o espírito do Estádio Olímpico esteve de volta. E eu pude lembrar mais um vez como o pai foi importante na minha formação.

Avalanche Tricolor: foi bom, meu amigo!

 

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Brasileiro – Arena Corinthians

 

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Roger em foto de arquivo (LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA)

 

Foi oxo mas foi bom, meu amigo!

 

Foi bom porque vimos o Grêmio marcando alto e pelo alto, quase sem nenhuma falha. Nossos atacantes não se furtaram de impedir que o adversário saísse jogando com tranquilidade ao pressionar a saída de bola. Enquanto a turma que ficava na nossa área foi testada o jogo todo com cruzamentos e bolas lançadas por cima. E, amigo, digo sem pestanejar: nossa turma lá de trás passou no teste.

 

Foi bom, também, porque, ao contrário do que um dos jogadores deles disse ao fim da partida, não fomos (ou viemos) a São Paulo na retranca. É curioso, meu amigo, como ainda tem quem entenda ser retranqueiro o time que marca bem e no campo todo. O Grêmio marcou bem e no campo todo. E não foi retranqueiro. Foi eficiente.

 

Foi bom, ainda, porque vimos Roger investir em nova escalação com dois jogadores que atuam mais avançados: Bobô e Bolaños. Tinha ainda Luan, Giuliano e depois Everton (sem contar Henrique Almeida), que também gostam de jogar próximo da área do adversário. E, saiba amigo, mesmo com esta gente toda acostumada ao ataque, Roger conseguiu dar consistência na marcação, graças a intensa movimentação e dedicação deles.

 

Eu sei, amigo, que poderia ter sido melhor: se aumentasse a precisão do passe, especialmente quando nos aproximamos da área adversária; se Luan atuasse à altura do futebol que lhe é peculiar; se nossos atacantes acertassem o pé no chute final.

 

Mesmo assim, insisto, foi bom. Até porque você não tem ideia da quantidade de amigo corintiano que me cerca no trabalho, aqui em São Paulo. Um tropeço contra eles e a vontade que tenho é de sumir no dia seguinte. Porque você sabe, quando o assunto é futebol, os amigos não perdoam.

 

Portanto, digo e repito, meu amigo: foi oxo, mas foi bom!