A riqueza de Lemann e Joesley

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Por Carlos Magno Gibrail

Jorge Paulo Lemann, brasileiro, de ascendência suíça, vindo de Harvard, e Joesley Batista, brasileiro, de ascendência goiana, vindo do açougue do pai, são os novos protagonistas globais, de acordo com Larry Rohter do New York Times.

Dias antes da divulgação do crescimento da economia brasileira neste primeiro semestre, quando obtivemos uma das mais altas taxas de aumento do PIB, confirmando a confiança global que o mundo nos tem conferido ultimamente, o jornalista Larry Rohter já indicava como uma de suas resultantes o sucesso brasileiro em formar uma nova geração de empreendedores.

Rohter aponta os dados do BCG Boston Consulting Group de Harvard, indicando que de 2006 a 2008 o número de milionários brasileiros aumentou de 130 mil para 220 mil. O que equivale ao acréscimo de aproximadamente 70%. Crescimento que continua, possibilitando ao Brasil apresentar um quadro maior de milionários do que a Índia, embora com uma população 1/6 da indiana.

Lemann (48ª fortuna mundial), esportista de alto desempenho, penta campeão brasileiro de tênis, iniciou a sua trajetória de negócios comprando a Garantia, pequena corretora. Usando pioneiramente o modelo de “private equity” e assimilando o sistema de Goldman Sachs, focado na meritocracia, onde proporcionava status e ganhos invejáveis aos colaboradores, transformou a corretora em um grande Banco de Investimento. E, também seus principais talentos, Marcel Telles e Alberto Sicupira em executivos de sucesso. Hoje, a 152ª e 176ª fortunas do mundo, Telles e Sicupira são seus sócios na 3G, a empresa que acaba de acordar a compra da Burger King por US$ 4 bilhões.

Isto depois de comprar as Lojas Americanas, AmBev, Submarino, Blockbuster, formar a Inbev, incorporar a Budweiser, além de ser grande acionista de empresas como a Gafisa e Oi.

Joesley Batista e família anteviram oportunidade na crise cambial de 1998 e recorrendo ao BNDES levantaram o capital necessário para o envolvimento no mercado exportador Em 2007, compraram a Swift para, em 2009, adquirir a Pilgrim’s Pride e superar a Tyson Foods, passando a ocupar a liderança mundial no processamento de carne.

Para a satisfação dos brasileiros, provavelmente também de Caetano Veloso, compositor da canção que cita o NYT, o jornalista declara:

Uma coisa fica clara: o domínio brasileiro sobre todas as etapas do setor mundial de carne. O país já é o maior exportador mundial de carne bovina e agora, com a oferta pelo Burger King anunciada na quinta-feira, disporá de mais um veículo para encorajar o consumo em todo o mundo. Isso que é sinergia.

Lemann e Joesley, origens e estilos diferentes chegaram ao mesmo destino, demonstrando que várias trajetórias podem levar a um mesmo ponto. Embora a família Batista chame mais atenção pela evolução de classe social, que tanto os norte americanos reverenciam.

Mais do que o sucesso destes empreendimentos, o fato de surgirem de talentos iniciais em pequenos negócios é que certamente atrai a mídia.

A origem distinta de ambos não deverá diferenciar o futuro dos empreendimentos, entretanto o estilo poderá fazer diferença no aspecto de RH. Ou seja, na formação, manutenção e retenção dos talentos tão necessários ao desenvolvimento dos negócios. A história da civilização tem demonstrado que as grandes rupturas sociais foram demandadas por líderes oriundos das classes abastadas. E, não será anomalia se o setor privado depender de líderes aristocratas para se aprofundar na meritocracia.

Lemann conta hoje, além de Telles e Sicupira, com profissionais balizados na meritocracia.

Harvard ou Frog* até agora não fez diferença na evolução dos negócios de Lemann e Joesley, mas como ficará nos aspectos inerentes aos recursos humanos?

Frog = From Goiás, método familiar e duro de administrar.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feira no Blog do Mílton Jung

7 comentários sobre “A riqueza de Lemann e Joesley

  1. Carlos,

    Como está no meu DNA o gosto de risco, vou arriscar uma resposta:

    Nossas grandes empresas geralmente foram formadas por meritocratas, que ao longo dos anos se adaptaram a aristocracia, sem deixar de dar o devido valor a meritocracia.

    Isto é um trabalho para profissionais de RH meritocratas, lapidados na aristocracia, que possuem jogo de cintura para harmonizador e fazer deste casamento um sucesso. O vice-versa tb vale! Ou seja, moeda com cara e coroa é mais interessante. Uma boa chance para se resgatar “dinossauros” do RH, que geralmente possuem este perfil.

  2. Não sei como é o estilo de gestão de Joesley, mas conheço (e vivi) a gestão Garantia/GP/3G… é uma verdadeira obsessão por EBITDA, em que os recursos humanos (operacionais) são vistos apenas como custos – diminuidores de valor. Isso traz, no dia a dia, desrespeitos à própria dignidade humana. Obviamente o discurso não é tão transparente quanto os atos… Além disso, a obssessão por aumentar o valor de suas Empresas e que consequentemente aumenta o valor do seu private equity, gera ações negativas a longo prazo que serão absorvidas provavelmente pelos novos donos (afinal o objetivo é aumentar o valor da Empresa até um ponto adequado de venda), enquanto o trio conta o seu dinheiro e quebra as paredes (literalmente) de uma nova Empresa.
    Essa é a dicotomia do capitalismo: ações que geram resultados trimestrais e satisfazem os acionistas são as mesas irão gerar reclamações lá na frente.
    Por outro lado temos que bater palmas pela capacidade desta gestão em encontrar e desenvolver profissionais altamente capacitados e que serão devidamente compensados pelo sacrifício de sua vida pessoal em prol de EBITDAs de seus empregadores.
    Devemos parabenizá-los também, por gerar mais valor que outras formas de gestão… Se não fosse assim não teriam conseguido construir esse verdadeiro império (brasileiro por sinal).

  3. Beto, aqui vejo duas hipóteses. A primeira refere-se à origem do empreendedor e que historicamente apresenta o caminho citado, ou seja, aqueles vindos de classes abastadas tem mais propensão a renovação e a atitudes mais intensas. É o caso de Lemann, que transformou dois de seus principais executivos em grandes fortunas globais, além da descentralização do poder.
    A outra hipótese é o aspecto da empresa familiar, que ao lado de suas vantagens apresenta uma série de desvantagens.
    Nesta comparação de Lemann com Joesley , enquanto Lemann sempre apresentas seus executivos na midia, Joesley mostra os seus irmãos.

  4. André, grande contribuição ao texto, tanto testemunhal como operacional.
    Acredito oportuno esclarecer que EBTIDA é sigla em inglês que significa : Earnings Before Taxes Interest Depreciation Amortization. Em português é Resultados antes de juros,impostos,depreciação e amortização.
    EBTIDA = EBIT + amortização + provisões + perdas não recorrentes que afetem o EBIT – ganhos não recorrentes que afetem o EBIT.
    Resumindo , é a melhor forma de espelhar o desempenho da empresa demonstrando a sua capacidade de gerar recursos financeiros .

  5. André, quanto à sua análise é bem interessante e relevante o fato de ter vivenciado o clima da meritocracia, com as suas caracteristicas mais relevantes.
    É um fato ,e parece que não há melhor caminho para o sucesso e a recompensa por tal, embora humano na premiação e desumano da permanente pressão pelo resultado.
    No caso de Lemann e Joesley, como observador parece que há sinais claros que Lemann efetivamente para o seu primeiro escalão é um benemérito, premiando intensamente com poder e dinheiro. Já com a turma de Joesley não há indicios de que o primeiro escalão não família tenha a segurança e a predominância da meritocracia demonstrada no time de Lemann.

  6. Beto, comentário 1
    Acredito que o comentário do André possa ter esclarecido o tema, principalmente com a experiência que ele vivenciou.
    De qualquer forma pode ficar aqui a pergunta se o ser humano produtivo tem saida para não enfrentar esta pressão absoluta nestas empresas modernas e altamente estressantes.
    A resposta é sim.
    Há muitas outras formas de sobrevivência, embora todas as demais de uma maneira ou outra irão exigir sempre resultado.
    Nada é fácil. E ainda bem, pois se assim fôsse, o stress viria pelo tédio.A melhor ciência é o equilibrio. Nada de exageros.

  7. Carlos,

    Um amigo pediu demissão de uma empresa de comunicação diretamente de seu carro em plena Av. Bandeirantes, por não suportar o trabalho desumano em que estava envolvido, mesmo com salário bem atrativo. Depois de quatro meses desempregado, conseguiu outra colocação através de ‘QI” em outra empresa que não é a que mais fatura, mas, foi considerada a melhor do mundo. Recentemente este meu amigo recebeu um almoço/homenagem pelo seu belo trabalho, que rendeu altos elogios do cliente mais ranzinza. Detalhe: Esta empresa dispensou o cliente que motivou a demissão de meu amigo, anteriormente. Não é a toa que é a mais admirada do ramo, ao ponto de poder recusar participação em concorrências.

    Como já citei em outro seu artigo, iniciei minha vida profissional no Grupo Votorantim e, todos os meus superiores -chefes, gerente, diretores, vice-presidentes-, eram meritocratas. No meu caso, foi um dos maiores incentivos, apesar que depois de pouco tempo, optei pelo empreendedorismo. Não me tornei um Joesley, mas como Beto, cumpri o que me determinei de maneira agradável.

    Não da pra considerar o comentário do André como simples comentário. Achei um belo texto de quem tem conhecimento de causa.

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