De 11 de setembro

 




Por Maria Lucia Solla

Hoje é 11 de setembro.

Nunca mais, 11 de setembro, será um dia como outro qualquer; para ninguém; no mundo. Há quem veja de um ângulo, há quem veja de outro, mas de ângulo nenhum cabe o sorriso; a leveza. É um dia que chega bonito, claro, ensolarado, porque assim é a vida; se renova. Mas, de início, a memória investe o dia de uma atmosfera grave, cinza, triste; de pesada energia de dor, de incompreensão, de tudo que serve para inquietar sem trazer resposta, deixando em nós mais incompreensão, mais inquietação e, consequentemente, dor.

A noite do dia 10 nem tinha terminado, a meia-noite do relógio estava longe de chegar, mas ele, o 11, já se insinuava. E chegava arqueado, abarrotado de lembrança que não se quer lembrar. Vinha carregado de historia interrompida, de cama vazia, de coração partido.

Há nove anos, quando me mudei para o apartamento onde moro, vi, no meu primeiro dia aqui, o último de tantos; ao vivo, a morte deles.

Mas nem tudo está perdido. Ao contrário! é daí que nasce a oportunidade de mudar de canal e transformar a gravidade em responsabilidade, de pintar o cinza do que restou, com cores vibrantes, de fazer, da tristeza, aliada que alavanca determinação. Excelente oportunidade para, na carona da inquietação, partir para a reflexão e buscar respostas no coração, e na certeza de que eu sou tua; e você, meu irmão. Oportunidade de nos interessarmos pela beleza e pelo mistério de nossos irmãos muçulmanos, judeus, africanos, americanos, chineses, japoneses, orientais e ocidentais, nortistas e sulistas. Detalhes.

Oportunidade para peneirarmos os nossos sentimentos e nos liberarmos da intransigência com costumes diferentes, da impaciência com o ritmo do outro. Todos nós: maria, sara, yasser, irina, mary, annette, yasmin, cheng, naomi, aysha, manuel, jose.

Que tal um pouco de silêncio, hoje, em respeito à tragédia daqueles que a causaram e daqueles que foram vítimas físicas dela. Na verdade, somos todos vítimas do preconceito que alimentamos, dia a dia, palavra a palavra, pensamento a pensamento.

Pobres de nós que, cega e preguiçosamente, permitimos que outros homens nos levem pela mão, ao encontro de Deus. Que cremos nos seus poderes, que seguimos cegamente suas receitas, mesmo que para isso tenhamos que abrir mão da paz, da alegria, do bem-estar; mesmo que tenhamos que abrir mão da própria vida.
Esses homens, esses líderes, são vampiros de almas; se alimentam de você e de mim.

Sobram líderes, abundam regras e dogmas, de leste a oeste, de norte a sul; e falta Deus.

Pai, que ao respirar nos dá a vida, tenha piedade de nós.

Maria Lucia Solla é terapeura, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

13 comentários sobre “De 11 de setembro

  1. Primutcha, como nos disse Martin Luther King Jr., “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.”
    Parabéns pela iniciativa, pois recordando tragédias como estas vamos despertando a nossa consciência para a valorização da vida.
    Infelizmente, no grau de evolução em que nos encontramos, a dor ainda é a nossa maior mestra, pois ainda não sabemos valorizar o muito que temos e nos preocupamos com coisas que, na verdade, não deveriam ter a menor importância.
    Que Jesus ilumine estas famílias que perderam seus entes queridos neste 11 de setembro, bem como a todos que sofrem da mesma dor, apenas porque os homens ainda não respeitam a máxima de Jesus: “Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.”
    Beijocas
    Magutcha

  2. A compreensão de Deus é muito difícil justamente porque nós o humanizamos, se torna uma visão antropomórfica.

    Pelo sim, pelo não, haveria uma forma de tudo começar a caminhar de uma maneira melhor: Respeito ao próximo já é um bom começo. Melhor ainda: Não façais ao próximo aquilo que não gostarieis que vos fizesses.
    Que tal ?

  3. Ezequiel,

    Com certeza! Quanto mais aproximamos Deus de nós mesmos, mais nos afastamos Dele.

    Em “A Doutrina Secreta”, Blavatsky diz: “… sobre o qual toda especulação é impossível porque transcende o poder da concepção humana e porque toda expressão ou comparação da mente humana não poderia senão diminuí-Lo (a maiúscula aqui é minha). Está além do horizonte e do alcance do pensamento … é inconcebível e inefável.

    E também diz: “Esta Causa Infinita e Eterna, vagamente formulada no “Inconsciente”… … é a Raiz sem Raiz de tudo quanto foi e será.” “… está fora do alcance de todo pensamento ou especulação.”

    Nos habituamos a ter um Deus portátil, a fim de nos remetermos a Ele.

    Obrigada por tua participação. Refletir junto faz bem.

    beijo e boa semana,
    ml

  4. Armando Ítalo,

    Fui até o teu blog, espiei o artigo sobre as mudanças de SP e, confesso, fugi correndo! Preferi não “refrescar” a memória. A Venezuela também está assim. Triste de doer. Ver uma vez já é demais. Você pode achar uma bobagem, mas me doem o plexus solar.

    Salve-se quem puder?!

    beijo e boa semana,
    ml

  5. magutcha minha,

    você é mestra; você sabe!

    Mas sabe o que me assusta, de verdade? A posse dos critérios de quem é bom e de quem é mau. Passam de mão em mão, geralmente manipulados pelos ditos homens de fé.
    E a maioria de nós vive enquadrada e morre enquadrada!

    O segredo dos detentores desses critérios é levar seus rebanhos a não pensar, a não se afastar da doutrina que, seja ela qual for, é sempre o único caminho que leva a Deus.

    Te confesso que isso me assusta mais do que o crime nas ruas.

    beijo e boa semana,
    lu

  6. E por trás desta tragédia os mesmos atores de sempre, dinheiro e poder.
    Coisas que não se equilibram quando são além da conta cuja soma não deveria passar do suficiente. Na seqüência só a continuação da guerra, de olho por olho e dente por dente, cegos e desdentados sem braços sem pernas e sem almas.
    De mais.
    De menos pra nós que nunca teremos mais do que a própria vida e o presente.
    Bjos Malu.

  7. Malu,

    Minha avó Chica (baiana), me ensinou uma coisa que nunca esqueci:

    -*Dévogado, quando sentir vontade de fazer mal a alguém, pense que na vida desta pessoa pode existir uma criança que irá sofrer!

    Quando penso nisso, lembro da imagem na “famosa” menina da bomba de hiroshima.

    * minha avó materna jurava que eu seria advogado…hahahaha! Saudades!

    Beijos e boa semana

  8. Bom dia Malu

    Você foi ao meu blog e dpois comentou:
    Muito obrigado pela sua visitinha.

    “Fui até o teu blog, espiei o artigo sobre as mudanças de SP e, confesso, fugi correndo! Preferi não “refrescar” a memória. A Venezuela também está assim. Triste de doer. Ver uma vez já é demais. Você pode achar uma bobagem, mas me doem o plexus solar.
    Salve-se quem puder?”

    O que escrevi sobre São Paulo no meu blog, nada mais que a realidade paulistana nua e crua.
    Não somente com o ex bucolico centro de São Paulo mas o mesmo acontece em toda a cidade.
    Infelizmente!
    Olha só uma coisa:
    Uns preferem por abaixo as torres gêmas por razões tais e tais.
    Outros, politicos e lobbys poem uma cidade inteira abaixo, “em nome do progresso” a exemplo da degradação e morte do centro da cidade de São Paulo.
    Bjus e uma exelente semana
    Armando Italo
    PS:
    quem quiser saber sobre a realidade e a morte do centro de São Paulo acesse o meu blog.
    http://www.blogdoaitalo.blogspot.com

  9. beto,

    também tenho uma Chica na minha vida; uma tia-avó italiana. O máximo! Viveu até os 98 anos, lúcida, fumava ainda, e tomava uma taça de champanhe todos os dias; de três em três golinhos, ao longo do dia. Fazia crochê com linha e agulha finíssimas. Dizia que esse (o do champanhe) era o seu segrego de saúde.

    Segredo ou não, eficazes ou não, os seus métodos, foi uma mulher que morreu ainda cheia de vida.

    Tenho certeza de que ela concordaria com a sua avó.

    beijo e boa semana,
    ml

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