Um novo ano, menos digital e mais humano

 

Por Ricardo Ojeda Marins

 

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Já estamos em 2016. Quantos de nós não recebemos mensagens de Boas Festas no fim do ano? Talvez todos nós. E percebi com mais nitidez uma diferença em relação ao ano passado. É incrivelmente espantoso como as pessoas cada vez mais utilizam-se das ferramentas online de forma impessoal.

 

Pelo aplicativo WhatsApp – sim, aquele que parou o Brasil no dia em que foi bloqueado pela justiça – recebi mensagens “copiadas” e “coladas” de Feliz Natal e Ano Novo. Mensagens grandes, muitas até mesmo lindas, reflexivas… mas sem sequer deixar o destinatário saber se era mesmo pra ele. Dá a sensação, óbvia eu diria, de que foi uma mensagem de uma lista de outros infinitos destinatários.

 

Isso mostra algo que já sabemos e é até lugar comum: as pessoas têm menos tempo e tentam otimizá-lo.

 

Claro que temos de otimizar nosso tempo; mas neste processo tem de se priorizar as pessoas. Por que não? Será que não vale mais a pena enviarmos uma mensagem dirigida para aquelas poucas pessoas que fazem a diferença na nossa vida? Ou por que não usar uma outra forma de mostrar que se lembrou dela? Me parece um comportamento que seria mais educado e elegante, além de, claro, verdadeiro, com real sentimento!

 

O mundo digital nos ajuda no cotidiano, nos conecta, nos aproxima, nos coloca em contato com pessoas que estão longe. Mas não podemos abrir mão do contato mais humano e pessoal, mesmo quando este ocorre através das ferramentas disponíveis.

 

Amizades, namoros, laços de família podem e devem fazer parte deste novo mundo. Não dá é para viver sem que essas relações ocorram também no “mundo real”. Afinal, toda essa tecnologia foi criada por nós, humanos. E assim devemos ser!

 

Ricardo Ojeda Marins é Coach de Vida e Carreira, especialista em Gestão do Luxo pela FAAP, Administrador de Empresas pela FMU-SP e possui MBA em Marketing pela PUC-SP. É também autor do Blog Infinite Luxury e escreve às sextas-feiras no Blog do Mílton Jung.

 

A imagem que ilustra este post é do álbum de Kira Okamoto, no Flickr

De mundo colorido

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Olá,

 

cada dia que passa eu acredito mais fortemente que estamos mirando o alvo errado, um objetivo que nos leva sempre para mais longe do centro da questão, da tomada de consciência do fato. Do erro.

 

Estamos centrados no macro: a cidade, o estado, o país, o mundo e os mundos à volta e as pessoas que se destacam por mandarem e desmandarem, deslavada e desavergonhadamente.

 

Agora põe a mão na consciência comigo; tudo e todos os que estão aí somos nós, gente como a gente, nascida no mesmo Planeta Terra, mas é gente que está apodrecida, desconjuntada, totalmente desatinada e desorientada. Num patamar impossível de curar.

 

Esses são cartas fora do baralho.
Sem chance, como diria minha amiga Neyd.

 

Onde focar, então? No micro, ora!. Na célula. Em você mesmo em primeiro lugar, para ser um recipiente digno da alma que recebeu, e que tem tudo para deitar a cabeça no travesseiro e adormecer com um sorriso e acordar com vontade de preencher cada dia com o seu melhor. Não é assim?

 

Pois assim deve ser.

 

Mas vale lembrar-se e lembrar a quem quiser ouvir, que delicadeza faz as flores crescerem mais bonitas; gentileza e consideração evitam furacões; atenção e compaixão previnem enchentes. E por aí vai. Cada centímetro que a gente melhora no convívio consigo mesmo e com o outro, seja ele quem for, a Natureza e tudo à nossa volta muda de colorido.

 

é o mundo que a inocência da criança pinta
ela sabe que é possível

 

Assim, só posso terminar este nosso papo sugerindo colorir o mundo, ensinando aos jovens e às crianças a libertarem, da folha branca de desenho, a beleza de um convívio sadio, começando dentro de casa, numa corrente infinita.

 

Também será preciso trazer de novo à moda os amigos Muito Obrigado, Desculpa, Com Licença, A Senhora Quer Se Sentar? Precisa De Uma Ajuda Aí? Com Licença, Professora! E por aí vai, passando a só usar a buzina numa situação de emergência (que é para isso que ela existe, sabia?), dando lugar para um motorista que está esperando há seis carros que alguém lhe permita entrar no fluxo – modo de dizer.

 

Tenho notado muito disso tudo à minha volta, dos dois tipos, dos dois lados da cerca. A maioria das coisas por perto me deixam muito bem, mas o inverso está duro de roer, não é?

 

Pensa nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

De fim do mundo

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Tenho vergonha de postar notícias escabrosas do nosso desgoverno federal. Tenho vergonha de postar frases ininteligíveis de gentinha sem a mínima formação moral e cultural, informação e vergonha na cara, mas não consigo me conter.

 

Nunca, em nenhuma fase da minha incrível vida, vi e ouvi o que tenho visto e ouvido. Talvez por falta de costume, de prática, e de traquejo na convivência com o crime, a mentira, a ignorância, o terrorismo e com a sem vergonhice desbragada.

 

Na linguagem “social e integradora” do pedaço de carne humana mais vil que já brotou no Brasil, os pronomes pessoais nós e eles se transformaram em arma preconceituosa contra os que, como meu avô, meu pai e eu, ralamos, estudamos, trabalhamos e escolhemos um caminho honrado e digno de admiração.

 

Meu avô veio da Europa com seus pais, e não puderam trazer nada consigo, porque saíram fugidos da guerra, da escassez, da violência da degradação do ser humano. Vieram em busca das promessas da nova terra, onde plantando tudo dava e onde o céu era mais azul.

 

Vô Pedro, meu amado vovô, inimigos da paz vêm pintando o Brasil de vermelho com o nosso sangue e a cor da nossa vergonha, e eu ando aqui desacorçoada com a bandalheira que tomou conta do país escolhido pelo teu pai, para vivermos.

 

Meu avô não encontrou facilidade alguma. Imigrantes que eram, não tinham condições de conseguir emprego tão bom quanto os locais, mas não recusaram trabalho. Minha bisavó Maria da Luz arregaçou as mangas, prendeu os longos cabelos numa trança, e foi para o fogão. Com suas panelas, sustentou filha, genro, netos e nos abrigou a todos em sua casa. Genro e netos também arregaçaram as mangas e foram à luta. Meu pai começou a vida de trabalhador honrado, aos quatorze anos, o que hoje é considerado crime. Hoje, o jovem que precisa ajudar em casa procura trabalho escuso, que o aceita com muito prazer. E a mesma sociedade que o alija, corre atrás dele para prendê-lo ou matá-lo.

 

Mas voltando ao meu pai, o seu Solla teve seu primeiro emprego na Fábrica de Pincéis Tigre, com o seu Nicolau Jacob Filho. Foi o seu Nicolau quem lhe deu o primeiro par de sapatos novos e o incentivou a aprender, aprender, aprender. E ele aprendeu e trabalhou por mais de sessenta anos na mesma empresa, que passou de pai para filho, o seu Nicolau Jacob Neto. Eram empresários (hoje demonizados) ricos e cultos, e nós frequentávamos a sua casa, como se fôssemos da família.

 

Meu pai, de origem humilde, foi crescendo dentro dos padrões de retidão, esforço e dignidade. Aprendia com quem sabia mais do que ele e era respeitado porque respeitava todos. Não tinha rua em que ele passava, que não se ouvia: Solla! e ele abanava. Solla! e ele corria para atender. Solla! e ele parava para escutar. Tinha eu, menina, a impressão de que ele era o homem mais conhecido e importante do mundo. Meu coração inchava de orgulho. Ele abanava para quem o saudava, e eu, me sentindo importante, com meus olhos mal alcançando o nível da janela do carro, esticava o pescoço, orgulhosa, e abanava também.

 

O objetivo dele foi sempre o de dar à família o que ele não tivera a chance de ter. Cuidou sempre para que eu tivesse a melhor educação formal possível, e em casa a formação social. E era duro: eu pedia sua bênção e a de minha mãe e avós, não falava à mesa de refeições e respeitava todos, sem distinção de raça, credo ou situação financeira. Ofereceu-me o impossível, mudava de bairro e de casa, sempre que minha prima Cirley, a primeira da família a seguir uma formação universitária, o orientava sobre a melhor escola.

 

E é gente como a minha família e eu, que um boçal ignorante qualquer se atreve a chamar de coxinha?

 

O mundo acabou!

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

De Einstein

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

O exercício de desapego e escolha me leva a recomeçar mais uma vez. Não quero dizer com isso que vá tentar apagar a vida vivida para recomeçar do zero, porque é impossível; bom motivo para nem tentar. Gosto de cada
minuto que tenho vivido, e não pretendo virar as costas para nem um desses minutos. Nem dos claros, nem dos escuros. É a vida, dizia a mamãe, a cada acontecimento.

 

Sei que sou, também, o resultado de tudo o que vivi e de como vivi, e gosto de quem sou. A vida tem me levado a rir a chorar, e tenho aprendido com os dois movimentos dela, que às vezes são rápidos demais para eu
absorver e crescer, e outras vezes um arrastar sem fim, quando sinto que remo sem parar, e não saio do lugar. Mas, enquanto há vida, há chance de viver de peito aberto, de aprender e crescer. De aproveitar a viagem. E
assim vou atrás do estar-bem. Do meu e do mundo que me cerca.

 

Ainda envolvida com o este-vai-este-fica de papéis e livros, espirro, lavo as mãos um exagero de vezes e rasgo pilhas, em tiras e mais tiras. Não os livros, é claro. Num dos papéis encontrei um texto com minha letra de menina, escrito com tinta verde, com a caneta que ganhei do meu pai quando entrei no ginásio, sem fazer o quinto ano. Tinha um exame chamado muito propriamente de Exame de Admissão, logo depois do quarto ano primário. A gente passava por uma tensão parecida com a do vestibular, e eu passei direto. Ganhei uma Sheaffer e usei tinta verde, por muito tempo. Mas enfim, o texto era um fragmento do livro “Como vejo o mundo” de Albert Einstein, lançado em 1953.

 

Fala o mestre!

Educação em vista de um pensamento livre

Não basta ensinar ao homem uma especialidade, porque se tornará assim uma
máquina utilizável, mas não uma personalidade. É necessário que adquira um
sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido,
daquilo que é belo, do que é moralmente correto. A não ser assim, ele se
assemelhará, com seus conhecimentos profissionais, mais a um cão ensinado
do que a uma criatura harmoniosamente desenvolvida.

Deve aprender a compreender as motivações dos homens, suas quimeras e suas
angústias, para determinar com exatidão seu lugar exato em relação a seus
próximos e à comunidade.

 

Se você quiser ler o texto todo, encontrei o livro inteirinho disponibilizado na Biblioteca Virtual Espírita.

 

Dá para guardar na biblioteca do seu leitor de livros. Encontrei o trecho que copiei em priscas eras, como diria minha amiga Maryur, na página 16 do livro.

 

É isso.

 

Bom domingo, bom feriado, diminue a velocidade nas curvas, e até a semana
que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De Dois Mil e Doze

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De Dois Mil e Doze” na voz e sonorizado pela autora

D O I S M I L E D O Z E

Lexigramei o nome do ano que acaba de chegar, para tentar senti-lo melhor, para tentar entender a que veio e me preparar para ELE. Essa história DO mundo acabar em 2012 não ME convence. Tem gente que DIZ que vai; eu não digo que vai, nem digo que não vai. Tenho a minha teoria, mas quem sabe.

Então vou deixar que o ano SE expresse aqui através do seu nome. Dois Mil e Doze. Já faz algum tempo que DOIS é o primeiro nome do ano. Sua linhagem começou no ano Dois MIL, quando a gente também acreditava que o mundo ia acabar. Assim também achavam os que aqui chegaram bem antes de nós e construíram uma penca de igrejas achando, já naquele tempo em 999, que Deus aceita suborno. Aí chegou firme e forte o ano Mil, que deu início a uma leva de anos que leva o seu primeiro nome; e passados mais mil anos o mundo não acabou.

Comecei pelo DOIS, que dá um recado de parceria, e me dei conta de que faz só DOZE anos, dos 998 que estão por vir, que acabou o reinado do um, do sozinho, do eu olhando para o próprio umbigo. E vem a esperança e me dá um empurrão. Daí foi fácil, mas fui fazendo tudo a DEDO, sem fazer corpo MOLE, que a trancos e barrancos não é MODO de lidar com coisa tão séria. Fui me infiltrando nos mistérios DELE. Encontrei bem mais de DEZ pistas, norteada pelo LEME do coração. Não encontrei DOcE, mas encontrei MEL e LODO também, como era de se esperar. Para fELIZ, faltou o F, mas encontrei ELIS, que soube ser e fazer muita gente feliz com a sua voz.

Se estou lendo com a atenção necessária, Dois Mil e Doze será o ano do DIESEL e de DOIDOS; e de DOLO vai ter DOSE. Há MEDO, mas também há MEIOS para enfrentá-LO e superá-lo. As saias voltam ao comprimento MIDI e o SEIO continua na pauta. Tudo bem que de vez em quando a vida DÓI, mas cada um vai encontrar um MODO de sair ILESO.

Há a essência de SOL e SOM, da escala musical tem DO, MI, SOL e SI, e se aproveitarmos a abundância de ZELO, se tivermos os pés bem apoiados no SOLO, encontraremos SOLIDEZ.

Será preciso descartar o MOLDE antigo, descartar a manha, sem DÓ, e ter em mente que DOZE é um número de harmonia, mágico, chame do que você quiser, mas eram DOZE os Apóstolos, DOZE as tribos de Israel. São DOZE os signos do Zodíaco, DOZE os meses do ano, DOZE as horas do dia e das noites também.

Falo do que tem e falo do que não tem. Para IDEIa falta o A, que também falta para MOLEZa e DILEMa, que será preciso descartar. Encurtando esta história, de mais de oitenta palavras, estas foram as que eu escolhi. Faz você a brincadeira e encontra o que o nome do ano tem para te dizer.

E enquanto o mundo não acabar, até a semana que vem.


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Brasil: primeiro e terceiro mundo?

 

Por Carlos Magno Gibrail

Fenômenos naturais e sociais desagradáveis, antes, distantes de nossa terra, mas comuns em países centrais, começaram a surgir sem maiores explicações em território brasileiro.

Tornados, abalos sísmicos, assassinatos em escolas. Fatos indesejáveis de primeiro mundo que se misturam a outros típicos de terceiro mundo, como a censura à imprensa, a tentativa de proibir comerciais, as corrupções em ministérios, as propinas pagas a políticos em frente a câmeras, e as mortes no trânsito, numa escalada jamais vista até então.

Até mesmo o surgimento de uma imprensa que não deve nada aos escandalosos e arbitrários tablóides ingleses. Rafinha Bastos foi além dos britânicos e das grosserias do Pânico na TV. Não satisfeito em protagonizar a insolência e o desrespeito a uma mãe e seu bebê por nascer, manda a Folha de São Paulo, que o criticou, para aquele lugar. Do qual, aliás, a maioria acha que ele deveria ficar para sempre.
Nesta semana tudo indica que teremos a recompostura. Ronaldo Fenômeno, que vinha mantendo uma relação participativa com o programa, já rompeu com o CQC, enquanto a direção da TV Bandeirantes estará afastando Bastos.

No aspecto corrupção, a Presidenta Dilma, levou a faxina até Bruxelas. O alvo desta vez não é nenhum ministro, embora possa até sobrar para alguém do andar de cima, como diria Élio Gaspari. A FIFA quer que o Brasil suspenda o Código de Defesa do Consumidor, o Estatuto do Idoso e o Estatuto do Torcedor. Dilma na segunda feira respondendo à jornalista Mônica Bergamo já tinha antecipado a sua posição perante a Joseph Blatter e a Jerôme Valcke: “Minha querida, isso é uma lei brasileira”. “E não pode mudar. Não é uma questão de querer ou não querer.”

Clovis Rossi confirmou ontem na Folha, em seu artigo Bombeiros, que Dilma não abrirá mão da soberania da lei brasileira. Muito melhor do que andaram fazendo governo e município de muitos estados e cidades, como São Paulo, que se curvaram a gana investidora de Valcke, Teixeira e Cia.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

Futebol explica o mundo

 

Por Carlos Magno Gibrail

Uma das mais intrigantes indagações do livro de Franklin Foer “Como o futebol explica o mundo” é sobre a globalização. É a constatação que o esporte mais popular da terra absorveu apenas em parte a disseminação dos estilos, de jogadores e das grandes marcas, tais como Nike, Adidas, Reebok, etc.

Os aspectos econômicos até que foram aceitos com sucesso, entretanto os culturais tiveram intensificadas as manifestações locais e regionais.

Já no Prólogo, Foer antecipa:

“Perambulando entre torcedores lunáticos, dirigentes sem escrúpulos e artilheiros búlgaros ensandecidos, observei as formas como a globalização havia fracassado em reduzir as culturas futebolísticas regionais, as disputas sangrentas e mesmo a corrupção no plano local.

Na verdade, comecei a suspeitar que a globalização de fato havia aumentado o poder dessas entidades locais – e nem sempre no bom sentido.”

Para atestar a verdade de Foer é só atentarmos ao que recentemente vem acontecendo no Clube dos 13. No momento da maturidade, após passar em quinze anos de 10 milhões a cota de TV para 500 milhões, com chance de chegar ao dobro, iniciou-se uma fragmentação.

Provavelmente manipulada pela CBF, aborrecida com a derrota do ano passado e assessorada por emissoras interessadas no enfraquecimento, para fortalecer a posição de compra.

Os números europeus comprovam a eficácia da negociação em conjunto. Na Inglaterra são 3,5 bilhões de euros por 3 anos, na Itália 1,8 bilhão de euros por 2 anos, na França 668 milhões de euros anuais.

Se não bastasse a atual contribuição nacional à tese de Foer via Clube dos 13, temos a defesa da CBF no caso da Máfia do Apito: “Paixão nacional é slogan para vender cerveja”

Negando que o futebol seja uma paixão nacional e talvez confirmando que a AMBEV e demais patrocinadores ditam ordem na CBF.

Tão falso como a afirmação de Kadhafi explicando que não pode renunciar porque não tem cargo para tal, mas tão próximo quanto os demais Mubarak’s em seus domínios de força e radicais na religião e culturas locais. Tal qual previsto no excelente livro de Franklin Foer, que bem poderia se chamar “Como o mundo explica o futebol”.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas no Blog do Mílton Jung

A década eleitoral

 

Por Antonio Augusto Mayer dos Santos

Brasil –

O Brasil realizou seis eleições nos últimos 10 anos. O custo operacional do voto, pago pelo contribuinte através de deus impostos, oscilou de R$ 4,91 (2000) a R$ 3,58 (2010). Em meados de 1997, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Associação de Juízes para a Democracia obtiveram mais de um milhão de assinaturas para que um projeto fosse apresentado ao Congresso Nacional.

A ideia era “fechar o cerco” contra os candidatos que negociavam votos ou até enganavam eleitores para vencer as eleições que disputavam. A legislação eleitoral não punia a disseminada “compra de votos” e, com dificuldade, reprimia o abuso de poder. Surgiu, então, o art. 41-A da Lei das Eleições, punindo com a perda do registro (ou do diploma) e multa de até R$ 53,2 mil, os candidatos que comprarem votos, e cassação e também a aplicação de multa, até R$ 106,4 mil, para aqueles que usassem a “máquina pública” nas campanhas.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral – erros judiciários e excessos de julgamento à parte –, 667 prefeitos, vices e vereadores foram cassados pela Justiça Eleitoral, até maio de 2009, com base na lei de iniciativa popular 9.840/99. Eles perderam seus mandatos em função da aplicação desses dois novos dispositivos da Lei Eleitoral. Apenas em 2008, segundo relatório do movimento, foram 238 prefeitos cassados. Entre 2007 e 2008, centenas de Vereadores foram cassados pela Justiça Eleitoral por haverem trocado de partido.

A regra da infidelidade partidária também cassou o Governador do Distrito Federal. Entre 2008 e 2009, três Governadores de Estado foram cassados e afastados pelo TSE de seus cargos. Com o advento da discutível Lei da “Ficha Limpa”, em 2010, dezenas de candidatos a vários cargos eletivos tiveram seus registros indeferidos. Outros concorreram, venceram mas “não levaram”. É dizer: foram votados mas não serão diplomados nem empossados.

Nesta década que finda, Lula exerceu dois mandatos presidenciais (2002-2010), Fernando Collor foi eleito Senador por Alagoas (2006) e Itamar Franco por Minas Gerais (2010). Houve uma redução das cadeiras nas Câmaras Municipais (2004). O país votou no referendo das armas e Dilma Roussef foi eleita a primeira Presidente do Brasil. Tiririca é o novel fenômeno eleitoral, após Enéas.

América –

Numa eleição discutível e até hoje revestida de suspeita, George W. Bush se reelegeu Presidente dos Estados Unidos em 2001. Perdeu nas urnas mas venceu no Colégio Eleitoral. Em janeiro de 2006, a médica Michelle Bachelet se elegeu presidente do Chile, a primeira do seu país. Entre 2000 e 2010, a Argentina teve sete Presidentes da República. Apenas Fernando de la Rúa, Eduardo Duhalde, Néstor e Cristina Kirchner foram eleitos pelo voto direito. Hugo Chavez preside a Venezuela a mais de uma década. Sua primeira eleição fora em 1999. No pleito do dia 4 de novembro de 2008, Barack Obama foi eleito o 44º Presidente dos Estados Unidos, o primeiro negro, vencendo seu adversário, John McCain, por uma diferença de 52% a 47% no total de votos.

Mundo –

Angela Merkel, uma ex-alemã oriental, é a Chanceler da Alemanha desde a eleição de 2005. Em 2009, após se reeleger, foi considerada pela revista Forbes como a mulher mais poderosa do mundo. Na Itália, sob acusações de corrupção e ligações com a Màfia, Silvio Berlusconi exerce o cargo de Primeiro Ministro pela segunda vez nesta década. Antes de se tornar presidente da França, eleito em 2007, Nicolas Sarkozy foi líder partidário e chefiou meia dezena de Ministérios. As eleições e a cidadania na China não avançaram nesta década. Qualquer cidadão pode perder o direito de votar caso seja acusado – basta ser investigado – de “ameaçar a segurança nacional”.

Antônio Augusto Mayer dos Santos é advogado especialista em direito eleitoral, professor e autor do livro “Reforma Política – inércia e controvérsias” (Editora Age); e escreve no Blog do Mílton Jung.

De fim do mundo

 

Por Maria Lucia Solla

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Ouça De Fim do Mundo na voz e sonorizado pela autora

O mundo que conhecemos vai chegando ao fim. Fácil de ver e de sentir em cada célula dos nossos corpos: físico, emocional, mental e espiritual. Escolhemos abandonar nossas forças, demos poder demais à sofisticada louça e às nossas mentiras loucas. Abrimos mão da luta com a mesma facilidade com que amassamos papel de salgadinho e atiramos pela janela. Criamos problemas onde só deveria existir amor, ferimos e somos feridos com facilidade e banalidade assustadoras. Fazemos de lixo rios, mares, estômagos, rins, fígados. Permitimos que nos violentem dentro e fora de casa, todo dia, dia a dia, pouco a pouco e nos deixamos subjugar e violentar, para facilitar o trabalho sujo.

Nossa civilização se acha especial. Nos consideramos melhores do que tudo o que sempre existiu, porque sofremos de escrachada megalomania galopante. Mas não tem sido sempre assim? O mundo que gregos e romanos conheciam também um dia chegou ao fim. Os homens das cavernas têm sido substituídos, paulatinamente, por homens que acreditam ter submetido o ferro, o bronze, os mares, os céus, ao seu prazer.

O mundo que nós conhecemos, não o conhecemos mais; entra dia, sai mês, escorrem-se os anos. Cada um no seu canto, vamos perdendo o encanto.

Vemos ratos-bandidos viajando de avião, escoltados ou não, acostumados a coordenarem incêndios, assassinatos, sequestros, peculatos, brancos e mulatos; e pelo menos agora, parte deles é retirada de suas celas-gabinetes, custeadas pelo teu e o meu dindim, a custo do teu e do meu mundo e do mundo do meu e do teu filho; do teu e do meu neto, e de todos os que estão na fila, ainda por vir, decerto.

Tem gente achando que faz pacto com Deus e que crê possível o monopólio dele; cada um proprietário do seu deus. Sob medida para os teus bolsos e os meus.

atenção fanático de plantão
deus não está só na tua
e nem só na minha mão
ele é cada célula do meu corpo e do teu
seja você beato ou ateu
muçulmano ou judeu

acorda irmão
abre o teu coração
com gestos precisos
nem que sejam precisos martelo e formão

Ouvi bem? não teria sido efeito dos remédios do hospital onde parte do dia eu passei? No rádio, boa companhia para o trajeto congestionado, dirigindo na volta para casa, ouvi um homem dizer a expressão que me animou: “polícia pacificadora”. Efeito do Berotec, morri e não percebi. Sua voz era suave, mansa; agradecia mais do que acusava.

não parecia mentira
por favor de mim a esperança não tira
tiras homens das armas se unem
valha-me deus que meus ouvidos continuem
a ouvir a paz fardada e a guerra enfraquecida
a ouvir cada mãe de seu filho envaidecida

valha-me deus que eu não esteja delirando
que eu veja pai e filho se abraçando
filho e mãe se respeitando
amantes se beijando e amor muito
muito amor jurando

valha-me deus que eu esteja certa
que apesar do coração que hoje aperta
apesar de vermos de perto todo dia a morte
venhamos a ter cada dia melhor sorte

valha-me deus que eu continue a cada dia
a fé no amor descrevendo
e da dor pouco a pouco esquecendo

que escorra pelo esgoto o mal
que escoe pelo ralo cada copo de boa-noite-cinderela
que príncipe e cinderela se respeitem
ela a ele ele a ela

então bom dia cinderela
que o sonho
do jeito que você sonhava
acabou.


Maria Lucia Solla é teraopeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

De 11 de setembro

 




Por Maria Lucia Solla

Hoje é 11 de setembro.

Nunca mais, 11 de setembro, será um dia como outro qualquer; para ninguém; no mundo. Há quem veja de um ângulo, há quem veja de outro, mas de ângulo nenhum cabe o sorriso; a leveza. É um dia que chega bonito, claro, ensolarado, porque assim é a vida; se renova. Mas, de início, a memória investe o dia de uma atmosfera grave, cinza, triste; de pesada energia de dor, de incompreensão, de tudo que serve para inquietar sem trazer resposta, deixando em nós mais incompreensão, mais inquietação e, consequentemente, dor.

A noite do dia 10 nem tinha terminado, a meia-noite do relógio estava longe de chegar, mas ele, o 11, já se insinuava. E chegava arqueado, abarrotado de lembrança que não se quer lembrar. Vinha carregado de historia interrompida, de cama vazia, de coração partido.

Há nove anos, quando me mudei para o apartamento onde moro, vi, no meu primeiro dia aqui, o último de tantos; ao vivo, a morte deles.

Mas nem tudo está perdido. Ao contrário! é daí que nasce a oportunidade de mudar de canal e transformar a gravidade em responsabilidade, de pintar o cinza do que restou, com cores vibrantes, de fazer, da tristeza, aliada que alavanca determinação. Excelente oportunidade para, na carona da inquietação, partir para a reflexão e buscar respostas no coração, e na certeza de que eu sou tua; e você, meu irmão. Oportunidade de nos interessarmos pela beleza e pelo mistério de nossos irmãos muçulmanos, judeus, africanos, americanos, chineses, japoneses, orientais e ocidentais, nortistas e sulistas. Detalhes.

Oportunidade para peneirarmos os nossos sentimentos e nos liberarmos da intransigência com costumes diferentes, da impaciência com o ritmo do outro. Todos nós: maria, sara, yasser, irina, mary, annette, yasmin, cheng, naomi, aysha, manuel, jose.

Que tal um pouco de silêncio, hoje, em respeito à tragédia daqueles que a causaram e daqueles que foram vítimas físicas dela. Na verdade, somos todos vítimas do preconceito que alimentamos, dia a dia, palavra a palavra, pensamento a pensamento.

Pobres de nós que, cega e preguiçosamente, permitimos que outros homens nos levem pela mão, ao encontro de Deus. Que cremos nos seus poderes, que seguimos cegamente suas receitas, mesmo que para isso tenhamos que abrir mão da paz, da alegria, do bem-estar; mesmo que tenhamos que abrir mão da própria vida.
Esses homens, esses líderes, são vampiros de almas; se alimentam de você e de mim.

Sobram líderes, abundam regras e dogmas, de leste a oeste, de norte a sul; e falta Deus.

Pai, que ao respirar nos dá a vida, tenha piedade de nós.

Maria Lucia Solla é terapeura, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung