De Harvard à USP, uma lição

 

Por Carlos Magno Gibrail

Os principais meios de comunicação do país noticiam os rankings das melhores universidades do mundo, onde chama à atenção a distante posição da nossa melhor universidade.

Embora 8ª Economia do mundo, o Brasil aparece na lista norte americana da “Times Higher Education”, cujos critérios principais consideram as verbas para pesquisa e inovação, com a 232ª posição da USP e a 248ª da Unicamp.

No ranking da empresa inglesa “QS World University Rankings” que leva em conta a opinião da academia e o mercado, a USP aparece como a 253ª e a Unicamp como a 292ª, enquanto que na lista do “Instituto de Educação Superior de Xangai”, cujo principal indicador é a produção científica, a USP está entre o 100º e o 150º lugar, e a Unicamp entre o 200º e o 300º.

Harvard é o destaque, e só não aparece em primeiro na avaliação inglesa, onde ocupa o segundo lugar.

Mesmo levando em conta possíveis desvios de critérios, corporativismos, nacionalismos ou demais juízos de valor, há uma similaridade nestes rankings que endossa as avaliações.

Qual a razão da distância entre a economia e a educação nacional?

Sob o aspecto numérico é considerável a diferença de idade de Harvard (1636) e da USP (1934), são 298 anos. Também é significativo o 3,1% investido em educação superior nos Estados Unidos sobre um PIB de 14 trilhões de dólares contra menos de 1% num PIB de 2 trilhões de dólares no Brasil .

Não bastasse isso, temos ainda as considerações de ordem sócio-econômica e cultural, como bem lembra o Prof. Nelson Barrizzelli (FEA USP), atribuindo à elite brasileira uma propensão extrativista não construtivista. Sempre foi mais fácil extrair do que construir quer do solo, da natureza ou dos seres humanos.

De outro lado a excelência do produto universitário passa também pela qualidade da matéria prima, que são os alunos, e longe está daquela condição aprovada por Peter Drucker quando atendeu ao pedido de Harvard para lecionar seu primeiro curso de mestrado. Aceitou somente após receber a lista com a qualificação dos alunos e verificar que poderia aprender com eles.

Mas, como que para demonstrar a excelência, ainda que não no topo, mas com disposição de chegar lá, a USP reagiu e ontem, extensa matéria na Folha apresenta mudanças que priorizarão a qualidade e atualidade do ensino objetivando melhoria de qualidade e atualidade dos cursos.

A restrição à expansão no primeiro momento será inevitável, pois como bem colocou o jornalista Hélio Schwartsman:

“Gostemos ou não, incorporar mais estudantes significa aceitar alunos com pior desempenho, o que resulta em queda de qualidade. O problema é menos a USP e mais a educação básica, incapaz de preparar para o mercado global universitário”.

É a freada que certamente preparará a acelerada futura.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve no Blog do Mílton Jung

24 comentários sobre “De Harvard à USP, uma lição

  1. Ricardo, ainda assim é a primeira Universidade brasileira global. De outro lado a produção de pesquisas também contribuem no sentido de beneficiar a todos.
    O estimulante é verificar a disposição em melhoria,.Esperamos e desejamos que ela chegue brevemente.

  2. Carlos
    Vale lembrar que, a USP poderia estar posicionada em um patamar superior também se o governo do estado de são paulo valorisasse mais os seus mestres e catedráticos, pagando-os salários mais justos.
    Se fizermos uma comparação os dias de hoje com outros tempos verá a enorme disparidade.
    Abraços
    Armando italo

  3. Com o crescimento de milionários no Brasil, a USP poderia fazer campanha para que trocassem doações para campanhas políticas, por doação em projetos científicos. Principalmente incentivar ex-alunos a fazê-lo.

    Carlos, vc tem informação se a USP tem algum programa de captação de recursos para pesquisa, de pessoas físicas e empresas privadas?

  4. Armando Italo, uma das variáveis que compõem um bom processo de qualidade e pesquisa de ensino é a remuneração do quadro doscente.
    Algumas unidades, como por exemplo a área de Administração e Economia, possui alternativas como a FIA de prestação de serviços . Neste caso há possibilidade de ganhos como no mundo empresarial.

  5. Beto, seria o ideal, mas como vemos estamos longe do ideal. Veja o caso do ficha limpa, quando o STF deixa empatado uma questão de clamor popular.
    Como sabemos, nos Estados Unidos, grande exemplo neste caso do ensino, há um hábito bastante saudável dos ex-alunos bem sucedidos ajudarem nas escolas que passaram.

  6. Carlos e comentaristas

    A base frágil do ensino público foi apontada como um dos fatores que prejudicam a qualidade das faculdades brasileiras, em debate realizado pela CBN e BBC Brasil, do qual participei como mediados. Este debate vai ao ar neste sábado, às 13h30, na CBN, e contou com a presença de três educadores renomados.

    E nada disso tem a ver com a progressão continuada, bode expiatório da educação brasileira. Mas a falta de um projeto pedagógico capaz de motivar professores e alunos, tornado-os cúmplices de um mesmo ideal.

    Triste é ver que os candidatos, seja no Estado seja no País, em condições para vencer as eleições têm preferido o debate raso sobre o tema e não nos oferecem esperança de mudança neste cenário.

  7. Milton, chego a conclusão que estes politicos são vitimas deste processo desqualificado de educação.
    Exemplo vivo de que não foram bem ensinados e educados.
    Resta saber se ao menos há um mínimo de percepção da parte deles para perceber, como alguns pais que nunca estudaram mas fazem de tudo para que os filhos estudem.
    Educação neles.É melhor e não faz mal.

    Muito bom o anuncio do debate que irá ao ar amanhã às 13,30 na CBN.

  8. Carlos, calma lá! Hahahaha!

    Minha pergunta foi por discordar do Comentário 1 (Ricardo). Não pertenço à camada de possíveis grandes doares. Nem em jantar para angariar fundos de políticos, eu vou. Hahah!. Seria muito interessante um departamento especializado em captação de recursos junto a sociedade civil e ex-alunos, para pesquisas. Temos profissionais de gabarito neste sentido formados pela própria USP que, poderiam realizar belos projetos neste quesito.

  9. Beto, temos inclusive alguns politicos no poder que deveriam fazer muito pela própria USP.Afinal de contas ela não depende do poder federal, é do âmbito estadual.
    De qualquer forma o dado mais profundo é que aplicamos em educação menos de 1% do PIB, enquanto os Estados Unidos investem 3,1% . Além disso o PIB deles é de 14 trilhões e o nosso de 2 trilhões de dólares.

  10. Voltando aos mestre e catedráticos da USP, muitos debandaram para as faculdades particulares, face aos salarios que recebem nas UNIs que surgiram.
    Sem intenções de desmerecê-las obviamente.
    Outros grandes Mestres, desistiram de reinvidicar melhores condições salariais e de ensino, aposentaram, outros literalmente desistiram do magisterio.
    Em toda esfera educacional.
    Os valores éticos, morais, educacionais, governamentais como foi dito acima pelo Carlos e até familiares, infelizmente são outros em comparação com tempos que não voltam mais.
    82

  11. Armando Italo,comentário 13
    Ainda assim a maioria das Universidades particulares também pagam pouco ao professor. Salvo excessões como o IBMEC, e a FGV.
    O mais estranho é o caso das escolas de primeiro grau, pois as mensalidades giram em torno de mil a mil e quinhentos reais para os alunos e os professores ganham menos que as faculdades que cobram mensalidades menores.
    De outro lado estando assistindo uma mudança estrutural nos salários do setor público, onde 25% da classe A está trabalhando nele e 11% da classe B, idem, devido aos atrativos financeiros e respectiva segurança, inferiores ao setor privado da economia.

  12. Armando Italo, a ultima frase do comentário 14 é a seguinte :

    De outro lado estamos assistindo uma mudança estrutural nso salários do setor público, onde 25% da classe A brasileira está trabalhando nele , e 11% da classe B, idem, devido aos atrativos financeiros e respectiva segurança , superiores ao setor privado da economia.

    Ontem o Jornal da TV Globo mostrou uma multidão de brasileiros numa gigantesca feira de ofertas de cargos públicos.

  13. O ranking das faculdades brasileiras, iniciado no governo FHC e continuado no de Lula, parece que tem surtido efeito.
    Segundo matéria de hoje na FOLHA , realizada pelo jornalista Fabio Takahashi :

    “O percentual de universitários que estudam em escolas reprovadas pelo Ministério da Educação caiu entre 2008 e 2009.
    A taxa de alunos em instituições mal avaliadas passou de 15,6% (ou 735 mil) para 14,5% (680 mil).
    Para o governo, os dados indicam que os alunos passaram a se balizar por indicadores de qualidade, ampliados em 2008, ao escolher o curso -tanto calouros como os que já estão no ensino superior, via transferências.
    Na outra ponta do ranking, houve aumento de matrículas nas escolas bem avaliadas. Para o ministério, a melhora foi “robusta”

  14. Milton e Carlos,

    Ouvi o debate -o qual achei muito bacana- e, concordo com a observação do mediador que disse algo como: “estamos sem rumo” .

    Uma pena que tão importante discussão, como muitas, não chegue e não tenha busca de interesse pela maioria da população. Acredito que se os eleitores fossem mais interessados e firmes, teríamos maior poder de pressão, e as cotas e os cuidados destinados à educação seriam melhores.

  15. Beto, comentário 18
    Também ouvi o debate e já esperava a qualidade apresentada , tanto dos participantes quanto do moderador. Pena que não foi disponibilizado para escuta posterior.
    Acho apenas que precisamos prosseguir debatendo.
    Um dos pontos é na questão dos técnicos.

    E se a cultura brasileira estiver mais pela medicina e ciências biológicas?
    E se estiver mais pelas ciências humanas?
    Não seria melhor respeitar e incentivar os talentos natos?
    E as artes?
    E a criação ? O design?

    Por que não estender a experiência da excelência do ITA?

    Outro entrave é o corporativismo dos professores, muito bem levantado.

    De qualquer forma , excelente debate.

  16. “Não seria melhor respeitar e incentivar os talentos natos?
    E as artes?
    E a criação ? O design?”

    Putz! Matou a pau!
    Não se discute a formação deste tipo de profissional em escolas publicas. Além da garra, geralmente pagam caro para viver de seus talentos.

  17. Carlos Magno,

    Nos dois últimos governos inventaram índices, condições de oferta, Sinaes, Conaes, IGCs, CPCs, CCs AIEs (Avaliação Institucional Externa), produziram especiosos e detalhistas, senão ineficazes, instrumentos de avaliações, além de Enade, Enem, provinhas e provões, decretos-pontes, reformas universitárias, dilúvios de portarias ministeriais, micro (ou nano) regulatórias, enfim, uma parafernália de mudanças.

    Tudo muito bonito, mas efetivamente inócuo

    É um processo avassalador de modificações. Os governos brasileiros, federal e estaduais, têm alergia à ideia de órgãos autônomos, sejam agências reguladoras, sejam universidades, sejam conselhos educacionais. As universidades brasileiras não gozam de autonomia verdadeira. Acho que os políticos brasileiros pensam que autonomia seja equivalente à soberania. Neste sentido, é de certa forma irônica observar que foi certa autonomia do Banco Central que deu ao Brasil a estabilidade da qual hoje se beneficia o país.

    Não se discute o ensino superior no Brasil, discute-se o acesso ao ensino superior, por isso, não existe uma política universitária, uma política educacional do ensino superior. Minha decepção nesse período é que não tenhamos discutido os objetivos do ensino superior no Brasil. Hoje, o Brasil é a 8ª, 9ª economia do mundo.

    Se pegarmos a lista de melhores universidades mundiais, não encontramos nenhuma universidade brasileira entre as 100 primeiras. Vemos alguma lá na 180ª posição, que são as paulistas, a USP, a Unicamp, seguidas pela UFRJ, UFMG. O Brasil nunca definiu se deseja ter uma grande universidade de qualificação mundial. A Coreia do Sul está lutando bravamente para constituir universidades de qualificação mundial.

    A China tem um plano de fazer 100 universidades de qualificação mundial até 2021. A Alemanha tem um programa de 2,5 bilhões de euros para a qualificação. O presidente francês deu autonomia para as principais universidades e exigiu que elas se qualifiquem. Portugal e Austrália também têm feito movimentos nessa direção. A Inglaterra tem pelo menos três universidades de classe mundial e os EUA tem um caminhão delas. E o Brasil, quer o que com seu ensino superior?

    Abraços,

    Nelson Valente

  18. Permitam-me entrar neste espaço e sinalizar que o assunto do Minhocão do Morumbi abordado anteriormente neste blog está em pauta devido a assinatura de contratos com comanhias construtoras.
    Há uma abaixo assinado nos comentários do artigo em pauta.
    Quem se interessar pode acessar novamente a matéria e dar seu apoio aos moradores e ao metrô , repudiando o projeto do monotrilho como está planejado.

  19. Nelson Valente, comentário 21
    Acredito que há demagogia e corporativismo.
    A sua indagação embasada certamente na prática acadêmica reflete uma incômoda realidade.
    No debate que ouvimos sábado na CBN, coordenado pelo Milton Jung ficou registrado que uma das barreiras para a melhoria vinha da parte do corpo doscente com medo de perder posições.
    De outro lado há o medo politico do elitismo, absolutamente necessário quando se fala em elevar a qualidade.
    Não há como em primeira instância aumentar qualidade e quantidade.
    Outro aspecto essencial é respeitar a cultura nacional, ao invés de copiar modelos alienigenas.

  20. Boa Tarde Milton e os colegas do Blogue,

    Sabe quando esse governo vai valorizar os professores! nunca. Ja são 16 anos de sofrimento, sem aumento de salario, sem segurança nas escolas. Nós que estamos dando aula, é simplismente por amor a profissão. Vou citar duas situações: o meu salario juntamente com as gratificações após 23 anos de magisteria com uma carga horaria de 24 aulas, é de 1.350,00 e o meu vale refeição que foi apelidade de vale coxinha, desde de 2002, é de 4,00 reais. Isso quando recebo. Por que as vezes, fico de 2 a tres meses sem receber.
    E o que me deixa mais idiguinado é que a pessoa que ganhou, fez as mesmas promessas na campanha anterior e as repetiram agora nessa campanha. Infelizmente, teve pessoas que acreditou nele. Fazer o que.

    Abr,

    JS.

Deixe um comentário