Crime e aborto eleitorais

 

Por Carlos Magno Gibrail

A criminalização do aborto em 1966 custou ao ditador Nicolae Ceausescu da Romênia, 23 anos depois, uma revolta encabeçada pela juventude, que em boa parte não teria nascido se o mesmo não tivesse sido proibido. Ceausescu foi o único líder comunista do colapso soviético que teve morte violenta. As eliminações do aborto e do controle da natalidade contribuiram para o aumento da população, e as crianças nascidas a partir daí tiveram menos educação e mais pobreza.

A descriminalização do aborto em 1973 nos Estados Unidos gerou 20 anos depois e, até hoje, uma queda significativa no índice de criminalização do país. “Quando o governo dá a uma mulher a oportunidade de escolha quanto ao aborto, ela em geral pondera corretamente se está ou não em condições de criar bem o bebê”.

Estes fatos estão contidos no “Best-Seller” do economista Steven Levitt e do jornalista Stephen Dubner: “Freakonomics” lançado em 2005. Embora embasados em argumentos correlacionados com dados estatísticos e lógica estimulante, as conclusões sempre poderão ser questionadas. O que não se contrapõem é o fato do tema ser mais bem esmiuçado à luz da técnica, da ciência e da crença individual.

O coletivo, o público e, principalmente, o oportunismo eleitoral sempre serão um empecilho para a coerência das conclusões em temas pessoais, envolvendo liberdade e cidadania.

É por isso que jornalistas e analistas políticos estão criticando Dilma e Serra pela falsidade e oportunidade de retroceder na maturação do processo eleitoral brasileiro.

Fernando de Barros e Silva lembrou o episódio de Boris Casoy inquirindo FHC: “Senador, o senhor acredita em Deus”?

Ruy Castro em “Conversões Tardias” declinou-se condenado às labaredas do inferno ao comparar a postura dos candidatos com a ficha religiosa que possui.

Claudio Abramo ressaltou a proeminência dos temas homossexuais e do aborto em detrimento dos grandes assuntos públicos, chamando atenção pela inversão: “O que é privado se discute em público e o que é público se discute em privado”.

Ricardo Melo em seu artigo “Império da mentira” louva as formalidades eleitorais, pois revela pessoas, porque ambos os candidatos foram ateus e eram a favor do aborto, mas hoje ou mentem ou converteram-se momentaneamente.

Benjamin Moser, norte americano, apela para copiarmos a Argentina e Portugal (que vergonha!), que atribuem igualdade para todos no casamento e opina que os atuais candidatos não estão demonstrando a coragem necessária para enfrentar preconceitos.

Entretanto esta contemporânea dramaturgia eleitoral que nos aflige talvez não fosse tão ruim se tivéssemos escolhas reais com diferenças perceptíveis.

Esperamos que a velha máxima do futebol que treino é treino e jogo é jogo possa prevalecer e qualquer dos candidatos que vencer possa crescer.

Mesmo porque, como escreveu José Eli Veiga, Professor FEA USP, seis por meia dúzia, Dilma e Serra nem isso tem de diferente. É seis por seis ou meia dúzia por meia dúzia.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feiras no Blog do Mílton Jung

16 comentários sobre “Crime e aborto eleitorais

  1. Quando opinião tem privilégio sobre a informação a democracia perde um de seus pilares. O resultado não poderia ser diferente.
    O que me preocupa Carlos, é que os sintomas deste desfecho já eram conhecidos e foram ignorados por quem tinha o conhecimento e as condições de impedi-lo. Ou isso muda ou daqui a quatro anos será ainda pior. E olha que pior do que está, fica sim.

  2. Sergio Mendes, neste caso podemos identificar vários problemas.
    Além do oportunismo eleitoral, da volta ao passado, vemos assuntos importantes e públicos deixados de lado.
    De outro lado temos promessas como as de 50 anos atrás, que tinhamos como coisas do passado.
    Precisamos como eleitores de mais respeito. Não somos ignorantes e nem crianças ingênuas.

  3. Ola Carlos

    Realmente politicos imaginam que todos os eleitores não passam de verdairos trouxas, que acreditam em todas as promessas, como sempre vem em época de eleições e por ai vai.
    O tema aborto vem sendo discutido como plataforma politica e mais nada.
    As igrejas, crenças, seitas, religiões, dogmas, etc por outro lado se intrometem na vida de todos, pelo menos tentam, porque na minha vida não conseguem tal proeza.
    Uma garota com os seus quinze, desesseis anos, “di menor” nomora um garoto e como de costume nos dias atuais “chegam aos finalmentes” e assim a jovenzinha “inocente” acaba ficando grávida.
    Ai sim concordo que o aborto não deve ser realizado, pois uma moça ao exemplo acima que já menstruopu, nos dias de hoje com os meios informativos que dispoe hoje em dia sabia muito bem o que estava fazendo e os seus riscos.
    De ficar grávida.
    Como dizem os espanhóis:
    “Quem los tem, los criam”.
    Por outro lado, uma jovem que é estruprada criminosamente e fica grávida, esta sim deve ter o direito de escolha, se quer ou não abortar.
    Pois o filha será por muitas indesejado.
    Parece fácil não é verdade.
    Mas não é tão fácil assim, pois politicos, igrejas fazem de tudo para complicar a vida de tudo e de todos.
    Assim vao ganhando tempo, fazendo as mais esdruxulas promessas eleitoreiras, entra governo, sai governo e tudo continua na mesma.
    Nada se faz, nada se conclui, nada é cumprido.
    Só que manés são politicos enganadores, que pensam que todos acreditam em papai noel, coelhinho de páscoa, bicho papão, mula sem cabeça, cuca, saci pererê etc.
    Minha avó materna teve o seu primeiro filho aos quinze anos e era casada, emancipada.
    Ficou casada com meu avô a vida inteira.
    Assim muitas avós tembém fizeram.
    Politicos precisam urgente de ficar desenterrando mumias e coisas do fundo do baú numa tentativa frustrada de querer enganar e fazer de trouxas os mais esclarecidos culturalmente.
    Não estou ffalando esclarecidos aquele que tem dinheiro somente.
    Pois dinheiro não é sinonimo de sabedoria, de cultura, de esclarecimento.
    Por estas razões é que governos independente de que partido for, não tem o menor interesse em que seja permitida determinadas informaç~´oes, esclarecimentos, que a cultura possa chegar em determinados pontos do ppais.
    Quanto mais ignorantes, alienados, alheios aos fatos reais melhor para os politicos, coroneis, latifundiários.
    Assim é no pais e sempre será.
    Tomara que um dia isso possa mudar, isto é se um dia aparecer alguem realmente interessado pelos assuntos do povo.
    Não creio que isso possa acontecer na trerra brasilis.
    Aqui é a galinha dos ovos de ouro.
    As tetas são enormes.
    Então vamos tapando o sol da peneira com o tema aborto que da mais voto, mais status, mais fama.

  4. Gostaria de compartilhar com vocês o pensamento islâmico:

    Como regra geral, o aborto não é permitido.

    Há consenso, na jurisprudência (fiqh) islâmica, de que, a partir do momento em que começam as manifestações dos sinais de vida pelo feto, o aborto é proibido.

    Com relação ao período que antecede as manifestações dos primeiros sinais de vida, não há consenso. Alguns juristas advogam que, não havendo vida, não há crime. Outros, pelo contrário, sustentam que eliminar a possibilidade de uma nova vida é crime, e portanto o aborto seria proibido já a partir do momento em que se constata que houve concepção.

    Também não há consenso quanto ao que seriam as primeiras manifestações dos sinais de vida. A este respeito muitas vezes é citado um hadith do Profeta Muhammad (saws), relatado por Abu ‘Abd-ur-Rahman, Abdul-lah Ibn Mas’ud (40 hadith Nawawiyah), transcrito a seguir:

    “certamente que a criação de cada um de vós ocorre no ventre de vossa mãe: durante quarenta dias na forma de um broto, depois como um coágulo por um período igual, depois como um pedaço de carne por período igual, então é enviado um anjo que lhe sopra o espírito e lhe estabelece quatro assuntos: a duração de sua vida, seu sustento, suas obras e se será feliz ou desgraçado,…”

    No passado, muitos juristas islâmicos não consideravam crime o aborto antes dos primeiros 120 dias da concepção, e sim como uma ação que não era nem lícita nem ilícita, mas que deveria ser evitada. Após os 120 dias, passaria a ser considerado assassinato, pois a partir deste momento o feto já seria um ser humano completo, física e espiritualmente. Porém este posicionamento nunca foi consensual, renomados juristas sustentavam que não há neste, e em nenhum outro hadith, qualquer orientação que implique que o feto antes dos 120 dias seja descartável.

    Com o avanço tecnológico, mais se conhece a vida intra-uterina, o que tem levado à possibilidade de detecção dos primeiros sinais de vida a momentos cada vez mais próximos da concepção.

    O aborto somente é aceitável, em qualquer caso, se a continuidade da gravidez implicar na morte da mãe.

    Enfim, nós muçulmanos podemos tomar a decisão sobre abortar ou não abortar, e segundo as regras durante os primeiros 40 dias de gestação, mas esta é uma decisão em conjunta entre o casal.

  5. Carlos,

    Nesta eleição o aborto foi escancarado!

    Candidatos, coligações partidárias, marketeiros, imprensa; abortaram sem dó, o eleitor que se preparou para votar bem. Foi abortado o debate democrático em busca da melhor administração, do melhor caminho, da higiene política.

  6. O Tema aborto ganhou destaque com os presidenciaveis Dilma e Serra por um motivo muito simples: a proposta de Governo dos dois é fraca e então é preciso subterfúgios para ganhar tempo nos debates e enganar o povo na Propaganda Eleitoral. Caso ganhe Dilma ou Serra, nenhum deles pode mexer uma virgula em relação ao aborto mesmo sendo eleito o Presidente do Brasil. Então é chover no molhado. Até agora nem Dilma e nem Serra me convenceram a votar neles. Por isso que o voto não deveria ser obrigatório. Quem sabe eles se empenhariam mais e mostrar uma plataforma de Governo que me deixaria satifeito e saisse de casa para votar. O que vemos: um acusando o outro, discutindo temas que eles não poderão fazer nada se eleitos. É uma pena.

  7. Carlos Magno:
    Desculpe discordar da sua argumentação que ” como eleitores merecemos mais respeito… não somos ignorantes nem crianças”. A campanha eleitoral em geral, não é feita para pessoas como nós que lemos jornais e pagamos impostos. É por isso que ela precisa falar de aborto e religião para quem, realmente, vai eleger o novo presidente.
    Você citou o professor Fernando Henrique Cardoso que perdeu a eleição por se dizer ateu e respeitar o credo dos outros: que saudades de alguém equilibrado na presidência!
    Recentemente FHC disse: ” o Brasil não é um país conservador. É um país atrasado”.
    Abraços.

  8. Armando Italo,comentário 3
    Verdadeiramente não é assunto para eleições, muito menos como regressão .
    O Estado já tem inúmeros assuntos a serem debatidos em campanhas politicas, mesmo porque a discussão sobre intervenções na vida privada é algo a ser tratado minuciosamente e sob a luz de todos os aspectos envolvidos.
    O lado mai excuso entretanto é o oportunismo politico junto com a negação da verdade individual de cada um dos candidatos.

  9. Beto, comentário 5
    Tivemos posições surpreendentes, se é que ainda possamos nos surpreender.
    O Serra promentendo 600 reais de mínimo, reajuste para aposentados,etc Sendo que, como economista deveria apresentar as fontes para estes recursos.
    A Dilma prometendo superficialmente entre outras coisas a defesa do meio ambiente e tocando Belo Monte.

  10. “Quando o governo dá a uma mulher a oportunidade de escolha quanto ao aborto, ela em geral pondera corretamente se está ou não em condições de criar bem o bebê”.

    Esse texto acima é pura balela, visto que se dá a mulher o direito de exterminar uma vida e não se dá a responsabilidade de se assumir algo que ela plenamente poderia ter evitado, salvo alguns casos.

    Quando uma mulher tem a oportunidade de se relacionar sexualmente e estando devidamente instruida, informada com relação a métodos contraceptivos, ela em geral pondera corretamente se está ou não em condições de ter um filho.
    Antes de falarmos sobre aborto não seria mais correto falarmos sobre veiculações de mídia realçando o valor à vida, ressaltando métodos contraceptivos ?

    Quem tem medo da igreja ????

  11. Marcelo Alves Moreira,comentário 7
    Quem começou a falar de aborto foi a campanha de Serra e a Veja .
    Dilma embarcou na mesma posição de Serra, criminalizando o aborto e agarrando-se na fé .
    Ambos usaram e abusaram de Cristo e Deus.
    FHC ficava distante destes temas intimos.
    O PSDB de hoje ao se aproximar das religiões se distanciou de FHC. Tática de Marketing .
    Apenas constato .
    Defendo o público e o quanto o Governo se preocupar com o geral e liberar o individual apoiarei sempre.
    Enquanto isso Aloisio se aproximou e usou FHC e se deu bem, melhor do que usar o DEM.

  12. Prezado Ezequiel, comentário 12.
    Você acha que a capacidade de um candidato administrar um país está na condição de ser ou não a favor do aborto?
    Para confiar a um piloto um avião ele precisa ser contra ou a favor do aborto?
    Quanto a frase ser balela ou não, a questão é que foi colocada depois de analisar dados estatisticos, que realmente podem ser contestados ou não.
    Vale a discussão, a não ser que por fé religiosa tenhamos posição irredutível.
    Particularmente penso que aborto não é tema para candidato a presidência em campanha eleitoral. É puro oportunismo.
    Entretanto como foi exaustivamente explorado, vale comentar.

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