De auto-ajuda

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De auto-ajuda” na voz e sonorizado pela autora

Olá,

esta semana me fizeram uma pergunta que me levou a faxina em mim.

‘É só ser natural, não é?’ foi a pergunta.

Quando voltei para casa, à noite, continuava estacionada no conceito. Olhei bem para mim procurando o meu natural e, depois de algum tempo de senho franzido, ri aliviada. Não encontrei; vai ver não tenho um. Vai ver se foi com a placenta, na minha chegada. Vai ver ninguém tem.

O fato é que a pergunta desencadeou em mim mais um processo de limpeza de emoções – esta fica, esta vai, o que é que esta ainda está fazendo aqui? – e dei de cara com um evento, guardado na caixa de emoções, que era hora de transferir para a de lembranças. É bom fazer isso de tempo em tempo. Dá uma limpada boa. Melhora o desempenho da gente.

Encontrei ali um fato de anos atrás, quando fui ‘informada’ de que gente do meu grupo, da minha tribo, tinha dito que não entendia como alguém tão desequilibrado quanto eu tinha escrito um livro ‘de auto-ajuda’. Fiquei sentida porque, na época, andava ainda mais mergulhada do que hoje na ilusão de que somos o que o outro pensa que somos, e que se não somos amados incondicionalmente por aqueles que a gente ama, somos infelizes.

Foquei, então, na limpeza das emoções guardadas e transferi esse evento para a caixa de lembranças. No processo, revendo a fala deles, percebi que, fora o fato de não terem dito aquilo para mim, eu só questionava o codinome ‘de auto-ajuda’, atrelado ao meu livro, porque sempre vivi, mesmo, muito mais em desequilíbrio do que no prumo. Questiono o subtítulo ‘de auto-ajuda’ aplicado a livros que falam de vida, emoção, questionamento, de por quês e porquês, e dos que dão dicas porque, afinal, de médico e louco cada um tem um pouco.

Por que não chamam de livros ‘de auto-ajuda’, os romances de Tolstoy? Por que as peças de Nelson Rodrigues não recebem o carimbo de teatro ‘de auto-ajuda’? Uma noite de música na Sala São Paulo, a disputa pelo campeonato, no estádio do time do teu coração? Por que o pãozinho com manteiga, na padaria, e um capuccino, tudo fresquinho, feito no capricho, não são chamados de café da manhã ‘de auto-ajuda’? O primeiro beijo de cada novo amor, o milésimo beijo do amor de sempre. Por que não é chamado de auto-ajuda, o fato dolorido, a situação embaraçosa?

Mas o que é auto-ajuda?

Veja, o prefixo auto- quer dizer que você pratica uma ação, e é ao mesmo tempo o alvo dela. Você é o sujeito e o objeto da ação. Você faz a coisa para você mesmo. Portanto, nenhum livro, nenhuma peça, nenhuma criação musical, nenhuma partida de futebol, nada, nadica de nada pode ser chamado de ‘de auto-ajuda’.

Se algo externo a você te provoca o desejo de se perceber, de usar a consciência pra ela não enferrujar, se te ajuda a chegar aonde quiser ou puder, como der, esse algo simplesmente para a ser uma ajuda, se você quiser se ajudar. Simples assim. Auto-ajuda é o esporte que a gente pratica quando não se boicota. E olha que já está de bom tamanho! Você não acha? Vale dar uma chegada no porão ou no sótão onde estão armazenadas emoções antigas, emboloradas, e meter a mão na massa.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapueta, professora de línguas estrangeiras e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

8 comentários sobre “De auto-ajuda

  1. “Auto-ajuda é o esporte que a gente pratica quando não se boicota.” Amei, Malu, amei, amei!!! Muito obrigada pelo teu texto! Vou compartilhar o link no Facebook, tá? Aliás, nesta semana compartilhei uma “campanha” que vi na página de uma ex-colega do Anchieta. Dizia “Não concedo a ninguém o direito de me entristecer”, e ponto! E viva o desequilíbrio, ele é o motor do nosso amadurecimento! Beijos, com saudades, da Dani.

  2. sérgio,

    é isso, mesmo.
    A gente sabota tudo, o dar e o receber.
    Quando a gente chega a sabotar, a descida não tem limite. Descida em relação às próprias expectativas, é claro.
    faxinemos, pois!

    beijo,
    ml

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