Confortar os aflitos e afligir os confortáveis

 

Por Carlos Magno Gibrail

… Ou confortar os menos favorecidos e desconfortar os mais abastados. É a função do jornalismo, idealizada por Finley P. Dunne, jornalista do século 19, lembrada pelo Estadão no sábado, ao comentar a queda dos tablóides ingleses.

Murdoch, o poderoso do 4º Poder, que até então vinha no mercado inglês dos tablóides deleitando as multidões com as intimidades e desgraças dos confortáveis, cometeu o erro definitivo ao desrespeitar o público que deveria servir. O NoW – News of the World – 2,8 milhões de exemplares, no afã de notícias, se intrometeu em investigação de britânicos comuns causando danos irreparáveis. Afligiu a quem deveria confortar e se viu aflitivo tendo sido obrigado ao fechamento e consequente demissões, que no domingo já tinham chegado até a Scotland Yard e envolvendo membros do governo.

Na segunda, o primeiro repórter do NoW a denunciar as escutas ilegais foi encontrado morto. Sean Hoare foi afastado por uso de bebidas e drogas, mas sua morte ainda é uma incógnita.

Ontem, enquanto Hoare era autopsiado, Murdoch conseguia uma audiência de final de Copa do Mundo ao depor no Parlamento com direito a sabão de barba no rosto.

Entre nós neste período assistimos ao Pão de Açúcar e ao BNDES entabulando negociações que geraram reação imediata da mídia, a tal ponto que em poucos dias a proposta era desfeita. As jornalistas do jornal da CBN Lucia Hipólito e Miriam Leitão em conversa com Milton Jung deram contribuições importantes.

Dilma Rousseff com a recente experiência do caso Palocci, nas primeiras manifestações dos jornalistas ao caso do ministério dos transportes, decidiu rápido e não houve pizza, houve demissões.

Diante destes fatos tão positivos quanto à ação do 4º Poder fica a pergunta: por que não se faz sempre assim?

Fernando de Barros e Silva, ontem na Folha, respondeu a pergunta de Juan Arias de “El País” que indagava: por que os brasileiros não reagem à corrupção?

Silva atribui ao bem estar geral e ao controle governamental de entidades que poderiam reivindicar acompanhamento e punições aos gestores públicos.

Tendo em vista o sucesso atual das ações do 4º Poder, sim, a imprensa, depois do executivo, do legislativo e do judiciário, tem poder equivalente e pode mudar o curso combatendo a corrupção. E ainda se der sorte consegue extraordinária audiência nas TVs, rádios, jornais, revistas, sites, blogs e, por que não, nos tablóides.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas no Blog do Mílton Jung.

6 comentários sobre “Confortar os aflitos e afligir os confortáveis

  1. Prezado CArlos

    Na politica existem mais mistrérios do que a nossa vã filosofia
    e tem coisas que nem Freud explica por exemplo, para não ser redundante tomo a liberdade de postar um artigo que foi ontem 19/07 no Jornal O Estado de São Paulo
    veja no link abaixo
    NEM FREUD EXPLICA
    http://www.blogdoaitalo.blogspot.com/
    Quantas contradições e como nossos politicos “são pergos com a mão na butija e pelos pés

    Abraços
    Armando italo

  2. Carlos, estou acompanhando muito atentamente os desenvolvimentos do escândalo da imprensa no Reino Unido. Tenho gravados os depoimentos, entrevistas, ouço e re-ouço e nada me tira da cabeça que o veneno para o 4° poder, é justamente ser “poder”. Antes disso, deveria ser plural. Deveria permitir-se à liberdade editorial em nome da liberdade de expressão.
    E de Poder que é, permite-se escolher o que será visto e o que vai olhar assim… de soslaio. Os erros a serem comentados à exaustão e os que no máximo dará conhecimento, quando dá.
    Nosso 4°poder à semelhança do 4° poder inglês, nunca foi plural, ele é só poder mesmo. O diferente entre lá e cá é que lá, existem regras bem singulares também.

  3. Sérgio, o 4o Poder está cercado das mesmas influências dos demais, porém quando há uma massa consistente de reação como no caso do Ministério dos Transportes, se consegue estancar e muitas vezes punir os infratores.
    Já no futebol, as mazelas da FIFA,CBF, etc nunca recebem pressão suficiente, pois há sempre organizações interessadas no “bom”relacionamento para tirar vantagens.
    Uma saída consistente poderá ser a internet com a possibilidade da participação em massa das pessoas.

  4. O estádio do Corinthians é um bom exemplo de como a imprensa pode ser afetada por outras forças.
    Ontem, após o Corinthians publicamente demonstrar que tem dinheiro ao oferecer fortuna a Teves, a prefeitura e o governo do Estado de São Paulo vão colocar em seu estádio 500 milhões de reais.
    Hoje a noticia não teve o repúdio que deveria e alguns jornais nem abriram espaço na primeira página.

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