De esperança

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça este texto na voz e sonorizado pela autora

sou avessa a dor
mas prefiro dor a dores
que a palavra no plural se pulveriza
clona a si mesma
se banaliza

saudades não me caem bem
mas se inevitável
que venha a saudade
pura sem gelo
já que você não vem

aos ciúmes sou avessa
mas tem hora que não dá para evitar
e acabo topando
com ele
o ciúme singular

Andamos íntimos demais da dor. Com quem falo quem encontro está doendo de mal do corpo ou de mal do amor. Uns mais, outros menos mais. Hóspedes do planeta dor, temos explorado os seus caminhos, andarilhos e curiosos que somos, mas neste ponto do tempo parece que chegamos ao seu ponto central, e é ali que estamos agora, eu doendo aqui, você doendo ali, e a dor do outro sempre parecendo mais branda que a nossa. Pimenta no olho do outro pode não arder na hora, mas acaba respingando na gente, e a pimenta de agora não é fraca não.

Quanto à minha coleção de perrengues, se é aprendizado, resgate ou acerto de contas, se é praga, trabalho-feito ou mau-olhado, depois de espernear, acabo agradecendo por falta de alternativa melhor. Fico “de bico”, que não sou santa e nem de ferro, mas já aprendi que se não impuser resistência, é como picada de injeção, dói menos.

anda duro de roer o osso
pela perda
do que nunca tivemos
pela posse
do que nunca foi nosso

hoje dói é certo
mas o lugar não é ruim não
para onde quer que você vá
se afasta do olho do furacão

amanhã traz nova chance
que é a sua função
a nossa é encarar a fraqueza
a preguiça e a solidão

ontem olhei pela janela do quarto
e vi estrelas no céu
quem sabe meu deus
nem tudo está perdido
no cardápio dos teus sonhos
e na receita dos meus

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

8 comentários sobre “De esperança

  1. Bom dia e bom domingo, mais um presente este texto, e tudo a ver com momentos que são de todos : dores, incertezas, mas no final, uma boa pitada de esperança. que sem ela não sobrevivemos ! Bjs Maryur

  2. As estrelas também me dão tranquilidade e o seu texto, saudades. Vou parar por aqui porque De Esperança merece apenas elogios, não precisa de anexos.
    Beijos!

  3. Mama,
    Vai de estrelas… vai de paisagem a ser desvendada pela janela… vai de caminho e de trilha, um passo de cada vez… mas vai sempre de “Malu”… sempre… que esse viés é só teu.

    E nós… teus leitores navegantes internéticos… neste blog depositamos nossas ações de graças… pelo amor à vida e dedicação às letras… gentilezas tuas que nos ajudam a viver as nossas vidas e letras, de forma mais rica e colorida!

    Um beijo e boa semana!

  4. Da esperança de que do mesmo lugar que brota a dor, brotou também com a mesma paixão, o Amor. E deu, compaixão.
    Malu, viste as estrelas? As luzes da cidade não te ofuscaram o brilho das estrelas?
    Então, certamente há esperança! Não estamos sozinhos. Há esperança Malu. Há compaixão e na mesma medida da dor, há Amor.
    Bjos. Boa semana Maluzinha.

  5. Sérgio,

    eu vi! e muitas!
    Fiquei lá feito boba, olhando.
    Sim, há.
    Não, não estamos sozinhos.

    vou gastar toda dor e deixar mais espaço para o amor
    amor
    roma
    ramo de amora
    vamos nos ver sem demora

    beijo,
    ml

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