De violência

 

Por Maria Lucia Solla

Vai lavar louça dona Maria!
Sai da frente idiota; mas é buuurro…
Amor eu não a-cre-di-to que você fez isso!!
Ah, já chegou é… aposto que esqueceu…
Larga isso laaarga!
Deixa que eu faaaço!

De violência
Ou seja:

Sua idiota, abre alas que eu vou passar, e vai lavar louça que é coisa de mulher! Sai da frente que a frente é minha! Você se superou, rapaz, conseguiu fazer pior do que eu imaginava você capaz. Para ganhar, é só apostar contra você. Eu não esperava nada diferente! Pelo amor de Deus, não toca nisso, seu zero à esquerda. Droga!

Abre-isso-fecha-aquilo não-faz-assim-faz-assado, a violência só faz crescer, e a gente só faz se esconder. Voz de deboche, olhar de esguelha, tudo juiz, esconde-esconde, ataque e conta-ataque o-tem-po-to-do. Predador e presa. Assim se vive em desaconchego na família, entre amigos, na escola, no trabalho, na rua, na fazenda e nos escombros da casinha de sapé.

Sem mapa nem manual, tateamos a vida, aprendendo a viver a cada dia vivido e à medida que vivemos, um por um dos nossos dias. E cada um só sabe do seu viver, da sua dor, da alegria do crescer, do cair, do sofrer, do rir e chorar. Digitais, DNA e a retina que podem servir de código de segurança porque ninguém no mundo tem igual, e ainda assim somos da mesma espécie, gostamos de ser bem tratados, de respeito e gentileza. Se sofremos com a dor, o outro também sofre, na medida dele é claro, mas somos basicamente iguais. Queremos respeito, aceitação, sucesso e aplauso. Fazemos cara de sem-jeito na hora do parabéns-a-você, mas adoramos o aplauso.

Injustiça, deselegância, desafeto, desamor, tortura maquiada, o atrair para trair, e a cada dia nos protegemos mais, atrás de muros que dão choque, de portões que se abrem com senha, de vidros escuros, de homens enfatiotados que num arremedo de faroeste sacam walk-talkies quando sentem medo. Focamos na desgraça grande, na violência evidente, para disfarçar a virulência que corrói o pensamento e o diálogo, destrói o discurso e o silêncio. Por onde anda o coração? Pobres de nós


Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

16 comentários sobre “De violência

  1. Fechou o tempo. Outro dia, ouvi que "a violência aumenta, porque a gente não se conhece, não se gosta e não se toca". Estou me tocando desta nossa condição, pobre condição, de predadores históricos. Eita que mundo cão. Mas há exceção. E é isto que salva cada manhã e harmoniza os dias lacaios. Bons dias com muita gentileza e parabéns, Maria Lucia.

  2. Minha cara escrivinhadeira

    Nos tornamos refens de nós mesmos, dos nossos filhos, dos nossos parentes, “dos amigos”, da sociedade, dos colegas de trabalho, dos governos, do sistema.
    Vivemos sob o lema “quem pode mais chora menos”
    Você por aquilo que possui e não pelo que é.
    Tem que ter o melhor carro, o melhor computador, o melhor apartamento ou casa, o melhor barco, o melhor celular, o melhor note book, o melhor tablet. as melhores roupas, tem que frequentar os melhores restaurantes e casas noturnas, tem que possuir inumeros dipRomas e titulos, o homem tem que ser o machão, a mulher tem que ser feminista ao extremo, saradões, malhadões, se passou dos cincoenta anos, “vai para a lixeira” sumariamente deletado, e por ai vai.
    Depois nos damos conta sobre o quanto vivemos confinados devido ao apego ilusório, fenomênico.
    Respeito, amor, carinho, cumplicidade, familia, educação, cordialidade, civilidade, amizade, honestidade, sinceridade, são ítens que aos poucos estão deixando de existir por causa de tudo isso que vc escreveu acima no seu artigo de hoje.
    e tome lorax, diazepam, fluoxetina, paroxetina, depakene, , hoyphinol, remedio para pressão, outros para colesterol para poder continuar vivendo com os pés “na chom”
    Sinal dos tempos?
    Por isso tudo acima é que procuro não me envolver com o cotidiano paulistano, com o ritmo e sistema de vida desta caotica cidade e seus habitantes, apesar de ser paulistano.
    Isso nao quer dizer que sou alienado, muito pelo contrario.
    Bjus

  3. Violência faz parte de nossa natureza. Uns com mais outros com menos, mas todos nós temos. Basta que alguém toque em alguma ferida, ou estejamos de TPM, para que ela aflore. Violência é a pior reação que temos diante de um não saber lidar com nosso ego. Descontamos no outro nossa incapacidade, nossa frustração, nossa não-aceitação de nós. E parece que isso alivia. mas, no fundo, acrescenta mais um nozinho no já tão emaranhado, mundo de traumas que carregamos dentro de nossa cabeça.

  4. Como saber tratar dos outros se não sabemos nem quem somos em nossas essências? Estamos pulverizados nas embalagens, nas sacolas, nos apelos da mídia, nas festas que prometem felicidade extrema. Quando tivemos um tempo a sós e reflexivo? Quando foi que nos cobramos algo naquela tentativa solitária de ser melhor e não cometer tantos erros? Até as palavras que usamos são dos outros. Não temos vocabulário com significado próprio para definir sentimentos. Estamos indo onde nos mandam ir. Não temos identidade quando a sós. A sós comemos o mundo, devoramos as prateleiras. Estamos cada um vivendo por 10. E o pior não vivemos por nós mesmos. Por que? Porque não nos construímos. Somos massa. Somos bloco.Mesmo sendo bloco não somos coletividade. Não temos esse contorno sem arestas que a vivência do cuidado, da solidariedade, do altruísmo e da compaixão concede aos indivíduos nascidos.

  5. Sempre digo que o ser humano está doente, doente de egoismo, de falta de afeto, resultando tudo em violência e muito desamor, por si mesmo e pelo outro. Grande texto, pura verdade. Bjs Maryur

  6. eloisa,

    é o culto à mente; ao intelecto!
    Sabemos nada não, você tem razão.
    Temos tudo isso que vc citou, dentro de nós, e ainda assim, vamos na onda, feito tudo o que vai com a onda, na inércia.

    É preciso atravessar a correnteza da onda.

    Obrigada pela reflexão.

    beijo,
    ml

  7. Mama,

    Daí… fui pro mato, calei e deixei a peia pra quem habita o cimento… Não foi o melhor, foi o possível… foi fuga mesmo!

    E correndo do pega-pra-capar, quem pensa direito é o predador… quem corre do bicho, pra não ser pego, nem comido… só bota as pernas em movimento e os sistemas de alerta…ON!

    Sai de mim violência…quero Paz!

  8. Filho meu,

    Ah! se a peia estivesse só onde há cimento…! Presta atenção. A soberba humana mora no homem, onde quer que ele esteja.

    É, às vezes a gente acha que não tem escolha, corre, corre, e descobre que corre dentro da teia que te aprisiona.

    Que a paz more no teu coração.
    beijo,
    mm

  9. Vou te contar sobre um episódio de transito cuja personagem é uma grande amiga e que está passando esta semana conosco.
    Certa segunda-feira, 7:30 descendo a Rebouças, indo para o trabalho ela não percebeu que trocou de faixa sem sinalizar….. no próximo semáforo quando parou (isso ela percebeu) o motorista vitima da fechada, muito bravo, exclamou:
    -Ô minha filha, vai cozinhar um feijão, lavar uma louça, fazer uma janta….
    Ao que ela, baixando os óculos e olhando meio de soslaio respondeu:
    -Na cozinha eu sou muito pior!!!!!
    Os dois quase tiveram uma síncope tanto se desmancharam em risos e de estranhos que eram, ficaram. Fico feliz. Coisas assim também acontecem.

  10. Sérgio, meu querido amigo,

    Quem sabe se a gente repetir, repetir e repetir palavras de esperança, ela dá lugar à realidade, mas eu duvido porque quem é que quer dar lugar ao outro se está no centro das atenções? e assim, ficamos com ela até que a gente morra, porque ela, dizem, será a última a ir embora. Pelo andar da carruagem, vamos ficar agarrados a ela até o fim.

    Tua amiga, sim, abriu a janela e deu o que tinha: bom-humor. Saiu do reino da intenção e partiu para a ação.

    Cheers pra ela!

    beijo,
    ml

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