Avalanche Tricolor: uma vitória com fé, dor e sofrimento

 

Grêmio 1×0 Ponte Preta
Brasileiro – Arena Grêmio

 

27413937041_a9dfd0317b_z

Justa comemoração, em foto de LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA

 

Foi um fim de semana intenso. De emoções variadas, sentimentos diversos e espiritualidade. Confinado por três dias em uma casa de retiro aqui próximo de São Paulo, tive acesso a pouca informação. Muito mais uma opção do que restrição tecnológica. Havia outros objetivos nesses dias todos de oração, silêncio e reflexão.

 

Das poucas notícias que surgiram, e não foram pelos meios tradicionais de comunicação, veio a apreensão em relação a saúde de um personagem que esteve nesta Avalanche algumas vezes. Refiro-me ao padre José Bertolini, conterrâneo, nascido em Bento Gonçalves, e, claro, gremista. Que por coincidência passou a rezar missa na capela perto de casa.

 

Bertolini esteve, por exemplo, na crônica do histórico 5×0 como você pode conferir neste link. Também foi visionário na estreia que tivemos na edição do ano passado no Campeonato Brasileiro quando assistimos ao empate com a Ponte Preta, mesmo adversário desse domingo.

 

No sábado, padre Bertolini sentiu uma dor no peito pouco antes de iniciar a missa das 18 horas. Apesar da recomendação para que fosse ao hospital, fez questão de cumprir compromisso assumido com os fiéis e presidiu a celebração até o fim. Muitos devem ter ficado incomodados com a insistência dele, pois, como se provou pouco depois, o padre teve um infarto no coração e está internado na UTI de um hospital paulistano.

 

Pelo que conheço dele, porém, não me surpreendo com a decisão. Padre Bertolini é daqueles que não se entrega fácil, insiste em contrariar as previsões médicas, é incapaz de admitir que uma dor, seja qual for, vá lhe tirar o direito de cumprir sua missão. Nem mesmo uma doença crônica impede que ele trabalhe com vitalidade e inteligência. Aliás, é esta mesma façanha dele que me dá esperança de que logo estará de volta à sacristia, firme e forte.

 

A outra notícia que havia sido reservada para mim, neste fim de semana, viria logo depois que deixei o retiro. Ainda na estrada, a caminho de casa, acessei a Grêmio Rádio Umbro pelo aplicativo no celular, imaginando que a partida havia se encerrado pelo adiantado da hora. Ledo engano. Naquele exato momento, aos 49 minutos do segundo tempo, Luan acertava em cheio, com o pé esquerdo (e com dores como revelou mais tarde), um chute fatal no gol adversário. Gol que foi resultado da perseverança e crença de que a vitória sempre é possível. 

 

Soube depois que havíamos desperdiçado muitos ataques, enfrentado um time retrancado que teve um jogador expulso ainda no primeiro tempo, perdido Lincoln com um cartão vermelho no segundo e levado uma bola no poste já nos acréscimos. Ou seja, penamos e sofremos até a vitória que nos levou de volta à liderança do Campeonato e diante de um daqueles times que colocamos na categoria de “touca”, assim como Coritiba, Goiás e algum outro de Santa Catarina.

 

Ao tomar conhecimento de tudo o que nos aconteceu nesse jogo, só tenho a agradecer mais uma vez aos que me proporcionaram os três dias de retiro, silêncio e reflexão. Além de todos os benefícios que esses momentos trouxeram à alma, ao espírito e à mente, também evitaram que eu sofresse um ataque diante da televisão. Pois não creio que minha fé e meu coração sejam tão resistentes quanto o meu querido e gremista Padre Bertolini que, certamente, vai vencer mais esta batalha.

Avalanche Tricolor: disposto a sofrer até o fim!

 

Grêmio 1×1 San Lorenzo
Libertadores – Arena Grêmio

 

25632614066_39cd50b5dd_z

 

O ataque não funciona. Então, temos Fred. 

 

A marcação falha. Fred, de novo. E Geromel, como sempre.

 

E Marcelo Grohe faz mais uma incrível defesa.

 

O passe perde a precisão. Que a sorte nos ajude, se precisar!

 

Quando as coisas não dão certo, segure-se quem puder. E como pudermos.

 

Se o empate não era o melhor resultado, que assim seja na Libertadores!

 

Ou alguém aí imaginou que a vida seria fácil?

 

Vamos recuperar estes pontos fora de casa, por que não!?

 

Pra almejarmos o TRI, vai ter de ser assim: lutado, suado, às vezes (e que seja somente às vezes) sofrível.

 

Tem horas em que nada parece que vai dar certo … 

 

É para isso que temos Fred, temos Geromel, temos Marcelo.

 

E temos um baita coração tricolor, disposto a sofrer até o fim.

 

Até o TRI!

De desencontro

 

Por Maria Lucia Solla

 

Desencontro

 

cada inspiração
cada batimento
do meu coração
traz você
complemento

 

chega quieto
atiça
ouriça
um quê de discreto

 

meu coração ciumento
meu corpo sedento
teu avesso
meu complemento

 

no enlace imaginário
eu ponto
você contra-dança
na semelhança
no desencontro
nem te conto

 

você surge
eu me escondo da despedida
e então me exponho
desmedidamente comedida

 

na bolha de sabão
no raio X do coração
no carro que desembesta pela contramão
na fruta madura
no desejo de ternura
que possa fazer de mim
cada vez mais
mulher

 

Et voilà!

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

De vida

 

Por Maria Lucia Solla

 

IMG_7302

 

quero dizer mas não consigo
quero entender mas não reconheço
a fala desenfreada
que corcoveia do avesso
nos meus ouvidos
e no meu coração

 

a vida com suas cores
aos meus olhos de repente
perde o sentido em dores
e me vejo no escuro
exalado pela falta de direção

 

então me isolo
para não contaminar
corações ainda puros
se é que ainda os há

 

no caos do meu interior
procuro consolo
e encontro tristeza e solidão
busco meu próprio colo
e choro

 

no dia seguinte decido
recuperar a alegria
reviro tudo
ponho a vida de ponta cabeça
cavoco cada canto de mim
e me perco
e imploro

 

a Deus uma chance
de reencontrar o caminho
para de novo abraçar a vida
que insiste em escapar
num esconde-esconde
sem fim

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

Fora da Área: a Alemanha conquistou todo mundo

 

2405633_big-lnd

 

Havia uma camisa da Alemanha vestida ao meu lado. Era da Copa de 2010, preta com listras douradas sobre o ombro e o emblema da Deutscher Fußball-Bund no lado esquerdo do peito e embaixo de três estrelas. Foi naquele mundial que os alemães mostraram seu cartão de visita para a Copa no Brasil ao chegar em terceiro lugar com vitória por 3 a 2 contra o Uruguai, no último jogo. Antes tinham vencido a Inglaterra por 4 a 1, nas oitavas de final, e a Argentina por 4 a 0 (sim, os argentinos também já foram goleados), nas quartas, e somente não estiveram na final devido a derrota por 1 a 0 para a Espanha que, como todos sabemos, saiu-se campeã. Na época, escrevia o Blog Fora da Área para o portal Terra, que me levou à África do Sul, e nas muitas conversas com os colegas de trabalho tinha-se a nítida impressão de que a Alemanha chegaria ao Brasil para ser campeã. Tudo que assistimos no Mundial, que se encerrou nesse domingo, confirmou aquela previsão.

 

Verdade que por alguns anos esquecemos da superioridade deles no continente africano e imaginamos que o Brasil, por jogar em casa, faria páreo aos alemães. Como sabemos – e vamos lembrar eternamente – não fizemos. Verdade que se Higuain tivesse acertado o pé na rara bobagem feita pela defesa montada por Joaquim Löw, ou Messi, naquela escapada pela esquerda, ou Palácio, ao encobrir Neuer, a Argentina poderia ter comemorado o título. Verdade que muitas outras coisas poderiam acontecer nessa ou em qualquer outra das partidas do mundial porque sabemos que o futebol é fantástico em sua imprevisibilidade: a bola que vai para fora pode desviar em um pé descuidado e parar dentro do gol; ou o árbitro pode interpretar pênalti em lance fortuito do zagueiro; ou o goleiro sair em falso; ou, simplesmente, dar um apagão (substantivo que, recentemente, ganhou novo sentido no Brasil para explicar erros de planejamento e infraestrutura). Mas a suprema verdade desta Copa é que a Alemanha se preparou como poucos para evitar surpresas e mereceu como ninguém esse título.

 

O plano traçado na última década teve requintes de crueldade para os adversários. Em campo a Alemanha construiu uma seleção capaz de atemorizar qualquer um que se intrometesse no caminho do tetracampeonato, enquanto fora dele conquistava a simpatia de todos os torcedores (talvez por algumas noites não a dos argentinos, o que é compreensível). Melhor exemplo dessa estratégia foi o fenômeno que surgiu logo após o Brasil ter sido trucidado nas quartas de final. Nem mesmo o mais indignado torcedor brasileiro parecia capaz de odiar os alemães. A maioria os aplaudiu e outros tantos aderiram a causa. É o que explica, em parte, o Maracanã vibrar com as defesas de Neuer; a firmeza de Hummels e Boateng; a bola passando do pé de Lahm para o de Kramer, o de Höwedes, o de Özil e o de Klose, com mínima margem de erro; o jeito peladeiro de ser de Müller; a dedicação e talento de Schweinsteiger; e, claro, a arrancada de Schürrle que propiciou o lindo lance do gol da vitória marcado por Götze.

 

Sou obrigado a confessar, caro e raro leitor deste blog, que também fui vítima da tática germânica montada para conquistar o campo e o coração dos inimigos. Além daquela camisa da Alemanha de 2010 (a propósito, vestida por um dos meus filhos), que estava ao meu lado, fui flagrado em intensa comemoração logo após o gol do título. E não tenho vergonha em contar isso, porque sei que você entenderá meu sentimento diante de um futebol bem jogado e planejado. Ao final, a Alemanha conquistou todo o Mundo.

De nada

 

Por Maria Lucia Solla
De nada

 

Tem vezes que nem dá tempo de sentar para escrever, que uma cachoeira de ideias se atira

 

louc
a busca
ndo
olhar a
tento
ou
vido a
finado
cor
ação
a
berto

 

E quem é que não está em busca de olhar, ouvido e coração… cada um do seu jeito, na medida do momento, mas é o que buscamos. Sermos vistos, ouvidos e reconhecidos.

 

no
fundo
e na
superfície
é a oportunidade de nos reconhecermos
olhando no sentido inverso

 

Tem vezes que a inspiração preenche o vazio deixado pela expiração do que não dava mais para segurar

 

e
tem vezes que é assim
plenitude
de vazio
nada
a dizer.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De Mãe Natureza

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Mãe,
permite
que me sinta sempre acolhida no teu Reino.

 

Guia-me
para que possa te devolver o indizível bem que me faz, com o melhor reciprocar de que sou capaz.

 

Andando por ele sinto cada canto enfraquecido, preenchido por tua magia, por tua grandeza e pela música cantada por árvores e arbustos, a plenas folhas.

 

Orquestra meu coração para que vento, sol, chuva, trovão, furacão, expressem eles drama ou comédia, plantem em mim sempre o melhor sorriso.

 

Desperta
de mim a infância
sempre pronta para acordar e
embala
minha consciência no teu manto, para que se mantenha acordada e cante pelos caminhos de tuas artérias. Que assim seja!

 

Tua diversidade de cores e formas é cardápio inesgotável que
amortece
a dor, mesmo a do amor, que não
cura
ainda nenhum doutor. Na tua expressão ferida é cicatrizada e memória transformada em construção da história.

 

Mãe,
acolhe-me
sempre, com coelhos posando para foto, e bambi se chegando, curioso pra saber o que é que eu vim fazer. Também eu tenho me perguntado, mas pensando bem, eu vim mesmo só ficar
mais perto de você.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De condicional

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Ah se eu pudesse…

 

…me consertaria todinha, voltaria a fita e desfaria os males que causei, mesmo aqueles dos quais nem conta me dei. De mim isso aliviaria o fardo, mesmo que fosse muito, muito difícil, eu o faria sorrindo e de bom grado.

 

Pediria desculpas a quem magoei, mas jamais engoliria as lágrimas que chorei. Choraria ainda mais, até que o engasgo desengasgasse, até que meu coração desafogasse.

 

Ah se eu pudesse…

 

…seria melhor mãe do que tenho sido, desataria os nós que atei, faria de novo, e faria bem, tudo aquilo em que falhei.

 

Beijaria mais, abraçaria abraços apaixonados, apertados e compridos, enxugaria as lágrimas dos sofridos e dos desesperançados, muito mais, mas muito mais do que até hoje enxuguei.

 

Ah se eu pudesse…

 

…confessaria meu amor sem pudor, acariciaria o corpo do homem amado com muito, mas muito amor, sem recato, e não mais aceitaria o vazio do abstrato.

 

Curaria as feridas dos corações dos meus filhos, uma a uma, sem medo nenhum de facilitar-lhes a vida, e recolheria cada pétala de cada dor por eles sentida.

 

Ah se eu pudesse…

 

…diria todos os dias, a todos os meus amigos, o quanto eu quero tê-los sempre comigo, lhes ofereceria abrigo, mesmo que seus queixumes não fizessem, para ninguém mais no mundo, nenhum sentido.

 

Continuaria a andar, feliz, pela estrada do sonho e por aquela da realidade, viajaria e cantaria, sem medo de desafinar. E mesmo não conhecendo os caminhos, para todo canto eu iria, pelo simples prazer de andar. Sem rumo, sem idade, para pôr minhas energias no prumo.

 

Ah se eu pudesse…

 

…não abandonaria jamais o banco da escola, daria aula de graça porque essa sempre foi minha cachaça.

 

Dançaria mais, muito, mas muito mais. Todo dia rodopiaria, de noite e de dia, num crescente espiral que me transportasse em transe e me colocasse frente a frente com o plano espiritual.

 

Ah se eu pudesse…

 

…adoçaria os corações amargos, desarmaria os armados, acalentaria os desesperados, animaria os desanimados, resgataria suas almas perdidas, cicatrizaria suas feridas, uma a uma, sem hesitação nenhuma.

 

Escreveria a história da minha vida e contaria ao mundo cada momento vivido, aqueles dos quais me orgulho e aqueles inverossímeis, dos quais mesmo eu duvido. Despiria meu êxtase, meus suspiros, meus gritos mais aflitos meus impulsos contidos, meus desejos proibidos. Um a um; não mascararia nenhum.

 

Ah se eu pudesse…

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De irmão sobrevivente, da tragédia em Boston e de mais uma fenda aberta no coração de todos nós

 

Por Maria Lucia Solla

 

Olá,

 

 

não nos esqueçamos, nem por um segundo, que esses meninos desequilibrados poderiam ser teus filhos, poderiam ser meus, poderiam ser você, eu, ele ou ela. O jovem, e o não tão jovem, tende a buscar um ídolo, um norte para a sua existência, sem se dar conta de que ídolos hipnotizam e se alimentam da energia de quem os segue, a fim de existirem. É a sua dependência, a sua fragilidade que nos atraem, não o contrário. Cria-se então uma relação parasitária que leva, com o teu consentimento, o dever e o direito de escolha a cada segundo da tua vida. Vamos manter isso em mente, também.

 

Eu, romântica que sou, depois de ter sofrido muito com mais esse atentado, imagino esse menino doente, que sobreviveu até agora apesar de si mesmo, de castigo numa saleta espartana, sem janelas, para que seja forçado a olhar para dentro de si. Na saleta, uma cama macia que sustente seu físico, para que possa dormir quando seu ego se sentir exausto de tanta enfermidade, e para que possa ser acolhido por anjos que farão o que deve ser feito na sua consciência desestruturada e na sua alma dilacerada.

 

Ele deverá, durante a manhã, todos os dias, assistir, vigiado para que não feche os olhos nem os ouvidos, ao vídeo que escarrou para o mundo o resultado da sua inconsciência e do seu fanatismo seja lá pelo que for.
Deverá ouvir, em alto e bom som, gritos de seres humanos encurralados por sua covardia e a de seu irmão, por seu fanatismo bolorento e por aquele de seu irmão.
Deverá assistir à queda do senhor que corria a maratona e que poderia ser seu avô.
Deverá ouvir o relato de vítimas que falam para câmaras e microfones, com os rostos manchados de sangue e a alma, para sempre, tatuada de dor e horror. De novo, e de novo, e de novo, até a manhã virar tarde.

 

Deverá, à tarde, todos os dias, trabalhar, carregando correntes que liguem suas pernas uma à outra, como auxiliar de enfermagem.
Deverá lavar feridas de gente que sofre, para que os enfermeiros apliquem a bandagem necessária à cura.
Deverá observar de bem perto os cuidados com a gente queimada, e sentir o cheiro nauseante de sua carne na luta pela vida.
Deverá banhar idosos que já não conseguem controlar o sistema fisiológico, assistir a terapias com crianças que perderam as pernas, e com elas a chance de um dia simplesmente andar. Isso que fazemos sem nos darmos conta, todo dia, toda hora, sem muitas vezes ou quase nunca sentirmos gratidão por isso.

 

Esse menino, à noite, deverá estudar. Muito. Lerá, ou melhor, ouvirá a leitura das ideias de grandes e pequenos homens que criaram e que destruíram, de altruístas, egoístas e populistas gananciosos. Ouvirá contos de fadas – que toda criança deve ouvir. Lerá a notícia no jornal do dia da tragédia engendrada por ele e por seu irmão, e assistirá novamente aos depoimentos do horror causado por ele e por seu irmão. De novo, e de novo, e de novo, até decorar os traços de pais cujos filhos sofrem, de mães que não morreram ali, mas que carregarão, dali para frente, corpos e mentes ocos.
Deverá ouvir também, é evidente, os depoimentos de seus familiares e de seus amigos.
Deverá se dar conta do egoísmo que mora no fanatismo.
Deverá se dar conta da burrice construída pacientemente pela certeza, que é a origem de todo mal.
Deverá se dar conta de que a vida resiste apesar dele, apesar de mim, apesar de nós, apesar da tua fraqueza e da minha, e da fraqueza maior, insisto, que é fortalecida pela altivez e arrogância de toda e qualquer certeza.

 

Meu Deus, o que será de nós!

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De violência

 

Por Maria Lucia Solla

Vai lavar louça dona Maria!
Sai da frente idiota; mas é buuurro…
Amor eu não a-cre-di-to que você fez isso!!
Ah, já chegou é… aposto que esqueceu…
Larga isso laaarga!
Deixa que eu faaaço!

De violência
Ou seja:

Sua idiota, abre alas que eu vou passar, e vai lavar louça que é coisa de mulher! Sai da frente que a frente é minha! Você se superou, rapaz, conseguiu fazer pior do que eu imaginava você capaz. Para ganhar, é só apostar contra você. Eu não esperava nada diferente! Pelo amor de Deus, não toca nisso, seu zero à esquerda. Droga!

Abre-isso-fecha-aquilo não-faz-assim-faz-assado, a violência só faz crescer, e a gente só faz se esconder. Voz de deboche, olhar de esguelha, tudo juiz, esconde-esconde, ataque e conta-ataque o-tem-po-to-do. Predador e presa. Assim se vive em desaconchego na família, entre amigos, na escola, no trabalho, na rua, na fazenda e nos escombros da casinha de sapé.

Sem mapa nem manual, tateamos a vida, aprendendo a viver a cada dia vivido e à medida que vivemos, um por um dos nossos dias. E cada um só sabe do seu viver, da sua dor, da alegria do crescer, do cair, do sofrer, do rir e chorar. Digitais, DNA e a retina que podem servir de código de segurança porque ninguém no mundo tem igual, e ainda assim somos da mesma espécie, gostamos de ser bem tratados, de respeito e gentileza. Se sofremos com a dor, o outro também sofre, na medida dele é claro, mas somos basicamente iguais. Queremos respeito, aceitação, sucesso e aplauso. Fazemos cara de sem-jeito na hora do parabéns-a-você, mas adoramos o aplauso.

Injustiça, deselegância, desafeto, desamor, tortura maquiada, o atrair para trair, e a cada dia nos protegemos mais, atrás de muros que dão choque, de portões que se abrem com senha, de vidros escuros, de homens enfatiotados que num arremedo de faroeste sacam walk-talkies quando sentem medo. Focamos na desgraça grande, na violência evidente, para disfarçar a virulência que corrói o pensamento e o diálogo, destrói o discurso e o silêncio. Por onde anda o coração? Pobres de nós


Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung